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Não entendi

Quando fui estudar sobre “Inerrância da Bíblia”, acabei descobrindo um princípio muito legal sobre hermenêutica. Todo texto bíblico permite que se faça conjecturas sobre ele, desde que você não altere o sentido original ou a essência do texto. Eu uso muito isso. Conjecturas em palestras, estudos e até no post de hoje. Vamos a ela.

“Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta”, perguntou Filipe.

Jesus lhe respondeu: “Filipe, há tanto tempo estou convosco, e não tendes me conhecido? Quem vê a mim vê o Pai; como dizes tu: Mostra-nos o Pai? Não crês que eu estou no Pai e que o Pai está em mim?”

“Você está no Pai e o Pai está em você? Não entendi. Acho que tenho dificuldade com paradoxos.”

Paradoxos e mais paradoxos.

Assim é a vida cristã.

Só ganha a vida quem perde. O maior é o menor. E a loucura de Deus é assim, cheia de sabedoria.

Quem me dera, ao menos uma vez, explicar o que ninguém consegue entender. Que o que aconteceu ainda está por vir e o futuro não é mais como era antigamente.

Se você pensar de maneira minuciosa nas palavras ditas pelo Renato Russo na música “Indios”, o mais razoável é a conclusão de quem diz: “Não entendi!” 

Afinal, o que falar do anseio de querer explicar o que ninguém consegue entender?

Jesus era o “Mestre do Paradoxo”. Deus ama paradoxos. A Bíblia é o livro dos paradoxos e o nosso mundo parece ser o grande palco onde o dramático paradoxo de Deus se manifesta. A fé, que é um pré-requisito para quem deseja viver com Deus, não resolve o dilema do paradoxo. Ela o acolhe sem desejar desembaraçar-se dele. Não se propõe a explicá-lo. Ela simplesmente o abraça, tornando o paradoxo vivível.

Os tolos tentam explicar os paradoxos. Aprendi com Kierkegaard que, sempre que o entendimento sente piedade do paradoxo e começa a tentar ajudá-lo para que chegue a uma explicação, o paradoxo se retira por saber que, se for explicado, deixa de existir.

Não é preciso ter fé quando somos confrontados com certezas inabaláveis. A fé se faz necessária nos momentos crepusculares onde o mundo está cheio de incertezas, quando a noite é fria por causa do silêncio de Deus. E a sua função não é substituir as interrogações por certezas e seguranças, mas ensinar-nos a viver num mundo imbuído de incógnitas.

Acho que é isso, pessoal. Vou parando por aqui porque sei que Jesus é Deus. Sei também que Jesus é Filho de Deus. Jesus é Filho Dele mesmo?

“Não entendi!”

Um grande abraço!!!

Ideias extraídas do livro “Paciência com Deus”, de Tomás Halík.

 

E se o pecado não me afastasse de você?

Assim que decidi vir para Brasília, algumas decisões foram tomadas. Dentre tantas, estudar o livro de Neemias era uma delas. Havia prometido que faria isso e o compromisso assumido havia sido com um dos meus mais recentes amigos: Fernando Miranda, Coronel do Exército Brasileiro e atual Presidente de Alvo da Mocidade. Achei prudente cumprir o combinado (hehehehe) e sei que esse meu amigo sabe das coisas. Aproveito para dedicar esse post ao Miranda e reparto com vocês apenas uma das incontáveis riquezas contidas nesse livro.

Neemias pede informações sobre os judeus que haviam escapado e que não foram levados ao exílio da Babilônia. A notícia era apenas uma: “As pessoas estão em grande miséria e desprezo.” Ao ouvir essa notícia, o grande líder chamado Neemias se assenta, chora, lamenta por alguns dias e passa a jejuar e orar pelas pessoas. (PS: São raros os líderes que choram e jejuam pelas pessoas. Quando há algum tipo de compaixão, ela normalmente é efêmera e fugaz. Não dura alguns dias, como foi com Neemias.)

No entanto, o que mais me chocou foi a oração de Neemias pelo povo. Ele começa tecendo comentários sobre Deus, pede para ser ouvido e termina dizendo:

“… faço confissão pelos pecados dos filhos de Israel, os quais temos cometido contra ti; pois eu e a casa de meu pai temos pecado. Temos procedido de todo corruptamente contra ti, não temos guardado os mandamentos…” (Ne.1:6-7)

Percebe que ele usa a 1ª pessoa do plural o tempo todo?

Nessa hora, talvez alguns de nós poderiam dizer: “Você está orando errado, Neemias! Você não está pecando, mas sim o povo. Você, inclusive, está bem com Deus! Está sentindo compaixão, está orando, está jejuando…”

Sabe qual seria (na minha opinião) a resposta de Neemias?

“Engano seu! Tenho sentido tanta compaixão dessas pessoas que cheguei no status em que posso dizer: O SEU PECADO É O MEU PECADO!!!”

Não sei se você entende isso, mas é quando (paradoxalmente) o pecado não afasta, mas aproxima. O pecado não repele, une.

É quando as tosquices, os podres, as infantilidades fazem, quase que de maneira bizarra, o amor aumentar.

Não é concordar com o pecado. É quando eu chego ao nível de estar tão “imerso” em você, que o seu pecado passa a ser o meu pecado. Houve um homem que viveu essa experiência com tanta profundidade, que os registros da história dizem que sua inserção no mundo e na vida das pessoas foi de tal forma que Ele acabou tomando para si mesmo o pecado de todos eles. E há quem diga que essa foi a maior de todas as provas de amor que já existiu.

Porque nas mãos de Deus, até o pecado pode ser usado para revelar amor.

De quem o pecado te afastou? Acho que já temos algo para refletir…

Um grande abraço!!!