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Neuroses urbanas

Sexta-feira. Preciso encontrar.

Preciso desabafar sobre minha relação com meu celular. Sobre os grupos do Whatsapp. Sobre as piadinhas. Sobre os constante alertar. Sobre as pessoas sem filtro. Sobre ah! Você viu essa aqui? kkk!

Preciso reclamar um pouco do trabalho. Do chefe e do cliente. Dos colegas de trabalho. Do trânsito.

Ontem fiquei uma hora para andar 1km! Tá terrível não é? E os preços? E o Joaquim Barbosa? E a greve, e a Copa!

Preciso processar tudo. Bater tudo no liquidificador e engolir mesmo com alguns pedaços sólidos.

Preciso criticar alguém. Preciso lidar de alguma forma com esta vida. Descobrir o equilíbrio e celebrar pactos de conduta: vamos ser menos ligados, vamos isso, vamos aquilo, meu Deus essa semana não fui nenhuma vez na academia e ontem comi um mega sanduíche de bacon.

Hoje não estou bebendo.

(Será que roubaram meu carro?, flanelinha folgado!)

Rivotril

Pela segunda noite seguida não conseguia pregar o olho. Cansado de tentar dormir, levantou-se, ruminando. O que provocava aquilo? Como pudera chegar a este estágio? Será que alguma hora conseguiria dormir? Como seria o desempenho no trabalho se no dia anterior já esteve vegetando?

As perguntas somavam-se às que já o tirava o sono, de modo que a própria insônia começou a ser motivo para ela. Tomou um chá de camomila, viu o remédio para dormir encarando-o. Pensou nos benefícios, contrapôs os malefícios. Afinal de contas precisava trabalhar. Para trabalhar precisava dormir. Para dormir…

E dormiu.

Passou uma semana. Terminou a cartela. Twitou para desencanar. Afinal de contas agora já havia um tempo… e a falta do remédio preocupou-o também. Será que estava ficando viciado? Ora não tinha tempo para ficar doente. E muito menos tempo para não dormir. Coisas para fazer é que não faltavam. E usou a insônia para pelo menos produzir mais.

No dia seguinte o sono acumulado – pensou – se encarregaria de engatilhar a noite. Nada feito. E agora tinha certeza de que precisava de ajuda.

A Cabeça

Seis horas. Largou a caneta como se tivesse tomado um choque. Não agia assim no trabalho mas naquela sexta -feira em particular estava de saco cheio. E louco para descansar.

Saiu logo do escritório rindo consigo mesmo: “quem sair por último apaga a luz!”. Ligou o carro. Entrou no trânsito do rush de sexta.

Teve uma hora inteira até chegar em casa. Não importava, já estava fora do escritório. Na verdade, ainda não conseguia descansar de fato, mesmo ouvindo suas músicas do mp3. Via as placas na rua mas também via os números do contrato. Não importava, quando chegasse em casa descansaria. Ah, esse trânsito. “Não sei como vai ser na Copa”.

Rodou a chave. Sentiu a paz invadi-lo quando a escuridão e o silêncio da casa o tocaram. Finalmente. Agora poderia descansar. Permitiu-se uma cerveja. Sexta-feira. Sentou-se em frente à televisão. Sexta-feira. Começou a passar os canais. Mas em todos havia algo em comum. O contrato. Não importava. Acabara de chegar, logo esqueceria.

Às 22h desligou a TV. Não conseguiria sair mas não importava. Sexta-feira. Dormiria até tarde. Deitou-se. Os números. Revirou-se. O contrato. Revoltou-se, levantou-se.

O leite. O cliente. Deitou-se. A meta. Ficou olhando o teto. Não conseguia dormir.

Teve que ir até o escritório ainda naquela madrugada. A pasta viera. As chaves estavam com ele. O laptop, a carteira, tudo. Esquecera lá, porém, a cabeça.

Conforme

Estava em uma reunião esses dias e, como o clima de Brasília é bastante seco, estávamos todos querendo beber água. Eis que chega o senhor que serve água (=garçom). Um dos caras na reunião comenta: “Eba, a água chegou”. Aí eu pensei: “Não, moço. A água não chegou. Chegou o moço que serve a água.” E aí comecei a viajar nisso. Vc, caro leitor, deve estar pensando assim: “Ai, Ana, deixa de ser chata. Qual é o problema de falar isso?” Me explico.

Estamos em uma sociedade que se relaciona com as coisas e usa as pessoas. As coisas, as relações (pessoais, produtivas etc) estão tão fragmentadas que perdemos o sentido. A nossa relação com as pessoas ao redor é muito mais pelas coisas que elas fazem pra nós do que por elas mesmas. Um exemplo besta é a de você entrar numa lanchonete e pedir um pão-de-queijo. A relação é, na verdade, entre o dinheiro no seu bolso e o pão-de-queijo do que entre você e a pessoa que te atendeu. Se não tomarmos cuidado, essa inversão de foco e coisificação das pessoas pode invadir a esfera mais pessoal ainda, nos nossos relacionamentos com amigos e família – se é que já não ocorreu.

O sistema econômico em que vivemos estimula esse tipo de comportamento e nós o retroalimentamos com as nossas respostas a esses incentivos. E nós mesmos o criamos assim. E aí? Queremos tratar as pessoas como coisas e as coisas como pessoas? Será que nós realmente amamos as pessoas ao nosso redor? O que nos move a estar perto delas? 

Me lembro do versículo de Romanos 12:2, em que Paulo nos aconselha: “E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus.” Conformados não é só o “tomar forma”, imitar, propriamente dito, mas também, creio eu, quisesse ele se referir à atitude passiva de aceitar as coisas como são, o não mudar a nós mesmos e à realidade aí fora.

Essas coisas me fizeram pensar na minha própria vida. Ao ler Gálatas recentemente, um livro do novo testamento que fala sobre a lei para os judeus, me deparei com um versículo: em Gl 4:9 está escrito “mas agora, conhecendo a Deus, ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir?” Poxa, a vida com Deus pode (e tem que ser!!!) tão completa e gratificante, mas às vezes nos prendemos a certos elementos da vida antiga, do mundo antigo, da visão antiga e sofremos demais. Lembro da ilustração de Jesus dos vinhos e odres em Mc 2:22, em que diz que não devemos misturar as coisas novas com as antigas: é incompatível, já passou! Deus quer nos propor uma nova natureza, uma não contaminada. Pura.

Creio que, de certa forma, devemos romper com o estilo de vida que o mundo nos propõe. Nos tornamos (falo muito por mim) imbuídos de um ritmo que não é “natural”, não é normal, não é saudável. Tudo é pra ontem, tempo é dinheiro. Até ao fazer as coisas pela igreja cristã, muitas vezes, fazemos dessa maneira. O mundo vai cada vez mais rápido, as revoluções tecnológicas cada vez mais frequentes. Pode parar pra reparar: vc vai ter a sensação que esse ano vai passar mais rápido que o anterior, e o anterior mais que o outro anterior e por aí vai.

Será que esse ritmo frenético é auto-sustentável e é o que queremos pra nossa vida? Queremos dançar conforme essa música? Será que esses vinhos e odres são compatíveis? Ou essa vida é um peso? Até que ponto a sociedade nos tem influenciado negativamente, para que invertamos as bolas e vivamos em um ritmo alucinado?