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Começar de novo

Eu havia proposto para mim mesmo estudar o livro de Atos dos Apóstolos. Eu sempre quis olhar de maneira minuciosa a vida do grande ícone da igreja primitiva: o apóstolo Paulo. Quero entender sua história, seu jeito de pensar, seu impacto no Reino de Deus, sua conduta em cada uma de suas viagens missionárias. Foram quantas viagens: três, quatro? Quando ele deixou de ser chamado “Saulo de Tarso”? Quantas vezes ele foi preso? Como foi a sua morte?

O desafio começou de maneira empolgante e vai durar todo esse 2° semestre.

Sabe como começa a história daquele que foi um dos homens mais importantes do Reino de Deus? A narrativa chega a ser chocante:

“As testemunhas deixaram suas vestes aos pés de um jovem chamado Saulo. Enquanto Estêvão era apedrejado, Saulo consentia na sua morte. Alguns homens piedosos sepultaram Estêvão e fizeram grande pranto sobre ele. Saulo, porém, assolava a igreja, entrando pelas casas; e, arrastando homens e mulheres, encerrava-os no cárcere. (Conforme At.7:59-8:3)

O fim do cap.7 e início do cap.8 de Atos, parecem ser o “Gênesis 3” do apóstolo Paulo. O registro de sua queda, sua vida vergonhosa e suja quando distante de Cristo, ganhariam contornos de “novidade de vida” no cap.9 de Atos.

Depois de Atos 9, os comentários eram mais ou menos assim:

“Não é este o que exterminava em Jerusalém os que invocavam o nome de Jesus e para aqui veio precisamente com o fim de os levar amarrados aos principais sacerdotes?” (At.9:21)

“Saulo, porém, mais e mais se fortalecia e confundia os judeus que moravam em Damasco, demonstrando que Jesus é o Cristo.” (At.9:22)

Sabe o que está sendo dito, de maneira explícita, pelo próprio Deus?

Não importa se o seu passado é completamente sujo e se você fez coisas que envergonham o nome de Deus. Aqueles que se entregam a Cristo experimentam perdão, liberdade e uma nova vida! A história, a partir de agora, é completamente outra!

Talvez Deus esteja usando esse post para lhe dizer: “Entregue-se a Cristo! Não importa se você já se entregou e caiu novamente. Entregue-se a Cristo! Vamos começar de novo… Eu quero usar a sua vida! Você está me ouvindo?

Porque depois da cruz, só não começa de novo quem não quiser.

Um grande abraço!!!

Cartas a um cristão como eu #2

Belo Horizonte, 20 de Junho de 2015.

Querido Ed, fiquei muito feliz em receber a sua correspondência. Admito que achei que os nossos diálogos teriam fim naquela ocasião, uma vez que mais de um mês se passou e eu não tive nenhum tipo de resposta sua. Várias coisas se passaram pela minha cabeça, mas recebendo notícias dos seus amigos cheguei a conclusão de que provavelmente você estivesse fugindo. Não de mim, uma vez que não apresento ameaças a ninguém, mas do rumo que a nossa conversa estava tomando. Não lhe julgo, pois sei que em tempos de crise pessoal e moral, pensar na própria vida e ter um amigo abusado que lhe toque as feridas não é nem um pouco confortável.

Quanto á fuga, permita-me apontar uma verdade: uma pessoa não pode fugir e aprender ao mesmo tempo. Ela precisa permanecer algum tempo para tirar lições que façam algum sentido e que produzam alguma coisa. Ora, não há nada anormal em se passar por uma crise. O coração humano, inclinado para o pecado, nos faz cair com frequência naquilo que sabemos estar longe da vontade do nosso Pai. Mas veja, cada uma dessas quedas pode ser uma escola! Me lembro do “Peregrino”, na obra de John Bunyan, quando se depara com dois leões dorminhocos à beira da estrada que levava à Cidade Celestial e conclui: “voltar (ou fugir) é ir de encontro à morte certa; prosseguir é apenas temer a morte, mas com a vida eterna em perspectiva. Avante, pois!”. Não tenho mais o que falar sobre isto, e espero que você entenda que o meu tom não é de juízo, mas de exortação.

Agora, quanto ao que você me escreveu, digo que se trata de um aprimoramento pelo qual todo cristão deve passar. Você não é o único que, como você mesmo me escreveu, “maquina o mal e o pratica com uma facilidade gigantesca”. Desconheço um irmão que não tenha vivido a tensão entre a carne e o Espírito, a tensão entre o querer satisfazer seus desejos e o desejo de satisfazer a sua alma no Criador. As afirmações do Apóstolo Paulo são, nesse sentido, reveladoras e muito pesadas: “Porque tenho o desejo de fazer o que é bom, mas não consigo realizá-lo. Pois o que faço não é o bem que desejo, mas o mal que não quero fazer, esse eu continuo fazendo. Ora, se faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, mas o pecado que habita em mim”. Apesar de livres do poder do pecado por causa do sacrifício do Filho de Deus, ele ainda nos influencia grandemente. Saber lidar com essa tensão é um ponto fundamental na caminhada cristã. Paulo clama aos céus: “Miserável homem que sou! Quem me libertará deste corpo sujeito à morte?”, e conclui de forma fantástica: “Graças a Deus por Cristo Jesus”.

Existe grande liberdade em Cristo Jesus. Liberdade trazida pelo perdão da cruz, pelo perdão que nasceu do amor. O pecado é real, é forte. Nos manipula e influencia. Nos seduz e nos faz escolher por ele. E sim, ele é muito mais poderoso do que nós. Mas o amor, o perfeito amor com que Jesus Cristo nos amou, este cobre uma multidão de pecados. E a liberdade oferecida por esse amor nos possibilita experimentar o perdão a cada vez que fazemos o que não queremos, a cada vez que maquinamos o mal e o cumprimos com uma facilidade gigantesca.

Você está perdoado, Ed!

Com carinho, Dudú Mitre.

Ps:. as citações de Paulo a que me referi se encontram no livro de Romanos, no capítulo 7, com fragmentos dos versículos 18 a 25.

Resistência inútil

O próprio Paulo (ou São Paulo, autor neotestamentário) faz diversos relatos a respeito da sua experiência pessoal com Jesus Cristo na estrada a caminho de Damasco. No livro dos Atos dos Apóstolos, capítulo 9, o médico e historiador Lucas descreve a cena. Já nos capítulos 22 e 26 do mesmo livro, o próprio Paulo relata o acontecido. As histórias batem, e até se completam. Dizem que, “respirando ainda ameaças e mortes” contra os chamados do Caminho, Paulo se dirige à Samaria, amparado pela lei judaica, afim de perseguir e prender os cristãos daquele lugar. “Quando se aproximava de Damasco”, uma forte luz vinda do céu brilhou de repente ao seu redor. Todos caíram por terra, e Saulo (ou Paulo) ouviu uma voz que lhe dizia:

“‘Saulo, Saulo, por que você está me perseguindo? Resistir ao aguilhão só lhe trará dor!
“Então perguntei: Quem és tu, Senhor? “Respondeu o Senhor: ‘Sou Jesus, a quem você está perseguindo.
Agora, levante-se, fique de pé. Eu lhe apareci para constituí-lo servo e testemunha do que você viu a meu respeito e do que lhe mostrarei.”  Atos 26:14-16

Escolhi a narrativa do capítulo 26 não por acaso. Ela é, na minha opinião, a mais completa, e apresenta um detalhe que muitas vezes fugiu à minha atenção. Trata-se de uma afirmação feita pelo próprio Senhor a Saulo, e que é repleta de significado!

“Resistir ao aguilhão só lhe trará dor!” Atos 26:14b

Esse era um provérbio grego a respeito da resistência inútil. O aguilhão era uma vara pontuda, usada para provocar dor e estimular os bois que puxavam as carroças a seguir em frente. Resistir ao aguilhão só causava mais dor aos animais.

Paulo era um homem estudado. Ele foi instruído aos pés do Rabino Gamaliel, um dos  mestres da lei mais conceituados em seus dias. Paulo conhecia toda a Escritura, era um homem fervoroso na doutrina judaica. Ele estava convencido da vinda de um Messias da parte de Deus. Ele estava a espera de um Salvador.

Ainda assim Paulo resistia.

“O Filho de Deus em uma cruz? Isto é um absurdo. Apenas os malditos são mortos no madeiro, o Filho do Homem seria um ser divino, em que o Espírito de Deus repousaria sobre ele, que não poderia morrer como um assassino.”

E enquanto resistia, Paulo perseguia.

“Todos os hereges que afirmam que este homem é o Filho do Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó devem ser presos. Esta doutrina deve ser exterminada o quanto antes.”

A que temos resistido? Qual área da nossa vida Deus tem tentado transformar e, de forma insistente, temos oferecido resistência?

Diante do Homem Divino, Paulo parou de resistir. Abraçou a fé e passou a se relacionar com o Messias que, segundo as palavras que ele mesmo escreveu anos mais tarde, “se fez pecado por nós” para que pudéssemos alcançar a justiça de Deus. No fim da sua vida o apóstolo afirma: “Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé. Agora me está reservada a coroa da justiça, que o Senhor, justo Juiz, me dará naquele dia”  (2 Timóteo 4:7,8).  Paulo vivera uma vida plena e repleta de sentido ao lado do Cristo.

No que diz respeito à vontade de Deus, a resistência é inútil. Não creio em um Deus que ande atrás de nós com um aguilhão, nos ferindo a cada vez que desconsideramos a Sua voz. Mas creio em um Deus que se revela através da Sua Palavra, que nos mostra a Sua vontade, e que permite que façamos duas escolhas: a obediência, numa postura de humildade que nos leva a um estilo de vida saudável e pleno, repleto de significado, ou a resistência, escolha esta que nos leva a um estilo de vida que “apenas nos trará dor”.

Diferentes perspectivas

Gosto muito quando Paulo, pelo Espírito de Deus, revoluciona a forma como enxerga o mundo. O fato dele encarar com alegria as adversidades serve como exemplo para cada um de nós, porque, aliás, as Escrituras foram escritas para nossa instrução, como sabemos de Romanos. No contexto do excerto a seguir, Paulo menciona não ter sido escândalo para ninguém para que seu ministério não caísse em descrédito e completa: estivemos “entristecidos, mas sempre alegres” (2 Cor.6:10)

Vejam o vídeo:

Imagem de Amostra do You Tube

Temos a inclinação de olhar apenas para as tristezas – incluo-me nesse grupo – esquecendo-nos das alegrias. Caso contássemos a narrativa do vídeo acima, daríamos ênfase nas duas tragédias: “Amigo, você não sabe o que me aconteceu. Fui atingido duas vezes por raios diferentes em momentos distintos. Quanta tragédia..Quanta desgraça…”

Vejam vocês, o homem do vídeo caiu por duas vezes, foi duplamente atingido. Mas foi também duplamente agraciado, abençoado, milagrado. Duas desgraças e dois milagres, portanto.

Amigos, vocês contam mais as tragédias e quedas, ou mesmo, as tristezas cotidianas do que as alegrias, os milagres e as bençãos de Deus?

“Pelo contrário, como servos de Deus, recomendamo-nos de todas as formas: em muita perseverança; em sofrimentos, privações e tristezas; em açoites, prisões e tumultos; em trabalhos árduos, noites sem dormir e jejuns; em pureza, conhecimento, paciência e bondade; no Espírito Santo e no amor sincero;na palavra da verdade e no poder de Deus; com as armas da justiça, quer de ataque, quer de defesa; por honra e por desonra; por difamação e por boa fama; tidos por enganadores, sendo verdadeiros;como desconhecidos, apesar de bem conhecidos; como morrendo, mas eis que vivemos; espancados, mas não mortos;entristecidos, mas sempre alegres; pobres, mas enriquecendo a muitos; nada tendo, mas possuindo tudo.” 2 Coríntios 6:4-10

Que aprendamos a viver na abundância e na escassez. O meu desejo é que eu saiba ter gratidão mesmo na dor, que eu saiba olhar com mais leveza para a vida e que eu saiba reconhecer as pequenas e grandes atuações de Deus no meu cotidiano.

Fica aqui o meu sincero desejo para sua vida também.

Um abraço.

752 Vulcabrás – Armadura de Deus

Há um bom tempo atrás uma propaganda ficou famosa.  Era a propaganda do sapato “752” da Vulcabrás, protagonizada pelo Brizola. O comercial terminava com a famosa frase: “internacionalização sim, mas pisando firme.

Mas o que isso significa nesse post? Simples …. que calçado você usa?

Até nisso a Bíblia entra. Paulo nos aconselha a ter os nossos pés calçados com a prontidão do Evangelho.

Para um soldado, o calçado era parte importante de sua armadura. Ele trazia estabilidade, segurança e força para marchar, ou seja, contribuia para que o soldado continuasse “pisando firme”. O próprio Paulo demonstrava seu desejo e disposição em pregar o evangelho. Era um homem que vivia com esse calçado nos pés!  As pessoas que vivem dessa forma são agraciadas segundo o profeta Isaías: “Quão formoso são, sobre os montes, o pés dos que anunciam as boas novas, que faz ouvir a paz.” (Is.52:7)

Por outro lado, o fato de estar descalço em Israel, era sinal de grande desgraça, indicativo de estado de miséria e herança perdida (Deut.25:10). Tanto que, uma das primeiras preocupações do Pai, ao ver seu filho voltando para a casa foi ordenar: “coloquem calçados em seus pés.” (Lc15:22)

Legal ver como nosso Pai nos tira da miséria e nos calça. No entanto, temos nossa responsabilidade para com o mundo. Vivemos em um mundo de descalços! Pessoas vivendo em miséria, sem “herança”, precisamos ajudá-las a compreenderem que o evangelho da paz existe e quer reconciliá-lo consigo, com o próximo e com Deus.

Você está calçado?

Continua “pisando firme” , tendo os pés agraciados por anunciarem as boas novas?

Você está de prontidão?

 

Abraço e até a próxima!

A mensagem e o mensageiro

“A despedida. O beijo. Lágrimas. ‘É melhor eu ir.’ Entra na sala de embarque, sem se importar em conter as lágrimas, que, já longe deles, correm soltas. Uma estranha se compadece e lhe compra uma garrafa de água. ‘Talvez isso te acalme’. Mal sabia que, quando estivesse de volta aquele aeroporto, já não haveria motivo para choro.”

E estremeci de imaginar que, em breve, longe de Kriska e de sua terra, todas as palavras húngaras me serviriam tanto quanto essas moedas que me sobram nos bolsos de torna-viagem.” (Budapeste, Chico Buarque)

Igualmente ao filme Tempos de Paz, Budapeste, trata da temática de aprender uma nova língua, nova cultura, adaptar-se a uma nova realidade. Esse processo de aprendizado sempre é muito enriquecedor. Conviver com pessoas diferentes é sempre interessante, por nos fazer aprender sobre nós mesmos. É quase um exercício antropológico de estranhamento e percepção de nós mesmos. Exige jogo de cintura: faz parte também o abrir mão de nós mesmos, das nossas vontades, muitas vezes, em prol de uma vontade maior do grupo. Um exercício de desprendimento e consenso.

 

 

Temos diversas formas de passar uma mensagem pros outros. Em diversas línguas, de diversas maneiras. Umas línguas são mais poéticas, outras mais lógicas, algumas mais políticas, outras mais universais, algumas mais espontâneas e outras mais isoladas, como o português. Sobre o isolamento do português, é impressionante como não nos damos conta de que essa é uma língua muito pouco falada aí fora. Paulo Henriques Britto tem um livro chamado Macau: assim como Macau é uma “ilha” em que se fala português no meio da China, da mesma forma estamos isolados do resto do mundo falando português. O que pode ser bom, se queremos contar segredos…

Como escrevi em um post anterior, a forma como passamos nossa mensagem é decisiva para sua aceitação: se apresentamos as coisas com arrogância, duvido que a mensagem terá a mesma credibilidade que teria se nos apresentássemos como servos humildes, como meros aprendizes. Para públicos diferentes, não é que a mensagem tenha que ser mudada, mas sim a abordagem. Paulo, em Atenas, apresenta Deus aos gregos (At 17:23) de uma maneira nada ortodoxa, utilizando aspectos da realidade deles, no caso o altar ao deus desconhecido.

A verdade é que a mensagem cristã em si tem poder em si mesma: Verdade é que também alguns pregam a Cristo por inveja e porfia, mas outros de boa vontade; Uns, na verdade, anunciam a Cristo por contenção, não puramente, julgando acrescentar aflição às minhas prisões. Mas outros, por amor, sabendo que fui posto para defesa do evangelho. Mas que importa? Contanto que Cristo seja anunciado de toda a maneira, ou com fingimento ou em verdade, nisto me regozijo, e me regozijarei ainda. (Fp 1:15-18) Mas é claro: nossas atitudes e a maneira de comunicarmos a mensagem muito ajudam, por dizer muito de quem somos. Creio que devemos buscar ser pessoas flexíveis, adaptáveis às situações, aprender com as diferenças. Podemos aprender muito com os outros, com as diferenças, com novas experiências. Crescemos, nos tornamos pessoas melhores. Mas, de fato, é mais cômodo permanecermos onde estamos.

Temos tido jogo de cintura e sensibilidade em relação ao diferente? Por que temos tido tanta cautela em buscar coisas diferentes?

(A ser continuado na quarta que vem… aguardem…)

P.S.: O título foi só pra brincar com um post de outro amigo meu.

Morte e Vida (Severina)

“Somos para Deus o perfume de Cristo entre os que se salvam e entre os que se perdem. Para estes, na verdade, odor de morte e que dá a morte; para os primeiros, porém, odor de vida e que dá a vida. E qual o homem capaz de uma tal obra?” (2 Co 2:15-16)

Como dito nesse versículo “de abertura”, representamos algo como Cristãos que as pessoas muitas vezes não entendem e muitas vezes repelem por não considerar verdade pra elas. É verdade, os cristãos são muitas vezes vistos como “morte”, como a materialização de muita coisa que há de mal no mundo e por isso foram perseguidos. Cristo mesmo foi perseguido, assim como Paulo, Pedro, Águeda

O Martírio de Santa Águeda, que teve os seios arrancados
O Martírio de Santa Águeda, que teve os seios arrancados

E, quantas vezes não somos vistos como “morte” no meu meio não por sermos cristãos, mas pela arrogância com que apresentamos a mensagem cristã (você, se não fosse cristão/ou se não é cristão, seria amigo de alguém que tem uma atitude de superioridade sobre sua fé em relação aos outros? eu não!)?

Quantas vezes com os meus pecados não mancho o nome de Deus e aí sou de fato morte e testemunho ruim para os de fora? A lista vai: ignorância, intolerância, orgulho, falta de sabedoria, de sensibilidade, de cuidado, de discrição (=fofoca)…

Sobre essa última da lista: fofoca. Muitas vezes, até mesmo não por mal, acabamos espalhando coisas que não devíamos, contando segredos dos outros, fazendo comentários inapropriados. Isso é muito ruim: pra quem é o assunto, pra quem escuta (pois às vezes escuta coisas que não eram pra ser divulgadas, que podem mudar a imagem que se tem de uma pessoa) e pra quem fala (os amigos passam a confiar menos nessa pessoa). Eu, recentemente, passei por uma situação muito legal em que poderia ter feito um comentário ruim sobre uma pessoa e não fiz. Pelo contrário, orei por ela, pelo que tinha ocorrido e as coisas se encaminharam de uma forma muito melhor. Se eu tivesse externado o que estava pensando, não só teria influenciado outra pessoa a pensar como eu (ou a me achar uma hipócrita, por eu me dizer cristã e sair fofocando), como reforçaria meu próprio pensamento.

Fogueira de São JoãoMoral da história: se agimos como Deus quer, somos morte para os de fora. Se agimos como Deus não quer, somos também morte para os de fora, por mal testemunho. Que nos resta fazer? Cito Daniel 3:17-18, trecho que mostra o que acontece com Mesaque, Sedraque e Abedenego, judeus que decidem fazer a vontade de Deus mesmo no exílio babilônico e se recusam a adorar uma estátua de ouro do rei Nabucodonosor. A pena para tal desobediência é a fornalha. Eles respondem ao rei, quando presos: “Se assim deve ser, o Deus a quem nós servimos pode nos livrar da fornalha ardente e mesmo, ó rei, de tua mão. E mesmo que não o fizesse, saibas, ó rei, que nós não renderemos culto algum a teus deuses e que nós não adoraremos a estátua de ouro que erigiste.” É meio assim: olha, tô com Deus e não abro. Ele pode nos tirar da fornalha se Ele quiser, mas mesmo se for pra gente morrer, nem assim vamos adorar a sua estátua!

Esses caras, que são salvos no final (foi mal, estraguei o fim da história!), viveram uma vida de fé e entrega completa. Foram morte no sentido de choque com a cultura em que viviam, mas o seu testemunho, no fim das contas, tocou até mesmo o rei.

Nos deixando levar pela vontade de Deus, fazendo o que ele deseja de nós, nem imaginamos quais fronteiras romperemos e onde podemos chegar.

“Procedei com sabedoria no trato com os de fora. Sabei aproveitar todas as circunstâncias”. Cl 4:5

Controvérsia & Convicção

Há coisas no cristianismo que são super claras para as igrejas em geral, como quem é Jesus ou que matar é pecado. Mas e as coisas mais controversas? Há diversos assuntos “proibidos” ou “complicados”  no que tange a diferenças de visões entre igrejas e mesmo dentro das igrejas. E isso é muito perigoso… Por que? Porque somos humanos.

St. Matthäuskirche, Berlim
St. Matthäuskirche, Berlim

Às vezes, tais assuntos controversos tomam proporções tão grandes que, somados ao orgulho humano, destroem amizades, igrejas, ministérios etc. Bom seria se todos nós fôssemos mais tolerantes e soubéssemos conviver melhor com o diferente, com o que tem uma visão um pouco distinta porém biblicamente possível e que mantém o foco em Jesus.

Penso imediatamente em Romanos 14. Parece que Paulo estava antecipando coisas que viriam a ocorrer no futuro e que trariam dissensões entre os cristãos (vide as mil-e-uma denominações de igrejas hoje existentes). Paulo diz nesse capítulo que saibamos conviver com aquilo que é diferente, por exemplo com o irmão que é mais novo na fé e tem menos entendimento. “Quem é você para julgar o servo alheio? É para o Senhor que ele fica em pé ou cai” (Rm 14:4). Haver brigas entre os cristãos não só é um mau testemunho para os de fora como pode perturbar a vida dos próprios cristãos: “não destrua seu irmão, por quem Cristo morreu” (:15) Não nos detenhamos em picuinhas, pois o Reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, paz e alegria no Espírito Santo (:17). Isso é o principal, é isso que devemos exalar.

Frauenkirche, Munique
Frauenkirche, Munique

Ele diz também que cada um deve estar plenamente convicto em sua própria mente (:5), seja no que for. Se não estamos convictos de algo que estamos fazendo, se não estamos convictos de tal coisa é certa, é bíblica, se estamos fazendo aquilo só porque todos os outros “cristões” fazem, tá errado. Estude, ore, busque, converse com pessoas. Temos que ter certeza e paz no coração sobre nossas convicções, não ir na onda dos outros. Até mesmo pra saber argumentar, defender o seu ponto de vista, não importa qual seja. A fé não é burra: a crença é em Deus, não nos líderes, não nos outros. Eles podem ajudar, claro, mas nunca substituir.

Pra terminar, Paulo também nos adverte: Cada um de nós prestará contas de si mesmo a Deus (Rm 14:12). Vai chegar um dia em que eu, individualmente, vou prestar contas do que eu fiz, do que defendi, em que cri. Não será meu líder em meu nome que vai prestar contas por mim, nem meu amigo, nem a igreja como um todo, mas eu mesma.

Lembremo-nos: “tudo o que não provém da fé é pecado” (:23).