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A Crítica Xamânica à Economia Política

“Nós, nós não usamos a palavra meio ambiente.
Dizemos apenas que queremos proteger a floresta inteira.
‘Meio Ambiente’ é a palavra de outra gente, é uma palavra dos brancos.
O que vocês chamam de ‘meio ambiente’ é o que resta do que vocês destruíram”
(Davi Kopenawa)

 

Hoje eu vim falar de umas coisas um pouco “viagem” pra nossa mentalidade. Se segurem aí.

A moda hoje é “meio ambiente”. Toda e qualquer empresa quer ser vista como verde, amiga dos animais, das árvores, dos esquilos etc. Chega até mesmo ao absurdo de empresas de mineração fazerem propaganda de que são verdes. Sim, elas destroem a Serra do Curral (o cenário da devastação, a paisagem lunar em que se transformaram grandes áreas do nosso estado são de fato impressionantes) e dizem ser verdinhas. Que bonito. E a gente ainda compra essa propaganda.

Claro que isso tem toda uma importância econômica pra nós. Minas é um estado que nasceu para ser “mina” e ainda hoje é “mina”, alimentando a fome insaciável dos chineses. Dizem até que Minas corre o risco de sofrer abalos sísmicos devido à grande quantidade de minério daqui retirada: a diferença de peso, pelo minério extraído, causa um desequilíbrio. E sim, claro, com 6 bilhões de pessoas vivendo no mundo, nosso impacto é muito maior do que a 300 anos atrás, quando a população era bem menor, assim como a tecnologia etc.

Mas o mundo não vai aguentar muito tempo esse ritmo não. O planeta já vem dando esses sinais de que nosso modelo não foi (é) tão sensato assim.

Essa questão da mineração: “A crítica xamânica da economia política”

Eu disse que era viagem! rs

Davi Kopenawa
Davi Kopenawa

Ainda na matéria X que faço na antropologia, fiz um trabalho sobre um índio chamado Davi Kopenawa1 , liderança Yanomami. Ao tratar da questão da mineração aurífera na área da reserva indígena do seu povo, em Roraima, ele apresenta uma cosmologia completamente diferente da nossa e que me fez pensar muito: segundo ele, Omamë, o demiurgo (ou deus-criador), quando criou o mundo, escondeu o ouro debaixo da terra porque sabia que ele fazia mal às pessoas. Mas aí vieram os wirihi wapohë, “comedores de terra” (termo que ele usa pra se referir aos mineradores), e tiraram o ouro lá debaixo. Esse ouro exalou uma “fumaça-epidemia” que devastou as florestas, destruiu a atividade produtiva deles e fez o povo adoecer (com o contato com o branco, houve muita destruição ambiental e grande parte da tribo morreu devido a doenças). A avidez dos garimpeiros pelo ouro e as febres mortais que trazem são atribuídas, em primeiro lugar, à ignorância dos brancos, à “escuridão confusa” de seu pensamento “plantado nas mercadorias”. Pra piorar tudo, para Kopenawa, a única função do ouro é ornamental, para usar nos dentes, anéis e cordões. Não há desculpa, o ouro não é vital, não comemos ouro, ele nem é mais usado como lastro2 do dólar. Então, teriam acabado com a floresta, com o habitat, com a atividade deles e matado milhares de pessoas por motivos ornamentais. Que bonito também.

Quando estudo sobre os indígenas, principalmente os da Amazônia, uma coisa me chama a atenção: o total embricamento índio-natureza. Para eles, o índio é parte da floresta, sendo regido pelas mesmas leis. É tudo parte do mesmo todo, não há uma visão antropocêntrica ou utilitarista da natureza. Mas na nossa sociedade é diferente. A fetichização da natureza por parte dos brancos enquanto exterioridade selvagem obriga os brancos a escolher entre a predação cega (ou a vontade de destruir tudo e produzir muito), a utopia da fusão total (meio paz-e-amor) e o meio termo “ambientalista”. Todos esses três pontos de vista têm uma visão muito utilitarista do meio ambiente, avaliando-o como bom a partir do momento em que nos pode ser útil. O pensamento indígena não está imbuído desse pensamento utilitarista, presente tanto no discurso protecionista quanto no produtivista.

O que eu vejo na nossa sociedade é algo distinto. Em recente visita à Assembléia Legislativa de Minas Gerais, assisti à discussão sobre o Projeto de Lei 2771/2008, que trata da transferência de autorizações ambientais da Secretaria do Meio Ambiente pra Secretaria de Agricultura de Minas Gerais. Óbvio que isso vai gerar maior impacto no meio ambiente e que é muito uma manobra eleitoreira, mas enfim… Pude perceber pelo discurso dos políticos que, enquanto na cosmologia indígena há uma interpenetração homem/natureza, na nossa cosmologia há, muitas vezes, uma oposição, i.e., diz-se que para que o homem possa sobreviver, produzir, é necessário transformar radicalmente o seu entorno. Estaria em nossas mãos uma escolha, portanto, entre preservar o meio ambiente e morrer de fome ou destruí-lo e desenvolver. Com toda a tecnologia que temos hoje, não seria possível preservar e desevolver?

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Criança Yanomami

O homem parece desconhecer o embricamento dele com a natureza e de sua dependência da mesma. Mesmo com uma cosmologia distinta da indígena, é um fato de que dependemos da natureza e dela necessitamos, é um fato biológico e é algo que o branco precisa começar a compreender (ou relembrar).

***

 

Jesus falou em Lucas 12:34 :”Porque, onde estiver o vosso tesouro, ali estará também o vosso coração.” Será que a nossa sociedade não tem valorizado as coisas erradas? E nós mesmos? Qual é o nosso “ouro”, aquela coisa pela qual estamos dispostos a passar por cima de tudo para obter? Ao ter tal coisa como meu tesouro, o que faço é deslocar meu foco e atenção para aquilo. Primeiro vem o “definir como tesouro”, depois o “aí estará o seu coração”. A nossa atenção, o nosso valor, a nossa prioridade, depende muito também da nossa escolha

Albert, B. (1995) “O ouro canibal e a queda do céu: uma crítica xamânica da economia política da natureza” Série Antropologia, 174. Brasília: Departamento de Antropologia, UNB

Quantidade em ouro referente à quantidade de moeda emitida, servindo de garantia ao valor da moeda.