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Cartas a um cristão como eu #2

Belo Horizonte, 20 de Junho de 2015.

Querido Ed, fiquei muito feliz em receber a sua correspondência. Admito que achei que os nossos diálogos teriam fim naquela ocasião, uma vez que mais de um mês se passou e eu não tive nenhum tipo de resposta sua. Várias coisas se passaram pela minha cabeça, mas recebendo notícias dos seus amigos cheguei a conclusão de que provavelmente você estivesse fugindo. Não de mim, uma vez que não apresento ameaças a ninguém, mas do rumo que a nossa conversa estava tomando. Não lhe julgo, pois sei que em tempos de crise pessoal e moral, pensar na própria vida e ter um amigo abusado que lhe toque as feridas não é nem um pouco confortável.

Quanto á fuga, permita-me apontar uma verdade: uma pessoa não pode fugir e aprender ao mesmo tempo. Ela precisa permanecer algum tempo para tirar lições que façam algum sentido e que produzam alguma coisa. Ora, não há nada anormal em se passar por uma crise. O coração humano, inclinado para o pecado, nos faz cair com frequência naquilo que sabemos estar longe da vontade do nosso Pai. Mas veja, cada uma dessas quedas pode ser uma escola! Me lembro do “Peregrino”, na obra de John Bunyan, quando se depara com dois leões dorminhocos à beira da estrada que levava à Cidade Celestial e conclui: “voltar (ou fugir) é ir de encontro à morte certa; prosseguir é apenas temer a morte, mas com a vida eterna em perspectiva. Avante, pois!”. Não tenho mais o que falar sobre isto, e espero que você entenda que o meu tom não é de juízo, mas de exortação.

Agora, quanto ao que você me escreveu, digo que se trata de um aprimoramento pelo qual todo cristão deve passar. Você não é o único que, como você mesmo me escreveu, “maquina o mal e o pratica com uma facilidade gigantesca”. Desconheço um irmão que não tenha vivido a tensão entre a carne e o Espírito, a tensão entre o querer satisfazer seus desejos e o desejo de satisfazer a sua alma no Criador. As afirmações do Apóstolo Paulo são, nesse sentido, reveladoras e muito pesadas: “Porque tenho o desejo de fazer o que é bom, mas não consigo realizá-lo. Pois o que faço não é o bem que desejo, mas o mal que não quero fazer, esse eu continuo fazendo. Ora, se faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, mas o pecado que habita em mim”. Apesar de livres do poder do pecado por causa do sacrifício do Filho de Deus, ele ainda nos influencia grandemente. Saber lidar com essa tensão é um ponto fundamental na caminhada cristã. Paulo clama aos céus: “Miserável homem que sou! Quem me libertará deste corpo sujeito à morte?”, e conclui de forma fantástica: “Graças a Deus por Cristo Jesus”.

Existe grande liberdade em Cristo Jesus. Liberdade trazida pelo perdão da cruz, pelo perdão que nasceu do amor. O pecado é real, é forte. Nos manipula e influencia. Nos seduz e nos faz escolher por ele. E sim, ele é muito mais poderoso do que nós. Mas o amor, o perfeito amor com que Jesus Cristo nos amou, este cobre uma multidão de pecados. E a liberdade oferecida por esse amor nos possibilita experimentar o perdão a cada vez que fazemos o que não queremos, a cada vez que maquinamos o mal e o cumprimos com uma facilidade gigantesca.

Você está perdoado, Ed!

Com carinho, Dudú Mitre.

Ps:. as citações de Paulo a que me referi se encontram no livro de Romanos, no capítulo 7, com fragmentos dos versículos 18 a 25.

Todos temos perguntas

Fim de semana intenso. O coração estava cheio. Muitas coisas passavam dentro dele.

Algumas conversas haviam mexido muito com ele e as palavras não saíam da sua cabeça!

“Deus, o que o SENHOR deseja?”, era a sua pergunta! Sentia necessidade de orar, de jejuar, de ouvir o pronunciamento do alto. A voz de Deus era o seu maior anseio!

Como será o futuro? Como será daqui pra frente? Como será cada dia, diante desse novo desafio? E as minhas necessidades? E os meus medos? E as minhas fraquezas?

Enquanto tudo isso passava pela sua cabeça, abriu sua velha e surrada Bíblia. Resolveu prosseguir com sua leitura diária. Aí, Deus fez um versículo saltar, cheio de vida própria…

Ele pulava e cantava na minha frente! Você já viveu essa experiência com algum versículo? Eu lia, sorria, chorava… O constrangimento era inevitável. As perguntas perderam o peso e o impacto que tinham no início. Foi necessário um único versículo, para que as angústias perdessem força.

O que Deus me falou?

“Eu vou com você até o fim, Du! Vou carregar você até quando você estiver velhinho, cheio de cabelos brancos. Já tenho feito isso e vou continuar fazendo.”

Quando passamos a ter plena certeza de que Deus está conosco, os nossos medos é que se enchem de medo, como se o feitiço voltasse contra o feiticeiro.

Ah, e, antes que eu me esqueça, o versículo que pulou para fora da minha Bíblia é Isaías 46:4!

Um grande abraço!!!

Uma defesa aos contos de fada

Já fui questionado algumas vezes sobre os contos de fadas. Alertado por religiosos realistas e racionalistas. “Como você pode ensinar essas coisas para suas filhas?”, eles dizem. Respondo: “eu vacilo por não desfrutar de mais tempo para encher a cabeça delas com esses contos!”

“Nossa, mas eles são cruéis, vai atemorizar suas filhas!” Bem, o medo já está posto, é parte do ser humano. Se eu deixar os monstros, lobos e bruxas longe das minhas filhas, elas o inventarão por conta própria.  Uma pequena criança, em um quarto escuro pode imaginar um inferno mais pesado que o de Dante.

Os contos não trazem o primeiro contato da criança com o monstro, mas o primeiro contato da criança com a possibilidade de derrota do monstro. O conto ensina como um personagem saudável interage com um mundo fantástico. O cosmos enlouquecem , os heróis não. O personagem herói terá, em suas viagens, verdades substanciais: Coragem, fé,  respeito pelos pais, palavra, resgate de pessoas, desafios sobre outras.  Tudo isso em um mundo extraordinário.

Triste pensar que nossa literatura hoje faz do herói o extraordinário (humanismo) e o conto ordinário. Um cosmos entendiante como palco para um herói entediado.

minhas filhas, que hoje se preocupam com as bruxas e lobos-maus, vão aprender que os maus existem, mas que não são a última palavra. Estão aprendendo que o mundo é fantástico, e que o nosso grande herói anda sobre as águas, multiplica pães, ressuscita pessoas, limpa leprosos. E vivemos em um mundo que já viu mar se abrindo, linguagem sendo fragmentada, fogo descendo do céu, crateras se abrindo, sol parando, etc…

Espero que o mundo delas seja fantástico. Espero que elas possam se maravilhar, boquiabertas, por viverem suas histórias ao lado do grande herói.

Por isso digo, precisamos de mais Grimms, Perraults, Andersens, Tolkiens, Lewis, Macdonalds, etc… Homens que entenderam que o Reino é das crianças … aquelas que acreditam em Papai Noel.

Abraço e até a próxima!

A Rocha que é mais alta do que eu

Como bons seres humanos, às vezes nos sentimos inseguros, desanimados, cansados e sem esperança com a vida. Nosso coração parece estar despedaçado.
Com Jesus também foi assim. Em seu leito de morte chorou, banhado em suor e sangue. Abandonado por todos, inclusive os melhores amigos.

O que fazemos quando estamos com medo, com dúvida, nos sentindo desolados, desconsolados?

Jesus nos ensinou o caminho da oração. Aquela oração verdadeira, que derrama o coração diante do Pai, com toda sinceridade possível, até mesmo dos mais íntimos pecados.

Assim bem escreveu o salmista:

“Desde o fim da terra clamarei a ti, quando o meu coração estiver desmaiado; leva-me para a rocha que é mais alta do que eu”

Salmos 61:2

Minha oração hoje é para que nossa relação com Deus não seja superficial, mas sim profunda. Oro para que Deus nos ajude a entender, assim como Jesus fez, que o verdadeiro consolo só pode vir dEle. Que Deus seja nossa rocha que nos leva mais alto do que poderíamos ir sós.

Forte abraço, até a próxima.

O pavor da presença de Deus

Você já sentiu medo de Deus? Já tive pavor!

Em determinados momentos tenho a imensa dificuldade de cogitar a possibilidade de que Deus esteja realmente próximo de mim, aqui e agora, e o tempo todo. Quão aterrorizante é pensar nisto! Pior do que estar aqui, conceber a ideia de que Ele gosta de mim e me quer bem é no míninmo inquietante: “justamente eu?”.

Talvez por este motivo orar sem cessar seja assim tão difícil. Talvez por isto não consiga manter regularmente aquele tempo fechado no meu quarto orando em secreto. Talvez seja este o motivo de não conseguir entregar tudo em oração. Ainda, provavelmente seja esta a razão da descrença de que Ele deseje dar pão para este faminto que vos escreve, e não pedras.

Tenho este imenso bloqueio espiritual por pensar que se Deus estiver aqui presencialmente e for me dizer algo de maneira audível seria no sentido de “por que você tem vergonha de mim?”. Nos meus pensamentos respondo: “porque estou nu”. E ele finalmente me questiona da maneira ainda mais medonha possível “quem lhe contou isto?”. Assim como os primeiros seres humanos a (re)conhecerem sua condição de pecador, penso nestes momentos que tenho muito o que temer diante de Deus.

Percebo que parte significativa do meu medo de Deus seja algo que pode servir de algum proveito se bem utilizado. Isto seria possível se me valesse deste conhecimento de mim mesmo para enfim me colocar diante Dele. Desarmado da carcaça de valor que imagino ter, desnudado diante de Deus, espero quieto e calado por sua graça. Infelizmente ainda não o faço. Ao contrário, uso deste subterfúgio para me distanciar ainda mais de Deus, esconder do que não pode ser escondido de maneira burra e infantil.

Diferente dos primeiros pecadores, hoje tenho o conhecimento de Cristo (apenas fria e racionalmente, muitas das vezes). Conheço sua humanidade, de sua consciência das minhas dificuldades, do quanto ele fez para que eu pudesse presenciar um pouco destes momentos de glória da presença de Deus.

Quando me sinto mal por entender que não mereço nada Dele, tento me lembrar deste Jesus e pensar no quanto custou caro para que eu pudesse ter este convívio. Ainda é muito estranho pensar que neste exato momento não estou só neste quarto, não escrevo solitário estas palavras. Paradoxalmente, tudo isto tem um ar um tanto quanto confortante.

E você, já teve medo de algo vindo de Deus?

Da medo do medo que da

O que é o medo? Para alguns, falta de fé. Para outros, um receio. Para o tio do Chico Buarque, ausência de coragem, dentre outros significados. Manifesta-se de diferentes formas – desde certo receio ao extremo pavor. É uma emoção, mas pode se transformar num estado de espírito ou até mesmo num traço da personalidade, de acordo com a maneira como ele é tratado.

Todos nós sentimos medo. Medo do escuro, medo de fantasma, de altura, de ficar sozinho em casa, de escolher, de errar, de andar de noite na rua, do desconhecido, de avião, de viajar de carro com aquele tio meio doido, de não ser amado, de escolher a pessoa errada e até de morrer solteiro. O medo pode ser visto como um vilão que tenta nos roubar o sono ou como um amigo que tenta nos alertar de um perigo. Alguns tem medo da morte e outros, da vida.

Hitler tinha medo de dentista (e tinha mal hálito, registre-se). Ghamdi tinha medo de serpentes, fantasmas e ladrões. Eu tive medo de ficar sem amigos, de não passar no vestibular, de ficar desempregado depois de formado, de visitar uma atividade mineraria no Pará, de não ser feliz com na vida. Josué, sucessor de Moisés a caminho da conquista de Canaã, também teve medo – medo de ser derrotado pelo povo mais forte que o aguardava na nova terra, medo do próprio povo que liderava, medo do desconhecido. Medo do desconhecido… Por vezes o temor está aliado à pré-ocupação.

Tudo bem que o medo seja normal, mas o que fazer com ele? Sinceramente, não sei. O que ouvi sobre ter fé foi o que mais me ajudou até hoje. Ainda assim me pego num pavor paralisante de vez em quando. Acredito que Jesus também experimentou um pouco disto antes de ser entregue para apanhar e morrer nas mãos dos soldados romanos. E a maneira como ele se entregou a Deus naquele jardim é, no mínimo, inspirador. Imagino como o Filho confiava no Pai quando passou por medo. Gosto de ver como Deus tenta encorajar Josué contra seu medo. Foram aproximadamente sete vezes, narrados entre os livros de Deuteronômio e do próprio Josué, quatro delas só no capítulo um deste.

 “Não to mandei eu? Esforça-te, e tem bom ânimo; não temas, nem te espantes; porque o SENHOR teu Deus é contigo, por onde quer que andares.”

(Josué 1:9)

O lhe causa medo hoje? Por qual motivo você sente medo? Como tem lidado com seu medo? Para quê Deus tem lhe chamado e você tem reagido com medo?

Deixo aqui o registro para um pouco de filosofia a respeito do medo do medo que da.

Que as palavras de Deus a Josué, tão bem compreendidas por Jesus, fale hoje aos nossos corações.

Peter Pan – Trauma

Peter Llewelyn Davies, este é o nome do verdadeiro Peter Pan. Ele foi descoberto pelo dramaturgo Sir James Matthew Barrie na Londres do início do Século XX. Era o filho mais novo de uma viúva que tinha sob seus cuidados ainda outros três filhos. Diferente dos irmãos, Peter não era dos mais entusiastas com brincadeiras de crianças e com a vida de um modo geral. As coisas começaram a mudar após ter conhecido o Sir James, ou simplesmente “Tio James” ou “Tio Jim”, como era chamado por ele e seus irmãos.

Sir James chegou na vida do garoto sem querer, num dia qualquer de passeio e reflexões no Kensington Garden, após mais uma estréia fracassada de uma de suas peças teatrais. À procura de um novo enredo, o autor encontra-se com a família e passa, de certa forma, a fazer parte dela. O pequeno Peter é tanto quanto resistente no início, mas acaba por ceder aos convites de Barrie para deixar a imaginação o levar a lugares distantes da realidade e do medo. James incentiva o garoto o presenteando com um caderno em que pudesse escrever suas ideias. O apoio foi forte o suficiente para motivar Peter a montar sua primeira peça. Infelizmente a apresentação surpresa para James e Sylvia Davies (mãe de Peter) não chega ao final por ela passar mal durante o espetáculo encenado por Peter e seus irmãos. Os motivos da desconfiança de Peter são expostos neste momento, quando se vê diante da mesma situação que tirara seu pai de sua presença, quando da sua morte. A revolta toma conta do pequeno garoto e o Tio Jim aparece neste momento com suas experiências de vida e uma palavra de conforto.

O tema central desta história é o trauma que leva ao medo – medo da morte, medo de deixar a imaginação solta e perder as rédeas da situação e da vida. Quem nunca teve medo da morte de um ente querido? Quem tem o controle deste tipo de situação? Ao se deixar envolver, voltava à memória de Peter que ele havia combinado com seu pai de pescar em duas semanas, mas seu pai não resistiu sequer dois dias antes de vir a falecer. Fuga da realidade nunca foi maneira de solucionar nenhum tipo de situação, mas viver sob tensão também é um sacrifício muito alto, ainda mais se levarmos em consideração o fato de não haver alteração alguma no resultado final das situações da vida.

É muito ruim se sentir enganado pela vida. Nós nos permitimos um pouquinho de felicidade e vem a tragédia e nos ataca. Ed René Kivitiz assim define, interpretando o eclesiastes:

A desgraça sempre acha um jeito de bater à nossa porta. Quando ela chega, não se limita a trazer sofrimento, mas aproveita a viagem para jogar na cara um desaforo: “isto é para você saber que não vale a pena viver, pois o mundo não faz sentido, tudo não passa de um absurdo.

Muitas vezes me vejo no lugar do pequeno Peter e tenho medo de desfrutar um pouco mais de um momento de alegria porque, afinal, minha mãe, já com a saúde um tanto quanto debilitada, a qualquer momento vai ter alguma complicação e teremos de levá-la à emergência de um hospital. Graças a Deus isto não acontece, após ter conhecido a Cristo tenho entregue meu coração e minha preocupação a seus cuidados. Que coisas ruins vão acontecer, é um fato. A liberdade de saber que Deus está no comando é que faz a diferença. O pequeno garoto não conhecia isto e por este motivo talvez tivesse tanto o que querer se resguardar.

Uma tristeza aqui, outra ali, e logo endureço meu coração, tal como Peter o fez.  O convite do dramaturgo foi para que Peter vivesse mais, se permitisse um pouco mais de felicidade em meio às tristezas da vida. O convite de Deus para nossas vidas é o mesmo, deixar o trauma de lado e vislumbrar com outros olhos a realidade à nossa frente. Minha oração hoje é para perceber este convite do Pai e conseguir me entregar cada vez mais para ter a liberdade de poder viver a vida plena que Ele me prometeu.

Na próxima semana, “Peter Pan – O Menino Se Foi”. Até lá.

Quebrando rótulos

“Fulana? É uma fofoqueira.

Cicrano? É um gay.

A Madre Teresa? É uma santa.

O Eike Batista? É um ambicioso.

Meu chefe? É um incompetente.

O Mozart? Era um gênio.”

Já reparou como reduzimos as pessoas a um aspecto de sua personalidade, isso quando não exageramos (ou até mesmo inventamos) o próprio rótulo que damos a elas? Deixamos de tentar compreender as pessoas antes mesmo de conhecê-las, reduzimos uma pessoa como um todo a um aspecto (verdadeiro ou não) e preferimos falar mal a tentar enxergar outro ponto de vista.

Isso por se mesmo já seria um problema, não fosse que fazemos exatamente a mesma coisa com Deus. Nós também tentamos reduzir Deus aos nossos conceitos e “enquadrá-lo” na nossa visão de como Ele deveria ser ou como fomos ensinados que ele é (Note-se que usar Deus como pretexto pra disciplinar os outros acaba passando a mensagem de um Deus de medo, um Deus carrasco).

Fala a verdade: o Deus que imaginamos muitas vezes nunca é digno de confiança, adoração, louvor, reverência ou gratidão. Embora digamos que não e que “Deus é amor”, agimos conosco e com os outros como se Deus fosse um de ódio, de julgamento, de discriminação. A perda da transcendência, do relacionamento verdadeiro com Deus e da chama que arde – em parte em decorrência dessa visão errônea – tem deixado um rastro de cristãos desconfiados, cínicos e revoltados contra um Deus “mimado” e uma porção de cristãos arrogantes e cheios de julgamento (e com o coração igualmente amargo) que se dizem donos da verdade divina.

Assim como precisamos quebrar nossos rótulos em relação às pessoas, talvez seja a hora também de quebrar nossos paradigmas quanto a Deus, buscar dentro de nós mesmos os rótulos que nós demos a Ele.

Buscar uma relação verdadeira com aquele que é sim um Deus de amor e é muito mais do que qualquer rótulo que qualquer dia possa ser inventado para tentar restringi-lo.

(Inspirado em “Confiança Cega”, Brennan Manning)

Estrela da Alva

Cair da tarde, após um período de chuva e belo sol no horizonte. A luz ficava terna. Acendia-se ali uma lamparina. Seria ela a responsável por iluminar uma noite sem sono. Lugar afastado da cidade, escuro. Não havia outra senão a chama daquele pequeno instrumento. Cama de chão: estrado. Tentativa de dormir. Abrir ou fechar os olhos não fazia muita diferença. Só se enxergava o vulto das coisas. E a sombra delas causava medo. Mais um pouco de tempo e a impressão de que algum pequeno animal estava a caminho. Tentativa de pegar no sono, sem sucesso. Cheiro forte de querosene. Fio de fumaça. Um pouco mais e a impressão de que algum animal peçonhento se aproximava. Sonho, realidade, pesadelo, realidade. Sem muita certeza da diferença entre cada um deles. Escuridão, sobra. E enfim, uma fresta na janela começava a tomar conta do lugar. Luz! Aos poucos inundava o espaço. Pássaros cantavam: o dia clareava. E as tenebrosas sobras da imagem da lamparina deixavam de causar incômodo. A luz dela já não iluminava muito além do seu pavio. Coração quente. Mais um pouco e finalmente aparecia A Estrela da Alva.

Medo

Acordei no meio desta noite. Um sentimento ruim, como se algo tivesse acontecido. Não era nada, nem mesmo um pesadelo. Era só o medo. Medo de não conseguir. Medo de que não gostem de mim. Medo de que minha segurança seja assaltada. Medo de me sentir mal. Medo de mais uma tempestade. Medo de que Deus permita que algo mal me aconteça. Deus. Me esqueci Dele por um momento. Esqueci da esperança de que tanto Ele me fala. Esqueci da fé! Medo versus fé. Fé que Ele está com o leme do barco da minha vida. Fé de que Ele é meu amigo. Fé de que Ele tem sonhos para mim. Fé nos dias melhores que Ele me promete. Fé de que com Ele posso dormir tranquilo. Acordei muito bem esta manhã.