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Nem toda imagem vale mais que mil palavras

Casa na NeveEssa foi a imagem que postei essa semana no meu Instagram. Fiz uma crítica às pessoas que abandonaram a vida cristã e deixaram de carregar sua cruz. Falei que o primeiro passo após tal decisão é uma questão de consciência. Quem “chuta o balde” precisa justificar o injustificável. Dizer que a vida fora dos padrões de Deus vale mais a pena, é crer no incrível. É, por assim dizer, um absurdo. Porque se os caminhos de Deus são propostas de vida, escolher o contrário após ter conhecido caminhos de vida, é caminhar conscientemente para a morte. É como a porca lavada que volta a revolver-se no lamaçal. A porca, nesse caso, porém, age conscientemente.

“… a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz…” (Jo.3:19)

Porque a loucura, pessoal, a gente não explica. Apenas constata que ela existe.

É como se alguém quisesse me convencer de que do lado de fora da casa é que tá legal de viver e aonde existe liberdade. Algumas pessoas curtiram minha foto e outras comentaram positivamente. Se fosse só isso, estaria tudo bem. A polêmica aconteceu nos bastidores.

Recebi, pelo whatsapp, um longo áudio de uma pessoa que tenho profundo amor. Eram críticas sobre a foto postada. Ao ver a foto no Instagram, o incômodo foi gigante.

Ser cristão é viver num mundinho fechado, dentro de uma enorme zona de conforto?

Ficar enclausurado num casebre é o que chamamos de liberdade?

Inauguro dizendo que a foto era apenas uma metáfora e toda metáfora carrega suas limitações. A imagem da casinha isolada no meio do gelo tentava demonstrar um ambiente que propiciava vida e outro que propiciava morte.

A liberdade cristã nunca foi e nunca será pequena. Ela é maravilhosamente ampla e preciosa demais para querermos abrir mão de 1% dela. Nesse caso, o casebre não conseguiu representar o tamanho da nossa liberdade. No entanto, apesar de grande, ela também possui seus limites. Aquilo que deixa de ser liberdade, vira libertinagem. A diferença entre uma e outra é a santidade. A liberdade é santa e tem padrão moral. A libertinagem não.

A libertinagem é ilusória. Fala de liberdade, mas escraviza. A libertinagem é enganosa. Parece intensa, mas é efêmera. A libertinagem traz morte. É saborosa e tétrica. A libertinagem faz do pecado o seu maior protagonista, por isso, não tem nada a ver com Deus e tudo a ver com o maligno.

“… o pecado, para revelar-se como pecado, por meio de uma coisa boa, causou-me a morte, a fim de que, pelo mandamento, se mostrasse sobremaneira maligno.” (Rm.8:13)

Nós não vivemos numa zona de conforto. A vida cristã não permite tal regalia. Fomos comissionados a levar o Evangelho até aos confins da terra, custe o que custar. Somos da turma que, até a presente hora, sofre fome, sede, nudez. Somos esbofeteados e aqueles que não têm morada certa. Os aflitos desse mundo, paradoxalmente, cheios de ânimo.

Somos o filho pródigo que, tendo experimentado o frio lá fora, resolve voltar entendendo que o simples casebre é melhor do que o mundo inteiro.

Um grande abraço!!!

 

Tem lugar?

Em João 8 vemos uma discussão de Jesus com homens que haviam sido despertados para um crença inicial em Jesus. O papo segue de forma direta e dura entre Jesus e eles. O que está em jogo? A filiação ao invés da escravidão. Jesus estava chamando aqueles homens a se tornarem filhos ao invés de escravos. Me parece que a reação foi de se sentirem ofendidos, pois tinham grande orgulho de sua história de liberdade. Jesus não recua, e diz que a liberdade não estava na história deles mas no fato do Filho (ou seja , Ele mesmo) trazer libertação. Eles precisavam de deixar de lado sua história, sua religiosidade, todas as situações em que poderiam bater no peito para se gabarem. Eles precisavam se entregar para um relacionamento libertador com o Filho. Nesse momento Jesus dá o diagnóstico do problema: “… porque em vocês não há lugar para a minha palavra” (V.37b).
O coração e a mente deles estavam cheias de outras palavras…
suas histórias de vida…
Seus jargões religiosos…
Filosofias…
hábitos…
cultura…
Talvez todas essas “palavras” falaram mais alto que a palavra de Jesus. E isso fez com que uma crença inicial fosse morta ainda na concepção.
Com toda a sinceridade… a palavra de Jesus tem lugar em sua vida?
Que palavra tem tido lugar em sua mente? Filósofos, artistas , amigo popular , presidente do seu time de futebol, psicólogos …
Tem lugar para as palavras de quem te conhece e te ama como ninguém?

Tem lugar?

Abraço e até a próxima

Cartas a um cristão como eu #2

Belo Horizonte, 20 de Junho de 2015.

Querido Ed, fiquei muito feliz em receber a sua correspondência. Admito que achei que os nossos diálogos teriam fim naquela ocasião, uma vez que mais de um mês se passou e eu não tive nenhum tipo de resposta sua. Várias coisas se passaram pela minha cabeça, mas recebendo notícias dos seus amigos cheguei a conclusão de que provavelmente você estivesse fugindo. Não de mim, uma vez que não apresento ameaças a ninguém, mas do rumo que a nossa conversa estava tomando. Não lhe julgo, pois sei que em tempos de crise pessoal e moral, pensar na própria vida e ter um amigo abusado que lhe toque as feridas não é nem um pouco confortável.

Quanto á fuga, permita-me apontar uma verdade: uma pessoa não pode fugir e aprender ao mesmo tempo. Ela precisa permanecer algum tempo para tirar lições que façam algum sentido e que produzam alguma coisa. Ora, não há nada anormal em se passar por uma crise. O coração humano, inclinado para o pecado, nos faz cair com frequência naquilo que sabemos estar longe da vontade do nosso Pai. Mas veja, cada uma dessas quedas pode ser uma escola! Me lembro do “Peregrino”, na obra de John Bunyan, quando se depara com dois leões dorminhocos à beira da estrada que levava à Cidade Celestial e conclui: “voltar (ou fugir) é ir de encontro à morte certa; prosseguir é apenas temer a morte, mas com a vida eterna em perspectiva. Avante, pois!”. Não tenho mais o que falar sobre isto, e espero que você entenda que o meu tom não é de juízo, mas de exortação.

Agora, quanto ao que você me escreveu, digo que se trata de um aprimoramento pelo qual todo cristão deve passar. Você não é o único que, como você mesmo me escreveu, “maquina o mal e o pratica com uma facilidade gigantesca”. Desconheço um irmão que não tenha vivido a tensão entre a carne e o Espírito, a tensão entre o querer satisfazer seus desejos e o desejo de satisfazer a sua alma no Criador. As afirmações do Apóstolo Paulo são, nesse sentido, reveladoras e muito pesadas: “Porque tenho o desejo de fazer o que é bom, mas não consigo realizá-lo. Pois o que faço não é o bem que desejo, mas o mal que não quero fazer, esse eu continuo fazendo. Ora, se faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, mas o pecado que habita em mim”. Apesar de livres do poder do pecado por causa do sacrifício do Filho de Deus, ele ainda nos influencia grandemente. Saber lidar com essa tensão é um ponto fundamental na caminhada cristã. Paulo clama aos céus: “Miserável homem que sou! Quem me libertará deste corpo sujeito à morte?”, e conclui de forma fantástica: “Graças a Deus por Cristo Jesus”.

Existe grande liberdade em Cristo Jesus. Liberdade trazida pelo perdão da cruz, pelo perdão que nasceu do amor. O pecado é real, é forte. Nos manipula e influencia. Nos seduz e nos faz escolher por ele. E sim, ele é muito mais poderoso do que nós. Mas o amor, o perfeito amor com que Jesus Cristo nos amou, este cobre uma multidão de pecados. E a liberdade oferecida por esse amor nos possibilita experimentar o perdão a cada vez que fazemos o que não queremos, a cada vez que maquinamos o mal e o cumprimos com uma facilidade gigantesca.

Você está perdoado, Ed!

Com carinho, Dudú Mitre.

Ps:. as citações de Paulo a que me referi se encontram no livro de Romanos, no capítulo 7, com fragmentos dos versículos 18 a 25.

Escolha: liberdade e responsabilidade

Escolha: liberdade e responsabilidade

6:50 da manhã. O despertador do celular toca. Levantar ou programar o modo “soneca” e dormir mais cinco minutinhos? Escolha! Há sempre mais de uma opção na vida: mais de um celular para despertar de manhã a ser comprado, mais de um programa para fazer no sábado à noite, mais de um curso no vestibular, mais de uma área a seguir na profissão, mais de uma garota para chamar para sair – mais de um caminho a seguir.

As escolhas aparecem desde a hora em que acordamos e nos persegue até o final de cada dia da nossa existência. Em virtude delas escrevemos boa parte da história de nossas vidas. Acertando ou errando colhemos os frutos, para o mal ou para o bem. O intuito é sempre acertar, mas nem sempre conseguimos. Em alguns momentos estamos atentos para esta realidade, há outros, no entanto, em que a verdade diante de nós passa muito despercebida. É então que o perigo bate à nossa porta. Agimos como se não houvesse amanhã. Plantamos uma semente aqui e outra ali; sem perceber temos uma floresta! Se de sementes ruins, uma floresta repleta de folhas secas, galhos com espinhos e frutos amargos. Não há como definir as conseqüências de nossas escolhas, certo é que elas virão e que não terá como fugir delas. Prejudicar-nos é o mínimo que poderá acontece. O produto final das escolhas será invariavelmente dividido com quem não decidiu por ela.

Que fazer diante de tal possibilidade? Arrisco afirmar que a esmagadora maioria dos problemas causados por escolhas mal feitas provém do fato do ser humano querer seguir seu próprio caminho no lugar de seguir a Deus. Como foi com Jesus? Estando no jardim chamado Getsêmani, Jesus orou com tristeza pedindo para que Deus o tirasse da situação ruim de ter de morrer pelos pecados da humanidade (Marcos 14:36). O Líder tinha a opção de pegar a espada nas mãos do discípulo, convocar seus seguidores e lutar contra os soldados e líderes religiosos que procuravam prendê-lo. Havia ainda a possibilidade de apenas fugir com seus amigos e passar a viver na obscuridade. Ele, ao contrário, seguiu o que fora determinado por Deus e cumpriu o que lhe era devido. Não há como deixar de pensar em dor, desde a física até mesmo a psicológica pela decisão tomada. Jesus decidiu por Deus e colheu os bons frutos que lhe foram prometidos (Filipenses 2:9,10).

Na minha vida não é diferente. Todo o tempo sofro pelo fato de ter de decidir e muito mais pelas conseqüências das decisões tomadas. Minha oração é para que Deus me deixe claro o que há de legal guardado para mim depois do alto muro que hoje me impede de enxergar adiante.

Este post é fruto de um papo muito pesado que tive com uma amiga. Há alguns anos dividimos nossos dias de feira. Apesar disso, infelizmente, tivemos muitos poucos papos tão produtivos sobre a vida tal qual o da última sexta-feira. Quero terminar dividindo com ela e com você alguns questionamentos que tenho me feito:

Como tenho decidido a respeito do que tenho vivido? Considero a existência do outro de maneira altruísta conforme Jesus exige (Filipenses 2:4; Mateus 5:39)?

Tenho dedicado a Deus sua honra (Malaquias 1:6) ou faço dele meu “gênio da lâmpada” a quem exijo tão somente respostas a pedidos vazios?

Qual minha reação com o que Deus quer de mim? Lutar com minhas próprias forças? Fugir e passar a viver dissimulando amadurecimento? Ou me entregar como Jesus fez?

Concluo: o livre arbítrio é forte expressão do amor de Deus pelo ser humano. Ele não quer um exército de robôs que os adoram apenas por obrigação. Junto da liberdade porém reside uma grande carga de responsabilidade!

Será que estas ideias são difíceis de serem vividas apenas por mim? Compartilhe comigo sua opinião!

Travessia

Travessia. É a última frase do livro Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa. Ele explica melhor no transcorrer da obra e faz com que consigamos entender porque essa simples expressão se transforma em uma frase cheia de sentido próprio:

Eu atravesso as coisas – e no meio da travessia não vejo! – só estava era entretido na idéia dos lugares de saída e de chegada. Assaz o senhor sabe: a gente quer passar um rio a nado, e passa; mas vai dar na outra banda é num ponto muito mais embaixo, bem diverso do em que primeiro se pensou. Viver nem não é muito perigoso?¹

Aqui a gente luta, sofre, luta, sofre, tem alguns prazeres, algumas alegrias… sim, viver é mesmo perigoso. Tenho refletido sobre as lutas, sofrimentos, prazeres e alegrias da minha vida. Me espanta saber o quanto a parte da luta e do sofrimento ocupa lugar de destaque. Admito que não tenho visto com muita precisão o outro lado da margem do rio. Quando pensava sobre o assunto li algo no livro de C.S. Lewis que me chamou a atenção. Jack, como ele se auto-denominava, chegou ao final de sua vida com a maior tranqüilidade possível. Um mês após escrever o trecho que transcrevo abaixo morreria vítima paradas cardíacas. Para ele, a travessia se daria da seguinte forma:

Imagine-se como uma semente aguardando pacientemente dentro da terra, esperando para brotar como uma flor no tempo certo do Jardineiro, no mundo real, o verdadeiro despertar. Suponho que toda nossa vida presente, se observada de lá, parecerá apenas uma semivigília sonolenta. Estamos aqui na terra dos sonhos. Mas a primeira luz da aurora está chegando.²

Não que eu pense em morte tendo vivido apenas 26 anos. Mas estas palavras e um papo ao telefone me lembraram o quanto há algo melhor à nossa espera e que tudo aqui, inclusive a parte da luta e da dor, serão vistas apenas como uma pedra de sal no oceano. Termino com um versículo de que gosto muito e que acredito ter tudo a ver com o que escrevi.

Todavia, como está escrito: “Olho nenhum viu, ouvido nenhum ouviu, mente nenhuma imaginou o que Deus preparou para aqueles que o amam” (1 Coríntios 2:9).

¹ Grande Sertão: Veredas. João Guimarães Rosa – Nova Aguilar, 1994.

² Cartas a Uma Senhor Americana / C.S. Lewis; tradução Lenita Esteves. – São Paulo : Vida, 2006