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Em defesa do Aniquilacionismo – 1

A decisão de escrever sobre um assunto tão complexo e polêmico foi difícil. Conversei com várias pessoas e li muita coisa sobre o assunto, mas confesso que depois de 40 dias de estudo ainda acho que as conversas foram poucas e as leituras insuficientes.  Contudo, me convenci de que a melhor maneira de dar forma para este texto seria começando a escrever.  Não sou teólogo, não sei ler em hebraico ou grego, e tudo que agora passo a escrever são baseados em leituras de teólogos e pastores conceituados do meio cristão, principalmente os acadêmicos e religiosos americanos, com poucas exceções. Outra parte do que escreverei virá da própria Bíblia, documento máximo para qualquer cristão. E onde a Bíblia não for clara, falarei da minha fé e no que eu acredito, sentimentos desenvolvidos na minha relação diária com Deus. Nestes momentos, tentarei ser explícito de que isto é algo que eu “creio” e não necessariamente algo “explicitado” nas escrituras. Para preservar um pouco o tamanho do texto, peço também permissão dos leitores para não transcrever todas as citações bíblicas que utilizarei. Apesar de não serem estritamente necessárias para o entendimento do conteúdo, seria interessante que o leitor consultasse sua Bíblia.

Meu planejamento inicial é que este “projeto” dure 4 posts, divididos no seguinte esquema: Introdução, Argumentos Favoráveis, Argumentos Contrários e Conclusão. Acredito que o tamanho dos posts deva ser ligeiramente mais longo que as médias. Tentarei ser sucinto, mas a própria complexidade do assunto me obriga a ser mais detalhista. Por fim, gostaria de dizer que todos os comentários, contrários e favoráveis, muito mais do que bem vindos, são essenciais para que este conteúdo seja rico em ideias. Gostaria muito de ouvir o que cada um pensa a respeito, tanto de leitores assíduos como de leitores que por aqui passam a primeira vez. O campo de comentários esta logo abaixo, então, por favor, me ajude a concluir este projeto participando da criação de um verdadeiro fórum para troca de ideias. E que tudo seja feito para Glória de Deus. Então vamos lá:

O que é Aniquilacionismo?

A ideia de inferno sempre me incomodou. Para muitos cristãos o inferno seria algo como aquele descrito por Dante Alighieri na “Divina Comédia”. A Igreja Católica se apossou da idéia do purgatório e chegou até a vender salvação,  na forma de indulgência, em certos períodos de sua história. Os gregos tinham suas várias histórias sobre o Reino de Hades.  O fato é que o destino do homem após sua morte é um tema controverso e antigo, muito antigo. Tão antigo como a discussão sobre o lar do diabo e das almas condenadas. Para onde vão?  De alguma forma aquela visão clássica de um satanás vermelho, com rabos e chifres, sentado no trono de um deserto árido de fogo, cheio de lava fumegante e derretida, repleto de inúmeras almas gritando e gemendo em dor e sofrimento eterno, não se associavam com o conceito que tenho sobre a bondade e misericórdia de um Deus que se fez homem para pagar por nossos pecados. Como poderia Deus permitir que algo assim existisse? Como poderia Deus obter uma vitória completa se, coexistindo com um novo Reino, onde viveremos todos na presença completa de Deus, haveria um local de tamanho sofrimento e agonia?

O Inferno de Dante, por Gustave Dore
O inferno visto por Dante, de Gustave Dore

John Stott disse o seguinte:Eu acho o conceito de tormento consciente eterno emocionalmente intolerável e não compreendo como as pessoas conseguem conviver com isso sem cauterizar seus sentimentos ou esfacelá-los com a tensão. Mas as nossas emoções são um guia instável, não confiável para nos conduzir à verdade e não devem ser exaltadas ao lugar de suprema autoridade em determiná-la. Então minha pergunta deve ser e é não o que me diz o meu coração, mas, o que diz a Palavra de Deus? “ (1)

Concordei muito com Stott! Como podemos suportar tal destino para nossos irmãos que não serão salvos? Pessoas que amamos, que estão ao nosso redor, e que sofrerão eternamente. Por outro lado, não basta achar que não faz sentido. Tem que existir base bíblica para tal. E acreditem: elas existem. Existe sim base bíblica para crer no aniquilacionismo. São estes argumentos favoravéis ( e até mesmo os desfavoráveis) que eu gostaria de apresentar e discutir com vocês.

Foi neste questionamento que Stott apresenta que entre alguns teólogos nasceu uma teoria chamada de “Aniquilacionismo”. Esta teoria tomou força aparentemente no ano de 1987, com a publicação de diversos artigos pelo canadense Clark Pinnock, pelo próprio John Stott, por William Fudge e por Philip Edgecumb Hughes. Desnecessário dizer que tais artigos causaram certo estremecimento na comunidade evangélica dos Estados Unidos e mexeu com diversas personalidades. Logo, um acirrado debate tomou conta das convenções e muita gente graúda se posicionou contra os argumentos apresentados.

A teoria do aniquilacionismo não é amplamente aceita pela comunidade evangélica, e é refutada por diversos outros importantes teólogos, infelizmente. Justamente por isto, meu receio em escrever sobre um assunto onde tanta gente grande já debateu. Mas precisamos prosseguir se quisermos chegar em algum lugar por aqui, portanto, falemos mais sobre o aniquilacionismo propriamente dito.

Segundo o teólogo e pastor Gregory A. Boyd, “Aniquilacionismo é a doutrina que afirma que tudo o que não puder ser redimido por Deus será exterminado.” Nós, os aniquilacionistas, acreditamos que as pessoas que não serão salvas serão exterminadas, deixando de existir conscientemente. Não existirá um inferno eterno, nem danação eterna, nem sofrimento eterno. Ou existiremos conscientemente no Reino de Deus, ou seremos aniquilados, extintos, exterminados.

Para falar de aniquilacionismo vamos falar, inexoravelmente, de fim dos tempos, imortalidade da alma, salvação, condenação e do inferno. Só existe um único ponto que evitarei discutir, e este ponto é sobre o “caráter de Deus”. Com esta decisão, pessoalmente estarei descartando vários argumentos favoráveis ao aniquilacionismo utilizados por teólogos que o defendem, mas por outro lado estarei em paz com minha consciência e com meu dever cristão. Se não me sinto totalmente apto a falar sequer sobre o aniquilacionismo, que dirá falar sobre o caráter de Deus. O caminho será longo, e digo logo que de cara que os argumentos favoráveis ao inferno clássico são bastante contundentes. Mas assim como eu, alguém aí fora pode encontrar sentido na aniquilação. E eu quero escrever para estas pessoas!

Você já parou para analisar sua crença? Você acredita no inferno? Qual sua opinião sobre o fim dos tempos?

Semana que vem a gente continua!

Um abraço!

 

Bibliografia
(1) Evangelical Essentials - John Stott