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Pais da Igreja – João Crisóstomo

Chegamos no grande orador da Igreja primitiva. Apelidado de “Boca de ouro” por causa de sua eloquência, João é um dos pais mais fecundos, chegaram até nós 17 tratados, mais de 700 homilias e 241 cartas. Nascido por volta de 349 em Antioquia da Síria (atual Turquia), desempenhou seu ministério presbiteral durante 11 anos (até 397) e foi nomeado bispo de Constantinopla. Durante esse período foi perseguido por situações políticas, pois era um homem que levava o cristianismo para o social. Tinha o grande sonho de substituir a pólis grega por uma sociedade construída pela consciência cristã. Talvez por isso foi grandemente perseguido e passou por dois exílios (o segundo levando à sua morte).

Começou sua vida cristã como eremita, mas uma doença que o impossibilitara de cuidar de si o trouxe de volta à sociedade. Segundo ele, Deus usa essa situação para lhe fazer enxergar sua verdadeira vocação: o pastoreado. Se tornou pastor de almas em tempo integral. Todos os seus anos como ermitão contribuiu para sua tarefa de pastor. A intimidade com Deus com o cheiro de seu rebanho o ligou a uma teologia prática. Como consequência, tinha uma grande preocupação de coerência entre o pensamento expresso pela Palavra e a vivência existencial. Segundo ele , o conhecimento deve traduzir-se em vida. Sempre se preocupou com o aspecto integral da pessoa, ensinando o cristianismo nas dimensões físicas, intelectual e espiritual.

Era também um franco defensor do sacerdócio universal de todos os cristãos. Ao fiel leigo ele dizia: “também a ti o batismo te faz rei, sacerdote e profeta.” Com isso ensina a todos a urgência da missão. Cada um é responsável pela salvação dos outros.

O que você aprende com João Crisóstomo?

Como você se avalia como “rei, sacerdote e profeta”?

O seu conhecimento se traduz em vida ou você é uma pessoa dupla?

 

Abraço e até a próxima

Pais da Igreja – Gregório de Nissa

Gregório, irmão de Basílio (sobre quem falei no último post), nascido por volta de 335. Se tornou bispo de Nissa e um importante teólogo da Igreja. Foi protagonista do Concílio de Constantinopla que, em 381, definiu a divindade do Espírito Santo. Não sabemos a data de sua morte, mas durante a vida deixou uma marca muito forte na Igreja. Talvez o ensino mais forte dele como teólogo seja: “não desperdiçar a vida em coisas vãs, mas encontrar a luz que permite discernir o que é verdadeiramente útil.”

Encontrou essa luz em Cristo e ensinava muito sobre o fato de nos tornarmos como nosso Senhor e Salvador.  Para ele, a realização do homem consiste na santidade, em uma vida vivida no encontro com Deus, nos ajudando a refletir a luz para os outros e para o mundo. Essa vida de tornar-se semelhante a Cristo era atingida através do amor, do conhecimento e da prática das virtudes.  No entanto, esse processo não é obra nossa, mas o resultado do agir gracioso de Deus. Portanto, segundo ele, “não se trata de conhecer algo de Deus, mas de possuir em si a Deus.”

Esse é o verdadeiro caminho, o verdadeiro milagre … Deus em nós!

Quantas vezes tentei, como minhas próprias forças e meus dons, ser mais parecido a Cristo! Tenho pena das vezes em que cai na armadilha da religião humana (aquela que me chama a negar a graça e me leva a tentar ser meu próprio salvador). Como esse mecanismo religioso ainda atua em mim. Como é difícil compreender a graça e confiar que o Deus em mim é quem continua me salvando e me fazendo uma pessoa mais parecida com Cristo.

Como vai a santidade em sua vida? Quem é o verdadeiro agente de transformação do seu ser?

 

Abraço e até a próxima!

 

Pais da Igreja – Basílio

Um homem chamado de luzeiro da Igreja de sua época. Reverenciado pela Igreja do Oriente e do Ocidente. O que podemos aprender com Basílio?

Nascido em 330 , em uma família profundamente cristã. Somente depois da juventude é que se volta para a fé, em profundo arrependimento e constatando o desperdício da vida em vaidades: “Um dia, como que acordando de um sono profundo, voltei-me para a admirável luz da verdade do Evangelho… e chorei sobre a minha vida miserável.”

Foi ordenado sacerdote e, em 370, se tornou bispo da Capadócia, atual Turquia. Seu ponto mais forte foi o equilíbrio e a intensidade  com que viveu seu chamado. Se aproximou do monaquismo para se aprofundar no silêncio, meditação, oração e estudo. Ao mesmo tempo, entendia que precisava cuidar do próximo, lançou as bases para a Ideia de hospitais, tudo motivado pela caridade e  amor ao próximo.  Se voltou para a caridade, sem se perder nas obras sociais como o fim em si, mas como reflexo da sólida fé e amor a Cristo.

Conseguia aliar oração, liturgia, missão e caridade. Ao mesmo tempo em que se opunha aos hereges que negavam Cristo e o Espírito Santo como Deus. Trabalhou muito para consolidar a doutrina da trindade.

Sem dúvida um homem que desenvolveu um ministério multiforme, de forma fiel e amorosa. Dessa forma o vejo como uma luz para os dias atuais também. Dias em que a Igreja instrumentaliza e compartimentaliza suas funções e o serviço de seus fiéis. Precisamos de cristãos , que assim como Basílio, sejam “generalistas” , façam de tudo, tendo como motivação o amor ao próximo e o amor a Cristo. Homens e mulheres prontos a darem suas vidas e não migalhas…

Basílio desenvolveu todo seu ministério e deixou todo seu exemplo em um prazo de 9 anos , pois, ainda com 49 anos, é chamado para o seu verdadeiro lar, ao lado da  trindade.

“Apóstolo e ministro de Cristo, dispensador dos mistérios de Deus, arauto do reino , modelo e regra de piedade, olho do corpo da Igreja , pastor das ovelhas de Cristo, médico piedoso, pai e sustento, cooperador de Deus, agricultor de Deus, construtor do templo de Deus” (Basílio, traçado por ele mesmo)

Quem é você? Como você tem levado sua vida?

 

Abraço e até a próxima!

Pais da Igreja – Tertuliano

Hoje falaremos do africano Tertuliano. Não conhecemos com exatidão as datas de seu nascimento e morte. Sabemos que seus escritos mais famosos são publicados a partir do ano 197.  Teve uma sólida formação filosófica, retórica, jurídica e histórica em Cartago. Falou sobre temas amplos do cristianismo. Dois deles saltam aos olhos, o primeiro o de contestar as gravíssimas acusações que os pagãos faziam contra o cristianismo. A outra a ênfase em comunicar a mensagem do evangelho em dialogo com a cultura do tempo. Além disso, Tertuliano dá um grande passo ao desenvolvimento do dogma trinitário, ao lançar termos como “uma substância” e “três pessoas”.

Mas gostaria de focar em uma questão mais pessoal de Tertuliano. Os biógrafos de sua vida demonstram que era um homem muito severo, e que, aos poucos , deixou a comunhão com a Igreja, aderindo à seita do Montanismo. O que o levou foram frustrações com pessoas, com a Igreja.

A grande característica de um grande teólogo é a humildade de estar com a Igreja, aceitando as fraquezas delas e compartilhando as próprias fraquezas. Um homem em ebulição, muito severo com as pessoas e consigo mesmo, acaba tendo sérios problemas de comunhão.

Vejo, em nossa sociedade individualista, muitos cristãos caindo no jogo , ao deixar de olhar para a cruz e tendo os olhos fitos nos pecadores.  Devemos criar o hábito de olharmos para a cruz, descobrindo descanso de nós mesmos e dos outros. Duro é carregar expectativas irreais sobre pessoas e a instituição Igreja. Muitos cristãos tem se tornado fechados, ressentidos, melancólicos e murmuradores….

Que tipo de vida tem levado?

Abraço e até a próxima

Pais da Igreja – Orígenes de Alexandria

Orígenes é o grande Teólogo Bíblico da Igreja primitiva.  Tido como autor de 320 livros e 310 Homilias (infelizmente a maior parte se perdeu). Seu principal tema era oração e escrituras. Foi o idealizador da leitura orante, ou seja, a necessidade de buscar as escrituras em oração.  O conhecimento bíblico era vivo por meio da oração. Segundo ele, Jesus não se limita a dizer: “procurai e achareis” e “batei e vos será aberto”, mas acrescentou: “pedi e recebereis”. Portanto, as escrituras deveriam ser analisadas, estudadas, investigadas, mas tudo dentro do “pedi e recebereis”.

Um grande mestre que se preocupava muito com a atitude além do conhecimento. Para ele, o verdadeiro conhecimento, advindo do contato das escrituras,  sempre brota do amor e, traz consigo, atitudes e transformações.

Como você tem se relacionado com as escrituras? Você tem procurado? Você tem pedido? Sua leitura das escrituras é orante?

Abraço a até a próxima!

 

Pais da Igreja – Clemente de Alexandria

Mais um grego que se tornou cristão e difundiu o evangelho em meio a filosofia. Nasceu em Atenas e, ainda jovem, foi para Alexandria, onde aperfeiçoou o diálogo entre fé e razão no seio da tradição cristã.  Durante uma perseguição (202-203), se refugiou em Cesareia, onde morreu em 215.

Deixou três importantes escritos, seus escritos demonstram a sua preocupação.  Esses escritos talvez constitua uma trilogia do crescimento e amadurecimento cristão. Primeiramente o “Protréptico”, termo que significa exortação. Nesse escrito temos uma exortação do autor para aqueles que estão iniciando e buscando o caminho da fé. Segundo ele, Jesus é o nosso maior exortador rumo a verdade, e a própria verdade.

A seguida temos o “Pedagogo”, isto é , o educador. Livro destinado para aqueles que já estão no caminho e precisam serem ensinados a respeito da vida. Mais uma vez temos Jesus como o grande educador.

Por fim, o “Estrômata”, palavra grega que significa tapeçaria. Que são um conjunto de ensinamentos mais profundos da vida, tendo Jesus como o grande mestre. É a arte de unir o conhecimento fragmentado sobre a vida.

Exortação para o inicio da caminhada…

Educação para a caminhada …

Entender a vida como uma tapeçaria, conseguir enxergar a obra em meio aos pequenos fios…

Em que fase de vida você está?

Você tem, em Cristo, seu exortador, seu educador, seu tapeceiro?

Que possamos questionar nosso crescimento, nosso amadurecimento , tendo como ponto de partida Clemente!

Abraço e até a próxima!

Pais da Igreja – Santo Irineu de Lyon

Irineu nasceu em Esmirna (hoje Turquia), por volta do ano 135. Era um frequentador da escola de Policarpo, discípulo do apóstolo João.  Anos mais tarde se dirigiu para a região da Gália, onde ajudou a desenvolver a comunidade cristã de Lyon. Em uma missão especial, foi até Roma entregar uma carta dessa comunidade ao bispo de Roma (Eleutério). Mal sabia ele que, durante esse período, o imperador Marco Aurélio sacrificou 48 cristãos em Lyon (inclusive o bispo de Lyon – Potino). Ao retornar, Irineu se tornou o bispo da cidade. Pastoreou a comunidade até o ano de 202-203, morrendo (talvez) como mártir.

Duas obras dele chega até o nosso tempo:  “Contra as heresias” e “Exposição da pregação apostólica”. Irineu pode ser considerado o primeiro grande teólogo da Igreja, é o criador da primeira teologia sistemática, isto é, a coerência interna de toda a fé. Foi um grande confrontador do gnosticismo, grupo altamente intelectualizado e muito fragmentado (muitos pensamentos conflitantes entre eles). Em suma, os gnósticos acreditavam que a Igreja usava de símbolos para ajudar o povo a compreender algumas coisas , mas que a “verdadeira verdade” foi descoberta por eles, um grupo restrito e intelectual. Acreditavam no dualismo entre o Deus bom e um princípio negativo. Esse princípio criativo foi o responsável por criar a matéria. Tudo que era matéria era mal. O Cristo não veio em carne e sim em espírito sobre a carne, segundo eles. Irineu bate de frente mostrando a original santidade da matéria, do corpo em simetria com a santidade do Espírito. E afirmava que a Igreja era a detentora da verdade, uma verdade simples e disponível a qualquer um que a recebesse com humildade. Segundo ele não há doutrina secreta por detrás do credo comum da Igreja.

Na luta contra o gnosticismo ele trabalha muito a ideia do ensino dos apóstolos, resumindo em três pontos:

  1. A tradição apostólica é pública: Não é privada e nem secreta. Pública e disponível, com Cristo e seus apóstolos
  2. A tradição apostólica é única: Gera unidade através dos povos, através de diferentes culturas e de grandes diversidades.
  3. A tradição apostólica é “pneumática” (do grego “pneuma” é espírito): É guiada pelo Espírito. É viva, criativa. Não depende da habilidade de homens doutos ou com a “gnose” e sim do agir do Espírito.

Que possamos aprender com Irineu, que a fé da Igreja seja, hoje, transmitida como “pública”, “única”e “pneumática”! E que sigamos dentro da simplicidade e ousadia da tradição apostólica!

Abraço e a té a próxima!0

Os Pais da Igreja – Justino Martir

Nascido na Síria Palestina, no ano de 100, Justino Mártir representa um novo desafio à Igreja nascente. O Cristianismo chegava agora aos intelectuais, aqueles extremamente envolvidos com a filosofia grega. Começa um conflito dentro da comunidade do “Caminho”: A filosofia é útil?

Ele se torna cristão através de uma experiência relatada por ele em um de seus escritos (“diálogos com Trifão”). Um encontro com um idoso, em uma praia, onde este lhe revela Cristo  e seus profetas anteriores. Justino, um homem educado em retórica, história, poesia e na filosofia estoica e platônica, se rende a Cristo.

Com isso,  passa a defender a ideia que Cristo é o primogênito de Deus e que é o Logos (segundo relata João). Segundo ele, todo o gênero humano participa desse Logos. A real filosofia aponta para Cristo.  Ele se coloca como filósofo para demonstrar e ensinar (primeiro em Éfeso, depois em Roma) que Cristo era a verdade que a filosofia procura. A Igreja poderia se valer da filosofia, do pensar… e não tê-la como inimiga.  Segundo Justino, a inimiga do Cristo eram as diabólicas idolatrias das religiões pagãs e seus falsos deuses. O confronto era da verdade contra o “mito do costume”.

Justino morre  decapitado como um mártir no ano de 165, depois de duas cartas de defesa da fé escritas para o imperador Marco Antônio (Apologia 1 e 2). Um teórico que não se eximiu da prática cristã. Que lutou por uma Igreja que pensa e que não tem a filosofia como inimiga, mas como amiga intima, já que detém a única resposta verdadeira para todos os dilemas e buscas do homem.

Que possamos pensar, sem medo…

Um abraço e até a próxima

Os Pais da Igreja – Inácio de Antioquia

Inácio de Antioquia, foi o terceiro bispo de Antioquia, entre 70 e 107, ano de seu martírio. Conhecido como o doutor da unidade. Certa vez disse a respeito de si: “sou um homem ao qual foi confiada a tarefa da unidade”. Durante sua viagem para Roma, onde seria lançado às feras, ele foi fecundo em diversos escritos para as comunidades pelas quais passava. Escreveu cartas para as igrejas de Éfeso, Magnésia, Tralli, Roma, Filadélfia, Esmirna. Em todas as cartas um ensinamento muito forte sobre a unidade.

Segundo ele, a unidade era prerrogativa de Deus, que existindo em três pessoas é Uno em absoluta unidade. Só em Deus a unidade se encontra em estado puro e original. A unidade vivida entre os cristãos é uma imitação. Quando ouvia sobre tentativas de cristãos o ajudarem a sair de seu morte anunciada, respondia, suplicando aos mesmos, que não impedissem o seu martírio pois queria unir-se a Jesus Cristo.

Foi o primeiro a cunhar o termo “católico” (que significa universal) na literatura cristã.  “Onde está Jesus Cristo, ali está a Igreja”, por isso católica… com cristãos espalhados por todo o mundo, sendo Igreja.

Talvez hoje, mais do que nunca, precisamos desenvolver uma de suas orações:

“Que os cristãos possuam cada vez mais aquele espírito indiviso, que é o próprio Jesus Cristo”

Amém!

Abraço e até a próxima

Os Pais da Igreja – São Clemente Romano

Vou começar um pequena série dos pais da Igreja, ou seja, os primeiros homens depois dos apóstolos. Enfrentaram grandes problemas com os de fora da Igreja, mas problemas maiores com os de dentro da Igreja. Seus ensinos são bem interessante para a vivência cristã contemporânea.  O objetivo não é estudar a fundo cada um deles , e sim trazer uma ideia que cada um trouxe como contribuição.

Vamos começar com Clemente, bispo de Roma nos últimos anos do século 1. Fontes dizem (ex.: Santo Irineu)que Clemente “viu os apóstolos” , “encontrou-se com eles” e ainda tinha nos ouvidos a sua pregação (dos apóstolos)”.  A única obra certa de sua autoria é a ” Carta aos Coríntios”, provavelmente escrita após o ano 96.

O tema dessa carta remonta questões trabalhadas por Paulo em suas duas extensas cartas à mesma comunidade. O ensino da salvação e o imperativo do compromisso moral.

“Somos uma porção santa, realizemos , portanto, tudo aquilo que a santidade exige”

Além disso, pela primeira vez na literatura cristã, aparece a palavra grega Laikós , que significa “membro do laós” ,isto é, membro do povo de Deus. O nome em português é  leigo. Ou seja, quando diz que é leigo , na verdade, você é membro de um povo. Um povo santo, separado, encarregados de boas notícias , chamado ao serviço e amor sacrificial… algo bem diferente do contexto em que é usada hoje. O contexto atual paralisa 90 % dos povo de Deus , colocando a responsabilidade nas costas de um elite religiosa (clero).

Que possamos nos identificar como povo de Deus e entendermos o que isso significa!

Abraço e até a próxima