Arquivo da tag: perdão

Pedro, Jesus e eu – a história da nossa amizade

O discípulo de Jesus com o qual mais me identifico é Pedro. Talvez pelas falas sem pensar, talvez pela maneira impulsiva como demonstrou amor por Jesus, não sei… Sempre que leio suas histórias na Bíblia penso que teria agido de maneira semelhante à dele na ocasião.

Pedro chama a atenção logo no início dos evangelhos por ser pescador profissional e obedecer ao comando de Jesus de lançar redes ao mar novamente após uma noite inteira de pescaria frustrada. Durante toda a história do ministério de Jesus ele continua se destacando entre as linhas da Bíblia com suas falas apressadas, como por exemplo quando o repreende por dizer que não deveria sofrer e morrer. Mas Pedro não surpreende só por bobagens, é dele uma das falas mais presentes e estimulantes da minha vida cristã: “pra quem iremos, Senhor. Tu tens a palavra da vida eterna” (Jo 6:68) ao reconhecer Jesus como único caminho.

Apesar dos três anos andando ao lado de Jesus, às vésperas da morte dele, uma fala soa um tanto quanto estranha: “tu, quando te converteres, confirma teus irmãos” (Lucas 22:32). Como assim? Pedro viu o próprio Jesus tão de perto por tanto tempo, fazendo e acontecendo, e não havia se convertido ainda? Não! E as três vezes que o negou quando pressionado faz crer que ele realmente parecia não conhecê-lo.

Mas Jesus já sabia disto e creio eu ser esta a motivação de uma fala presente num dos versículos mais bonitos da Bíblia na minha singela opinião. Quando Maria Madalena, Maria (mãe do Tiago) e Salomé foram ao túmulo visitar Jesus morto não o encontraram. O anjo que estava sentado no lugar de Jesus disse que ele havia ressuscitado e falou para que elas dissessem aos discípulos e a Pedro que eles o encontrariam na Galileia (Marcos 16:7). O perdão ficou ainda mais claro na fala do anjo.

Jesus, do lugar onde estava na história, conseguia ver bem o que se passava à sua volta. Ele sabia o que estava no coração de cada uma das pessoas que cruzaram seu caminho. E viu o quanto Pedro almejava ser visto ao lado do Rei de Israel, nos moldes como julgava o discípulo que seria. Sabia (tanto que disse que aconteceria) que Pedro iria negá-lo três vezes apesar das suas muitas declarações de amor. Por outro lado, deve ter visto o quanto ele o amava. Após a ressurreição, numa praia como no início, quando se conheceram, Jesus convida Pedro para que se responsabilizasse por suas ovelhas. Antes ele o questiona por três vezes que tipo de amor seria aquele. Pedro, de forma brilhante, lhe responde que ele sabia como o amava, cheio de erros, mas qual o tamanho daquele amor.

Identifico-me com Pedro não só nas falas impulsivas, mas também nas dificuldades para seguir Jesus todo o tempo. Por isto gosto tanto das passagens bíblicas em que ele aparece. São momentos de transparência e de demonstração do amor de Jesus por ele, apesar dos pesares. Assim como Jesus aceitou aquele pescador rude, creio que também me aceita. A pergunta acima de como Pedro não havia recebido Jesus após três anos andando ao lado dele encontra resposta quando olho para minha vida. Após longos 12 anos como cristão ainda sinto a necessidade de recebê-lo tal como na primeira vez que ouvi falar do seu amor por mim. Assim como Pedro errou feio andando tão próximo do próprio Cristo, vejo o quanto peco mesmo tendo vivido aventuras tão loucas ao lado do meu amigo Salvador durante todo este tempo. Assim como Jesus sabia do pecador que Pedro era e o amou, creio que tem feito comigo hoje e agora.

Este post é para você, que começou a andar com Jesus, mas que ainda não o recebeu, para que pense seriamente neste assunto. Pedro e eu somos testemunhas de quanto vale a pena. Este post é principalmente para você, que andou todo este tempo com Jesus, para que se lembre de recebê-lo. Este post é para mim mesmo, para me lembrar todo dia do amor de Jesus, aquele demonstrado a Pedro.

Se não conhece bem a história de Pedro e Jesus deixo também a sugestão de ler os quatro evangelhos, o livro de Atos e as cartas escritas por Pedro, são todos livros muito ricos.

Mudando a lógica do mundo: um sonho para sonhar em comunidade

Há alguns dias chegou um e-mail na minha caixa de entrada com um relato sobre um sonho. Meu amigo provavelmente acordou e correu para o computador para digitar. Trata-se de uma grande aventura vivida por ele e alguns de seus melhores amigos. Com vocês o relato de Amílcar Reis:

Bom dia a todos,

Há alguns dias tive um sonho que vale muito a pena compartilhar, um sonho com muita esperança.

Este sonho foi um pouco diferente, primeiramente porque foi um sonho sequencial e também por causa da sequência de fatos que se sucederam.

Na primeira parte do sonho eu sonhei que estava numa serra próxima a BH orando a noite toda com alguns amigos, dentre eles o guilherme (que acabou de casar), o Badangui, o Rod´s e o Arapa, sendo que o Arapa tinha ido comigo para a serra de carona.

A segunda parte começou quando voltamos do tempo de oração num trailer que, no sonho, era de minha propriedade. Quando paramos o trailer a galera foi comer um café da manhã, mas como o Arapa tinha que trabalhar e estava de carona comigo, eu tinha que levar ele em casa. Na sequência, conforme tinha combinado com o Arapa, pegamos um outro carro de minha propriedade, um calhambeque e, na emoção, fomos para a casa dele (emoção porque no trajeto para a casa dele tinha uma descida muito grande e mal o freio funcionava… hahahaha)… bom, paramos o carro, ou melhor o carro desapareceu (já que se trata de um sonho) e eu passei a andar a pé com o Arapa, falando das experiências que tivéramos com Deus na serra…

Detalhe o Arapa nesse sonho era policial federal.

Quando estávamos perto de uma perigosa favela no caminho pra casa do Arapa, nos deparamos com três pessoas correndo e fazendo algazarra, como se procurassem por alguém. Para evitar o encontro com essas pessoas, Arapa e eu entramos correndo na locadora e fechamos a porta. Quando os meliantes nos viram reconheceram o Arapa e falaram que ele era policial e que o chefe deles mandou buscar e matar todos policiais, afirmando que só queriam levar o Arapa para ser executado e que me deixariam em paz.

A verdade é que eu muito desse meu amigo (Arapa) e nem em sonho poderia deixar alguma coisa assim acontecer. Logo, quando olhei para os meliantes, que eram apenas dois jovens, quase crianças, disse: “vou sair, mas vocês não irão invadir o local”. Quando sai me dispus a ir com eles em troca do meu amigo, como se o policial fosse eu.

No caminho para onde eles estavam me levando os meliantes me informaram que era morte na certa e eu me preparei. Ocorre que ao invés de ficar com medo, comecei a falar de Deus e da experiência de oração que acabáramos de ter na Serra e como Deus era bom, eles diziam não ter escolha e que era para eu me calar, mas a cada passo eu falava mais e orava em voz alta.

Atento às minhas palavras, um deles deixou escapar que a mãe dele era muito firme com Deus.

Quando chegamos no local combinado, eles pegaram a chave de um açougue e resolveram me entregar ao chefe deles para ser morto.

Frente à possibilidade de ser executado, uma paz muito grande me sobreveio, de modo que eu nada temia, como se entendesse, naquele momento, a alegria que seria me encontrar com o Pai.

Porém, antes que eles entrassem comigo no local da execução, um grupo de agentes federais (vestidos como se fossem agentes do FBI) chegaram com o Arapa (que era um deles) para me salvar.

Quando entramos no “açougue” a família do garoto, que me falou da mãe cristã, estava vendo a cena do filho sendo preso por atos ilícitos. A imprensa estava presente para noticiar tudo; os agentes estavam esperando o meu testemunho do acontecido; os dois meninos, que agora não passavam de duas crianças no chão, estavam com rostos impassivos e tão culpados quanto a morte, e, por fim, eu também  estava no local e meu testemunho tinha poder de vida e de morte para esses dois…

Quando me perguntaram a minha versão dos fatos não tive dúvidas, falei que conhecia aqueles garotos (e realmente conhecia) e que fora convidado para andar com eles (e realmente fora), que eram crianças maravilhosas e que jamais tentariam nenhum mal contra a minha pessoa (e realmente não mais tentariam)… Que fora um erro de interpretação do meu amigo que por ser policial viu algo e teve a melhor das intenções querendo me ajudar…

Nessa hora, o chefe da polícia ficou doido, falou que eu era doido de falar isso na frente da imprensa, de falar bem das crianças com as portas abertas para a imprensa ouvir. Já as crianças não acreditaram no que se passava, os olhos deles eram de quem não acreditava no que estava acontecendo, e de quem estava sendo purificado de algum mau interior.

Neste momento algo diferente aconteceu, o mau daqueles meninos se manifestou como numa nuvem que se fundiu com a imprensa e com o chefe de polícia que, agora, numa só forma, tentaram me agredir por estar salvando aquelas crianças que não mereciam graça nenhuma e eu respondi que era tudo pelo amor de Deus que é o único que pode transformar o mais duro dos corações, nessa hora essa coisa do mau em que haviam se transformado o mau das crianças, o chefe da polícia e a imprensa, explodiram em feixes de luz que iluminou todo o lugar…

Na sequencia, com as luzes diminuindo, pude ver que o aquele local era outro, não era mais um lugar no qual imperava o julgamento e a morte, e que a família do garoto estava ao meu lado sorrindo para mim, e não só isso, que aquele garoto que outrora era mau e visava me matar estava agora trajando uma roupa clara e bonita, ele me explicou que era a roupa do colégio dele e que agora estava muito feliz estudando em um lugar que lhe dava muita dignidade e esperança de vida…

Eu sei que foi só um sonho, mas foi muito real, muito emocionante e eu não duvido das respostas que ele me deu: “só Deus pode mudar esse mundo, só Deus traz esperança”… Ainda que a morte fosse meu fim, naquele momento eu estaria feliz, porque morreria como um mártir ao levar Deus aos meus assassinos, e poderia ter plantado uma semente como Estevão fez com Paulo.

Também me fez entender que ninguém é tão culpado e mau que o amor de Deus não consiga alcançar. Não creia no mau onipotente que a imprensa tenta te passar como existente, não creia nos datenas da tv, algozes da esperança, que acham que algumas pessoas se tornam inatingíveis ao amor de Deus e, como justos juízes, sentenciam os Saulos de hoje à morte.

Que esse meu sonho seja uma mudança de pensamento e postura no nosso dia a dia, e que coloquemos no devido lugar quem merece, e que nossos bens e até nossas vidas não sejam mais importantes do que falar do nome de Cristo, ainda que diante da morte certa, face a face com nosso executor.

Mais uma vez afirmo que sei que foi só um sonho, mas a verdade é que no Reino de Deus aqui próximo da Terra a lógica que impera é a desse sonho e não a de enfrentamento, revide e retaliação que tanto é pregada pela TV… tenham todos uma excelente semana…

bjos e abraços…

A base de todo relacionamento duradouro

Certa vez li que os artistas são os radares da humanidade. Creio que existem artistas que conseguem expressar em palavras, pinturas, esculturas, músicas coisas que mexem com a humanidade. Hoje gostaria de colocar uma letra de música de um desses radares. Com vocês “A Minha Gratidão É Uma Pessoa” de Nando Reis:

Depois de pensar um pouco
Ela viu que não havia mais motivo e nem razão
E pode perdoá-lo

É fácil culpar os outros
Mas a vida não precisa de juizes
A questão é sermos razoáveis

E por isso voltou
Porque sempre o amou
Mesmo levando a dor
Daquela mágoa
Mas segurando a sua mão
Sentiu sorrir seu coração
E amou como nunca havia amado

Mas como começar de novo
Se a ferida que sangrou
Acostumou a me sentir prejudicado

É só você lavar o rosto
E deixar que a água suja
Leve longe do seu corpo
O infeliz passado

E por isso voltou
Pra quem sempre amou
Mesmo levando a dor
E aquela mágoa
Mas segurando a sua mão
Sentiu sorrir seu coração
E amou como nunca havia amado

E viveram felizes

E para sempre eles estavam livres da perfeição que só fazia estragos

Vivemos em um mundo de relacionamentos descartáveis. Creio que as pessoas tem arraigado dentro delas as histórias da comédias românticas tão populares hoje. O problema é o conceito passado: não está feliz com o relacionamento, troque! O novo será um conto de fadas! E geralmente o filme acaba com a perfeição de um novo relacionamento que já dura 3 dias! O filme não continua para mostrar que esse novo relacionamento de contos de fadas, apresenta também os seus problemas! Uma coisas é certa: nenhum relacionamento é perfeito! Simplesmente pelo fato das pessoas que estão inseridas nesse relacionamento não serem perfeitas o relacionamento também nunca será! Mas o mundo em que vivemos diz: “se deixou de ser perfeito, descarte!”. Vejo no futuro (na verdade, já vejo) um mundo de solitários e solitárias que não aprenderam que a base de todo o relacionamento é o perdão! Não aprenderam que o melhor para o relacionamento é ficarem “livres da perfeição que só fazia estragos”. E é aí que deixamos de cumprir o mandamento “não matarás”! Vivemos em um mundo de “serial killers” relacionais, que por falta de perdão vão “assassinando pessoas de seu convívio!

O perdão não é fácil, mas concordo com o poeta que diz:

“E por isso voltou

Porque sempre o amou

Mesmo levando a dor

Daquela mágoa”

“É só você lavar o rosto

E deixar que a água suja

Leve longe do seu corpo

O infeliz passado”

A dor é real, o amor contribui para a cicatrização! Mas a busca pelo perfeito geralmente traz mais dor!

Talvez seja o momento de ressuscitar aquela pessoa que você matou de sua vida!

*Dedico esse post à minha querida e amada esposa, Camila, que, com certeza, tem que por em prática todas essas ideias pois deixou de buscar o príncipe encantado e se casou com o sapo!  E também por ser ela que me chama atenção para letras de músicas que nos enriquecem! Impressionante como te amo muito mais hoje do que da primeira vez que te beijei!

Abraço e até a próxima!

Obrigado pela parte que me toca

Obrigado. Isso mesmo, obrigado.
Posso certamente dizer que com você pude viver uma experiencia muito diferente. Foi mais certamente ainda muito difícil no início e, de novo, certamente não chega a ser fácil. Mas sim, foi muito importante.

Obrigado, pois acho que nunca tive tantas razões para odiar alguém. Nem nunca antes tive alguém que pudesse chamar sem medo de meu inimigo.

E então há você.

Com sua graciosa existência. Sua semelhança divina – como de fato todos nós temos. Sua liberdade para escolher e suas escolhas erradas. As escolhas pelas quais disse que poderia te odiar. E de fato ainda odeio.

Contudo não é pelo ódio que sou grato. Ainda bem! Sou grato pelo que pude aprender com isso. De verdade.

Obrigado pela oportunidade de lutar para amar um tão declaradamente inimigo. Obrigado por que este claramente é um desafio não trivial. Obrigado porque você me deu a oportunidade de me aperfeiçoar.

Obrigado porque você me mostrou como que são verdadeiros e práticos os ensianamentos de Jesus e de Riobaldo. Obrigado pois isso aumentou minha fé no primeiro e me fez recordar a tacanha sabedoria do segundo.

Obrigado porque senti na pele que cultivar o ódio trará só a mim mais problemas e que o amor é o caminho mais excelente.

Siga em paz. Não erre mais. Espero esquecê-lo e um dia plenamente o perdoar.

Que o Senhor te acompanhe.

Também não condeno

O que aconteceu? Ainda não consigo compreender. Jamais imaginei algo do tipo, não de você. Isso tudo é tão estranho. O que você fez foi muito ruim! Como pôde deixar de lado tudo o que havia construído ao longo de tantos anos? Como pôde desconsiderar que outros existem e que suas atitudes interferem na vida deles? Jogar com pessoas, brincar de pecar… Por que as coisas tomaram este rumo? E nosso velho sonho de sermos como Jesus, o que foi feito dele? Quando foi que suas ações deixaram de seguir suas palavras? Não estou tão bravo quanto triste. Uma angústia muito grande toma conta de mim. É difícil simplesmente esquecer toda essa história e seguir a vida como se nada tivesse acontecido. Quando será que as coisas voltarão ao normal? Será que um dia voltará ao normal? O que é o normal?

Mas sei que você não foi a primeira pessoa a errar nesta vida. Sei que há coisas que fogem ao nosso controle quando começamos a errar. Sei que também já errei, não exatamente como você, mas já ultrapassei os limites alguma vez na minha vida. E me lembro que Deus me perdoou, e todas as pessoas que havia magoado também. O perdão não significou ter meus relacionamentos intactos, muitas amizades se foram neste caminho. A de Cristo permaneceu, aliás, ficou ainda mais forte. Nada há oculto que não venha a ser manifesto. Que bom que ele permitiu que tudo viesse à tona para que pudesse ser resolvido. Sei que Deus, como agiu comigo, também lhe perdoa. Este é o mistério de sua graça – nada há que faça com que Ele lhe ame mais do que já ama, e nada há que faça com que lhe ame menos do um dia lhe amou.

Sei que você não é o monstro, embora suas atitudes tenham sido monstruosas. Sei que no fundo deste pecado se encontra um pecador amado por Deus. Por isso, não posso simplesmente lhe matar da minha vida. Não posso ignorar sua existência. Não posso esquecer a pessoa que um dia conheci, aquela amante da cruz de Cristo. Amanhã será outro dia e só ele nos dirá quem tem caráter e quem está disposto a pagar o preço de ser cristão. Até lá, caminhemos segundo o que já alcançamos. O amigo tempo será o maior aliado de todos no momento. Que, de costas para o erro, você volte caminhar na trilha estreita da santidade. E, sem saber ao certo quando foi, um dia estará tudo bem novamente. Você então estará ainda melhor capacitada para ajudar pessoas que passam pelo mesmo problema.

Por fim, conheço o que há aqui dentro, sei que não sou exatamente “o santo”. Se não lhe perdoar, Deus me disse que também não me perdoa. Que há em mim que me faça melhor que Jesus? E se ele, que foi o único santo de verdade na história, não lhe condena, também não lhe condeno.

Em memória de mim!

Me chama muita atenção a forma como Jesus fala sobre memória durante a ceia narrada por Paulo em Coríntios:

“Porque eu recebi do Senhor o que também vos entreguei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão;e, tendo dado graças, o partiu e disse: Isto é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de mim.Por semelhante modo, depois de haver ceado, tomou também o cálice, dizendo: Este cálice é a nova aliança no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que o beberdes, em memória de mim.” (I Corintios 11:24-25)

Creio que a Santa Ceia funciona como um momento onde somos convidados a parar e lembrar. Lembrar de nossa vida, nossos pecados. Mas, lembrar também, de nosso grande salvador, Seu amor, Sua graça. Lembrar de sua vida, sua morte e sua vida novamente. A ceia é o momento de alimentar nossa mente de esperança, de amor altruísta e fé. Muito diferente das memórias que o mundo nos oferece, memórias de culpas e arrependimentos. A cada dia que passa mais tenho memória do quanto sou pecador, mas isso me faz trazer à memória um salvador cada vez maior e mais poderoso também. Esse é um dos grandes poderes da ceia: alimentar minha memória de um Deus que me ama e que fez (e faz) muito por mim. Memória de um corpo estendido e de sangue derramado em uma cruz. Memória de pecado pago e perdoado!

Você tem vivido em memória de quem ou do que?

Quero trazer à memória o que me pode dar esperança. (Lamentações 3:21)

Prometeu e seu abutre

Atualmente tenho me deliciado com um clássico da literatura escrito por Herman Melville: Moby Dick. O livro relata a história de um capitão de um navio baleeiro em sua perseguição insana a um ¨monstro dos mares¨, a baleia branca Moby Dick. Essa perseguição insana se iniciou porque o capitão Acab perdeu sua perna em uma luta contra a grande baleia. Em um momento do livro o autor separa um capítulo para falar sobre o ódio que Acab tinha:

¨Ah, Deus, que tormentos sofre o homem que se consome com seu desejo de vingança. Dorme de mãos cerradas e acorda com as unhas ensaguentadas cravadas nas palmas¨

¨Deus te proteja, velho, pois teus pensamentos deram origem a uma criatura em ti; aquele cujo intenso pensamento o transforma assim em um Prometeu, um abutre pasta eternamente em seu coração e o abutre é a própria criatura por ele criada.¨

Esse texto me fez pensar no grande prejudicado por todo aquele ódio: o próprio velho capitão! Um homem condenado a ter o seu coração sendo eternamente consumido por um abutre que ele mesmo criou, assim como Prometeu na mitologia grega.

Fiquei me perguntando: Quantas vezes não sou condenado, como Prometeu, a ter um abutre consumindo meu coração?

E o mais triste, a condenação é minha! Eu sou o responsável por criar esse abutre!

E eu te pergunto: Como está o seu coração? Existe algum abutre que te consome?

Hoje é dia de destruir abutres! Dia de se libertar dessa condenação que você mesmo se colocou! Dia de perdoar!

¨Antes, sede uns para com os outros benignos, compassivos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus, em Cristo, vos perdoou.¨(Efésios 4.32)

Perdão – zerando a lista

“Eu nunca fiz coisa tão certa
Entrei pra escola do perdão
A minha casa vive aberta
Abri todas as portas do coração”

(Tom Jobim)

 

Ano novo, vida nova. Por que não aproveitar a oportunidade do novo para fazer coisas novas? Por que não perdoar as pessoas que há algum tempo temos acumulado na nossa listinha de “devedores”? Será que fazemos parte da listinha de alguém?

***

Depois de um tempo de vida cristã descobri que só viveria em paz se resolvesse todos os problemas que havia acumulado durante minha vida.

Não foi fácil, havia onze pessoas na minha listinha. Dentre elas, algumas tinham apenas me deixado chateado, mas não necessitava de eu procurar porque já não tinham mais nada a ver comigo. Outras, não faziam mais parte do meu vínculo de relacionamentos e foi difícil encontrá-las. Na hora de conversar, foi muito fácil com algumas poucas. Já com a maioria, tive de me propor desafios específicos com cada. Demorou alguns anos, mas ao final foi muito bom – paz de espírito é algo que não há preço.

Com o passar do tempo descobri que problemas continuariam a acontecer por conta da minha natureza pecadora e também dos que estão à minha volta. Assim, com muita dificuldade, tive de aprender a resolver as novas questões que surgiam, em especial, com meus amigos cristãos. Por vezes tenho criado, sem querer, listinhas que muito me fazem mal. O ideal seria que elas não existissem, mas ainda não cheguei lá.

***

Esse fim de ano viajava em um ônibus vazio em direção a um sítio para me encontrar com amigos. Durante o trajeto ouvia Tom Jobim e me chamou a atenção a música que descrevi acima. Com um pouco de dificuldade, resolvi perdoar no meu coração algumas pessoas que haviam me deixado chateado por questões supérfluas, não necessariamente por pecarem contra mim. Desafio você a fazer o mesmo – perdoar. Listo abaixo algumas dicas que me são muito úteis sempre que lido com o assunto.

1. Antes:

. Faça uma lista com as pessoas que devem ter algo contra você.
. Liste também as pessoas que possivelmente tenham lhe feito mal e que lhe chatearam.
. Ore para que Deus o auxilie e, se for o caso, lhe ajude a promover o encontro.

. Procure essas pessoas individualmente para conversar, evite fazer em grupo ou por carta – pessoalmente ajuda a não criar novos atritos.

2. Durante:

. Converse desarmado. Cuidado para não falar nada que vá piorar a questão. (Pv 15:1).
. Fale somente o que lhe chateou ou que você tenha chateado. Não tente se justificar para abrandar seu erro (Pv 10:19).
. Se estiver errado em algo, peça claramente perdão.

3. Depois:

. Tente esquecer a questão. Não há necessidade de tentar ser o melhor amigo da pessoa. Confiança é algo que se conquista com dificuldade e se perde muito fácil. A reconstrução da confiança pode levar mais tempo que a construção. A lembrança de algo ruim será semelhante a uma cicatriz de um machucado – está ali, mas já não dói mais.

***

Dedico este post a meu amigo Guilherme Trópia, que me ensinou muita coisa em um estudo sobre o assunto em 2003, salve engano. Dedico também a um amigo que de bom coração tentou resolver questões no ano que passou, mas conseguiu piorar boa parte delas.

Versículos importantes: Gn 45: 5-11; Mt 5:44; Mt 5:23,24; Mt 18:15,16; Mt 18:22-35; Mc 11:25; Lc 23:34; Jo 1:29; Cl 3:13; Ef 1:7.

Uma frase para motivá-lo: “boas lembranças afasta maus sentimentos” (é de Herivelto, da minissérie “Dava e Herivelto” que está passando na TV).