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A garagem

Quarta feira. Era mais um dia de estudo. Éramos seis no grupinho. Todos diante das Escrituras. Estávamos assentados numa das vagas de um carro, numa garagem do bairro Gutierrez, em Belo Horizonte. O texto daquela quarta feira era Marcos 4.

“O reino de Deus é assim como se um homem lançasse a semente à terra; depois, dormisse e se levantasse, de noite e de dia, e a semente germinasse e crescesse, não sabendo ele como. A terra por si mesma frutifica: primeiro a erva, depois, a espiga, e, por fim, o grão cheio na espiga.” (Mc.4:26-28)

Ninguém consegue compreender o Reino de Deus. Ele não cabe nas nossas mentes. É maior do que conseguimos imaginar. Excede o nosso entendimento.

É exatamente por isso que Jesus sempre diz que o Reino de Deus é “como” alguma coisa. Ele usa metáforas. Não existe algo na existência humana que possa traduzir o Reino. Por isso, o Reino é “como” ou, conforme a parábola, “assim como”.

Existem, pelo menos, duas coisas sensacionais que Jesus está ensinando aqui:

1°) As coisas acontecem sem que os nossos olhos vejam e a maior eficácia do Reino de Deus está exatamente quando você tira as mãos. Deus é quem faz. Todo o tempo. O homem apenas lança a semente. O que acontece depois disso é invisível e inexplicável.

2°) Deus não ignora que a vida é cheia de processos. Primeiro a erva. Depois a espiga. Por fim, o grão cheio na espiga. A vida é alicerçada em fases. Deus sabe disso. Nós é que nos esquecemos dessa verdade um tanto quanto óbvia.

O que Deus está fazendo nesse exato momento? Você saberia dizer o que está acontecendo embaixo da “terra”? 

Se a vida é caracterizada por fases, por que tanto desespero? Por que tomar decisões pautadas nas fases e não em valores?

Porque as fases mudam! Os valores não…

E o que Deus faz, a gente até tenta explicar… Mas fica uma sensação gigante de que não estamos conseguindo traduzir a realidade de maneira plena. Tipo eu, tentando te falar o que aconteceu naquela garagem.

Um grande abraço!!!

Separando os homens dos meninos

Ele era o convite de Deus. Era a grande chance de todo ser humano. A porta do Reino. Encontrá-LO era ter nas mãos o passaporte para o céu. No entanto, o Evangelho descreve algo muito significativo que, geralmente, passa despercebido por cada um de nós.

“Assim, pois, todo aquele que dentre vós não renuncia a tudo quanto tem não pode ser meu discípulo.” (Lc.14:33)

Sem renúncia, não existem discípulos. Todos aqueles que experimentaram o Reino de Deus precisaram abandonar algo que era incompatível com o Reino.

A mulher samaritana deixou pra trás o seu cântaro. (Jo.4:28)

O cego Bartimeu deixou pra trás a sua capa. (Mc.10:50)

O jovem rico precisava deixar pra trás a sua riqueza. (Mt.19:21)

Aquilo que se abandona varia de pessoa para pessoa. Deus não exige renúncia das mesmas coisas. Ele sabe que somos diferentes. O que existe de comum é que todos (sem exceção) precisam abandonar algo.

Alguns abandonam tudo pelo Reino. Outros optam por permanecerem com aquilo que os impede de ganhar o Reino. Não estamos dizendo que ter um “cântaro”, uma “capa” ou ser dono de “muitas riquezas” seja errado. Mas é possível que coisas aparentemente inofensivas sejam obstáculos ao Reino.

Eu me lembro do quanto foi duro ter que renunciar um namoro por causa de Cristo. Conheço pessoas que renunciaram amizades, lugares frequentados, hábitos, estilos de vida e tantas outras coisas que rivalizavam com o Reino de Deus.

Ao afirmar que havia deixado tudo para seguir a Cristo, Pedro pergunta o que aquela renúncia significou. A resposta foi imediata. Ele iria reinar com Cristo na vida eterna e receberia o cêntuplo (100 X) daquilo que havia renunciado.

Sabe o que isso nos ensina?

Viver renúncia é muito difícil, mas vale muito a pena. Ninguém perde quando a renúncia é feita por causa de Cristo. Não é que Deus vai nos deixar sem namorada, sem amigos ou qualquer outra coisa que tenhamos abandonado. Ele nos dá tudo isso de um jeito muito melhor do que tínhamos anteriormente.

Porque no Reino de Deus é assim: a renúncia trata de separar os homens dos meninos. Sempre!

O que você precisa abandonar em sua vida que tem feito você perder o Reino?

Por que ainda existem aqueles que trocam o Reino por uma “capa”, um “cântaro” ou mesmo “toda a riqueza do mundo”?

A renúncia tem lhe dado status de “homem” ou você é como o jovem rico que era um grande “menino”?

“Mas o que, para mim, era lucro, isso considerei perda por causa de Cristo.” (Fp.3:7)

Um grande abraço!!!

A lógica do Reino

Jacó era trapaceiro. Pedro, falastrão.

Davi foi infiel. Noé se embriagou.

Jonas fugiu de Deus. Paulo era um assassino.

Gideão estava inseguro. Marta estava angustiada.

Tomé era incrédulo. Sara, impaciente.

Elias estava deprimido. Moisés gaguejava.

Zaqueu era pequeno. Abraão, velho.

Maria Madalena era uma endemoninhada. Nicodemus, um medroso.

Sansão estava burro. Lázaro, morto.

Jesus era um carpinteiro. O Pai de Jesus, o ser mais fascinante do universo.

Porque no Reino de Deus, a identidade dos súditos se alicerça na identidade do próprio Deus. Alicerçados em amor, não há quem não possa se tornar plenamente apto para ser usado por Deus.

A lógica do Reino sempre aproveita a oportunidade de perguntar: você compreende o quanto Deus deseja usar a sua vida?

Um grande abraço!!!

Pequeninos

Tenho o imenso prazer de convidar para compartilhar conosco um pouco de sua experiência de vida e reflexões a respeito da relação com Deus o meu grande amigo Cacá (para os íntimos, Jhoseffer Bredley). Espero que consigam pensar na vida com seu texto assim como pensei na minha. Forte abraço!

           Certa vez um amigo meu me contou uma situação sobre seu filho mais novo que, quando eles estavam no aeroporto esperando o voo, seu filho brincava tranquilo, sem se preocupar com o horário do voo, atrasos, problemas de embarque, estava apenas aguardando seu pai. Ele me falou que quando ele precisava mudar de lugar, ir para outra sala, setor, o que for, ele chamava seu filho e o mesmo o seguia com a mesma tranquilidade de sempre.

               Por várias vezes, me pego conversando com algumas pessoas sobre como era bom quando eu era criança, do quanto eu brincava e me divertia com primos e amigos. As vezes, até com um certo orgulho, eu digo: “Isso sim foi ter infância, foi ser criança”. Dá até uma vontade de voltar a ser como era antes, como tudo era mais fácil. Como o filho do meu amigo, era bom não ter preocupações. Mas hoje somos “de maior” e não temos como voltar a ser crianças, pois somos independentes. Será?

               Observando o que o filho do meu amigo fazia e pensando nos meus tempos de criança, entendo melhor o que seria receber o Reino de Deus como uma criança, o Espirito Santo como uma criança. Esse pequenino estava apenas seguindo as ordens do seu pai sem preocupação, como se tivesse dizendo para seu pai: “Eis-me aqui”! A criança não tomava conta da situação, as preocupações daquele momento eram do pai, ele estava sendo dependente de seu pai. Mesmo sem saber, essa criança tinha em seu pai, sentia que ele cuidaria de qualquer situação e o seguia sem preocupação, pois seu pai estava do seu lado.

Marcos 10:15 – Digo-lhes a verdade: quem não receber o Reino de Deus como uma criança, nunca entrará nele.

                Que possamos lutar para receber o Reino de Deus como uma criança, sem malícia, totalmente dependente do Pai, sempre alegre e, quando chorarmos, que o colo do Pai seja nosso maior consolo e proteção. Que possamos sempre dizer a Deus no nosso dia-a-dia “Eis-me aqui”!Perguntar onde quer que eu sente no ônibus, com quem quer que eu almoce, e passar por essas situações, com a mesma segurança que um pequenino tem, ao andar segurando nas mãos de um Pai, sabendo que Ele irá cuidar de tudo e nos preservar.

O Reino de Deus

Jesus veio ao mundo para pregar as boas novas do Reino de Deus (Lc 4:43). Mas o que seria este tal Reino de que ele tanto falava?

No imaginário judaico era algo como o reino de Salomão ou de Davi – cheio de esplendor, de conquistas sobre outros povos, de fartura e no qual fossem explorados por nenhuma outra potência (Lc 14:15). Algo como uma retomada do poder político sobre a própria nação, dominada pelos romanos há algum tempo à época de Jesus.

No pensamento de muitos atualmente o Reino de Deus é um espaço físico com natureza exuberante, onde todos vestem branco, não há noite e que só conheceremos após a morte. A primeira opção mostrou-se errônea há quase dois mil anos e a segunda, permita-me discordar de quem pensa assim, também mostra-se equivocada.

Ao ler o evangelho de Lucas, fica claro que Jesus descrevia um Reino metafísico que seria conhecido do mundo após seu sacrifício na cruz. Um reino em que seria dos pobres (Lc 6:20). Um reino que já existia (Lc 7:28), mas que ao mesmo tempo era uma boa nova (Lc 8:1). Cercado de mistério (Lc 8:10), que deveria ser anunciado (Lc 9:2), um reino sobre o qual Jesus ensinava (Lc 9:11). Que estava próximo dos que eram contemporâneos a Jesus (Lc 9:27) e que não abria espaço para dúvida quanto a ser parte ou não (Lc 9:62) após um convite do Mestre. Um reino que chegava através de Jesus (Lc 11:20) após João (Lc 16:16) e que deveria ser buscado acima de comida, bebida ou qualquer outra preocupação desta vida (Lc 12:31). Que começaria muito pequeno e seria muito grande, como a semente de um grão de mostarda e sua árvore (Lc 13:18). Que cresceria como fermento em uma massa (Lc 13:20). Um reino de porta estreita e difícil acesso (Lc 13:28), em especial aos ricos (Lc 18:24). Que seria e é dedicado aos que desejam perder sua vida (Lc 17:33), um reino acessível a pessoas semelhantes às criancinhas (Lc 18:16), que exigia e exige renuncia e que também recompensa (Lc 18:29). Um reino invisível (Lc 17:20) que seria ocupado não só por Israel, mas por pessoas de todas as partes do mundo (Lc 13:29). Que uma vez conhecido, deve ser multiplicado pelos que dele usufruem (Lc 19:11). Um reino, enfim, aguardado por muitos (Lc 23:51) e que foi cumprido na morte e ressurreição de Jesus (Lc 22:16).

Este reino, segundo creio, é uma opção ao mundo em relação ao mal. Uma nova chance à humanidade de manter um relacionamento com Deus. Isto se mostrou possível por meio do pagamento do Pecado por Jesus na cruz e sua posterior ressurreição. Se minhas ideias estiverem certas, vivo neste reino há algum tempo e já tenho algo dele para lhe contar.

O Reino de Deus na Terra é formado pela comunhão de pessoas que lutam para viver os propósitos divinos. Nele não há espaço para falta, porque sempre que estou em necessidade sou ajudado pelos o compartilham comigo(At 2:42-47). Não há também lugar para preocupações intermináveis, pois buscando as coisas de Deus o restante me tem sido acrescentado (Mt 6:33). É um espaço definitivamente aberto a todos, porque não fui nenhum tipo de santo antes de nele entrar (Mt 21:31). É algo minimamente organizado, onde devo cumprir com duas regras básicas – amar e amar (Mc 12:34). Não é lugar de teoria, mas sim de vida prática (1Co 4:20) e por isto gosto dele. É o Reio que não é comida nem bebida, mas justiça, paz e alegria no Espírito Santo (Rm 14:17). É um reino em que há constante luta contra outro reinado que há no mundo há muitos e muitos milênios e por isto, difícil de se vivido.

Como fazer parte então de um reino que se mostra tão interessante? A resposta de Jesus em João 3 a Nicodêmos foi para que ele nascesse de novo. Este é meu desejo para você que leu até aqui, mas que ainda não conhece esta vida.

Não quero deixar de observar que nosso conhecimento da plenitude do Reino de Deus está reservado para depois daquilo que a Bíblia chama de juízo. O que gostaria de escrever hoje é que esta era, de uma forma ou de outra, já começou e está acessível a todos através da vida cristã genuinamente vivida. Reconheço que é complicado vivenciar o Reino de Deus se outros dele não partilham à nossa volta. Sou grato ao Pai por ter esta oportunidade.

Gostaria de terminar este pequeno estudo com uma reflexão. Se há um reino, o pressuposto básico é de que há um rei e súditos, e os súditos via de regra se sujeitam ao rei. Quem ocupa qual lugar na sua relação com Deus hoje?

Forte abraço.