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Licença para matar

Foi chegando e abriu logo a carteira mostrando a insígnia. Vinha ali com uma missão dada sua grande responsabilidade. O documento atestava: tinha Licença Para Falar.

Começou de mansinho. Se colocando, colocando os outros. Expôs muito em muito pouco tempo. Chocou e percebia. Animava-se com a reação do ouvinte. “É, eu também fiquei surpreso, eu também achei um absurdo quando ele me contou”.

Mas não vinha ali para falar dos outros. Conteve-se, com ar sério.

E começou a falar sobre o que achava. Pois achava muita coisa. Até tinha tempo para ouvir. O suficiente para tomar fôlego e retrucar. Exaltava-se. Mas sempre de forma velada. “Fulano até me disse que eu estava coberto de razão” [sempre quando alguém fala “até” ou “tive a oportunidade de” é uma forma de camuflar autopromoção, tenho para mim]. Com isso, dizia: “como vê, a Licença é merecida”.

E aí foi no estômago. Enumerou. Expôs. Repreendeu. Admoestou. “Estou falando porque sou seu amigo”, “estou falando porque acho importante”, “eu, eu, eu”.

Concluiu de forma solene. Diligente, dava maior importância a sua sentença. Diante daquilo não esperava outra atitude senão o arrependimento. Ah, esperava também a gratidão.

 

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Se ridicularizo o grande sábio em questão, é porque fui e sou às vezes este ser de elevada visão. Felizmente, também deste Deus tem misericórdia. Tenham comigo também meus irmãos e perdoem estas minhas falhas.

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Para ouvir lendo: Gladys Knight – License to Kill (tema do filme de James Bond)

Don´t be so hard on yourself

“Don´t be so hard on yourself”
“Não seja tão duro consigo mesmo”
(Don´t cry – Seal)

 

Nesse semestre, estudei bastante sobre política econômica do Brasil. Na boa, tem horas que dava vontade de pegar o ministro da economia da época pelo pescoço e mostrar pra ele: “Você não tá vendo que essa medida que você vai tomar agora vai avacalhar o país em tais e tais quesitos no futuro??”

Quem nunca leu alguma história de Jesus em que os discípulos não conseguem entender algo que Ele disse e pensou: “Como você não entende o que Jesus está falando? Está tão claro!”

O nosso julgamento em relação ao passado se dá com o entendimento que temos hoje. Como é que os discípulos iam entender se ainda não estavam prontos? Como querer julgar hoje o passado com o entendimento do presente? Como é que o governo ia advinhar perfeitamente o efeito das suas ações? Não podemos ser condescendentes com o erro, obviamente, mas é impossível prever todos os efeitos e acertar todas as vezes.

“E por quê você está falando de política econômica e da bíblia, Ana?” Porque às vezes fazemos exatamente a mesma coisa conosco (ou com o outro. Imagina se não é petulância minha querer julgar o que fez um ministro da economia!). Olhamos para o passado e nos julgamos. “Como eu fui estúpida o suficiente para fazer/crer/largar/aceitar isso? Como pude ser tão burra? Como eu não vi em que ia dar?” Sim, claro. Erros servem para que aprendamos com os mesmos, para que cresçamos e não caiamos mais nas mesmas coisas. Mas não nos martirizemos com os erros do passado. Como é que você poderia saber de todas as conseqüências dos seus atos? Você poderia estar tendo a melhor das intenções no momento…

Podemos aprender com o passado, mas não querer que, com o entendimento de hoje, tivéssemos agido diferente no passado. Você era diferente, pensava diferente, tinha uma compreensão diferente e nem tinha todo o conhecimento dos resultados das suas ações antigas como tem hoje. Hoje os resultados nos parecem claros, mas à época não eram.

Aproveite a experiência como um aprendizado, não como um fardo de o que você deveria ter feito e não fez. “Não seja tão duro consigo mesmo”. Nem com os outros. Cito JK para terminar. Quando acusado de mudar de opinião, ele dizia: “Não me cobrem coerência. Eu não tenho compromisso com o erro”. Ainda bem que temos a opção de mudar. Hoje.

A Lição do Galo de Barcelos

O galo de cerâmica que é um ícone de Portugal tem suas origens em uma história antiga…

O Galo de Barcelos em um conceito bem mais moderno. Design de Gatafunchos.
O Galo de Barcelos em um conceito bem mais moderno. Design por gatafunhos.pt

Reza a lenda que houve em uma cidadezinha portuguesa um crime cujo culpado não fora encontrado. Um galego que peregrinava por aquelas bandas foi então acusado do crime, sendo assim condenado à morte. Em desespero, gritou ao juiz que jantava um galo assado, que tão certo era a inocência dele quanto aquele galo cantaria. Óbvio que o galo cantou, senão dificilmente seria uma lenda.

Julgar e Conhecer

É interessante que justamente uma pessoa desconhecida, o estrangeiro, seja a culpada. Porque mesmo que tivéssemos razão em condenar alguém, isto só é fácil se não a conhecemos. Se não calçamos seus sapatos e não sabemos onde que aperta. Se não sabemos “a dor e a delícia do ser o que é”.

A pessoa no lugar da pessoa

Não é suficiente você estar no meu lugar. “No seu lugar eu não agiria assim”. Evidente que não. Como disse um filósofo certa vez: “Você não me é”. Você não tem a minha história de vida. As coisas que para mim remetem a traumas, para você são super bem resolvidas. Você não poderia agir como eu a menos que você me fosse.

Conhecer

Somente quando estou a par da sua história é que eu posso entender. Não posso sê-lo mas posso compreendê-lo parcialmente. Melhor do que nada. Quando o conheço, sei que para você aquela situação é mais difícil do que para o resto, entendo porque você ficou exaltado. Eu ficaria tranquilo, mas você não. Fique claro: conhecê-lo não o justifica. Mas explica muita coisa.

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Agradecimentos especiais: Alê que sempre fala deste trecho da dor e a delícia do ser, Nat Gesualdi que foi quem nos iluminou com o pensamento que eu chamo de “A pessoa no lugar da pessoa”, Marcelinho que com o seu ápice filosófico também nos iluminou e o Homero, que foi de quem eu ouvi esta ilustração de calçar os sapatos.