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Licença para matar

Foi chegando e abriu logo a carteira mostrando a insígnia. Vinha ali com uma missão dada sua grande responsabilidade. O documento atestava: tinha Licença Para Falar.

Começou de mansinho. Se colocando, colocando os outros. Expôs muito em muito pouco tempo. Chocou e percebia. Animava-se com a reação do ouvinte. “É, eu também fiquei surpreso, eu também achei um absurdo quando ele me contou”.

Mas não vinha ali para falar dos outros. Conteve-se, com ar sério.

E começou a falar sobre o que achava. Pois achava muita coisa. Até tinha tempo para ouvir. O suficiente para tomar fôlego e retrucar. Exaltava-se. Mas sempre de forma velada. “Fulano até me disse que eu estava coberto de razão” [sempre quando alguém fala “até” ou “tive a oportunidade de” é uma forma de camuflar autopromoção, tenho para mim]. Com isso, dizia: “como vê, a Licença é merecida”.

E aí foi no estômago. Enumerou. Expôs. Repreendeu. Admoestou. “Estou falando porque sou seu amigo”, “estou falando porque acho importante”, “eu, eu, eu”.

Concluiu de forma solene. Diligente, dava maior importância a sua sentença. Diante daquilo não esperava outra atitude senão o arrependimento. Ah, esperava também a gratidão.

 

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Se ridicularizo o grande sábio em questão, é porque fui e sou às vezes este ser de elevada visão. Felizmente, também deste Deus tem misericórdia. Tenham comigo também meus irmãos e perdoem estas minhas falhas.

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Para ouvir lendo: Gladys Knight – License to Kill (tema do filme de James Bond)

Por Mais Astúcia

Nesta semana celebrou-se o dia de St. Patrick (em Belo Horizonte, por sinal, a festa será hoje). Sobre este interessante personagem há várias lendas e curiosidades, uma delas é a crença de que ele expulsou as cobras da Irlanda. Estudiosos afirmam que desde a Era Glacial não houve mais deste animal na ilha e, por outro lado dizem que se trata de uma afirmação simbólica. Claro: a cobra é um animal “ruim”. Assim, o padroeiro da Irlanda teria expulsado o “mal” do país, isto é, as crenças pagãs pré-cristianismo.

Mas, voltando às cobras, foi a serpente que tentou Eva e a própria peçonha do animal já é um mal suficientemente significativo. É de se surpreender, portanto, que Jesus tenha dito que deveríamos parecer com elas em qualquer aspecto que fosse. E é justamente a serpente que ele usa como exemplo de astúcia a ser seguido.

Agora, de onde que ele tirou que as serpentes são astutas? Imagino que porque elas não saem se revelando logo de cara, elas esperam, observam de longe, não confiam logo de cara mas esperam o momento certo para dar o bote (mas quanto a dar o bote, tenho quase 100% de certeza de que não estava incluído no pacote de coisas que deveríamos fazer).

C.S. Lewis defende em Cristianismo Puro e Simples (que de simples só tem puro mesmo) que deveríamos ser como crianças por razões que excluíam o pensamento infantilizado.  “Um coração de criança e a mente de um adulto”. E ele diz ainda: a preguiça intelectual não é melhor do que qualquer outro tipo.

Então fica aqui um manifesto por mais astúcia.

Pois Jesus nos envia como ovelhas entre lobos.

Porque na Igreja há trigo e há joio.

Porque maldito é o homem que confia no homem (isso incluiria o que confia no próprio homem? Ou seja, em si?)

Pois os dias são maus.

Pois o inimigo anda em derredor, como um leão.

Pois com os anos vemos que os cristãos não passam de pecadores perdoados.

Então vamos todo mundo pensar bem sobre as nossas vidas, avaliar como estamos vivendo, buscar conselhos e estar prontos a ouvir.

Vamos tomar decisões embasadas em raciocínio mais do que nos nossos voláteis corações.

E, é claro, não arrendar o pé do básico: ler bem a Bíblia para conhecer os pensamentos revelados de Deus. E orar por sabedoria.

Sobre os vícios

Quando pensamos em vícios, pensamos em álcool, drogas etc. Pensamos em substâncias ou hábitos que provocam sensações que nos tornam dependentes. Que nos dominam, nos tornam irracionais, que nos fazem tomar decisões impensadas. Vício de algo, de alguém (como o ciúme), de uma atitude.

Existem certas sensações que não conheceríamos, não fossem certas substâncias ou hábitos. Mas quando uma pessoa conhece uma dessas sensações, já não consegue viver sem ela. Fica dependente. Melhor que não a tivesse conhecido. Ou que bom que a conheceu.

Creio que de alguns vícios Deus quer nos proteger. Porém creio que de outros não. Os “vícios bons”, bem-dosados, fazem bem. Criam hábitos saudáveis, como o exercício, a oração, a leitura. Já os vícios ruins nos trazem muitos males.

Mas fica certamente a reflexão e o recado para esse carnaval (ainda em tempo, pois é pra nossa vida), de termos cuidado com nossas ações e decisões. A escolha de simplesmente “experimentar”, que na sua cabeça possa ser coisa de uma vez só, pode desencadear efeitos viciantes que estão fora do nosso controle. Pro bem ou pro mal. Que tenhamos sabedoria nas nossas decisões.

O mito de Fausto – a humanidade e suas buscas

A humanidade já experimentou várias tentativas de chegar aos céus. Algumas delas bastante literais. É o exemplo da Torre de Babel. Outras intentavam alcançar alguns de seus predicados. Viver o céu sem estar lá fisicamente. São várias as qualidades que relacionamos ao firmamento.

Mencioná-lo é lembrar, por exemplo, da divindade e sua morada, de tudo o que é sacro, daquilo que nos inspira poesia, do belo, do amor. Não é outra a razão para essa busca, senão que a firme atmosfera nos desperta inquietação e curiosidade. Seria a infinitude alcançada por nossos olhos.

Não é, porém, de amor que nós vivemos. Os interesses pessoais são a motivação da nossa existência. “Como posso conhecer o triunfo, se não identificar uma maneira de dominação?”, indagaria o mais desavisado. Domina quem deixa de ser mais um na multidão, enfim, o destacado alvo de cobiça. Outra dúvida surge logo. Como posso obter destaque? A resposta é a mais óbvia desde Sócrates, ou melhor, desde que dominamos o fogo. O CONHECIMENTO traz o que todos nós almejamos.

A engrenagem do conhecimento

Logos é a razão, a sabedoria, o conhecimento. Aí está mais um dos predicados do céu. Ou estou mentindo quando atribuo o conhecimento e a sabedoria ao firmamento? Conhecer é próprio do inventor. Quem é que sabe mais do motor do carro senão aquele que o projetou? Aí nos encontramos de vez na busca por alcançar outra qualidade dos céus.

Ora, é tão bom dominar. E, assim, vamos dando cada vez mais de nossas vidas a fim de ganhar o saber. Saber matemática e filosofia. Saber história do Brasil, história do mundo e química. Saber biologia, física, línguas. Não sei se é fato por todos conhecido, mas o momento em que vivemos é conhecido como pós-industrial ou ERA DA INFORMAÇÃO E DO CONHECIMENTO.

Sinceramente, não se pode negar que a famosa tragédia de Fausto (poema de Goethe) é o fiel retrato de nossos tempos. Esse personagem, misto de lenda e história, vendeu-se à Mefistófeles para superar o conhecimento existente em sua época. Conseguiu neste acordo, inclusive, viver 24 anos sem envelhecer.  Entregou-se ao saber, em sinal claro às suas pretensões. Era chamado Dr. Fausto, o típico título do prepotente. Levou a vida desonrosamente e, mesmo apaixonado, terminou num lugar que não gostaria de estar.

Os degraus, a maçã é o prêmio. Espera-se não seja podre.

Este é quem buscamos. O conhecimento que nos enobrece, porque divindade, ou porque a ele servimos como se divino fosse. Anseio ainda maior da humanidade é que, mesmo ávidos por logos, não sejamos todos objetos de uma “apostinha”, como Fausto, entre Deus e Mefistófeles, para conhecerem nossa reação diante dos desafios. Porque melhor sorte que Fausto, somente teve, que sofreu uma provação e saiu sem casa, sem família e sem saúde. No fim, porém, teve o dobro do que antes possuía.

Não perca o texto de amanhã. Daremos sequência as ideias iniciadas hoje.

Abraço e até amanhã!