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O rio morto e o cristão morno

Em Itabuna, cidade ao sul da Bahia, passa um rio chamado Rio Cachoeira. O nome dele lembra movimento, mas o que se vê não é bem isto.

rio-Cachoeira

O Rio Cachoeira já alimentou muitas famílias com sua água limpa, de poucos sedimentos, e muito peixe. Ele já serviu de lazer para as crianças brincarem. Ele já foi útil para os muitos animais que viviam (e ainda vivem) à sua margem. Ao longo dos anos, porém, veio a degradação com a ação humana e alta carga orgânica despejada no Rio. Para piorar a situação a Prefeitura de Itabuna, preocupada com a vazão do Rio na passagem pela cidade, criou um barramento, o acabou por transformar o Rio numa espécie de lago. A pouca movimentação dele e o crescente aumento das algas que se alimentam do seu excesso de nutrientes causam sua eutrofização, com a baixa oxigenação e consequente morte dos seres vivos que nele se encontram.

O Rio Cachoeira da maneira como está pode ser comparado ao cristão morno. Assim como o rio não se move e não oxigena, é o cristão tem levado a vida em “banho-maria”. De longe parece bonito, no meio da comunidade cristã, mas de perto não tem a relação com Deus como fora à época do primeiro amor. Todo cristão passa por períodos ruins, o desafio é não deixar que este momento passe a ser uma situação constante. João escreve algo muito pesado no livro do Apocalipse a respeito deste cristão:

Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente; quem dera foras frio ou quente! Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca.

Apocalipse 3:15-16

Para que o Rio volte a ter vida é necessário recuperar as áreas de nascentes, seus afluentes e acabar com o despejo de material poluente no seu curso. Creio que o cristão morno também precise de um pouco de vida no que é básico na sua relação com Deus. Além de limpar o que há de básico, há necessidade de retirar o pecado que tem poluído a vida com Deus. A leitura diária, a oração e as demais disciplinas espirituais são a chave para o início da volta para a relação profunda com Ele. Assim, o cristão pode voltar a experimentar da cachoeira que o Espírito Santo pode fazer dentro dele.

Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva.

João 7:38

Bem devagar – a volta ao primeiro amor

Imagine uma pessoa que conhece a Jesus e passa a desenvolver uma relação com ele. À medida que o tempo passa, esta pessoa aprofunda esta relação. Ela se envolve na comunidade cristã, tem excelentes tempos de oração, faz estudos em grupo e sozinho da Bíblia, etc. Ela cresce e amadurece enquanto cristã. Passado um tempo, este relacionamento esfria e a pessoa acaba por se afastar de Deus nas suas decisões, nas atividades corriqueiras do dia a dia e principalmente no seu coração. Você talvez conheça alguma história assim. Desculpe a ousadia, mas arrisco afirmar que talvez você mesmo já tenha passado por uma situação como esta, ou ainda talvez vá passar.

O distanciamento é apenas momentâneo, uma fase ruim. A pessoa em questão tenta então retomar a antiga amizade. Quem viveu com Jesus de verdade jamais conseguiria cogitar a possibilidade de viver longe dele. Ele tenta orar, ler, meditar, mas sofre ao ver que a relação não é mais como fora um dia. Desanimado, volta a se afastar. Esperançoso, tenta ir num acampamento cristão, num evento com algum grande nome do meio teológico, tenta buscar algo mais profundo. Assim,  passa a travar uma verdadeira guerra consigo mesmo na busca por um relacionamento com Deus ora de um lado, ora de outro nestes extremos.
Esse tipo de luta, apesar de parecer nobre, não é lá muito edificante. A frustração é a primeira consequência. As demais são provenientes dos pecados mesmo, aqueles cruéis que fazem com que ela se sinta ainda pior do que já estava. Parece que há uma bola de neve e que cada atitude leva pra lugares sempre mais distantes de Deus.
O que a pessoa da qual falamos não percebe é que a Deus está tão perto e tão acessível que a busca por um tipo específico de relacionamento vira um fim em si mesmo e o que se queria num primeiro momento deixa de ser buscado. Um exemplo de algo assim é o personagem Ted Mosby, protagonista da série de TV americana How I Met Your Mother. Durante temporadas e temporadas ele corre atrás de alguém que estava ali todo o tempo, mas alguém com quem ele nunca consegue se encontrar de verdade.
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Ted Mosby e o guarda-chuvas dividido por ele e a futura mãe de seus filhos

O desafio então não seria perder um tempo precioso buscando o inalcançável, mas sim ir devagar, dia a dia, nas pequenas coisas ir incluindo Deus de volta na sua vida. Se observarmos bem, toda dia e toda hora temos a oportunidade de buscar a Deus. E cada experiência pode ser única, assim como já foi um dia. O primeiro amor do cristão pode sempre voltar a ser experimentado.

Tenho vivido este desafio há (digamos) alguns anos. Hoje, após esta descoberta, tem sido sobremaneira gratificante pra mim ler um capítulo da Bíblia ou participar de um grupinho de estudos bíblicos. Através de uma palestra sou tocado pelo Espírito Santo de maneira muito especial como há muito não acontecia. Não há nada de mágico acontecendo, mas sinto que minha relação com Deus tem melhorado.
“Irmãos, quanto a mim, não julgo que o haja alcançado; mas uma coisa faço, e é que, esquecendo-me das coisas que atrás ficam, e avançando para as que estão diante de mim,
Prossigo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus.”
Paulo de Tarso, em carta aos filipenses (Filipenses 3:13-14)
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Conheço um monte de gente que passa por algo parecido, já conversamos muito, boa parte deles e eu, sobre este assunto. Meu desejo e minha oração hoje é que nós consigamos ter uma relação simples e ao mesmo tempo profunda com nosso amigo. Algo que não seja necessariamente voltar àquela velha relação com Deus, mas sim criar uma nova, talvez até mais profunda do que a anterior.
Termino com o trecho de uma música composta por Gilberto Gil e cantada por Caetano Veloso, da a qual gosto muito.
Sem correr
Bem devagar
A felicidade voltou pra mim
Sem perceber
Sem suspeitar
O meu coração deixou você surgir
E como o despertar depois de um sonho mau
Eu vi o amor sorrindo em seu olhar
E a beleza da ternura de sentir você
Chegou sem correr
Bem devagar
Bem devagar – Gilberto Gil. Prenda Minha (Caetano Veloso, 2000)

Rotina

Segunda-feira, primeiras horas da manhã. O despertador do celular toca, João acorda um pouco assustado. Desliga logo o despertador do tablet para não ouvir seu barulho irritante. O motorista da empresa de transporte liga, ele atende e diz que já vai descer. Entra no carro com destino a Confins, assim como na semana anterior. Lá, despeço-se do motorista e caminha em direção à fila para o despacho de bagagem. Não vai para a fila do “cliente fidelidade” porque todo mundo que voa no primeiro horário de segunda tem este atendimento “prioritário” e a outra fila sempre está menor. A atendente pergunta “qual destino, senhor?”, ele responde e logo ela completa “documento, por favor?”. Apresenta. E confere: “meu fidelidade está pontuado?”. Ela lhe pede o número e responde que sim. Ao final ela deseja “boa viagem”. (Esta semana para seu espanto, ela soltou um “boa viagem, Joãozinho!”, toda íntima). Arrasta-se com sono até a sala de embarque. Vai direto ao segundo rapaz na porta. Ele sempre está disponível enquanto seu colega segue atendendo à fila de sonolentos. Na fila do raio-x descalça os sapatos de segurança para não apitar – eles tem biqueira de aço. Passa da porta. Calçado novamente vai para a lanchonete tomar o café da manhã. Sempre pega o lanche e caminha em direção ao avião. Dorme um sono profundo até o destino final, qualquer que seja. No desembarque quase sempre um senhor à espera com uma plaquinha na mão com seu nome. E sugere que pode carregar sua bagagem. Ele responde que “não, pode deixar, está tranquilo”. Entra no carro e faz o questionário-de-segunda-de-manhã sobre o que o senhor sabe da empresa onde vai trabalhar, do hotel em que vai ficar hospedado e alguns detalhes da cidade (onde pode correr e onde comer à noite, por exemplo). Segunda-feira = rotina.

João trabalho viajando e a cada semana está, via de regra, num lugar diferente, com pessoas diferentes, numa empresa com ramo de atividade diferente. Ainda assim há uma rotina.

Algumas pessoas conseguem lidar muito bem com estas repetições de fatos através dos dias. Outras não. Acho que nosso personagem se enquadra neste segundo tipo. No começo de algo novo ele procura um pouco de estabilidade em que possa se firmar. Após encontrar, começa a observar que tudo é a mesma coisa. Se não tem uma novidade, algo diferente, logo se cansa.

Assim como segundas-feiras pela manhã são enfadonhas para ele, a leitura da bíblia e os tempos de oração também tendem a ser. Que fazer para conseguir manter o ritmo? Criatividade? Não sabemos! Há alguns anos ele cultiva o hábito de tentar estar com Deus durante todo o tempo do dia (orações curtas e leitura dos versículos dos grupos do whatsapp são os instrumentos favoritos). Isto ainda não seria suficiente para que ele sinta que tem priorizado seu relacionamento com Jesus. João só se sente em paz comigo mesmo após ter sentado quieto no seu quarto (ainda que) por cinco minutos para ler e orar. Sozinho, sem barulho, sem distrações.

Pois é, mais de uma década após ter iniciado suas tentativas de tempos diários com Deus (com qualidade) nosso amigo João ainda não encontrou o ideal. Ele passa por fases boas em que um capítulo por dia e dois minutos de oração são suficientes para notar Deus mais próximo. Em outros momentos, no entanto, ainda que eu lute, deixa de procurar Deus um dia, dois dias e quando percebe já faz uma semana, talvez duas, que não tem o tempo que gostaria.

João compartilha conosco suas dificuldades. Sabemos que ele não está só nesta batalha, então usa o espaço deste post para pedir sua contribuição para que sua experiência o acrescente. E não só a ele, para que auxilie a outros que, como ele, tem dificuldade de manter a rotina de relacionamento diário com Deus por meio das disciplinas espirituais.

Forte abraço, até a próxima!