Do total ao particular

Na época do antigo testamento, não existia o indivíduo. Ninguém tinha direito a “ser alguém”: você só tinha função a partir do momento em que fazia parte de uma família, de um clã, de uma tribo. Aquele que era considerado diferente era uma ameaça e por isso deveria ser excluído da sociedade ou mesmo morto. Tinha que ser exterminado: era uma anomalia que poderia colocar em risco toda a sociedade em que vivia.

Hoje vivemos quase em um outro extremo: a valorização extrema do indivíduo. Não que antes as pessoas não pensassem em seus próprios interesses (e que isso fique bem claro!), mas surge com o iluminismo a figura do indivíduo racional, dotado de capacidades de escolha, de vontades que podem diferir (e diferirão) de um para outro. É necessário então i) escolher o caminho que queremos para nossas vidas e ii) respeitar o ponto de vista do outro, que é um ser tão capaz quanto eu ou quanto qualquer um.

Enquanto alguns ainda caem no extremo “totalitário” de querer impor ao outro – como nos tempos antigos – aquilo que é “tradicional” ou a vontade da maioria, outros caem muitas vezes no risco do foco excessivo no indivíduo – que é nada mais que uma construção social, também – e no relativismo. O outro é o outro e devo respeitá-lo como tal, não posso impor as minhas visões a ele, mas da mesma forma não vou abrir mão do que eu penso. A linha é tênue, mas nem tanto.

A vida em sociedade é complicada. Há, porém, aqueles que querem se impor como donos da verdade, querendo voltar às épocas antigas ou simplesmente defender o orgulho ferido. Não admitem as diferenças de pensamento. E o pior: muitas vezes não querem nem sequer impor a palavra de Deus, mas a sua própria palavra. Tratam os outros – “os diferenciados” – como inferiores, como errados, como se alguns pudessem ser donos da verdade. Não é a tôa que tanta gente raiva/irritação com os cristãos: ao querer defender a nossa fé, muitos de nós caímos no totalitarismo e queremos provar que nós (e não Deus) estamos certos, sem lembrar que o fato de um crer e outro não não é por mérito pessoal…

Mesmo com aqueles com quem não concordava, Jesus nunca agiu com parcialidade, raiva ou exclusão, mas ao contrário, acolheu a todos com amor. Ele, que era (é) o Filho de Deus e tinha toda “razão” para agir com soberba e impor a sua vontade, não o fez. À luz do século XXI, que direito temos nós, “pseudo”-seguidores dele, de pregar a exclusão e a imposição da nossa vontade ao outro?

ana.oliveira

Sobre ana.oliveira

Ana Luíza, 21, é filha única e já fez intercâmbio. Atualmente estuda Economia na UFMG e é bolsista da Associação Democracia Ativa (dispondo de muita fofoca política pra contar ;]). Adora ler, viajar e aprender línguas. Participa de Alvo da Mocidade desde 2001, estando atualmente na Comunidade. É cristã e simpatiza com o marxismo.

2 comentários sobre “Do total ao particular

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