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Sacerdócio e Idolatria

Por diversas vezes me pego questionando Deus sobre suas decisões. Faço isso como se meu juízo fosse bom o suficiente para tanto, mas convenhamos que é realmente complicado entender algumas situações ao longo da história do povo hebreu, e também da nossa própria história. Se meu último embate mental comigo mesmo e com as escrituras pudesse ser traduzida em romance, ficaria assim:

” – É sério que Deus colocou Arão como sumo-sacerdote?! Como pode!!

– É sério, uai! Ele foi o primeiro sumo-sacerdote israelita. Nosso Pai tinha todos os motivos do mundo para fazer isto. Ele é bem inteligente por sinal. E nunca erra.

– Eu sei disso. Mas não foi este mesmo Arão o que forjou um bezerro de ouro e incentivou a idolatria! Como Deus pode permitir que um idólatra se torne sumo-sacerdote?

– Primeiro, você deveria parar de julgar Arão com tanta rapidez. E depois, Deus ordenou o idólatra Arão pelo mesmo motivo que Ele permite que um idólatra como você tenha seu ministério e tenha até uma relação com Ele: Misericórdia e Jesus!

– Essa doeu hein! Mas você tem razão. Devo ser tão idólatra quanto Arão. A diferença é que meus bezerros não são de ouro. Preciso parar de fabricá-los. Ainda bem que temos as escrituras, Cristo para nos justificar, e um Deus disposto ao perdão! “

Só um Deus de amor e perdão pode usar pessoas como Arão, como eu e como você.

E por falar em você, eu me pergunto: quando você vai parar de fabricar bezerros de ouro e se comportar como um servo de Deus?

Um abraço.

Sobre o papo de ir fazer as unhas

O alvoroço era total na cidade. Que delícia encontrar um bode expiatório. Todos de nós gostamos de uma bafafá aqui, um babado acolá. Uma mulher havia se rendido ao desejo e acabou se entregando para um homem que não era seu marido. Um ser humano que buscou felicidade fora da regra.

 A lei era clara: apedrejamento.

É claro que não estamos falando da Fabíola, mas talvez o que ela viveu nesse fim de 2015 tenha sido tão doloroso quanto. Aliás, quantas “pedras” você atirou quando ouviu sobre o flagrante adultério? Cada curtida, cada piada ou vídeo compartilhado, uma pedrada a mais. Já era possível ver o sangue escorrendo pelo corpo adúltero.

Matar com pedras é uma morte simbólica. Permite a todos atirarem parte de sua raiva na pessoa que cometeu o deslize. Um enforcamento só dá esse prazer ao carrasco. Guilhotinar é mecânico. Fuzilar é quase asséptico. Apedrejar é que é gostoso. Posso, pedra após pedra, ir vencendo o mal que eu vejo em mim, mas que o outro exerceu. Apedrejar é exorcizar. Com força, atiro minha pedra e acerto, de preferência, na parte que mais odeio do pecador. Apedrejar revela uma sociedade anônima de ódios com dividendos para todos os investidores.

Mas e se levássemos o caso dessa adúltera a Jesus?

Jesus era parte daquela sociedade anônima. Sua pregação e discurso sobre perdão já incomodava muita gente. A acusação é feita. Jesus parece surdo à acusação e fica escrevendo no chão.

“Quem dentre vós estiver sem pecado, atire a primeira pedra.”(Jo.8:7)

Uma frase bombástica! Apedrejar seria confessar o orgulho de se presumir acima do pecado e da humanidade. A retirada seguiu a ordem cronológica. Primeiro os mais velhos, depois os mais novos. Quanto mais idade, mais memória. Quanto mais tempo de vida, mais remorso e consciência pesada.

Antigamente, era quase que automático reconhecer-se pecador. No nosso século chamado pós moderno, tempo de autoajuda e narcisismo, há poucos pecadores e culpados. A gente quer mesmo é fazer piada e mandar o vídeo pra frente. Aqueles, inclusive, que querem reprimir o nosso momento lúdico de tacar pedras, são tachados de “estraga prazeres”!

E se a gente tacasse pedras neles, também?

Ou você nunca reparou na irônica coincidência do último versículo do capítulo 8 de João?

“Então, pegaram em pedras para atirarem nele; mas Jesus se ocultou e saiu do templo.”(Jo.8:59)

Vale lembrar que, naquela tarde, as únicas mãos que poderiam ter pegado em pedras permaneceram vazias… O perdão de Deus oportuniza a possibilidade de começar de novo!

Um grande abraço!!!

Cartas a um cristão como eu #5

Olá, Ed. Como é bom ouvir (ou ler) a respeito das suas experiências com o perdão Divino. É realmente singular a paz e a liberdade com as quais o homem que, como você disse, “toma posse do perdão de Deus” é tomado. E essa expressão que você utilizou é de uma sabedoria muito profunda… Realmente ser perdoado é questão de tomar posse de algo que já foi oferecido definitivamente na cruz do nosso Senhor.

Quanto ao episódio com a sua esposa, a sua postura não me impressiona nem um pouco. A reação que você esperava de você mesmo era consequência de alguém que não valorizava e nem vivia o Perdão. Agora isto mudou, e já não se espera outra resposta ao pecado que é cometido contra você senão o mesmo perdão. É uma incoerência egoísta e pecaminosa ser perdoado e não desprender perdão, ser agraciado e não agraciar. É também uma espécie de suicídio o “não perdoar”. Tenho para mim que é tão ou talvez mais tóxico e corrosivo para a alma humana o não perdoar e se encher de rancor e ódio do que o pecar contra alguém e não se dispor a pedir perdão.

Além de tudo o que você experimentou pessoalmente você ainda tem praticado a confissão comunitária com os seus amigos cristão mais chegados? Isso sim é surpreendente. Este é, na minha opinião, o passo mais difícil a ser tomado em direção à posse do perdão Divino. O mais difícil e também o mais negligenciado. Muitos e muitos cristãos naufragam na fé pela falta desta prática. Expor os pecados a outros é vergonhoso, dolorido, mas extremamente importante para que o arrependimento seja sincero e para que o perdão seja mais palpável e vivo. E apesar de toda a dificuldade, viver essa prática é de grande benefício para a nossa fé! O texto de Tiago 5:16 confirma isso com as seguintes palavras: “Confessai, portanto, vossos pecados uns aos outros, e orai uns pelos outros, para serdes curados. A súplica de um justo vale muito em seus efeitos.”

Não tenho mais nada o que lhe dizer sobre o perdão. A verdade é que é muito fácil falar e argumentar a favor dele. O desafio e a dificuldade se encontram em vivê-lo. Buscar perdão é declarar podridão, fragilidade e dependência; recebê-lo é ter que lidar com um paradoxo amoroso que aniquila o nosso orgulho e desestrutura a nossa convicção meritocrática de vida; oferecer perdão sincero é agir divinamente, numa postura de entrega e sacrifício, gerando vida. E essas coisas nunca vão caber em uma carta ou em um bate papo teológico; o perdão se aprende sendo vivido, buscando-o, recebendo-o e disponibilizando-o, ainda que sejam necessárias 70 tentativas multiplicadas por 7.

Por fim, em algum momento da sua carta você citou os seus problemas com alguns vícios… Fiquei interessado no assunto! Fale- me mais sobre eles, vamos conversar sobre isso!

Com carinho, Dudú Mitre.

Cartas a um cristão como eu #4

Belo Horizonte, 22 de Agosto de 2015

Ed, meu amigo, a simplicidade da sua última correspondência foi de um  valor indescritível. Afinal de contas, por mais que eu escolha as palavras mais belas e persuasivas, a minha autoridade para falar das coisas espirituais são nulas. Você me pediu que lhe mostrasse ou apontasse, nas Escrituras, algo que comprovasse aquilo que discutimos da última vez, e imediatamente eu me lembrei de um episódio em que Jesus ensinou a Simão, o Fariseu, o valor e o benefício do arrependimento e de se obter perdão.

Vamos a Lucas, capítulo 7, versos 36 a 50.

“E rogou-lhe um dos fariseus que comesse com ele; e, entrando em casa do fariseu, assentou-se à mesa. E eis que uma mulher da cidade, uma pecadora, sabendo que ele estava à mesa em casa do fariseu, levou um vaso de alabastro com ungüento; E, estando por detrás, aos seus pés, chorando, começou a regar-lhe os pés com lágrimas, e enxugava-lhos com os cabelos da sua cabeça; e beijava-lhe os pés, e ungia-lhos com o ungüento.
Quando isto viu o fariseu que o tinha convidado, falava consigo, dizendo: Se este fora profeta, bem saberia quem e qual é a mulher que lhe tocou, pois é uma pecadora.
E respondendo, Jesus disse-lhe: Simão, uma coisa tenho a dizer-te. E ele disse: Dize-a, Mestre.
Um certo credor tinha dois devedores: um devia-lhe quinhentos dinheiros, e outro cinqüenta. E, não tendo eles com que pagar, perdoou-lhes a ambos. Dize, pois, qual deles o amará mais?
E Simão, respondendo, disse: Tenho para mim que é aquele a quem mais perdoou. E ele lhe disse: Julgaste bem.
E, voltando-se para a mulher, disse a Simão: Vês tu esta mulher? Entrei em tua casa, e não me deste água para os pés; mas esta regou-me os pés com lágrimas, e os enxugou com os cabelos de sua cabeça. Não me deste ósculo, mas esta, desde que entrou, não tem cessado de me beijar os pés. Não me ungiste a cabeça com óleo, mas esta ungiu-me os pés com ungüento. Por isso te digo que os seus muitos pecados lhe são perdoados, porque muito amou; mas aquele a quem pouco é perdoado pouco ama.
E disse-lhe a ela: Os teus pecados te são perdoados.
E os que estavam à mesa começaram a dizer entre si: Quem é este, que até perdoa pecados?
E disse à mulher: A tua fé te salvou; vai-te em paz.”

A passagem é complexa e possui muitos elementos, mas quero me apegar ao que eu ofereci destaque acima. Jesus não está se referindo à quantidade ou qualidade do pecado neste texto. Ambos, o fariseu e a mulher, assim como toda a humanidade, são igualmente pecadores e estão igualmente em débito com o Pai. Na minha opinião aqui Jesus fala sobre a disposição do coração do pecador em reconhecer o seu pecado e procurar perdão. Sendo assim, o homem que devia 500 dinheiros seria aquele tipo de pessoa  não esconde do Pai os seus pecados, que se abre, se rasga diante do Criador, afim de obter o perdão total, enquanto o homem que devia ao senhor 50 dinheiros seria aquele tipo de sujeito que esconde a sua condição de rebeldia pecaminosa, afim que não o conheçam. Pode ser que este até se confesse pecador, mas a superficialidade da confissão e do arrependimento são suas marcas registradas.

Jesus argumenta a favor do ponto de vista que eu citei logo em seguida, quando coloca em comparação a postura do fariseu e a postura da mulher. Aquele, “devedor de 50 dinheiros”, quando posto diante do Criador não demonstrou nenhuma atitude de humilde arrependimento pela sua condição pecaminosa; ela por outro lado, “devedora de 500 dinheiros”, diante da presença do Perfeito só conseguia olhar para dentro e ver a sua imperfeição, se derramando em lágrimas e tristeza.

Aquele, pouco perdoado. Não por que Jesus lhe oferecera menos perdão, mas por que ele próprio não o buscou; ela, por sua vez, muito perdoada, pois a sua postura era de humilde reconhecimento e arrependimento da sua condição de pecadora.

Aquele, pouco amou, pois pouco perdão recebera; ela, por sua vez, viu crescer no seu coração um amor imenso por Aquele que a limpou de toda a sua culpa.

Aquele jantou com Jesus, mas não experimentou com Ele intimidade; ela, por sua vez, voltou pra casa muito mais próxima do Criador.

Acho que esse trecho nos mostra como o perdão sempre nos aproxima Daquele que se aproximou para nos perdoar e nos amar. Espero que tenha feito algum sentido para você, Ed.

Um abraço, Dudú Mitre.

Cartas a um cristão como eu #3

Belo Horizonte, 08 de Agosto de 2015

Caro Ed, desta vez quem teve que lidar com a demora em responder foi você, não é mesmo? Me perdoe a falha. O ritmo agitado e a negligência com o uso do meu tempo me fizeram protelar muito (o pedido de perdão fictício foi a minha maneira de pedir perdão ao leitor pela minha atual negligência em vos escrever aqui no blog.) Mas aqui estamos, e temos bastante a conversar. Tanto que não creio que este assunto se encerrará com poucas correspondências…

Falávamos sobre a liberdade que existe no perdão divino e da nossa constante necessidade em depender dele, uma vez que a nossa ignorância e teimosia em escolher pelo pecado é também constante. Bom, a questão levantada por você é pertinente, mas não verdadeira, na minha opinião. Não se levarmos em conta os conceitos de GRAÇA e AMOR.

Por graça entendemos do favor imerecido do Único  que pode nos livrar da condenação do pecado. Por amor vamos considerar a escolha deliberada e eterna do Único que pode nos tratar com graça de fazê-lo dia após dia, chamando o auge desta escolha de cruz. São conceitos rasos para a complexidade dos termos, mas vamos partir deste ponto.

O perdão não pode ser considerado obsoleto se considerado à luz destas duas palavras. O pecador, de antemão amado, encontra graça a cada vez que cai, se arrepende e busca ao Pai. A graça aponta para a cruz, e a cruz o lembra do amor. E o amor, como disse Paulo, jamais acaba. Antes, “tudo sofre, tudo crê, tudo espera e tudo suporta.” Eu até entendo o seu sentimento e os seus questionamentos. Pensando de maneira humana é realmente um abuso o que fazemos. A repetição do erro e do pedido de perdão pode parecer manipulação, hipocrisia e até mesmo artimanha para se viver de forma libertina e deliberada. Creio que isso de fato possa acontecer, mas veja bem, o enganador nunca corrompe a graça e o amor, apenas engana a si mesmo e à sua própria consciência. Mas o pecador arrependido vive o paradoxo de experimentar, ainda que repetidas vezes, um movimento que se torna inédito da parte de Deus, o perdão que se renova e  que nasce da graça e do amor. Analisando sob a perspectiva divina não existe manipulação e nem abuso, existe a escolha deliberada e o favor imerecido de um Pai para com todos os filhos  que caem em si e que se mostram arrependidos dos seus atos.

Agora, vamos tomar novamente os conceito de graça e amor que escrevi acima. Observe como a ação deles move o ser humano. Do pecado ao arrependimento, do arrependimento à graça, que faz lembrar o amor e que nos leva para a cruz, e daquele ponto em diante experimentamos liberdade, até que pecamos de novo, e tudo se repete. Bom, eu não diria que se trate de um ciclo. Escolha um ponto em um círculo, caminhe com ele por toda a extensão do limite do mesmo e você chegará ao mesmo lugar, e será eternamente assim. Prefiro comparar este movimento do amor e da graça a uma espiral, que caminha sempre adiante, num movimento aparentemente cíclico, mas que está em constante evolução. Ser perdoado é sempre progredir, e nunca regredir ou continuar estagnado. Sempre avançamos para a cruz quando experimentamos do favor divino, e por mais que pareça que vamos acabar no mesmo ponto de antes, depender do perdão constante de Deus e busca-lo com arrependimento é esquecer das coisas que para trás ficaram e progredir para o Alvo, rumo ao prêmio da soberana vocação.

Não compreendemos a mente e o coração de Deus, Ed. É impossível. Mas saiba que de alguma forma maluca e maravilhosa Ele está sempre pronto para nos redimir, ainda que os erros sejam repetidos por diversas vezes. E não só isso, Ele faz com que essa constante dependência do Seu perdão seja um ganho para nós. Não fuja do perdão divino, Ed. Abrace-o e agarra-o quantas vezes forem necessárias, pois Deus o tratará com graça e amor quantas vezes forem necessárias.

Espero, de coração, que tudo isso tenha feito algum sentido.

Com carinho, Dudú Mitre.

Cartas a um cristão como eu #2

Belo Horizonte, 20 de Junho de 2015.

Querido Ed, fiquei muito feliz em receber a sua correspondência. Admito que achei que os nossos diálogos teriam fim naquela ocasião, uma vez que mais de um mês se passou e eu não tive nenhum tipo de resposta sua. Várias coisas se passaram pela minha cabeça, mas recebendo notícias dos seus amigos cheguei a conclusão de que provavelmente você estivesse fugindo. Não de mim, uma vez que não apresento ameaças a ninguém, mas do rumo que a nossa conversa estava tomando. Não lhe julgo, pois sei que em tempos de crise pessoal e moral, pensar na própria vida e ter um amigo abusado que lhe toque as feridas não é nem um pouco confortável.

Quanto á fuga, permita-me apontar uma verdade: uma pessoa não pode fugir e aprender ao mesmo tempo. Ela precisa permanecer algum tempo para tirar lições que façam algum sentido e que produzam alguma coisa. Ora, não há nada anormal em se passar por uma crise. O coração humano, inclinado para o pecado, nos faz cair com frequência naquilo que sabemos estar longe da vontade do nosso Pai. Mas veja, cada uma dessas quedas pode ser uma escola! Me lembro do “Peregrino”, na obra de John Bunyan, quando se depara com dois leões dorminhocos à beira da estrada que levava à Cidade Celestial e conclui: “voltar (ou fugir) é ir de encontro à morte certa; prosseguir é apenas temer a morte, mas com a vida eterna em perspectiva. Avante, pois!”. Não tenho mais o que falar sobre isto, e espero que você entenda que o meu tom não é de juízo, mas de exortação.

Agora, quanto ao que você me escreveu, digo que se trata de um aprimoramento pelo qual todo cristão deve passar. Você não é o único que, como você mesmo me escreveu, “maquina o mal e o pratica com uma facilidade gigantesca”. Desconheço um irmão que não tenha vivido a tensão entre a carne e o Espírito, a tensão entre o querer satisfazer seus desejos e o desejo de satisfazer a sua alma no Criador. As afirmações do Apóstolo Paulo são, nesse sentido, reveladoras e muito pesadas: “Porque tenho o desejo de fazer o que é bom, mas não consigo realizá-lo. Pois o que faço não é o bem que desejo, mas o mal que não quero fazer, esse eu continuo fazendo. Ora, se faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, mas o pecado que habita em mim”. Apesar de livres do poder do pecado por causa do sacrifício do Filho de Deus, ele ainda nos influencia grandemente. Saber lidar com essa tensão é um ponto fundamental na caminhada cristã. Paulo clama aos céus: “Miserável homem que sou! Quem me libertará deste corpo sujeito à morte?”, e conclui de forma fantástica: “Graças a Deus por Cristo Jesus”.

Existe grande liberdade em Cristo Jesus. Liberdade trazida pelo perdão da cruz, pelo perdão que nasceu do amor. O pecado é real, é forte. Nos manipula e influencia. Nos seduz e nos faz escolher por ele. E sim, ele é muito mais poderoso do que nós. Mas o amor, o perfeito amor com que Jesus Cristo nos amou, este cobre uma multidão de pecados. E a liberdade oferecida por esse amor nos possibilita experimentar o perdão a cada vez que fazemos o que não queremos, a cada vez que maquinamos o mal e o cumprimos com uma facilidade gigantesca.

Você está perdoado, Ed!

Com carinho, Dudú Mitre.

Ps:. as citações de Paulo a que me referi se encontram no livro de Romanos, no capítulo 7, com fragmentos dos versículos 18 a 25.

Sola Fide – Somente a Fé

O ano é 1517. O Papa Leão X, querendo reconstruir a basílica de São Pedro, promove uma grande ação de vendas de indulgências para angariar os fundos necessários. Esta era uma prática comum da Igreja Católica.  O perdão para qualquer pecado podia ser comprado. Com dinheiro suficiente os assassinatos, traições, depravações, roubos e toda sorte de inclinação carnaval eram apagados da ficha celestial de qualquer um que pudesse pagar o preço.

indulgencia

Esta prática foi muito comum dentro da Igreja Católica, e só foi revista e revogada em 1567. Sem dúvidas, a Reforma Protestante, liderada pelo padre Martinho Lutero, teve papel importante nesta mudança. Martinho foi o primeiro membro eclesial a lutar contra este tipo de prática, alegando que a Igreja estava comercializando algo que Jesus nos possibilitou ter pela Graça de Deus.

O Sola Fide significa Somente a Fé, e hoje em dia é uma corrente de pensamento base para a maioria das igrejas cristãs reformadas.  Ela prega que nenhuma obra humana poderá nos conduzir até o perdão, somente nossa fé em Cristo. Muitos cristãos hoje sequer pensam nesta questão, uma vez que ela se tornou fundamento da cosmovisão cristã. Acredito que poucos cristãos acreditam que se pode comprar o perdão de algum padre ou pastor. Contudo, apesar de ter na vendas de indulgencia um exagero de fácil contestação, a Sola Fide ainda é um assunto que merece nossa atenção, uma vez que muitos cristãos continuam agindo como se pudéssemos obter o perdão através de diversas outras ações que não a Fé verdadeira no Cristo.

” Sabendo que o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo, temos também crido em Jesus Cristo, para sermos justificados pela fé em Cristo, e não pelas obras da lei; porquanto pelas obras da lei nenhuma carne será justificada.”  Gálatas 2:16

Entender e aceitar a Sola Fide implica que todo ser humano é incapaz de obter a salvação apenas por si mesmo.  Por exemplo:  A caridade, sem fé, não passa de uma ação humanitária.  Ser caridoso não aproximará ninguém de Cristo e não permitirá a ninguém ser perdoado por outras transgressões. Por outro lado, notem que nenhum homem de fé deixa de ter a caridade em seu modo de agir, uma fez que a fé é a propulsora mestre da caridade. Quando esta aparece em um cristão, ela é fruto da fé. Desta forma, as boas obras aparecem naturalmente na vida daquele que exercita sua fé em Cristo. Tais afirmações foram lindamente escritas por  Tiago, principalmente no capitulo 2.

” Mas dirá alguém: Tu tens a fé, e eu tenho as obras; mostra-me a tua fé sem as tuas obras, e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras. “Tiago 2:18

O perdão não pode ser comprado, uma vez que ele é um dom gratuito de Deus, através do Cristo. Mas quantas vezes nos pegamos tentando comprar o perdão de Deus, barganhando boas atitudes em troca de uma consciência tranquila.

Você tem barganhando com Deus? Ou tem convicção de sua graça e reforma sua fé no Cristo?

Um abraço!

“Tu és este homem”

E no tempo em que os reis costumavam sair para as batalhas, o ainda jovem Davi decide ficar em casa. Enquanto seus homens lutavam, o rei descansava. Aproveitava o tempo, ocioso. No fim da tarde gostava de caminhar pelo palácio. Visitava os grandes salões, conferia se estava tudo em ordem nos jardins, observava a cidade do terraço.

E numa dessas tardes, com o sol já se pondo, a avistou. Uma bela mulher se banhava em uma casa ali perto. Davi mandou que a chamassem e se deitou com ela. Bate-Seba, a filha de Eliã, esposa de Urias.

Adultério.

Manipulação.

Assassinato.

“Dois homens viviam numa cidade, um era rico e o outro, pobre. O rico possuía muitas ovelhas e bois, mas o pobre nada tinha, senão uma cordeirinha que havia comprado. Ele a criou, e ela cresceu com ele e com seus filhos. Ela comia junto dele, bebia do seu copo e até dormia em seus braços. Era como uma filha para ele. Certo dia, um viajante chegou à casa do rico, e este não quis pegar uma de suas próprias ovelhas ou do seus bois para preparar-lhe uma refeição. Em vez disso, preparou para o visitante a cordeira que pertencia ao pobre”.
Então, Davi encheu-se de ira contra o homem e disse a Natã: “Juro pelo nome do Senhor que o homem que fez isso merece a morte! Deverá pagar quatro vezes o preço da cordeira, porquanto agiu sem misericórdia.
Então, disse Natã a Davi: “Tu és o homem!”.

Ungido rei sobre Israel, livrado das mãos de Saul, presenteado com casas, esposas e riquezas. Não satisfeito, agiu sem misericórdia, sem amor!

Mas, cego pelo pecado, Davi não conseguia enxergar o óbvio. A mancha do delito lhe cobriu os olhos, de forma que o rei não conseguia enxergar e reconhecer a si próprio. Não podia ver a sua podridão. Até que ele teve a atenção chamada: “Tu és o homem!”.

“Tem misericórdia de mim, ó Deus, por teu amor; por tua grande compaixão apaga as minhas transgressões. Lava-me de toda a minha culpa e purifica-me do meu pecado. Pois eu mesmo reconheço as minhas transgressões, e o meu pecado sempre me persegue. Contra ti, só contra ti, pequei e fiz o que tu reprovas, de modo que justa é a tua sentença e tens razão em condenar-me. Sei que sou pecador desde que nasci, sim, desde que me concebeu minha mãe. Sei que desejas a verdade no íntimo; e no coração me ensinas a sabedoria. Purifica-me com hissopo, e ficarei puro; lava-me, e mais branco do que a neve serei. Faze-me ouvir de novo júbilo e alegria; e os ossos que esmagaste exultarão. Esconde o rosto dos meus pecados e apaga todas as minhas iniquidades. Cria em mim um coração puro, ó Deus, e renova dentro de mim um espírito estável. Não me expulses da tua presença, nem tires de mim o teu Santo Espírito. Devolve-me a alegria da tua salvação e sustenta-me com um espírito pronto a obedecer.”

Um rei arrependido. Um rei perdoado.

Histórias absurdas são contadas todos os dias. Corrupção. Violência. Preconceito. Inveja. Vaidade. Julgamentos. Falta de amor. Ficamos chocados, escandalizados e até indignados. Mas o pecados tapa nossos olhos.

Nos afasta de Deus.

Nos afasta de nós mesmos.

Não nos deixa enxergar o óbvio.

Nos leva para um poço cada vez mais profundo.

De lá, talvez, ouçamos de Deus: “Tu és este homem”. E de lá poderemos buscá-Lo, ainda que estraçalhados pelo pecado.

Mais um homem arrependido. Mais um homem perdoado.

“Tu és este homem”?

Referências: 2 Samuel 11:1 a 12:7; Salmos 51: 1- 12.

Sobre perdão

Por que Deus é tão duro quando o assunto é perdão?

“… até quantas vezes meu irmão pecará contra mim, que eu lhe perdoe? Até sete vezes? Respondeu-lhe Jesus: Não te digo que até sete vezes, mas até setenta vezes sete.”(Mt.18:21-22)

“Porque se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celeste vos perdoará; se, porém, não perdoardes aos homens [as suas ofensas], tampouco vosso Pai vos perdoará as vossas ofensas.” (Mt.6:14-15)

Talvez porque o próprio Deus já havia nos perdoado, antes mesmo que viéssemos a existir. O sangue de Cristo foi derramado, antes da fundação do mundo. (I Pe.1:17-21)

Antes de dizer “Haja luz“, Deus disse “Haja cruz“!

O perdão é parte do coração de Deus e isso fica evidenciado em Cristo.

Você já ouviu pessoas dizendo “Eu não consigo perdoar…”?

E quando o discurso é: “Já perdoei na minha cabeça, mas no meu coração ainda não“?

Para esse tipo de gente, dois (2) ensinamentos importantes:

1) Perdão não é questão de CAPACIDADE, mas de MANDAMENTO!

Deus mandou perdoar. A questão não é se você é capaz. A questão, portanto, é se você é obediente.

2) Perdão não é questão de SENTIMENTO, mas de COMPORTAMENTO!

Quando você se comporta corretamente, o sentimento vai sendo “drenado”. Se você está esperando “sentir” para perdoar, você está no caminho errado. Comporte-se para começar a sentir! Não é a cabeça que segue o coração, mas o coração que segue a cabeça.

perdão

Perdão é um assunto difícil. Um assunto que afronta o nosso ego e que requer auxílio divino. É preciso clamar por ajuda, porque se depender de nós, o perdão dificilmente acontecerá. Vale lembrar que perdoar não é esquecer! Tem gente que fica pedindo que Deus nos abençoe com amnésia. Perdão é digerir aquilo que, ao descer por “goela abaixo”, já veio lhe causando mal e foi capaz de mudar radicalmente sua vida.

Agora vamos ao que interessa!

Quem são as pessoas que você precisa perdoar?

Hoje é o dia! Resolva o que precisa ser resolvido e não permita que o sol se ponha sobre a tua ira! (Ef.4:26) Que a cabeça possa estar leve, a consciência experimente paz e até o seu travesseiro esteja mais macio hoje à noite, por causa do perdão!

Um grande abraço!!!

 

Desenhos na areia

Da descoberta inesperada à exposição vergonhosa e intimidadora. A mulher fora pega em flagrante adultério, arrastada, ainda nua, com os cabelos soltos, até a praça pública. Jogada no meio de uma roda de juízes impiedosos, ela ouve a conversa.

“Ela não merece misericórdia, foi pega em flagrante!”

“Meretriz!!”

“A lei manda que ela seja apedrejada até a morte!”.

E é mais ou menos esse o tom das acusações que alcançam os seus ouvidos.

Ela ouve então as palavras serem dirigidas a um homem que por ali passava. “E você, Jesus, o que diz que devemos fazer?”. A mulher ergue os olhos, procurando o destinatário de tal pergunta, e o que ela acha salta aos olhos. O homem se abaixa, diante dela e de toda aquela multidão de acusadores e, calmamente, como se não fora a ele que a pergunta era dirigida, começa a desenhar no chão. Postura que incomodou, postura que chamou atenção!

“Esse homem é maluco???”

“O que ele está desenhando ali???”

“Ele está nos ignorando!!!”

“Ei, você, responda! O que acha que devemos fazer??”

A resposta foi simples e direta, de uma sabedoria absurda.

“Aquele que nunca pecou, que atire a primeira pedra”

O homem se abaixou de novo, voltou a desenhar.

Um a um os acusadores foram soltando as pedras que já estavam prontas para serem lançadas e foram se retirando, certamente encucados com a reação e com as palavras daquele homem. Não sobrou mais ninguém, apenas Jesus… E claro, a mulher. Como pude me esquecer dela? Bom ,acho que deu certo a estratégia de Cristo.

Os holofotes que antes estavam sobre o pecado daquela pobre moça agora se voltaram para Jesus. Houve uma mudança de foco. Saiu de uma mulher ferida e pecadora e se transferiu para o Deus Homem, aquele que aleatoriamente (ou não!) desenhava na areia com os dedos.

Mais ou menos assim aconteceu na cruz: do ódio para o Amor. Da escravidão para a Liberdade. Do pecado para a Graça. Da morte para a Vida. E o foco de todas as histórias se tornou Jesus Cristo.

Quão bom é me deparar diariamente com o Homem que escrevia na areia e ouvi-Lo dizer a mim: “Também eu não te condeno. Pelo contrário, eu te perdoo. Agora vá para casa e não peques mais.”