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Tesouros

Há 2 semanas atrás fui surpreendido com uma péssima surpresa: a de que meu carro não estava mais onde eu havia deixado. Conferi na memória pra saber se era apenas mais um de meus esquecimentos. Antes fosse, mas realmente constatei que o carro havia sido levado por ladrões.

Confesso que não fiquei muito incomodado, pois o carro estava segurado e isso me levou à tranquilidade, apesar dos transtornos. No dia seguinte, me deparei com o capítulo 2 do Evangelho de Mateus.

“E vendo eles  (os magos) a estrela alegraram-se com grande e intenso júbilo. Entrando na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se, o adoraram; e abrindo os seus tesouros, entregaram suas ofertas: ouro, incenso e mirra.” Mt 2.10-11

Interessante. Homens que se alegraram com a presença de Jesus, se prostraram e o adoraram. E no momento de entregar todos os seus tesouros, deram ofertas.

Quais são os seus tesouros? Quais são as coisas mais valiosas de sua vida? Quais são aquelas coisas que ao chegar na presença de Jesus, você diria: “Senhor, eu posso lhe dar tudo, menos isto”?

Quando você diz “…eu posso lhe entregar tudo, menos isto” é porque você sabe que “isto” é tudo pra você. E no fim, você não entregou nada, senão apenas algumas ofertas.

      Abraão deu seu filho. E seu filho (sua família e descendência) era tudo para ele.

     Zaqueu devolveu todo o dinheiro que havia roubado. E dinheiro era tudo para ele.

Homens que não estavam dando ofertas, mas entregando seus maiores tesouros.

Pergunto novamente, quais são os seus tesouros?

Lembre-se que o próprio Deus nos entregou o seu maior tesouro para que assim pudéssemos ter vida. Ele nos deu tudo. Ele nos deu vida.

Enquanto vivermos presos aos nossos tesouros, seremos como um peixe que vive dentro de um aquário que está boiando no mar. Teremos uma parte da vida, mas não desfrutaremos a liberdade da imensidão. Não aprenderemos nunca o que é ser livre.

Abraços.

Pais da Igreja – João Crisóstomo

Chegamos no grande orador da Igreja primitiva. Apelidado de “Boca de ouro” por causa de sua eloquência, João é um dos pais mais fecundos, chegaram até nós 17 tratados, mais de 700 homilias e 241 cartas. Nascido por volta de 349 em Antioquia da Síria (atual Turquia), desempenhou seu ministério presbiteral durante 11 anos (até 397) e foi nomeado bispo de Constantinopla. Durante esse período foi perseguido por situações políticas, pois era um homem que levava o cristianismo para o social. Tinha o grande sonho de substituir a pólis grega por uma sociedade construída pela consciência cristã. Talvez por isso foi grandemente perseguido e passou por dois exílios (o segundo levando à sua morte).

Começou sua vida cristã como eremita, mas uma doença que o impossibilitara de cuidar de si o trouxe de volta à sociedade. Segundo ele, Deus usa essa situação para lhe fazer enxergar sua verdadeira vocação: o pastoreado. Se tornou pastor de almas em tempo integral. Todos os seus anos como ermitão contribuiu para sua tarefa de pastor. A intimidade com Deus com o cheiro de seu rebanho o ligou a uma teologia prática. Como consequência, tinha uma grande preocupação de coerência entre o pensamento expresso pela Palavra e a vivência existencial. Segundo ele , o conhecimento deve traduzir-se em vida. Sempre se preocupou com o aspecto integral da pessoa, ensinando o cristianismo nas dimensões físicas, intelectual e espiritual.

Era também um franco defensor do sacerdócio universal de todos os cristãos. Ao fiel leigo ele dizia: “também a ti o batismo te faz rei, sacerdote e profeta.” Com isso ensina a todos a urgência da missão. Cada um é responsável pela salvação dos outros.

O que você aprende com João Crisóstomo?

Como você se avalia como “rei, sacerdote e profeta”?

O seu conhecimento se traduz em vida ou você é uma pessoa dupla?

 

Abraço e até a próxima

Novos tempos – um convite à fé

“o que ela [a vida] quer da gente é coragem”

Riobaldo em “Grande Sertão: Veredas” (de João Guimarães Rosa)

O ano de 2015 começou e com ele as reflexões a respeito da vida e suas dificuldades. Alguns questionamentos de quem você e eu somos nos vem à mente e nos aflige o coração. Algumas das dificuldades de 2014 que gostaríamos que estivessem lá ainda insistem em nos acompanhar. Várias decisões aguardam ansiosamente pela sua e pela minha força e vontade de agir. Com muitas e muitas delas não sabemos lidar ao certo até o momento. E, para piorar nossa angústia, algumas das situações já começaram a ocorrer (ou simplesmente continuaram a ocorrer) sem que pudéssemos escolher exatamente o que gostaríamos que fossem feitas delas.

Como lidar com tudo isto? Sentar e chorar? Será…?

Como bons cristãos voltamos nossa atenção agora para nosso manual de vida, a Bíblia. Nela tenho percebido ao longo dos anos o quanto Deus foi presente na vida das pessoas que se relacionaram com ele e o quanto pode estar presente também na minha e na sua. Um capítulo específico lista os “heróis da fé”, Hebreus 11. Abel, Enoque, Noé, Abraão, Sara, Isaque, Jacó, José, Moisés, Raabe, Gideão, Baraque, Sansão, Jefté, Davi, Samuel e os profetas, de maneira abrangente.

Dentre os exemplos listados gosto bastante das histórias de Jacó, José e de Davi. Jacó tem uma história de conflitos, dentre eles com sua família em casa, consigo mesmo e com Deus, com seu tio após ter ido morar em suas terras. José, o caçula dos onze filhos de Jacó conviveu de perto com a inveja de seus irmãos, quase foi morto por eles e foi então vendido como escravo aos egípcios. Chegou a conquistar a confiança do rei e a ocupar boa posição no palácio real. Sofreu ao não aceitar se deitar com a rainha, foi preso e passou boa parte de sua vida deixado de lado numa cela de prisão. Davi era considerado o pior entre os filhos de seu pai Jessé. Recebeu uma promessa de que seria rei em Israel. Viu de perto a possibilidade da promessa ser cumprida, mas foi obrigado a fugir da fúria de Saul, o então rei. Passou toda sorte de problemas mesmo tendo ciência de sua inteira inocência diante da perseguição que sofrera.

As histórias de Jacó, José e Davi são muito ricas e não teria como serem abordadas num simples post. Fica aqui o convite para que você as leia (Jacó e José em Gênesis, a partir do capítulo 25; e Davi nos primeiro e segundo livros de Samuel). Em todas elas é perceptível o quanto Deus se fez presente. Jacó viveu muito e foi feliz ao abençoar os filhos de José em seu leito de morte. José voltou a ocupar lugar de destaque entre os egípcios e foi considerado o segundo do reino, atrás apenas do próprio Faraó. Davi foi aclamado rei após a morte de Saul, destruiu seus inimigos e teve longo e duradouro reino em Israel. Enquanto viviam as situações que descrevi talvez eles não tivessem noção da ação de Deus, mas eles não deixaram de crer que Ele estivesse cuidando de tudo.

Hoje não sei ao certo o que você tem passado, talvez se sinta como um dos personagens bíblicos citados (ou não). Sei que estou distante de sofrer algo parecido com o que aconteceu a eles, mas vejo em minha vida muitas e muitas dificuldades na tarefa de seguir adiante. Assim como Deus fez na história de todos os heróis da fé, tenho plena convicção de que ele tem feito por você e por mim. Ao olhar para trás já tenho muitos motivos para agradecer a Ele pelo que já houve de bom, tenho certeza que você também. Aqui volto na pergunta que fiz no início: sentar e simplesmente chorar diante dos desafios que se apresentam? Creio que não foi isto que aconteceu nas histórias que comentei.

Meu convite para você hoje e principalmente para mim é que possamos estar de cabeça baixa para orar a Deus e reconhecer que ele tem muito amor por nós e quanto somos frágeis diante de tudo que se apresenta. Convido também a levantar a cabeça e tentar enxergar ao longe o quanto Deus ainda tem a fazer por nós dois. Convido principalmente para que tenhamos fé no seu amor, cuidado e atitudes para conosco.

Os personagens citados acima viram Deus mudar profundamente suas vidas e lhes proporcionar dias muito melhores do que aqueles de dificuldades. Mas a promessa de Deus a eles não era somente aquela, segundo o autor de Hebreus. A promessa de Deus para eles era Jesus. E por este motivo o autor do livro de Hebreus disse que eles nada seriam se não fosse por nós, que recebemos o perdão por meio de Jesus e podemos estar mais pertinho de Deus. Maior promessa hoje a nós é a vida eterna ao lado do Pai, quando toda lágrima será enxugada de nossos rostos e contemplaremos a Deus face a face.

Termino com o desafio: que possamos abrir nossas mentes e enxergar a caminhada das nossas vidas repleta de coragem, de ânimo e de fé nos dias melhores que ainda estão por vir nos novos tempos que agora se iniciam.

Dedico este post a um amigo que tem estado desanimado com os desafios da vida.

Forte abraço e até a próxima terça-feira.

Ele tem todo cuidado

Trabalhar todos os dias no mesmo local em que fiz o meu primeiro estudo bíblico traz muitas boas lembranças. Lá se vão 10 anos.

Voltava eu do acampamento de Furnas (Fazenda Salt0 – Alvo da Mocidade), tendo reconhecido o imenso amor de Cristo por mim. Não sabia qual seria o próximo capítulo daquela história que se iniciou na Fazenda. Não podia prever. Cada passo, cada aventura foram mesmo imprevisíveis.

Quem não se lembra da Casa Jovem?

Ali, entre aquelas paredes, muitos ouviram sobre Jesus. Todo o Coração Eucarístico e o Padre Eustáquio sabiam que Cristo era anunciado na Casa Jovem.

Quantas palestras, esquetes, festivais de sorvete, gincanas, reuniões de oração, reuniões de domingo, paredão, toco? Quantas sextas-jovens, quantos estudos  e quanto amor foi preciso para que eu entendesse o cuidado de Deus por mim?

A história, na verdade, não começou em Furnas. Lá foi o que chamamos de clímax, o ponto alto da narrativa chamada vida. Eu, ator da minha própria vida, fui apenas coadjuvante. Sinceramente, adaptei-me como camaleão às situações que o Protagonista me apresentava.

Ele não escolheu por mim, nem mesmo feriu eventual livre-arbítrio (digo isso para aqueles que levantam bandeira contra qualquer tipo de dirigismo). Exercitou, contudo, o máximo de seu amor cuidadoso.

Proveu a gestação, o alimento, a família, a saúde. Levou-me para Si, sem receio. Certo de que eu perceberia, enfim, o Seu sim e o seu abraço de Pai.

Até o dia de hoje, nas pequenas coisas, vejo que Deus me levanta, me protege. Faz-me evitar, inclusive, aqueles riscos calculados. Ele afasta o mal, ainda que escolhido.

Eu não estou sozinho. Sei que você, como ator da sua vida, pode perceber o espaço que vem sendo atribuído ao Protogonista. Se for menos do que se espera, não relute em cedê-lo mais. Quanto mais espaço, mais cuidado. Quanto mais cuidado, mais cuidado…

Até brevíssimo!

Resumo da lei, essência da vida

Jesus, quando perguntado, resume toda a lei em algumas poucas palavras: “Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças, e de todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo.” (Lucas 10:27). Jesus diz não ser verdadeiramente possível fazer a vontade de Deus sem conjugar as duas esferas: a devoção e a ação.

A religião em si não diz nada, é vazia. A pseudo-devoção sem ação é a fé sem obras, sem a preocupação com o próximo. Do cristão que parece ser sábio mas não faz, não muda. Vejamos o que diz Isaías 58: 3-8: “No dia do seu jejum vocês fazem o que é do agrado de vocês, e exploram os seus empregados. Seu jejum termina em discussão e rixa, e em brigas de socos brutais. Vocês não podem jejuar como fazem hoje e esperar que a sua voz seja ouvida no alto. Será esse o jejum que escolhi, que apenas um dia o homem se humilhe, incline a cabeça como o junco e se deite sobre pano de saco e cinzas? É isso que vocês chamam jejum, um dia aceitável ao Senhor? O jejum que desejo não é este: soltar as correntes da injustiça, desatar as cordas do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e romper todo jugo? Não é partilhar sua comida com o faminto, abrigar o pobre desamparado, vestir o nu que você encontrou, e não recusar ajuda ao próximo? Aí sim, a sua luz irromperá como a alvorada, e prontamente surgirá a sua cura; a sua retidão irá adiante de você, e a glória do Senhor estará na sua retaguarda.”

Já o cristão que escolhe viver só a segunda parte é aquele que quer fazer, fazer e fazer, mas perde o foco. Perde o objetivo. Perde o melhor da festa e vive como Marta (Lucas 10:38-42).

Não é possível fazer uma ou outra coisa verdadeiramente, se dissociadas. A verdadeira espiritualidade provoca uma mudança na nossa relação com Deus, que muda a nós mesmos e à nossa relação com os outros, nossa visão de sociedade e nossa vontade de agir. Se nos falta uma ou outra parte do mandamento, não vivemos verdadeiramente nenhuma delas.

Que Deus nos ajude a viver em conjunto ambas as partes do mandamento de Jesus. Que não tenhamos uma visão distorcida do Cristianismo, mas que o amor a Deus se traduza nas nossas ações. Que a nossa espiritualidade seja completa – e não hipócrita – e que Deus nos assinale os nossos próximos e como usar nossos dons e talentos em prol do Reino.

Como você pode colocar essas idéias em prática?

(Agradecimentos aos amigos da Comunidade Presbiteriana Chácara Primavera)