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Dor

Do alto da cruz Jesus já havia experimentado todas as dores do mundo. As dores da carne causadas pela intensidade dos espinhos que penetravam em sua cabeça. Seu corpo também já havia sofrido com as torturas, acoites e os enormes pregos que atravessaram mãos e pés. A dor causada pela humilhação, pelo cuspe e também o tapa. O desdém, a indiferença e a traição.

Mas o pior ainda estava por vir. Jesus ainda sentiria a maior dor que alguém pode experimentar. A dor da ausência de Deus, quando abraçaria o pecado da humanidade, como um soldado que pula em cima de uma granada pra salvar seus companheiros a quem ama. Abandono, alienação, silencio. São as consequências naturais do pecado, quando Deus parece morto.

“Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” Mt 27.46

Esse é o momento em que Jesus grita de dor. Quase não a suporta o distanciamento de Deus que o fere profundamente, muito mais do que seus estigmas. Porém, não interrompe seu diálogo com Deus nem mesmo no momento em que experimentou a solidão da alma. Ele clama com sua fé ferida.

Que essa seja a nossa atitude. De clamar pelo nosso Deus, mesmo com Seu aparente silêncio e colocar diante dele as dores da carne que abrem feridas, que nos desanimam e nos fazem chorar e perder a esperança.

Insuportável mesmo é viver sem a presença de Deus.

Em defesa do Aniquilacionismo – 1

A decisão de escrever sobre um assunto tão complexo e polêmico foi difícil. Conversei com várias pessoas e li muita coisa sobre o assunto, mas confesso que depois de 40 dias de estudo ainda acho que as conversas foram poucas e as leituras insuficientes.  Contudo, me convenci de que a melhor maneira de dar forma para este texto seria começando a escrever.  Não sou teólogo, não sei ler em hebraico ou grego, e tudo que agora passo a escrever são baseados em leituras de teólogos e pastores conceituados do meio cristão, principalmente os acadêmicos e religiosos americanos, com poucas exceções. Outra parte do que escreverei virá da própria Bíblia, documento máximo para qualquer cristão. E onde a Bíblia não for clara, falarei da minha fé e no que eu acredito, sentimentos desenvolvidos na minha relação diária com Deus. Nestes momentos, tentarei ser explícito de que isto é algo que eu “creio” e não necessariamente algo “explicitado” nas escrituras. Para preservar um pouco o tamanho do texto, peço também permissão dos leitores para não transcrever todas as citações bíblicas que utilizarei. Apesar de não serem estritamente necessárias para o entendimento do conteúdo, seria interessante que o leitor consultasse sua Bíblia.

Meu planejamento inicial é que este “projeto” dure 4 posts, divididos no seguinte esquema: Introdução, Argumentos Favoráveis, Argumentos Contrários e Conclusão. Acredito que o tamanho dos posts deva ser ligeiramente mais longo que as médias. Tentarei ser sucinto, mas a própria complexidade do assunto me obriga a ser mais detalhista. Por fim, gostaria de dizer que todos os comentários, contrários e favoráveis, muito mais do que bem vindos, são essenciais para que este conteúdo seja rico em ideias. Gostaria muito de ouvir o que cada um pensa a respeito, tanto de leitores assíduos como de leitores que por aqui passam a primeira vez. O campo de comentários esta logo abaixo, então, por favor, me ajude a concluir este projeto participando da criação de um verdadeiro fórum para troca de ideias. E que tudo seja feito para Glória de Deus. Então vamos lá:

O que é Aniquilacionismo?

A ideia de inferno sempre me incomodou. Para muitos cristãos o inferno seria algo como aquele descrito por Dante Alighieri na “Divina Comédia”. A Igreja Católica se apossou da idéia do purgatório e chegou até a vender salvação,  na forma de indulgência, em certos períodos de sua história. Os gregos tinham suas várias histórias sobre o Reino de Hades.  O fato é que o destino do homem após sua morte é um tema controverso e antigo, muito antigo. Tão antigo como a discussão sobre o lar do diabo e das almas condenadas. Para onde vão?  De alguma forma aquela visão clássica de um satanás vermelho, com rabos e chifres, sentado no trono de um deserto árido de fogo, cheio de lava fumegante e derretida, repleto de inúmeras almas gritando e gemendo em dor e sofrimento eterno, não se associavam com o conceito que tenho sobre a bondade e misericórdia de um Deus que se fez homem para pagar por nossos pecados. Como poderia Deus permitir que algo assim existisse? Como poderia Deus obter uma vitória completa se, coexistindo com um novo Reino, onde viveremos todos na presença completa de Deus, haveria um local de tamanho sofrimento e agonia?

O Inferno de Dante, por Gustave Dore
O inferno visto por Dante, de Gustave Dore

John Stott disse o seguinte:Eu acho o conceito de tormento consciente eterno emocionalmente intolerável e não compreendo como as pessoas conseguem conviver com isso sem cauterizar seus sentimentos ou esfacelá-los com a tensão. Mas as nossas emoções são um guia instável, não confiável para nos conduzir à verdade e não devem ser exaltadas ao lugar de suprema autoridade em determiná-la. Então minha pergunta deve ser e é não o que me diz o meu coração, mas, o que diz a Palavra de Deus? “ (1)

Concordei muito com Stott! Como podemos suportar tal destino para nossos irmãos que não serão salvos? Pessoas que amamos, que estão ao nosso redor, e que sofrerão eternamente. Por outro lado, não basta achar que não faz sentido. Tem que existir base bíblica para tal. E acreditem: elas existem. Existe sim base bíblica para crer no aniquilacionismo. São estes argumentos favoravéis ( e até mesmo os desfavoráveis) que eu gostaria de apresentar e discutir com vocês.

Foi neste questionamento que Stott apresenta que entre alguns teólogos nasceu uma teoria chamada de “Aniquilacionismo”. Esta teoria tomou força aparentemente no ano de 1987, com a publicação de diversos artigos pelo canadense Clark Pinnock, pelo próprio John Stott, por William Fudge e por Philip Edgecumb Hughes. Desnecessário dizer que tais artigos causaram certo estremecimento na comunidade evangélica dos Estados Unidos e mexeu com diversas personalidades. Logo, um acirrado debate tomou conta das convenções e muita gente graúda se posicionou contra os argumentos apresentados.

A teoria do aniquilacionismo não é amplamente aceita pela comunidade evangélica, e é refutada por diversos outros importantes teólogos, infelizmente. Justamente por isto, meu receio em escrever sobre um assunto onde tanta gente grande já debateu. Mas precisamos prosseguir se quisermos chegar em algum lugar por aqui, portanto, falemos mais sobre o aniquilacionismo propriamente dito.

Segundo o teólogo e pastor Gregory A. Boyd, “Aniquilacionismo é a doutrina que afirma que tudo o que não puder ser redimido por Deus será exterminado.” Nós, os aniquilacionistas, acreditamos que as pessoas que não serão salvas serão exterminadas, deixando de existir conscientemente. Não existirá um inferno eterno, nem danação eterna, nem sofrimento eterno. Ou existiremos conscientemente no Reino de Deus, ou seremos aniquilados, extintos, exterminados.

Para falar de aniquilacionismo vamos falar, inexoravelmente, de fim dos tempos, imortalidade da alma, salvação, condenação e do inferno. Só existe um único ponto que evitarei discutir, e este ponto é sobre o “caráter de Deus”. Com esta decisão, pessoalmente estarei descartando vários argumentos favoráveis ao aniquilacionismo utilizados por teólogos que o defendem, mas por outro lado estarei em paz com minha consciência e com meu dever cristão. Se não me sinto totalmente apto a falar sequer sobre o aniquilacionismo, que dirá falar sobre o caráter de Deus. O caminho será longo, e digo logo que de cara que os argumentos favoráveis ao inferno clássico são bastante contundentes. Mas assim como eu, alguém aí fora pode encontrar sentido na aniquilação. E eu quero escrever para estas pessoas!

Você já parou para analisar sua crença? Você acredita no inferno? Qual sua opinião sobre o fim dos tempos?

Semana que vem a gente continua!

Um abraço!

 

Bibliografia
(1) Evangelical Essentials - John Stott

A morte de Jeremias

Dia 2 de Junho de 2009 foi um dia triste para mim! Estava em minha mesa, estudando, quando, de repente, ouvi minha esposa gritar: aaaahhhhhh!!!! Logo pensei: um rato! Mas não era nada disso, e ela completou, em meio ao choro: “O Jeremias morreu!!!!” Me levantei rapidamente e me dirigi a área de serviço parando em frente a gaiola onde viveu, durante 10 anos, o nosso adorado canário belga: Jeremias.

Jeremias
Jeremias

Acho que todos já tiveram experiências com algum animal que despertou sentimentos de carinho ao longo da vida. Com certeza, Jeremias foi um destes! Todo dia quando eu chegava na cozinha, logo cedo, para tomar café, sempre o encontrava, na janela, olhando para o horizonte, enchendo o peito e abrindo o bico para uma linda melodia! Várias vezes admirei seu canto, como se fosse um show particular para mim. Não sei de onde ele tirava tanta força visto que era um pequeno animal, extremamente frágil. Mas, o fato é que, diariamente ele estava lá, cheio de vigor e  energia, enchendo minha casa com um belo canto. Vejo que meu canário, sem dúvida nenhuma, foi um grande modelo de pássaro de estimação!

JEREMIAS LAMENTANDO A DESTRUIÇÃO DE JERUSALÉM-Rembrandt
JEREMIAS LAMENTANDO A DESTRUIÇÃO DE JERUSALÉM-Rembrandt

Quando pensei em sua morte me lembrei de seu xará, um homem que viveu em Jerusalém (e no Egito, no fim da vida) durante  a virada do século VI a.C.. Assim como Jeremias pássaro foi um modelo de pássaro, creio que o Jeremias homem foi um modelo de homem. Entendo que o ser humano procura um modelo de homem num mundo cada vez mais desumano, para agir como um ser moral responsável, não vivendo à deriva como um “objeto inanimado” qualquer. Para mim Jeremias se encaixa nesse modelo, tendo como qualidades marcantes em sua vida a bondade, a virtude e a excelência! (quem quiser se aprofundar na vida de Jeremias pode ler os dois livros de sua autoria no Antigo Testamento: Jeremias e Lamentações).

Competindo com os cavalos:corra com os cavalos

Logo no capítulo 12 do livro de Jeremias creio que existe um episódio que marcou profundamente a vida desse homem. No verso 5 vemos ele sendo desafiado por Deus com as seguintes palavras: “Se você correu com homens e eles o cansaram, como poderá competir com os cavalos? Se você tropeça em terreno seguro, o que fará nos matagais junto ao Jordão?”

Imagino que, em outras palavras Deus estava dizendo o seguinte à Jeremias: ” A vida é difícil, Jeremias. Você vai desistir diante da primeira onda de oposição? Vai se refugiar em casa no instante em que descobrir que multidões de pessoas estão mais interessadas em manter seus pés aquecidos do que viver em perigo para a glória de Deus? Quer arrastar-se com a multidão ou almeja correr com os cavalos?”

A vida de Jeremias foi a sua resposta: “Eu correrei com os cavalos!”

O segredo de Jeremias:

Mas eu me pergunto: Mesmo sendo desafiado por Deus como Jeremias conseguiu viver uma vida constante de bondade, virtude e  excelência? Creio que o segredo desta vida constante se encontra em uma palavra permeada em todo o livro de Jeremias (onze ocorrências em todo livro: 7:13/7:25-26/11:7-8/25:3/25:4/26:5/29:19/32:33/35:14/35:15/44:4): “Hashkem” (“Shechem”). Esta palavra que foi traduzida na bíblia como “começando de madrugada” e também tem como significado “ombro”. Com o tempo o substantivo “ombro” resultou em um verbo que significa: “carregar o lombo de animais para um dia de viagem” (naquela região os mercadores tinham que sair ainda de madrugada para uma viagem, pois assim poderiam evitar o sol quente).

Esse é o sentido da palavra encontrada nesses textos e que nos mostram o seu segredo. Por exemplo:”Durante 23 anos (…) tem vindo a mim a palavra do Senhor, e, começando de madrugada, eu vo-la tenho anunciado; mas não escutastes”(Jeremias 25:3). Durante todos esses anos ele levantava bem cedo, se enchia de carga e saía para transmitir as palavras do Senhor ao povo. E, por 23 anos o povo, indolente e preguiçoso, nada ouviu. Mas para ele, o dia era do Senhor e não do povo. Ele não saía de casa sem colocar a carga, sempre estava cheio e com novidades da parte do Senhor. Era isso que o mantinha, que o ajudava a vencer frustrações e obstáculos em seu dia! Quantas vezes saio de casa vazio, sem ouvir o que Deus tem para mim e para os outros. Quantas vezes vivo de “achismos” em vez de viver na certeza da palavra de Deus. Creio que um dos maiores segredos da constância seja essa vida de “carregar o lombo para um dia de viagem”.

Nesse sentido vejo muitos paralelos entre os dois Jeremias citados no texto: ambos, todos os dias estavam constantes. Faça sol ou faça chuva, frio ou calor e mesmo com suas fragilidades, ambos tinham uma linda canção para entoar a cada manhã! Mas o paralelo que mais me preocupa é que ambos estão mortos! Precisamos de mais Jeremias em nosso meio, homens e mulheres com mensagem, com conteúdo de vida, que sejam modelos de bondade, de virtude e de excelência! Homens e mulheres que demonstrem através de suas vidas um cântico maravilhoso de ser ouvido e copiado!

Gostaria de deixar duas perguntas para uma reflexão pessoal (quem quiser deixar a resposta no comentário vai ajudar muito todos nós!):

  • Você está disposto a correr com os cavalos?
  • De que forma você se avalia com o “carregando o lombo para um dia de viagem”?

* Boa parte dessa reflexão foi extraída do livro “Ânimo” de Eugene H. Peterson, que sugiro a qualquer um que queira se aprofundar no livro de Jeremias!