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“Desça depressa”

Me encanta a forma como Jesus se encontra com um baixinho excluído em Lucas 19. Para quem não sabe o seu nome é Zaqueu e ele era excluído por ser um cobrador de imposto corrupto. A gana desse homem em conhecer Jesus é impressionante; não conseguido adentrar no meio da multidão ele escolhe uma árvore para subir e aguardar Jesus passar por ali. Ele só não esperava o que ocorreria em seguida. Ao passar embaixo da árvore Jesus olha para cima, vê aquela cena engraçada e diz: “Zaqueu desça depressa. Quero ficar em sua casa hoje.”
Sinto que esse é o encontro de todo homem e mulher com Cristo. Todos temos algum (ou alguns) problema com aceitação, todos nos sentimos (por diversas vezes) excluídos. Além disso, todos, sem exceção, estamos no alto, nos apegamos a qualquer coisa para estar sobre os outros. Muitas coisas podem servir como árvores em nossas vidas: profissão, diplomas, relacionamentos, poder, habilidades, conhecimento, dinheiro…etc. Subimos nessas “árvores” do mundo dos espertos esperando que elas nos sustentem. Com elas o nosso orgulho aparece e o nosso salvador, assim como os outros, se torna pequeno.
É interessante que Jesus chama Zaqueu para o chão, para a realidade e essa realidade ao lado de Cristo traz alegria àquele homem (V.6). E a obediência ao “desça depressa¨ trouxe arrependimento, frutos de arrependimento (V.8) e salvação (V.9) não só a ele como a toda sua casa.
Quantas vezes não subi (e continuo subindo) em árvores na minha vida. O orgulho me leva a acreditar que pequenas árvores me projetarão para perto do céu e isso me faz enxergar-me maior do que sou e enxergar o próximo e o meu salvador bem menores do que são. Jesus ainda continua se encontrando comigo e me chamando a descer para a realidade e se convidando a entra em minha casa para me trazer alegria, arrependimento e salvação.
Que possamos atender esse chamado!
Grande abraço!

A mensagem e o mensageiro

“A despedida. O beijo. Lágrimas. ‘É melhor eu ir.’ Entra na sala de embarque, sem se importar em conter as lágrimas, que, já longe deles, correm soltas. Uma estranha se compadece e lhe compra uma garrafa de água. ‘Talvez isso te acalme’. Mal sabia que, quando estivesse de volta aquele aeroporto, já não haveria motivo para choro.”

E estremeci de imaginar que, em breve, longe de Kriska e de sua terra, todas as palavras húngaras me serviriam tanto quanto essas moedas que me sobram nos bolsos de torna-viagem.” (Budapeste, Chico Buarque)

Igualmente ao filme Tempos de Paz, Budapeste, trata da temática de aprender uma nova língua, nova cultura, adaptar-se a uma nova realidade. Esse processo de aprendizado sempre é muito enriquecedor. Conviver com pessoas diferentes é sempre interessante, por nos fazer aprender sobre nós mesmos. É quase um exercício antropológico de estranhamento e percepção de nós mesmos. Exige jogo de cintura: faz parte também o abrir mão de nós mesmos, das nossas vontades, muitas vezes, em prol de uma vontade maior do grupo. Um exercício de desprendimento e consenso.

 

 

Temos diversas formas de passar uma mensagem pros outros. Em diversas línguas, de diversas maneiras. Umas línguas são mais poéticas, outras mais lógicas, algumas mais políticas, outras mais universais, algumas mais espontâneas e outras mais isoladas, como o português. Sobre o isolamento do português, é impressionante como não nos damos conta de que essa é uma língua muito pouco falada aí fora. Paulo Henriques Britto tem um livro chamado Macau: assim como Macau é uma “ilha” em que se fala português no meio da China, da mesma forma estamos isolados do resto do mundo falando português. O que pode ser bom, se queremos contar segredos…

Como escrevi em um post anterior, a forma como passamos nossa mensagem é decisiva para sua aceitação: se apresentamos as coisas com arrogância, duvido que a mensagem terá a mesma credibilidade que teria se nos apresentássemos como servos humildes, como meros aprendizes. Para públicos diferentes, não é que a mensagem tenha que ser mudada, mas sim a abordagem. Paulo, em Atenas, apresenta Deus aos gregos (At 17:23) de uma maneira nada ortodoxa, utilizando aspectos da realidade deles, no caso o altar ao deus desconhecido.

A verdade é que a mensagem cristã em si tem poder em si mesma: Verdade é que também alguns pregam a Cristo por inveja e porfia, mas outros de boa vontade; Uns, na verdade, anunciam a Cristo por contenção, não puramente, julgando acrescentar aflição às minhas prisões. Mas outros, por amor, sabendo que fui posto para defesa do evangelho. Mas que importa? Contanto que Cristo seja anunciado de toda a maneira, ou com fingimento ou em verdade, nisto me regozijo, e me regozijarei ainda. (Fp 1:15-18) Mas é claro: nossas atitudes e a maneira de comunicarmos a mensagem muito ajudam, por dizer muito de quem somos. Creio que devemos buscar ser pessoas flexíveis, adaptáveis às situações, aprender com as diferenças. Podemos aprender muito com os outros, com as diferenças, com novas experiências. Crescemos, nos tornamos pessoas melhores. Mas, de fato, é mais cômodo permanecermos onde estamos.

Temos tido jogo de cintura e sensibilidade em relação ao diferente? Por que temos tido tanta cautela em buscar coisas diferentes?

(A ser continuado na quarta que vem… aguardem…)

P.S.: O título foi só pra brincar com um post de outro amigo meu.

Controvérsia & Convicção

Há coisas no cristianismo que são super claras para as igrejas em geral, como quem é Jesus ou que matar é pecado. Mas e as coisas mais controversas? Há diversos assuntos “proibidos” ou “complicados”  no que tange a diferenças de visões entre igrejas e mesmo dentro das igrejas. E isso é muito perigoso… Por que? Porque somos humanos.

St. Matthäuskirche, Berlim
St. Matthäuskirche, Berlim

Às vezes, tais assuntos controversos tomam proporções tão grandes que, somados ao orgulho humano, destroem amizades, igrejas, ministérios etc. Bom seria se todos nós fôssemos mais tolerantes e soubéssemos conviver melhor com o diferente, com o que tem uma visão um pouco distinta porém biblicamente possível e que mantém o foco em Jesus.

Penso imediatamente em Romanos 14. Parece que Paulo estava antecipando coisas que viriam a ocorrer no futuro e que trariam dissensões entre os cristãos (vide as mil-e-uma denominações de igrejas hoje existentes). Paulo diz nesse capítulo que saibamos conviver com aquilo que é diferente, por exemplo com o irmão que é mais novo na fé e tem menos entendimento. “Quem é você para julgar o servo alheio? É para o Senhor que ele fica em pé ou cai” (Rm 14:4). Haver brigas entre os cristãos não só é um mau testemunho para os de fora como pode perturbar a vida dos próprios cristãos: “não destrua seu irmão, por quem Cristo morreu” (:15) Não nos detenhamos em picuinhas, pois o Reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, paz e alegria no Espírito Santo (:17). Isso é o principal, é isso que devemos exalar.

Frauenkirche, Munique
Frauenkirche, Munique

Ele diz também que cada um deve estar plenamente convicto em sua própria mente (:5), seja no que for. Se não estamos convictos de algo que estamos fazendo, se não estamos convictos de tal coisa é certa, é bíblica, se estamos fazendo aquilo só porque todos os outros “cristões” fazem, tá errado. Estude, ore, busque, converse com pessoas. Temos que ter certeza e paz no coração sobre nossas convicções, não ir na onda dos outros. Até mesmo pra saber argumentar, defender o seu ponto de vista, não importa qual seja. A fé não é burra: a crença é em Deus, não nos líderes, não nos outros. Eles podem ajudar, claro, mas nunca substituir.

Pra terminar, Paulo também nos adverte: Cada um de nós prestará contas de si mesmo a Deus (Rm 14:12). Vai chegar um dia em que eu, individualmente, vou prestar contas do que eu fiz, do que defendi, em que cri. Não será meu líder em meu nome que vai prestar contas por mim, nem meu amigo, nem a igreja como um todo, mas eu mesma.

Lembremo-nos: “tudo o que não provém da fé é pecado” (:23).