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O insustentável preconceito do ser (II)

Esse tema ficou para mim bem forte quando me mudei para o estado de São Paulo e comecei a perceber diversos comentários “maldosos” sobre a minha origem mineira. Mas vi que nós, como sociedade, temos mesmo muitos preconceitos. À continuidade do texto da semana passada, deixo a vocês o depoimento da jornalista baiana Rosana Jatobá.

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“Era o admirável mundo novo! Recém-chegada de Salvador, vinha a convite de uma emissora de TV, para a qual já trabalhava como repórter. Solícitos, os colegas da redação paulistana se empenhavam em promover e indicar os melhores programas de lazer e cultura, onde eu abastecia a alma de prazer e o intelecto de novos conhecimentos. Era o admirável mundo civilizado! Mentes abertas com alto nível de educação formal. No entanto, logo percebi o ruído no discurso:

– Recomendo um passeio pelo nosso “Central Park”, disse um repórter. Mas evite ir ao Ibirapuera nos domingos, porque é uma baianada só!
-Então estarei em casa, repliquei ironicamente.
-Ai, desculpa, não quis te ofender. É força de expressão. Tô falando de um tipo de gente.
-A gente que ajudou a construir as ruas e pontes, e a levantar os prédios da capital paulista?
-Sim, quer dizer, não! Me refiro às pessoas mal-educadas, que falam alto e fazem “farofa” no parque.
-Desculpe, mas outro dia vi um paulistano que, silenciosamente, abriu a janela do carro e atirou uma caixa de sapatos.
-Não me leve a mal, não tenho preconceitos contra os baianos. Aliás, adoro a sua terra, seu jeito de falar….

De fato, percebo que não existe a intenção de magoar. São palavras ou expressões que , de tão arraigadas, passam despercebidas, mas carregam o flagelo do preconceito. Preconceito velado, o que é pior, porque não mostra a cara, não se assume como tal. Difícil combater um inimigo disfarçado (…).

Numa das conversas que tive com a jornalista Miriam Leitão, ela comentava:

-O Brasil gosta de se imaginar como uma democracia racial, mas isso é uma ilusão. Nós temos uma marcha de carnaval, feita há 40 anos, cantada até hoje. E ela é terrível. Os brancos nunca pensam no que estão cantando. A letra diz o seguinte:

“O teu cabelo não nega, mulata
Porque és mulata na cor
Mas como a cor não pega, mulata
Mulata, quero o teu amor”.

“É ofensivo”, diz Miriam. Como a cor de alguém poderia contaminar, como se fosse doença? E as pessoas nunca percebem (…).

A origem social é outro fator que gera comentários tidos como “inofensivos” , mas cruéis. A Nação que deveria se orgulhar de sua mobilidade social, é a mesma que o picha o próprio Presidente de torneiro mecânico, semi-analfabeto. Com relação aos empregados domésticos, já cheguei a ouvir:

– A minha “criadagem” não entra pelo elevador social! (…)

Mulher é rainha no dia oito de março. Quando se atreve a encarar o trânsito, e desagrada o código masculino, ouve frequentemente:

Só podia ser mulher! Ei, dona Maria, seu lugar é no tanque! (…)

A mesma superficialidade em abordar as características de um povo se aplica aos árabes. Aqui, todos eles viram turcos. Quem acumula quilos extras é motivo de chacota do tipo: rolha de poço, polpeta, almôndega, baleia… (…).

O preconceito nas entrelinhas é perigoso, porque , em doses homeopáticas, reforça os estigmas e aprofunda os abismos entre os cidadãos. Revela a ignorancia e alimenta o monstro da maldade.

Até que um dia um trabalhador perde o emprego, se torna um alcóolatra, passa a viver nas ruas e amanhece carbonizado:

-Só podia ser mendigo!

No outro dia, o motim toma conta da prisão, a polícia invade, mata 111 detentos, e nem a canção do Caetano Veloso é capaz de comover:

-Só podia ser bandido!”

Por Rosana Jatobá

E você, caro leitor, quais são seus preconceitos “subliminares”?

O insustentável preconceito do ser (I)

“Foi mal, não sabíamos que ele era índio, achamos que era só um mendigo” (1997, quando jovens de Brasília queimaram o índio Galdino)

“Foi mal, não sabíamos que eram pai e filho, achamos que era um casal gay” (2011, quando homens mutilaram pai e filho, achando que eram um casal gay)

Me corta o coração ver quão preconceituosa é a nossa sociedade brasileira. Matar índio não pode, mas matar mendigo pode. Espancar pai e filho não pode, mas espancar gay pode. Isso justifica alguma coisa?

O pior aqui é que ultrapassaram a linha da agressão verbal ou moral para a agressão física, chegando a mutilar ou mesmo matar aquele que é “diferenciado”. Violência contra algum grupos específico nunca é justificável, seja ela realizada pelo próprio Estado ou por particulares.

Poucos meses atrás, soubemos do caso do metrô em Higienópolis: moradores do chique bairro de tradição judaica de São Paulo não queriam que ali fosse construída uma estação de metrô por medo das pessoas “diferenciadas” que poderiam aparecer por ali. Como ousariam as pobres empregadas domésticas das dondocas quererem formas de transporte mais dignas até seu trabalho? Como ousar desrespeitar a sagrada ordem de que a cidade foi feita pros carros e só se locomove quem tem dinheiro para comprá-los?

Enquanto continuarmos vendo no pobre, na doméstica, no flanelinha, no índio, no gay, no negro aquele que é diferente e que “não merece respirar o mesmo ar que eu”, nunca vamos ver que todos têm (ou deveriam ter) os mesmos direitos e as mesmas oportunidades. Mas é muito fácil e confortável continuar no nosso mundinho de classe média e fingir que nada disso é conosco, continuar fazendo os comentários classistas de sempre, continuar defendendo as posições “da elite” de sempre ou daquilo que supostamente é bom e tradicional.

Nós, como sociedade, somos assim: preconceituosos.

Deixo com vocês um vídeo que, a meu ver, resume bem quem somos e como pensamos como sociedade brasileira.

Roda a roleta

Semana passada estava dando uma volta com um mercedes benz coletivo (diga-se ônibus) e estava observando um homem humilde e meio lesado pegando carona na porta do veículo. Quando parávamos no ponto o sujeito insistia em sentar nos degraus da porta e toda vez o trocador o xingava e exigia que ele saísse. Aquilo me incomodou. No próximo ponto a porta abriu e eu disse para ele entrar, o trocador começou a xingá-lo e eu me dirigi até ele com dinheiro em mãos e disse: “roda a roleta”.

Fiquei pensando um pouco na vida desse sujeito: será que teve chances? Por que era meio lesado? Por que estava pegando carona de forma perigosa no ônibus? Quando o coloquei para dentro, meu coração preconceituoso questionou se fiz certo. E se ele fizesse algo errado dentro do ônibus, o que os outros iriam pensar do idiota que o colocou para dentro?

Nesse momento me lembrei de uma passagem que gosto muito em Lucas 19, a história de Zaqueu. O cobrador de imposto odiado por toda uma cidade. Fiquei pensando que nada conseguiu mudar aquele homem. Nenhuma pressão social, nenhum dedo em riste, nenhum xingamento, nenhum tipo de humilhação pública. Nem tendo toda uma cidade contra fez com que ele mudasse seus hábitos ruins. A única coisa que o mudou foi um papo cheio de aceitação e palavras de afirmação que teve com Jesus. Esse era o método Dele ao lidar com o próximo: aceitação e afirmação! Creio que essa é a forma que devo tratar o próximo também. Principalmente aqueles que são rejeitados na sociedade. Se continuar a tratá-lo como um animal, ele se tornará um animal!

No fim daquela viagem de ônibus, ainda com conflitos em meu coração, aquele homem, que desceria no próximo ponto, chegou perto de mim, abriu um sorriso, e disse: “Deus te pague!”

Enquanto via ele descendo pensei: “Ele já pagou!”

Abraço e até a próxima!

Tribos

No livro de Efésios Paulo trabalha de forma sistemática um grande desafio de Deus aos homens: O desafio de trocar o antigo pelo novo. Uma nova vida (capítulo 2:1-10), uma nova humanidade (capítulo 2: 11-22), uma nova comunidade (capítulo 5:15-21), uma nova família (capítulo 5:22- 6:4). Gostaria de compartilhar sobre uma nova humanidade.

Vivemos em um mundo totalmente fragmentado, o homem pós-moderno busca pequenos grupos com os quais se identificam para descobrir nessa dinâmica social as “verdades” que servem para eles. Vemos, principalmente entre os jovens, o surgimento das chamadas tribos. Essas tribos se formam, criam leis próprias, vestimentas próprias, gírias (ou dialetos de acordo com os racionais) e acabam se fechando. Quando se fecham começam a definir mecanismos de defesas para sua sobrevivência e passam a ter outras tribos como adversárias. Esse tipo de atitude acaba gerando um grande muro de inimizade entre tribos, entre pessoas. Esse muro de inimizade é muito claro quando se pratica violência explicita contra outros grupos (ex.:neo-nazistas espancando homossexuais ou negros), mas ele é menos claro em grupos que inconscientemente praticam a indiferença, o gelo.

Fico triste de pensar que a tribo cristã (amplamente dividida por razões estúpidas na maioria das vezes) acaba se fechando também e se esquecendo a oração de Jesus em João 17: “Não rogo que os tires do mundo, mas que os protejas do maligno.”(v.15). Tentamos viver em bolhas, sem contato com os impuros, nos fechando com nossas práticas, gírias e hábitos.

Na época em que Paulo escreveu esse livro existia duas grandes tribos: Os judeus e os gentios. Todos que não estavam entre os judeus eram os impuros gentios e isso trazia uma grande divisão na região (e porque não no mundo da época, já que os judeus estavam espalhados por ele).Paulo fala que Cristo veio para destruir o muro de inimizade entre essas tribos: “Pois ele é a nossa paz, o qual de ambos fez um e destruiu a barreira, o muro de inimizade”(Ef.2:14). Esse verso é verdadeiro! Me lembro de participar de um acampamento onde o evangelho seria proclamado para jovens que não tinham relação com Cristo. Eu era um dos responsáveis pela viagem e, quando vi a turma chegando pensei: “vamos ter problemas!” Durante uma semana teremos pagodeiros, discípulos de Bob Marley e punks convivendo em uma fazenda. Mas aquela semana foi marcante e maravilhosa, principalmente quando vi uma jovem (líder das punks e que tinha levado uma boneca com uns 15 piercings pelo corpo) aceitar Jesus e orar com uma pagodeira de carteirinha. Naquela hora vi que Cristo ainda continua derrubando muros de inimizade pelo mundo. Creio que temos a função, como seus seguidores, de desconstruirmos muros e construirmos pontes que levem as pessoas de qualquer tribo a conhecer seu verdadeiro criador!  Ao invés de nos fechar em uma enorme tribo deveríamos ser enviados às tribos de todo o mundo para construir essas pontes e apresentar um amor que vale a pena!

Você contribui com a construção de muros ou pontes? O que te impede de sair de sua zona de conforto e ser enviado para uma tribo?