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A dicotomia da Lei e do Pecado

“No princípio criou Deus os céus e a terra.”  Gn 1:1

Logo ao criar o céu e a terra, Deus formulou dois princípio físicos e filosóficos que sempre estiveram presentes na ciência humana: a dualidade e a dicotomia. É fácil notar na nossa realidade tangível o conceito de dualismo. Basta pensar em noite e dia, bem e mal, céu e terra, paraíso e inferno, entre tantos outros exemplos. Até nossos próprios sentimentos parecem ser dicotômicos, como alegria e tristeza, amor e ódio, etc.

Em via de regra, dualismo é dividir um só elemento em duas partes irredutíveis entre si mas subordinadas uma à outra. No caso de Gênesis, o céu existe de forma separada da terra, mas só podemos conhecer o céu de forma inteligível quando o céu é contraposto pela terra, de modo que, sendo ambos irredutíveis, sua existência se baseia na não-existência do outro, semelhante ao pensamento de que tudo que não é o céu, é a terra. Este conceito pode ser igualmente ampliado para pensarmos em corpo e espírito, e, no caso deste texto, em lei e pecado. Vejamos o que Paulo disse:

“Que diremos pois? É a lei pecado? De modo nenhum. Contudo, eu não conheci o pecado senão pela lei; porque eu não conheceria a cobiça se a lei não dissesse: Não cobiçarás.” Rm 7:7

Notamos a dicotomia com facilidade. O que não é cumprimento da lei, é pecado. Da mesma forma, posto que cobiça é pecado, pois ela é o não-cumprimento da lei, tudo aquilo que for não-cobiça é bom aos olhos de Deus. Assim fornecemos limites semânticos ao pecado, e somos possibilitados de conhecer e significar a cobiça. Não houvesse lei, a dualidade cobiça / não-cobiça não seria posta. A cobiça sequer existiria, seria apenas um sentimento sem delimitação e único, impossível de ser sentido, visto ou pensado, uma vez que a percepção humana baseia-se na contraposição de elementos para significação de sentidos no modelo de aquilo que não é bom, é mau, e vice versa.

“Porque o pecado, tomando ocasião, pelo mandamento me enganou, e por ele me matou.” Rm 7:11

A lei definiu o pecado, e o pecado nos matou. Não houvesse a lei, não haveria o pecado, pois a lei deu contornos ao pecado, tornando conhecido o que Deus quer e o que Deus não quer que façamos. A lei possibilitou ao homem conhecer a vontade de Deus, e possibilitou criar no campo semântico dos homens infinitas possibilidades dicotômicas para analisar seu comportamento, seu coração e suas ações. Sem a lei o homem nem sequer saberia o que é pecado.

Notem, porém, que a morte e o pecado existem independentemente de nossa significação semântica para ele. A lei não criou o pecado, ela apenas o tornou conhecido e inteligível.

E de que forma o pecado me matou pela lei? Como ele me enganou? Posto a dicotomia lei e pecado, fica fácil responder! A lei não é salvação! A lei é a definição do pecado! Ela não irá te resgatar de uma vida longe de Deus, ela irá apenas te mostrar os motivos pelos quais estamos todos condenados. Valorizar a lei acima de seu papel delimitador e definidor de pecado é subtrair de Cristo o seu papel de cordeiro. Este foi o preceito fundamental da cegueira dos Fariseus.

Uma pergunta óbvia mas necessária : por onde somos salvos?

“Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito. Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e da morte.” Rm 8:1-2

Nossa salvação não virá do cumprimento individual da lei, e sim da misericórdia de Deus, executada em Cristo, o cumpridor da lei. Mas a condenação de muitos virá, infelizmente,  pelo seu não cumprimento.

Parafraseando o velho ditado, digo que aos filhos de Deus, Jesus, e para as demais criaturas, a lei.

Graças a Deus por Cristo.

Um abraço!

Regra e Relacionamento

“Mas é possível limpar o rosto com o mesmo espelho que mostra como você está sujo? – Perguntou Sarayu” (A Cabana, pág. 189)

 

Em leitura recente de A Cabana, me deparei com uma parte bastante interessante do livro, em que a Trindade (Deus, Jesus e o Espírito Santo), em uma conversa com um homem chamado Mack, questionam-no sobre os 10 mandamentos. O livro, obviamente, é uma ficção, mas pode nos trazer diversas reflexões interessantes, como essa que gostaria de propor.

No livro, “Deus” questiona o que Mack pensa sobre os 10 mandamentos e as regrinhas que existem (fazer boas obras, ir à igreja, ler a bíblia etc), que nos “levam a Deus”. Mack segue o senso comum e diz que essas regras existem para que as pessoas sigam e fiquem próximas de Deus. Mas será que é isso mesmo? No livro, “Deus” diz que, na verdade, essas regrinhas não têm a função direta de nos tornar justos perante Deus, mas pelo contrário, têm o objetivo de mostrar o quão pecadores e limitados somos. Daí a frase de abertura: não é cumprindo nenhuma dessas regras que vamos chegar até Deus, não importa quão boa seja a nossa intenção, pois essa não é a função das “regras”.

O que nos faz chegar até Ele é o próprio Jesus, aquele que sim conseguiu cumprir todas as “regrinhas” propostas, não falhou em nenhum aspecto da lei e foi completamente irrepreensível. Só um relacionamento com esse cara é capaz de nos levar até Deus, não o seguir uma regrinha.

Catedral de Brasília
Catedral de Brasília

Isso me faz questionar a minha própria vida: até quando eu como cristã tenho vivido mais por regrinhas (ir à igreja, ler a bíblia, buscar não pecar, fazer caridade etc) e menos por relacionamento com aquele que me criou? Assim, deixamos de ganhar tudo e nos contentamos com muito pouco. A vida por regrinhas é vazia e sem sentido, além de ser hipócrita. Eu não quero ser hipócrita, pregar algo que eu não vivo. Não quero que o “falar é diferente do agir” seja uma verdade na minha vida. E isso depende de cada um de nós.

É fé, é relacionamento, não é regra. “Porquanto pela observância da lei nenhum homem será justificado diante dele, porque a lei se limita a dar o conhecimento do pecado” (Rm 3:20)

Conforme

Estava em uma reunião esses dias e, como o clima de Brasília é bastante seco, estávamos todos querendo beber água. Eis que chega o senhor que serve água (=garçom). Um dos caras na reunião comenta: “Eba, a água chegou”. Aí eu pensei: “Não, moço. A água não chegou. Chegou o moço que serve a água.” E aí comecei a viajar nisso. Vc, caro leitor, deve estar pensando assim: “Ai, Ana, deixa de ser chata. Qual é o problema de falar isso?” Me explico.

Estamos em uma sociedade que se relaciona com as coisas e usa as pessoas. As coisas, as relações (pessoais, produtivas etc) estão tão fragmentadas que perdemos o sentido. A nossa relação com as pessoas ao redor é muito mais pelas coisas que elas fazem pra nós do que por elas mesmas. Um exemplo besta é a de você entrar numa lanchonete e pedir um pão-de-queijo. A relação é, na verdade, entre o dinheiro no seu bolso e o pão-de-queijo do que entre você e a pessoa que te atendeu. Se não tomarmos cuidado, essa inversão de foco e coisificação das pessoas pode invadir a esfera mais pessoal ainda, nos nossos relacionamentos com amigos e família – se é que já não ocorreu.

O sistema econômico em que vivemos estimula esse tipo de comportamento e nós o retroalimentamos com as nossas respostas a esses incentivos. E nós mesmos o criamos assim. E aí? Queremos tratar as pessoas como coisas e as coisas como pessoas? Será que nós realmente amamos as pessoas ao nosso redor? O que nos move a estar perto delas? 

Me lembro do versículo de Romanos 12:2, em que Paulo nos aconselha: “E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus.” Conformados não é só o “tomar forma”, imitar, propriamente dito, mas também, creio eu, quisesse ele se referir à atitude passiva de aceitar as coisas como são, o não mudar a nós mesmos e à realidade aí fora.

Essas coisas me fizeram pensar na minha própria vida. Ao ler Gálatas recentemente, um livro do novo testamento que fala sobre a lei para os judeus, me deparei com um versículo: em Gl 4:9 está escrito “mas agora, conhecendo a Deus, ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir?” Poxa, a vida com Deus pode (e tem que ser!!!) tão completa e gratificante, mas às vezes nos prendemos a certos elementos da vida antiga, do mundo antigo, da visão antiga e sofremos demais. Lembro da ilustração de Jesus dos vinhos e odres em Mc 2:22, em que diz que não devemos misturar as coisas novas com as antigas: é incompatível, já passou! Deus quer nos propor uma nova natureza, uma não contaminada. Pura.

Creio que, de certa forma, devemos romper com o estilo de vida que o mundo nos propõe. Nos tornamos (falo muito por mim) imbuídos de um ritmo que não é “natural”, não é normal, não é saudável. Tudo é pra ontem, tempo é dinheiro. Até ao fazer as coisas pela igreja cristã, muitas vezes, fazemos dessa maneira. O mundo vai cada vez mais rápido, as revoluções tecnológicas cada vez mais frequentes. Pode parar pra reparar: vc vai ter a sensação que esse ano vai passar mais rápido que o anterior, e o anterior mais que o outro anterior e por aí vai.

Será que esse ritmo frenético é auto-sustentável e é o que queremos pra nossa vida? Queremos dançar conforme essa música? Será que esses vinhos e odres são compatíveis? Ou essa vida é um peso? Até que ponto a sociedade nos tem influenciado negativamente, para que invertamos as bolas e vivamos em um ritmo alucinado?

Controvérsia & Convicção

Há coisas no cristianismo que são super claras para as igrejas em geral, como quem é Jesus ou que matar é pecado. Mas e as coisas mais controversas? Há diversos assuntos “proibidos” ou “complicados”  no que tange a diferenças de visões entre igrejas e mesmo dentro das igrejas. E isso é muito perigoso… Por que? Porque somos humanos.

St. Matthäuskirche, Berlim
St. Matthäuskirche, Berlim

Às vezes, tais assuntos controversos tomam proporções tão grandes que, somados ao orgulho humano, destroem amizades, igrejas, ministérios etc. Bom seria se todos nós fôssemos mais tolerantes e soubéssemos conviver melhor com o diferente, com o que tem uma visão um pouco distinta porém biblicamente possível e que mantém o foco em Jesus.

Penso imediatamente em Romanos 14. Parece que Paulo estava antecipando coisas que viriam a ocorrer no futuro e que trariam dissensões entre os cristãos (vide as mil-e-uma denominações de igrejas hoje existentes). Paulo diz nesse capítulo que saibamos conviver com aquilo que é diferente, por exemplo com o irmão que é mais novo na fé e tem menos entendimento. “Quem é você para julgar o servo alheio? É para o Senhor que ele fica em pé ou cai” (Rm 14:4). Haver brigas entre os cristãos não só é um mau testemunho para os de fora como pode perturbar a vida dos próprios cristãos: “não destrua seu irmão, por quem Cristo morreu” (:15) Não nos detenhamos em picuinhas, pois o Reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, paz e alegria no Espírito Santo (:17). Isso é o principal, é isso que devemos exalar.

Frauenkirche, Munique
Frauenkirche, Munique

Ele diz também que cada um deve estar plenamente convicto em sua própria mente (:5), seja no que for. Se não estamos convictos de algo que estamos fazendo, se não estamos convictos de tal coisa é certa, é bíblica, se estamos fazendo aquilo só porque todos os outros “cristões” fazem, tá errado. Estude, ore, busque, converse com pessoas. Temos que ter certeza e paz no coração sobre nossas convicções, não ir na onda dos outros. Até mesmo pra saber argumentar, defender o seu ponto de vista, não importa qual seja. A fé não é burra: a crença é em Deus, não nos líderes, não nos outros. Eles podem ajudar, claro, mas nunca substituir.

Pra terminar, Paulo também nos adverte: Cada um de nós prestará contas de si mesmo a Deus (Rm 14:12). Vai chegar um dia em que eu, individualmente, vou prestar contas do que eu fiz, do que defendi, em que cri. Não será meu líder em meu nome que vai prestar contas por mim, nem meu amigo, nem a igreja como um todo, mas eu mesma.

Lembremo-nos: “tudo o que não provém da fé é pecado” (:23).

447

Muito tem sido falado do desastre aéreo do vôo 447 da Air France. A mídia fala das pessoas, das famílias, mostra as últimas novidades das buscas, enfim, trata de todos os aspectos, completamente movida por grande e pura bondade de coração, de forma alguma usando o acidente para fazer sensacionalismo ou explorar a dor das famílias. O pior é que a nossa curiosidade ou envolvimento acaba nos fazendo dar ibope a esses programas.

Foto: ALMO (Paris)

Nesses casos de acidentes, os repórteres sempre encontram pessoas que iam embarcar e misteriosamente ocorreu algo e a pessoa não fez o check-in ou escolheu uma data diferente etc. E foi em uma entrevista a um desses “sortudos” que ouvi algo que muito me incomodou: uma mulher que deveria ter embarcado começa a dizer que “foi muito a vontade de Deus que eu me salvasse, Deus me ama”. Então, peraí… Aqueles outros 228 que morreram no acidente não eram amados por Deus? Que Deus ame aquela pessoa que sobreviveu eu não duvido, mas será que Ele ama menos quem morreu? É isso que a fala dela diz e disso eu duvido.

Caso semelhante ouvi de uma amiga certa vez: ao comentar sobre uma outra pessoa, ela disse que “Deus deve amar muito o fulano, porque senão tal tal e tal coisas não teriam ocorrido”. Da mesma forma: o outro beltrano com o qual tal tal e tal sim coisa aconteceu não é amado por Deus, ou é amado de forma menor? Eu sei que essa pessoa não deve ter tido essa intenção, mas se pararmos pra pensar, com as nossas frases às vezes dizemos coisas que não queremos dizer.

Se vamos para a bíblia, vemos que ela diz que “para com Deus, não há acepção de pessoas” (Romanos 2:11). Ele não ama a uma pessoa mais que a outra, não nos trata de forma diferenciada, não brinca com o destino dos outros nem quer que soframos. Ele não nos tem como a marionetes, mas nos ama e interage conosco, nos dando a possibilidade das nossas próprias escolhas. Nele, todos têm a chance de viver o amor com o qual Ele quer nos encher. Agora, o porquê de tal ou tal coisa  acontecerem a uma pessoa e não a outra, isso eu não sei responder e nem ninguém, na verdade.

Foto: ALMO (Paris2)

O que acontece é que nós somos limitados – como não poderia deixar de ser -, e mal enxergamos o que está a um palmo do nariz, seja nesse caso do acidente, seja nas outras coisas inesperadas da vida. Não temos a visão do todo e mesmo assim queremos julgar os fatos e fazer como se entendêssemos tudo. Fazendo-me valer do clichê, se é bom ou ruim, só o tempo dirá.

Que Deus cuide dessas famílias, ajudando-as a lidar com o sentimento de perda e desconsolo.

(Fotos: Paris 2008)