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A Lição do Galo de Barcelos

O galo de cerâmica que é um ícone de Portugal tem suas origens em uma história antiga…

O Galo de Barcelos em um conceito bem mais moderno. Design de Gatafunchos.
O Galo de Barcelos em um conceito bem mais moderno. Design por gatafunhos.pt

Reza a lenda que houve em uma cidadezinha portuguesa um crime cujo culpado não fora encontrado. Um galego que peregrinava por aquelas bandas foi então acusado do crime, sendo assim condenado à morte. Em desespero, gritou ao juiz que jantava um galo assado, que tão certo era a inocência dele quanto aquele galo cantaria. Óbvio que o galo cantou, senão dificilmente seria uma lenda.

Julgar e Conhecer

É interessante que justamente uma pessoa desconhecida, o estrangeiro, seja a culpada. Porque mesmo que tivéssemos razão em condenar alguém, isto só é fácil se não a conhecemos. Se não calçamos seus sapatos e não sabemos onde que aperta. Se não sabemos “a dor e a delícia do ser o que é”.

A pessoa no lugar da pessoa

Não é suficiente você estar no meu lugar. “No seu lugar eu não agiria assim”. Evidente que não. Como disse um filósofo certa vez: “Você não me é”. Você não tem a minha história de vida. As coisas que para mim remetem a traumas, para você são super bem resolvidas. Você não poderia agir como eu a menos que você me fosse.

Conhecer

Somente quando estou a par da sua história é que eu posso entender. Não posso sê-lo mas posso compreendê-lo parcialmente. Melhor do que nada. Quando o conheço, sei que para você aquela situação é mais difícil do que para o resto, entendo porque você ficou exaltado. Eu ficaria tranquilo, mas você não. Fique claro: conhecê-lo não o justifica. Mas explica muita coisa.

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Agradecimentos especiais: Alê que sempre fala deste trecho da dor e a delícia do ser, Nat Gesualdi que foi quem nos iluminou com o pensamento que eu chamo de “A pessoa no lugar da pessoa”, Marcelinho que com o seu ápice filosófico também nos iluminou e o Homero, que foi de quem eu ouvi esta ilustração de calçar os sapatos.

Hoje eu acordei meio Guarani

Faço uma disciplina X no departamento de Antropologia da UFMG. Não sou da área, mas me divirto imensamente nas aulas, não só pela desconstrução que fazemos da nossa própria sociedade, mas também das pérolas que já escutei. Cito algumas imperdíveis:

“Professora, já entendi como os ameríndios vêem os botos… Mas o que eu quero saber é como o boto vê os ameríndios?”
“Uma pergunta que eu sempre quis fazer: as formigas podem ser consideradas seres humanos?”
“Eu acho que os índios, por telepatia, lançaram as bases do pensamento ocidental pós-moderno.”

Brincadeiras a parte (mas pior que isso foi sério!), essa matéria me fez refletir em muita coisa da minha vida e da sociedade brasileira pré e pós constituição de 1988. Essa constituição deu muito valor ao indígena e inclusive representou muito avanço na questão de demarcação de reservas e de incentivo à cultura deles. Isso fez também com que a questão indígena fosse cada vez mais discutida.

A gente tem a idéia de que índio que é índio vive no meio da floresta, não pode ter contato com o branco nem se apropriar de nada que é dele. Índio que usa calça jeans, tem celular e faz fogo com palito de fósforo não é índio. Aí eu te pergunto: Você fala inglês? Isso faz de você inglês ou estadounidense? Você usa Adidas? Isso faz de você alemão? Você come mandioca? Isso faz de você índio? Não? Então porque é que nós discriminamos o índio que se apropria de outras coisas? Como se a cultura e a sociedade fossem algo estático… Coitado do índio, foi forçado a ser branco e agora o forçam a voltar a ser índio. “Índio tem é que ficar perdido no tempo mesmo, continuar como em 1500, senão não tem valor”. Mas se ele tenta ser índio, dizem que o faz por interesses (terras, auxílios diversos, dinheiro). Ele tenta ser branco, o xingam de aculturado.

Torre de Belém, de onde o rei via as caravelas se dirigindo ao "desconhecido"
Torre de Belém, de onde o rei via as caravelas se dirigindo ao "desconhecido"

Outra coisa engraçada é que enquanto os portugueses já não usam mangas bufantes nem andam por aí em caravelas, o índio tem que continuar exatamente igual como foi “descoberto” . Aliás, esse é outro termo que me dá nos nervos… Se os islandeses chegassem aqui hoje e dominassem o Brasil eles o teriam descoberto? Não, teriam invadido! O que os portugueses fizeram em 1500 foi invadir, não descobrir, já tinha gente aqui… Li um texto de uma liderança Guarani e achei muito interessante o ponto de vista do índio: ele conta que foi escolhido pra ser representante dos Guaranis na comemoração de 500 anos de resistência do seu povo. Aí mandaram ele pra Portugal e quando ele chega lá fica sem entender, porque eles estavam comemorando os 500 anos de descobrimento. É legal ver o ponto de vista dele, pois muitas vezes repetimos as coisas sem nos dar conta do sentido daquilo. Talvez se o fizéssemos, esse termo carregado de etnocentrismo e preconceito não seria ensinado nas escolas sem a devida reflexão.

Hoje em dia a cultura “branca” e até mesmo a “negra” têm mais expressão/influência na sociedade que a indígena (pelo menos no nosso mundinho do sudeste), apesar de por exemplo (ainda bem!) os portugueses terem adquirido dos índios o bom hábito de tomar banho. Um exemplo nojento: O pomposo Rei-Sol francês tomou quantos banhos em sua vida? a) inúmeros; b) pelo menos 1 por semana; c) 2 em toda a sua vida. A sebosa resposta é a letra c. Imagina?

Detalhe do Monumento ao Descobrimento em Belém, Portugal
Detalhe do Monumento ao Descobrimento em Belém, Portugal

Tupy or not tupy. That is the question.

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P.S.: Que fique claro que eu adoro os portugueses (Isso é por caso de a Rita estar lendo)!