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O cuidado com a Arca (Parte 2)

Semana passada falei um pouco sobre a arca da aliança e a forma como Deus quis que ela fosse “carregada”. A arca representava a presença de Deus. Creio que hoje, todos aqueles que compreenderam o que Jesus fez na cruz e creem carregam a arca dentro de si. A presença de Deus é acessível (“está próxima” e se torna “dentro”). Mas o que podemos aprender com as coisas que existiam dentro da arca? Talvez essas coisas nos ensinem o que devemos “carregar” dentro de nós enquanto levamos a presença de Deus.
1°: Lei – Se quisermos carregar a arca da presença de Deus precisamos ter consciência de sua lei… de sua palavra. A lei de Deus poderia ser comparada à função de um esqueleto em nossos corpos. Sem essa estrutura não conseguimos ter forma, mobilidade, força.
2°: Vara – A vara de Arão que simboliza o poder de Deus em um momento de libertação de seu povo no Egito, mas também simboliza a correção e disciplina. Precisamos carregar conosco a vara da correção (para ser usada em nós mesmo primariamente e, posteriormente, com aquelas pessoas que Deus tem colocado em nosso caminho de peregrinação).
3°: Maná – A doçura e energia do Maná. A lei e correção são necessárias, mas o maná traz o equilíbrio necessário para que a presença de Deus seja vivida dentro de um ambiente saudável de alimento e amor.

Como você avalia esses três componentes da arca em sua vida? Em sua peregrinação?

Abraço e até a próxima

A dicotomia da Lei e do Pecado

“No princípio criou Deus os céus e a terra.”  Gn 1:1

Logo ao criar o céu e a terra, Deus formulou dois princípio físicos e filosóficos que sempre estiveram presentes na ciência humana: a dualidade e a dicotomia. É fácil notar na nossa realidade tangível o conceito de dualismo. Basta pensar em noite e dia, bem e mal, céu e terra, paraíso e inferno, entre tantos outros exemplos. Até nossos próprios sentimentos parecem ser dicotômicos, como alegria e tristeza, amor e ódio, etc.

Em via de regra, dualismo é dividir um só elemento em duas partes irredutíveis entre si mas subordinadas uma à outra. No caso de Gênesis, o céu existe de forma separada da terra, mas só podemos conhecer o céu de forma inteligível quando o céu é contraposto pela terra, de modo que, sendo ambos irredutíveis, sua existência se baseia na não-existência do outro, semelhante ao pensamento de que tudo que não é o céu, é a terra. Este conceito pode ser igualmente ampliado para pensarmos em corpo e espírito, e, no caso deste texto, em lei e pecado. Vejamos o que Paulo disse:

“Que diremos pois? É a lei pecado? De modo nenhum. Contudo, eu não conheci o pecado senão pela lei; porque eu não conheceria a cobiça se a lei não dissesse: Não cobiçarás.” Rm 7:7

Notamos a dicotomia com facilidade. O que não é cumprimento da lei, é pecado. Da mesma forma, posto que cobiça é pecado, pois ela é o não-cumprimento da lei, tudo aquilo que for não-cobiça é bom aos olhos de Deus. Assim fornecemos limites semânticos ao pecado, e somos possibilitados de conhecer e significar a cobiça. Não houvesse lei, a dualidade cobiça / não-cobiça não seria posta. A cobiça sequer existiria, seria apenas um sentimento sem delimitação e único, impossível de ser sentido, visto ou pensado, uma vez que a percepção humana baseia-se na contraposição de elementos para significação de sentidos no modelo de aquilo que não é bom, é mau, e vice versa.

“Porque o pecado, tomando ocasião, pelo mandamento me enganou, e por ele me matou.” Rm 7:11

A lei definiu o pecado, e o pecado nos matou. Não houvesse a lei, não haveria o pecado, pois a lei deu contornos ao pecado, tornando conhecido o que Deus quer e o que Deus não quer que façamos. A lei possibilitou ao homem conhecer a vontade de Deus, e possibilitou criar no campo semântico dos homens infinitas possibilidades dicotômicas para analisar seu comportamento, seu coração e suas ações. Sem a lei o homem nem sequer saberia o que é pecado.

Notem, porém, que a morte e o pecado existem independentemente de nossa significação semântica para ele. A lei não criou o pecado, ela apenas o tornou conhecido e inteligível.

E de que forma o pecado me matou pela lei? Como ele me enganou? Posto a dicotomia lei e pecado, fica fácil responder! A lei não é salvação! A lei é a definição do pecado! Ela não irá te resgatar de uma vida longe de Deus, ela irá apenas te mostrar os motivos pelos quais estamos todos condenados. Valorizar a lei acima de seu papel delimitador e definidor de pecado é subtrair de Cristo o seu papel de cordeiro. Este foi o preceito fundamental da cegueira dos Fariseus.

Uma pergunta óbvia mas necessária : por onde somos salvos?

“Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito. Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e da morte.” Rm 8:1-2

Nossa salvação não virá do cumprimento individual da lei, e sim da misericórdia de Deus, executada em Cristo, o cumpridor da lei. Mas a condenação de muitos virá, infelizmente,  pelo seu não cumprimento.

Parafraseando o velho ditado, digo que aos filhos de Deus, Jesus, e para as demais criaturas, a lei.

Graças a Deus por Cristo.

Um abraço!

Resumo da lei, essência da vida

Jesus, quando perguntado, resume toda a lei em algumas poucas palavras: “Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças, e de todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo.” (Lucas 10:27). Jesus diz não ser verdadeiramente possível fazer a vontade de Deus sem conjugar as duas esferas: a devoção e a ação.

A religião em si não diz nada, é vazia. A pseudo-devoção sem ação é a fé sem obras, sem a preocupação com o próximo. Do cristão que parece ser sábio mas não faz, não muda. Vejamos o que diz Isaías 58: 3-8: “No dia do seu jejum vocês fazem o que é do agrado de vocês, e exploram os seus empregados. Seu jejum termina em discussão e rixa, e em brigas de socos brutais. Vocês não podem jejuar como fazem hoje e esperar que a sua voz seja ouvida no alto. Será esse o jejum que escolhi, que apenas um dia o homem se humilhe, incline a cabeça como o junco e se deite sobre pano de saco e cinzas? É isso que vocês chamam jejum, um dia aceitável ao Senhor? O jejum que desejo não é este: soltar as correntes da injustiça, desatar as cordas do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e romper todo jugo? Não é partilhar sua comida com o faminto, abrigar o pobre desamparado, vestir o nu que você encontrou, e não recusar ajuda ao próximo? Aí sim, a sua luz irromperá como a alvorada, e prontamente surgirá a sua cura; a sua retidão irá adiante de você, e a glória do Senhor estará na sua retaguarda.”

Já o cristão que escolhe viver só a segunda parte é aquele que quer fazer, fazer e fazer, mas perde o foco. Perde o objetivo. Perde o melhor da festa e vive como Marta (Lucas 10:38-42).

Não é possível fazer uma ou outra coisa verdadeiramente, se dissociadas. A verdadeira espiritualidade provoca uma mudança na nossa relação com Deus, que muda a nós mesmos e à nossa relação com os outros, nossa visão de sociedade e nossa vontade de agir. Se nos falta uma ou outra parte do mandamento, não vivemos verdadeiramente nenhuma delas.

Que Deus nos ajude a viver em conjunto ambas as partes do mandamento de Jesus. Que não tenhamos uma visão distorcida do Cristianismo, mas que o amor a Deus se traduza nas nossas ações. Que a nossa espiritualidade seja completa – e não hipócrita – e que Deus nos assinale os nossos próximos e como usar nossos dons e talentos em prol do Reino.

Como você pode colocar essas idéias em prática?

(Agradecimentos aos amigos da Comunidade Presbiteriana Chácara Primavera)

Regra e Relacionamento

“Mas é possível limpar o rosto com o mesmo espelho que mostra como você está sujo? – Perguntou Sarayu” (A Cabana, pág. 189)

 

Em leitura recente de A Cabana, me deparei com uma parte bastante interessante do livro, em que a Trindade (Deus, Jesus e o Espírito Santo), em uma conversa com um homem chamado Mack, questionam-no sobre os 10 mandamentos. O livro, obviamente, é uma ficção, mas pode nos trazer diversas reflexões interessantes, como essa que gostaria de propor.

No livro, “Deus” questiona o que Mack pensa sobre os 10 mandamentos e as regrinhas que existem (fazer boas obras, ir à igreja, ler a bíblia etc), que nos “levam a Deus”. Mack segue o senso comum e diz que essas regras existem para que as pessoas sigam e fiquem próximas de Deus. Mas será que é isso mesmo? No livro, “Deus” diz que, na verdade, essas regrinhas não têm a função direta de nos tornar justos perante Deus, mas pelo contrário, têm o objetivo de mostrar o quão pecadores e limitados somos. Daí a frase de abertura: não é cumprindo nenhuma dessas regras que vamos chegar até Deus, não importa quão boa seja a nossa intenção, pois essa não é a função das “regras”.

O que nos faz chegar até Ele é o próprio Jesus, aquele que sim conseguiu cumprir todas as “regrinhas” propostas, não falhou em nenhum aspecto da lei e foi completamente irrepreensível. Só um relacionamento com esse cara é capaz de nos levar até Deus, não o seguir uma regrinha.

Catedral de Brasília
Catedral de Brasília

Isso me faz questionar a minha própria vida: até quando eu como cristã tenho vivido mais por regrinhas (ir à igreja, ler a bíblia, buscar não pecar, fazer caridade etc) e menos por relacionamento com aquele que me criou? Assim, deixamos de ganhar tudo e nos contentamos com muito pouco. A vida por regrinhas é vazia e sem sentido, além de ser hipócrita. Eu não quero ser hipócrita, pregar algo que eu não vivo. Não quero que o “falar é diferente do agir” seja uma verdade na minha vida. E isso depende de cada um de nós.

É fé, é relacionamento, não é regra. “Porquanto pela observância da lei nenhum homem será justificado diante dele, porque a lei se limita a dar o conhecimento do pecado” (Rm 3:20)