Uma história marcante

O dia de ontem caminhava para o seu fim com ares de normalidade. É verdade que a minha falta de expectativa era resultado da pouca reflexão a respeito do que a noite me reservaria. Mas ninguém pode descrever prévia e precisamente as emoções desencadeadas por nenhum encontro sequer.

E digo logo: ontem à noite encontrei-me com a pobreza.

Eram 22h. Saímos todos juntos da igreja para distribuir quase uma centena de marmitas e um grande número de garrafas d’água nas proximidades do antigo Elevado Castelo Branco.

Por seus desígnios, Deus agraciou-me com o conforto de um teto, cama, família e comida por longos 30 anos. Isso não quer dizer, porém, que não me falta nada. Oh, Senhor, só Tu sabes a escassez de minh’alma: miserável coração que tem se enchido transbordante de alegria e gratidão.

Mas eu nunca experimentei a pobreza da sarjeta, nascedouro das dores físicas mais intensas e torturantes. Porque a calçada é o lugar mais hostil que podemos encontrar nos grandes centros urbanos. Foi ali que ouvimos a respeito do frio que corta os ossos, da pele queimada pela violência do desconhecido, e a dor de ser ignorado, aquela mesma que alcança o espírito e faz diluir a esperança.

Encontrei-me hoje com o Onofre. Ele tinha uma pobreza diferente da minha, a miséria da sarjeta. Ele divide a pequena porção de que dispõe da calçada com baratas e ratos, mas da sua escassez ele tirou um sem número de sorrisos. Foram muitos. Não cheguei a contar.

A história dele é confusa. Disse-nos que deixou Mairiporã a fim de encontrar emprego, mas sua companheira circunstancial nos confidenciou que ele havia presenciado um crime, o que foi prontamente confirmado. Temendo as consequências legais, abandonou sua família e lançou-se numa jornada de 25 dias de caminhada até Belo Horizonte.

Aquele homem de 36 anos nos contou que saiu de casa aos 13 e que estava na cidade há 10 anos. Ora, a conta não fecha, mas quem se importa? 13 + 10 são 23. Onde foram parar os outros 13 anos? Provavelmente escoados pelos cantos sujos daquela sarjeta.

Ele quase foi pastor e nos assegurou que quando voltasse para sua casa gostaria de finalizar o serviço que iniciou lá atrás: ser pastor, vestir um bonito terno e ter um carrão. Pode ser esse o modelo de espiritualidade que ele ouviu nos lugares pelos quais passou. Uma evidente teologia da vitória. Mas como eu poderia falar a alguém como ele acerca da necessidade de carregar uma cruz? Qual cruz se para qualquer um de nós a que ele carrega já seria um fardo pesadíssimo?

Posso lhe garantir, entretanto, que ele não foi forçado a dizer o que não queria. Ao contrário, ele foi amado. Ganhou um prato de comida, água, bíblia e muita atenção. Ele ouviu a respeito da Esperança, ouviu que é importante para Jesus e participou conosco de uma roda de oração. De mãos dadas, unhas sujas e coração aberto.

Ele quer voltar para casa. Eu também quero voltar para casa.

Abaixei-me depois que todos saíram e lhe disse: esse prato de comida não resolve a sua fome, mas sinaliza que um dia não haverá mais fome, nem frio e nem dor na alma.

Eu não sei o que esse prato de comida representou para o Onofre, mas a vida dele foi um banquete para a minha pobre existência. Cheguei faminto e voltei alimentado.

Farto. Saciedade. O Deus da satisfação.

Qual é a sua riqueza que supre a pobreza do outro?

Gabriel Lazarotti

Sobre Gabriel Lazarotti

Redimido pelo amor de Deus. Discípulo de Jesus que segue por este Caminho. Um sincero apreciador da criação. Pretenso poeta todo o tempo, advogado e músico nas horas vagas.

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