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A primeira oração de Paulo

A oração que Deus responde

Uma questão muito me intriga no cristianismo. Qual a oração que Deus responde? Em João 14 Jesus diz que é para pedirmos que ele nos atenderá. Quando li pela primeira vez comecei a pedir tudo, mas infelizmente não obtive tudo quanto gostaria de ter recebido. O apóstolo Tiago nos escreve que não recebemos porque não pedimos. E que pedimos mal, para gastar em nossos prazeres. Ah, então não é toda oração que Deus responde? Passei então a pedir apenas aquilo que iria me edificar ou que julgava necessário para mim. Então li em Mateus 6 que Deus já sabia das minhas necessidades antes mesmo de pedir. Para que orar, se Ele já sabe e já tem cuidado? Não deixei de orar totalmente, mas já não fazia os pedidos como nos primeiros tempos. Sem que escolhesse, a ansiedade tomou conta do meu coração. Neste momento vi o que Paulo disse aos filipenses – para que deixassem que Deus conhecesse seus pedidos e assim poderiam desfrutar de paz. Agora oro a um Deus que já sabe do que eu necessito e já está a trabalhar por aquilo? Sim! Eu só ganhava em relacionamento e ficava com a sensação de ter lhe entregue minha vida através da oração. Ainda assim algo que me incomodava. Será que Deus está preocupado com meus pedidos? Será que Ele quer ouvir o que tenho a dizer? Será que minhas preocupações são importantes para Deus?

Esta semana tive a oportunidade de reler em Atos 22 como Paulo descreve seu primeiro contato com Cristo e refletir acerca da oração. Ele fora preso no Templo em Jerusalém pelos judeus e levado à fortaleza por soldados romanos. Antes de nela entrar, pediu para que pudesse dirigir a palavra ao povo que o havia acompanhado no meio do tumulto. Autorizado, ele descreveu a respeito de sua fé. Sempre me chama a atenção como ele interpreta sua primeira reação diante de Cristo – quem és tu, Senhor? Que devo fazer?

Por vezes minha oração é vazia de sentido porque só eu falo, na verdade apenas vomito o que tenho para dizer a Deus. E, correndo para sair para a faculdade ou para o trabalho, “entrego” tudo nas mãos de Dele. A oração de Paulo tem me inspirado para que eu deixe de ver apenas o que eu quero e passe a considerar o que Deus quer de mim e, principalmente, quem é este Deus que quer algo de mim. Assim, verdadeiramente ganho em relacionamento ao orar. Deus deixa de ser o “Gênio da lâmpada” e passa a ser o amigo que imagino que seja meu. Paro por aqui, porque tenho aula agora e preciso conversar com meu Amigo antes de sair de casa para mais um dia vivendo a vontade do Pai.

Me conte como é seu relacionamento com Deus através da oração, compartilhe suas experiências. Até a próxima!

Escolha: liberdade e responsabilidade

Escolha: liberdade e responsabilidade

6:50 da manhã. O despertador do celular toca. Levantar ou programar o modo “soneca” e dormir mais cinco minutinhos? Escolha! Há sempre mais de uma opção na vida: mais de um celular para despertar de manhã a ser comprado, mais de um programa para fazer no sábado à noite, mais de um curso no vestibular, mais de uma área a seguir na profissão, mais de uma garota para chamar para sair – mais de um caminho a seguir.

As escolhas aparecem desde a hora em que acordamos e nos persegue até o final de cada dia da nossa existência. Em virtude delas escrevemos boa parte da história de nossas vidas. Acertando ou errando colhemos os frutos, para o mal ou para o bem. O intuito é sempre acertar, mas nem sempre conseguimos. Em alguns momentos estamos atentos para esta realidade, há outros, no entanto, em que a verdade diante de nós passa muito despercebida. É então que o perigo bate à nossa porta. Agimos como se não houvesse amanhã. Plantamos uma semente aqui e outra ali; sem perceber temos uma floresta! Se de sementes ruins, uma floresta repleta de folhas secas, galhos com espinhos e frutos amargos. Não há como definir as conseqüências de nossas escolhas, certo é que elas virão e que não terá como fugir delas. Prejudicar-nos é o mínimo que poderá acontece. O produto final das escolhas será invariavelmente dividido com quem não decidiu por ela.

Que fazer diante de tal possibilidade? Arrisco afirmar que a esmagadora maioria dos problemas causados por escolhas mal feitas provém do fato do ser humano querer seguir seu próprio caminho no lugar de seguir a Deus. Como foi com Jesus? Estando no jardim chamado Getsêmani, Jesus orou com tristeza pedindo para que Deus o tirasse da situação ruim de ter de morrer pelos pecados da humanidade (Marcos 14:36). O Líder tinha a opção de pegar a espada nas mãos do discípulo, convocar seus seguidores e lutar contra os soldados e líderes religiosos que procuravam prendê-lo. Havia ainda a possibilidade de apenas fugir com seus amigos e passar a viver na obscuridade. Ele, ao contrário, seguiu o que fora determinado por Deus e cumpriu o que lhe era devido. Não há como deixar de pensar em dor, desde a física até mesmo a psicológica pela decisão tomada. Jesus decidiu por Deus e colheu os bons frutos que lhe foram prometidos (Filipenses 2:9,10).

Na minha vida não é diferente. Todo o tempo sofro pelo fato de ter de decidir e muito mais pelas conseqüências das decisões tomadas. Minha oração é para que Deus me deixe claro o que há de legal guardado para mim depois do alto muro que hoje me impede de enxergar adiante.

Este post é fruto de um papo muito pesado que tive com uma amiga. Há alguns anos dividimos nossos dias de feira. Apesar disso, infelizmente, tivemos muitos poucos papos tão produtivos sobre a vida tal qual o da última sexta-feira. Quero terminar dividindo com ela e com você alguns questionamentos que tenho me feito:

Como tenho decidido a respeito do que tenho vivido? Considero a existência do outro de maneira altruísta conforme Jesus exige (Filipenses 2:4; Mateus 5:39)?

Tenho dedicado a Deus sua honra (Malaquias 1:6) ou faço dele meu “gênio da lâmpada” a quem exijo tão somente respostas a pedidos vazios?

Qual minha reação com o que Deus quer de mim? Lutar com minhas próprias forças? Fugir e passar a viver dissimulando amadurecimento? Ou me entregar como Jesus fez?

Concluo: o livre arbítrio é forte expressão do amor de Deus pelo ser humano. Ele não quer um exército de robôs que os adoram apenas por obrigação. Junto da liberdade porém reside uma grande carga de responsabilidade!

Será que estas ideias são difíceis de serem vividas apenas por mim? Compartilhe comigo sua opinião!

Voltei a caminhar

Há algum tempo torci o pé em um buraco na rua e quase caí. Não houve um tombo, um vexame público que desse causa à gargalhada alheia. Aliás, quase ninguém viu, só os que estavam mais próximos naquele momento. No impulso e por vergonha quis seguir adiante, como se nada tivesse acontecido. Não deu certo, a dor era grande. Abaixei, coloquei a mão no pé, suspenso no ar, e bem devagar tentei apoiá-lo novamente ao chão. Saí mancando, pois não poderia parar minha vida por conta de uma simples torção. O dia e os muitos compromissos seguiram normalmente, não pude, entretanto, deixar de sentir o pé latente todo o tempo, agravado pelo inchaço que advindo da torção. De vez em quando a dor cessava e me esquecia dela. Mas, ao tentar caminhar normalmente, o pé acusava a lesão que ali se instalara. A torção não foi suficiente para que restassem hematomas, muito menos feridas abertas na pele. Ainda assim, o simples fato de meu pé ter se retorcido já foi suficiente para tirar minha vida do eixo. Foi forte ao ponto de questionar a Deus se ele realmente guiava meus passos. Como foi que não consegui me livrar do buraco?

No outro dia fui lembrado do incidente logo ao me levantar e passar pela desagradável situação de tentar me apoiar no pé contundido. Resolvi ir ao médico. Uma radiografia foi tirada e houve a comprovação de que não havia fraturado nenhum osso. Sei que não, caso contrário não teria saído andando da cena do acontecido. Restava a dor, mesmo sem fratura. Tomei os analgésicos e antinflamatórios receitados. Manquei por um bom tempo, sempre reclamando com Deus. Passaram-se uma semana, duas, já não era tão forte assim, mas permanecia o incômodo. Procurei novamente um especialista, que apenas me receitou mais analgésicos e disse que só o amigo tempo ajudaria na cura. Fui em outros dois, três amigos que conheciam do assunto. Todos repetiram o que já havia ouvido. O incomodo permanecia. Já estava chato conviver com o andar manco. Já estava cansativo falar da dor para todos os meus amigos. Estava ruim não acreditar que Deus continuava ao meu redor, cuidando do meu caminhar.

Passado mais algum tempo pude perceber que o incomodo na verdade estava muito distante de uma dor e que representava apenas uma insegurança. O trauma me impedia de lembrar como era bom andar sem ter de me preocupar com o acontecido. Outro amigo próximo de mim também torceu o pé e pouco tempo depois voltara a caminhar com a mesma firmeza com que o fazia antes da quase-queda. Foi ele quem me alertou para meu medo. É… não teve jeito – percebi que não havia mais espaço para insegurança. O tempo (ou a falta dele) exigia que colocasse o pé no chão e andasse a passos largos, até mesmo que corresse. Quis esperar mais um pouco, testar a Deus para ver se realmente estava por perto. Descobri logo que ao esperar decidia por não voltar a caminhar. Vi que Deus se preocupava com meus passos, que não foi ele quem criou os buracos da vida e que ia cuidar de mim, quer confiasse ou não. E assim cheguei ao ponto de entrega dos pés ao Pai, assim que hoje tenho decidido: voltei a caminhar e seja o que Deus quiser, literalmente.

Em que implica a ressurreição de Cristo?

Narram os evangelhos que Jesus morreu em uma sexta-feira e após três dias (contando-se o dies a quo e o dies ad quem, ou seja, inclusive o primeiro e o último dias) foi ressuscitado. Mas o que significa e, mais do que isto, representa a ressurreição do cristo salvador?
Primeiro, como mencionei, a salvação. Ele morreu pagando pelo pecado da rebeldia e indiferença do ser humano em relação a Deus. É um pouco abstrato, mas gostaria que você visualizasse que de nada adiantaria ele simplesmente ter morrido. Se morto e aplicarmos a regra geral descrita na Bíblia, então Jesus estaria dormindo e aguardando o dia do juízo para ressuscitar. Não é o caso! Justamente porque ele ressuscitou é que cremos na existência desta realidade também para nós, cristãos.
Segundo porque ele foi o primeiro a ressuscitar, abrindo caminho para os que viriam após ele. Há para nós, no entanto, este momento de espera como expliquei. Agora creio que a vida não se limita a esta era presente, mas sim tenho a esperança de um dia também ressuscitar e estar diante de Deus, assim como Cristo está.
Depois porque ele foi o único deus das grandes religiões do mundo que não permaneceu morto. Segundo a tradição hindu, o Buda tem morrido e reencarnado por gerações e gerações. Maomé, o profeta do islamismo, simplesmente morreu. Os espíritos do espiritismo, ainda que não sejam vistos propriamente como deuses, estão igualmente mortos. De que vale afinal um Deus morto?
Deixando de lado esta parte teológica, o que mais há na ressurreição de Jesus? Há o meu foco não na crucificação em si, mas na pessoa que foi crucificada. Jesus venceu a morte e o Acusador. Tenho um advogado diante de meu Pai no céu. Pai este que é amor, mas também justiça. E, motivado pela vida do Salvador, posso tentar superar o velho medo do julgamento e condenação.
Luto hoje para não pensar em mim pelo que faço, ou pelo que possuo, muito menos pelo que os outros pensam de mim. Cristo vivo me pede para que deixe de lado os julgamentos, opiniões, avaliações e condenações por parte do Acusador e também dos outros seres humanos. Se não sou condenado por Cristo, não há como condenar a ninguém. A liberdade ganha espaço nos meus relacionamentos e, baseado na vida plena proposta por Cristo, posso viver distante do que tem pregado a cultura na qual estou inserido.
Por fim e não menos importante, Cristo ter ressuscitado representa a possibilidade de me relacionar toda hora, todo o tempo com o Deus que é meu amigo, que genuinamente tem interesse por mim e que tem cuidado de mim.
E para você, o que representa a ressurreição de Cristo?
Forte abraço.

Saudade Dele

Esta semana convido novamente uma pessoa de quem gosto muito para que nos dê notícias da Itália – Luma Schall Drumond. Ela está em viagem de intercâmbio e nos conta um pouco de suas experiências com Deus no Velho Continente. Boa leitura!

Hoje fui a um culto em uma igreja evangélica italiana. Para quem não conhecia ou não tinha ouvido falar sobre um movimento cristão/protestante italiano, junte-se ao grupo, para mim foi uma interessantíssima (para não dizer divina) descoberta. Mais ainda pela forma como fiquei sabendo.

Ouvi falar através dos primeiros brasileiros que conheci por aqui, hoje meus colegas de corredor. Uma das meninas, inclusive mineira, de Belo Horizonte, estudante da UFMG e minha atual roommate, é evangélica e está totalmente envolvida com a igreja aqui. Mais especificamente ainda com o GBU (Grupo Biblico Universitario), a nossa ABU (Aliança Bíblica Universitária).

País originalmente e majoritáriamente católico, vim para Roma disposta a encontrar e conhecer uma igrejinha de bairro, com um padre bacana para me socializar. Mas acabei descobrindo o trabalho da igreja evengélica aqui, o qual me fez lembrar bastante o Grupo Cristão do qual faço parte no Brasil. Aqui, elas são pequenas, normalmente formadas por famílias, mas estão crescendo. Assim como o trabalho com os jovens e universitários.

O culto hoje foi muito bacana! Uma experiência interessante. Confesso que não estava ali somente como crente, mas como observadora também. Aberta a vivenciar esse momento novo e bem diferente. Não imaginava encontrar italianos assim, fiéis a Deus, dispostos a adorá-Lo, a servi-Lo, a viver por Ele dessa forma. Não que não existisse, de maneira nenhuma, há servos de Deus espalhados por todo o mundo e dou graças por isso. Mas não achei que conheceria tal realidade durante a minha estadia por aqui.

Ao ouvir o coral da igreja cantar e as pessoas acompanharem comecei a rir e chorar ao mesmo tempo. Primeiro porque essa é a parte do culto que mais gosto, cantar para Deus. Como estava sentindo saudade de fazê-lo, principalmente em comunhão com outros cristãos. Louvar a Deus é muito bom!

Agora, mais do que isso, era ver aquelas pessoas ali, unidas, adorando a Deus, ao meu Deus, ao mesmo Deus que eu e minha comunidade adoramos no Brasil. Um mesmo Deus! Um só! É Ele, e só Ele! Não existe outro! Ele que está aqui na Itália comigo. Ele que me escuta, me aconselha, me ama e me proteje da mesma maneira, não importa aonde esteja. E assim com cada um individualmente!

Posso orar em português, em italiano, em inglês, na língua que for, ali estará Ele, me ouvindo e entendo, não as palavras que saem da minha boca, mas sim as que saem do meu coração. Foi isso que o pastor falou hoje também, de deixar o Espírito de Deus incomodar o coração, pois só assim as coisas ganharão significado e tocarão as nossas vidas!

Um Deus, um Espírito, uma família cristã!

Gostaram? Leiam mais sobre a viagem da Luma à Itália no blog dela havaianasviajantes.blogspot.com

 

 

Quando falta o chão

Um dia comum. Tudo parece perfeito. Tenho uma casa, uma família, emprego, estudos, comida farta, roupas, amigos e o telefone sempre toca com alguma sugestão de algo legal pra fazer sexta à noite. De repente uma surpresa! É… o real é imprevisível!

Algo de inesperado acontece. Grande ou pequeno, mas sempre forte o suficiente para me tirar do meu precioso lugar. Talvez uma doença minha ou de alguém próximo, uma paixão indesejada martelando o coração, um acidente com algum ente querido, a perda do emprego, um término repentino de relacionamento, um amigo que mudou, etc. Me falta o chão. Fato é perdi a boa sensação de segurança – o mundo não está mais em minhas mãos, não consigo controlar minha mente e meu coração. Variadas sensações passam a ditar meu ritmo de vida. Como voltar à estabilidade? Aliás, havia alguma estabilidade?

A verdade é que grande parte dos meus problemas quanto à surpresa se encontram justamente no fato de ter acreditado que realmente controlo algo. Isto sustenta esta falsa sensação de segurança e a ideia de uma estabilidade impossível de ser furtada de mim. “Nem Deus afunda meu Titanic”, penso no íntimo do meu coração. E se afunda, faço o impossível para levantá-lo novamente, custe o preço e custar e doa em quem doer.

Como proceder diante de tal constatação? Tiago bem nos ensina que não devemos ser presunçosos, antes entregar à sabedoria divina nossos desígnios. Entregar e praticar aquilo que o autor de Hebreus escreve a respeito da fé – o fundamento daquilo que esperamos e a prova do que não vemos. Agora não há um atalho para voltar a me sentir bem. O exercício da fé me ensina a cada dia, cada momento, que o real é mesmo imprevisível e, embora Deus o saiba, não fará com que seja privado destas situações.

Hoje, ao sair de casa pela manhã, disse à minha mãe que cuidasse de sua saúde no decorrer do dia. No início da tarde soube que ela não se cuidou e que passava mal. Que sensação de impotência! Que luta para ter entregue tudo ao Senhor. E você, já passou por algo do tipo? Fique à vontade para compartilhar conosco.

 

A Matemática da Submissão

Vós, mulheres, sejam submissas a vossos maridos, como ao Senhor;
(Ef 5:22)

Vejo muitas amigas que, influenciadas pelo pensamento contemporâneo de “direitos iguais para todos”, começam a questionar a submissão da mulher no casamento. Afinal de contas, “por que somos nós que temos que nos submeter e não eles”?

Ora, se seguirmos esse raciocínio de direitos iguais, colocando os direitos de cada um numa equação matemática, tenho a impressão que os homens que estão em desvantagem, não?

Vós, maridos, amai vossa mulher, como também Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela; (Ef 5:25)

Enquanto a mulher tem o direito de que seu marido não só se sujeite a ela, mas também morra por ela, o homem tem o direito de que sua esposa seja apenas submissa. Bem, injusto, não?

Sorte das mulheres rs que, para Deus, essa questão não funciona na base da matemática dos direitos iguais: só conseguiremos maximizar o valor da equação se ambos os lados se anularem totalmente e não se ambos os lados se fortalecerem e igualarem. Ambos tem que ir se entregando e anulando, para, só assim, chegar num ponto em que questões como quem é submisso a quem, quem dá a última palavra e quem deve tomar a atitude  não serão o menor problema – os dois serão apenas um.

Em outras palavras, (0 + 0) = 1 > (1 + 1).

Caminhada

No começo a sensação era de que ela me achava alguém muito especial. Só andava comigo nos fins de semana. Íamos longe, longe, mas por pouco tempo. Sentia que ela gostava de estar comigo naqueles momentos que julgava tão preciosos. Mostrava para todo mundo o que havia de novo aos seus pés. O fim de semana acabava, ela me limpava e me guardava novamente no guarda-roupas. Outro tempo de festas chegava e ela prontamente se lembrava de mim. Assim seguiu por todo aquele período inicial.

As coisas foram mudando e após muitas caminhadas elegantes ela começou a me tirar do escuro também nos dias de feira. Passamos a viajar por lugares mais distantes. Com a intimidade, agora andávamos juntos todos os dias. Senti que fui o seu principal naquela fase tão boa. Ela já não me tratava com tanta cerimônia e isto fez com que nossa amizade ficasse ainda mais legal. Até nas ruas de pedras seguíamos felizes.

As coisas prosseguiram bem até que veio o primeiro buraco para nos separar. Ele apenas agravou um problema que já havia se iniciado anteriormente. Ela já não cuidava tão bem de nós quanto antes. As chuvas vieram e juntamente com elas a dificuldade de sairmos juntos de casa. Não poderia ser diferente: aos poucos fui substituído por outro, alguém com quem ela sentisse aquilo que a novidade proporciona. Fui, por fim, abandonado no fundo de um saco antigo no meio dos outros. Ela me deixou de lado como se eu fosse um velho sapato.

Acontece que o que ela não percebeu é que não me desgasto como um calçado – sou eterno. o desgaste ocorreu na maneira como me tratava. Antes era bom estar comigo nos fins de semana, nos momentos que ela denominava religiosos. Chegava a pensar que eu era o seu deus próprio, como um gênio da lâmpada sujeito a seus desejos. Nossa relação progrediu muito quando ela percebeu que poderia estar comigo todo o tempo, não apenas na igreja e somente fazendo pedidos. Até que o pecado se mostrou mais forte e veio mudar nosso caminho. No lugar de resolver e restabelecer a relação, ela passou a buscar novos ídolos. O final já lhes contei: representei na sua vida apenas mais um dos luxos com quem esteve quando lhe convinha.

Mesmo deixado de lado continuo próximo dela. Meu maior desejo hoje é que perceba que nenhum outro será seu número exato como só Eu posso ser.

Quem são meus amigos

Segunda-feira, 07 de março de 2011, 4:37, madrugada. Recebi a árdua tarefa de publicar algo na quarta-feira de cinzas, após o feriado nacional de carnaval, a festa da carne. Não sabia ao certo o que escrever, visto a dificuldade de tratar deste tema de maneira produtiva e sem ofender os colegas leitores. Pensando nos momentos que vivi, quis escrever sobre o que me edificou esta noite e que lhe fez valer todo o feriado que, em um primeiro momento, seria profano. Vou falar sobre meu conceito de profundidade na amizade.

Sou conhecido no meio em que vivo pela quantidade e qualidade das minhas amizades. A grande verdade é que nem todos os que andam comigo são meus amigos e tenho percebido cada vez mais isto. Amigo, segundo sempre pensei, são as pessoas com as quais me sinto à vontade para curtir uma boa noite e, principalmente, para quem posso ligar em uma difícil noite da minha vida. Refletindo um pouco mais, descobri que minhas amizades vão um pouco além e que meu amigo é aquela pessoa que partilha da minha vida e quer compartilhar a sua comigo. Não só isto. Acabo de avaliar que meu amigo de verdade não é aquele que simplesmente me conta da sua nova decisão, mas que quer saber minha opinião (e de outros amigos, claro) a respeito dela previamente. Meu amigo é aquela pessoa que não se importa de me dizer a verdade sem o medo de que eu me afaste dela. Muito mais, é quem quer me dizer a verdade sobre ela sem exigir que eu faça um sorriso amarelo e finja que o aprovo em tudo. Meu amigo não me evita a todo custo em relação a algo sobre o qual sabe claramente que penso que lhe faz mal. Meu amigo é a pessoa que me interpela e que se sente feliz quando exprimo minha verdadeira opinião a respeito daquilo que ela compartilha comigo.

Em toda amizade sincera há a divergência de ideias e o confrontamento advindo disso. Pode ser que a outra pessoa simplesmente va fazer algo diferente daquilo que o amigo pensa por não acreditar nas ideias idênticas á do outro. Nem precisa concordar com tudo, isto seria no mínimo estranho.

Foi assim na bíblia com aquele que foi conhecido como o amigo de Deus. Ele interpelou a Deus quando pensou que este estava agindo contra o combinado entre eles. Deus, por sua vez, o interpelou quando o patriarca duvidou da sua promessa. É nítido ver o quanto eram verdadeiros amigos e a liberdade que tinham de discordar e deixar claro suas convicções. Claro que Deus estava certo e demonstrou que sua discordância tinha maior respaldo do que a do desconfiado Abraão.

É triste ver muito perto de mim um corporativismo crescente em que uns passam as mãos na cabeça dos outros e compram brigas de maneira cega. Os fatos não são mais questionados, mas sim do lado de qual amigo você está. Evito problemas sendo superficial, afinal, quando questiono meu amigo sobre algo em sua vida automaticamente abro uma enorme brecha para que ele me fale algo sobre mim. Por medo de me expor, vivo fingindo que não vejo o que vai mal com o outro. Cumplicidade pura e simples nunca foi e jamais será sinônimo de amizade.

Penso a respeito disso pelos papos que tive neste carnaval e o quanto fiz questão de os ter tido. tanto nas vezes em que pude “desabafar”, quanto nas oportunidades em que minhas convicções foram solicitadas. Não acredito que deva ser amigo de todo mundo e que todos queiram me ouvir e falar comigo sobre as minhas e suas coisas íntimas. Ao mesmo tempo, é bom saber que não sou convidado a apenas balançar cabeça para cima e para baixo cada vez que a palavra é dirigida a mim. Dedico este post aos amigos que partilharam deste precioso e prazeroso momento e de suas vidas comigo.