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Tomando forma

E o tempo passou.
Ah, muito se passou,
de forma que os anseios e orações se perderam nos quartos mais remotos da memória.

Lembranças de um tempo bom,
Difícil, mas ainda bom,
Que abriu feridas, que deixou traumas, mas que de alguma forma deu forma à fé.

Tempo que abriu as portas,
Que fez o machucado coração
se convencer da sua condição, perceber que Deus é bom e dar de si uma porção.

E foi tomando forma!
A que dantes perseguia
Agora serve, agora busca, e entrando na história Dele a si mesma se esvazia.

E por falar em história,
tem ela história pra contar…
De como um Deus de longe se fez de perto, mostrando bem que sabe bem amar.

Dizem que é assim:
Que o bom Deus concede a nós
muito mais do que se pode pensar, mais do que se pode imaginar.

Não é que assim foi?
E quando o céu se rasgou
Ele disse:
“Tu és meu filho amado, e olha, do teu lado, tua mãe, minha filha amada.”

“Desta história construída
em família de normais
resolvi mostrar pro mundo que EU ofereço muito mais. Muito mais!

“Da labuta e do sofrimento
No meio de tanta dor,
Quis mostrar para vocês que Meu nome  é AMOR”

Pois cuida, Oh Deus
Dessa mulher que é virtuosa.
Faz reta as suas veredas e do mal a afasta pra sempre, a partir de agora.

Por que já não merece sofrimento;
Antes, dá a ela amor e alento.
Pre’la ir tomando forma, pre’la ir fazendo festa, pre’la nos fazer gostoso alimento!

Que é pra ela mostrar pro mundo
Que o Senhor é Deus real.
Como mostrou pro teu pobre servo, que não merecia o que ganhou afinal.

E que daqui alguns carnavais
a gente se lembre daquele dia.
Em que o céu se rasgou, em que a pomba desceu e em que o coração se encheu de alegria!

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Dedico este texto – sem talento, sem métrica, de rimas toscas (me perdoem por isso, leitores!) mas de uma sinceridade e amor imensos – à minha querida mãe, que nesse carnaval decidiu provar o quão Deus é bom e fiel, externalizando pro mundo a decisão que mudou a sua vida!Foram anos dedicados a oração e à súplica, pedindo ao bom Deus que ela se convencesse do seu amor e da necessidade do sacrifício de Jesus Cristo. Agora, Patrícia Machado Mitre, é hora de irmos juntos tomando forma! Forma daquele que tomou a nossa forma, pra gente poder ter o privilégio de viver o que estamos vivendo hoje! Amo você, e que a paz do nosso Senhor Jesus Cristo esteja com você até que não possamos mais contar os nossos dias!

“Provai, e vede que o Senhor é bom; bem-aventurado o homem que nele confia.”
Salmo 34:8

Riquezas do Cotidiano

De repente uma amiga despretensiosamente lê para você um poema de Arnaldo Antunes que marcou seu dia. Marcou mesmo. E por isso compartilho e agradeço à minha amiga Lorena Mariano pela leitura aleatória rica de reflexão.

“Eu apresento a página branca.

Contra:

Burocratas travestidos de poetas
Sem-graças travestidos de sérios
Anões travestidos de crianças
Complacentes travestidos de justos
Jingles travestidos de rock
Estórias travestidas de cinema
Chatos travestidos de coitados
Passivos travestidos de pacatos
Medo travestido de senso
Censores travestidos de sensores
Palavras travestidas de sentido
Palavras caladas travestidas de silêncio
Obscuros travestidos de complexos
Bois travestidos de touros
Fraquezas travestidas de virtudes
Bagaços travestidos de polpa
Bagos travestidos de cérebros
Celas travestidas de lares
Paisanas travestidos de drogados
Lobos travestidos de cordeiros
Pedantes travestidos de cultos
Egos travestidos de eros
Lerdos travestidos de zen
Burrice travestida de citações
água travestida de chuva
aquário travestido de tevê
água travestida de vinho
água solta apagando o afago do fogo
água mole sem pedra dura
água parada onde estagnam os impulsos
água que turva as lentes e enferruja as lâminas
água morna do bom gosto, do bom senso e das boas intenções
insípida, amorfa, inodora, incolor
água que o comerciante esperto coloca na garrafa para diluir o whisky
água onde não há seca
água onde não há sede
água em abundância
água em excesso
água em palavras.

Eu apresento a página branca.

A árvore sem sementes.

O vidro sem nada na frente.

Contra a água”.

                    Arnaldo Antunes

O jardim do amor

“tendo ingressado no jardim do amor,

Deparei-me com algo inusitado :

Haviam construído uma capela

No meio,  onde eu brincava no gramado.

E ela estava fechada ; ‘tu não podes’

Era a legenda sobre a porta escrita.

Voltei-me então para o jardim do amor,

Onde crescia tanta flor bonita,

E recoberto o vi de sepulturas

E lousas sepulcrais, em vez de flores ;

E em vestes negras  e hediondas os padres  faziam rondas,

E atavam com nó  espinhoso meus desejos e meu gozo. ”

William Blake