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Quebrando rótulos

“Fulana? É uma fofoqueira.

Cicrano? É um gay.

A Madre Teresa? É uma santa.

O Eike Batista? É um ambicioso.

Meu chefe? É um incompetente.

O Mozart? Era um gênio.”

Já reparou como reduzimos as pessoas a um aspecto de sua personalidade, isso quando não exageramos (ou até mesmo inventamos) o próprio rótulo que damos a elas? Deixamos de tentar compreender as pessoas antes mesmo de conhecê-las, reduzimos uma pessoa como um todo a um aspecto (verdadeiro ou não) e preferimos falar mal a tentar enxergar outro ponto de vista.

Isso por se mesmo já seria um problema, não fosse que fazemos exatamente a mesma coisa com Deus. Nós também tentamos reduzir Deus aos nossos conceitos e “enquadrá-lo” na nossa visão de como Ele deveria ser ou como fomos ensinados que ele é (Note-se que usar Deus como pretexto pra disciplinar os outros acaba passando a mensagem de um Deus de medo, um Deus carrasco).

Fala a verdade: o Deus que imaginamos muitas vezes nunca é digno de confiança, adoração, louvor, reverência ou gratidão. Embora digamos que não e que “Deus é amor”, agimos conosco e com os outros como se Deus fosse um de ódio, de julgamento, de discriminação. A perda da transcendência, do relacionamento verdadeiro com Deus e da chama que arde – em parte em decorrência dessa visão errônea – tem deixado um rastro de cristãos desconfiados, cínicos e revoltados contra um Deus “mimado” e uma porção de cristãos arrogantes e cheios de julgamento (e com o coração igualmente amargo) que se dizem donos da verdade divina.

Assim como precisamos quebrar nossos rótulos em relação às pessoas, talvez seja a hora também de quebrar nossos paradigmas quanto a Deus, buscar dentro de nós mesmos os rótulos que nós demos a Ele.

Buscar uma relação verdadeira com aquele que é sim um Deus de amor e é muito mais do que qualquer rótulo que qualquer dia possa ser inventado para tentar restringi-lo.

(Inspirado em “Confiança Cega”, Brennan Manning)

Ensaio sobre a cegueira

O quanto estamos condicionados às regras sociais que nos orientam? Se estivéssemos no meio de uma catástrofe, lidando com questões de vida ou morte, como você reagiria diante do desespero de querer salvar a si e à sua família?

Em “Ensaio sobre a Cegueira”, José Saramago descreve uma sociedade em que, sem motivo aparente, as pessoas começam a ficar cegas. O problema é que não só as pessoas perdem a orientação e várias coisas param de funcionar, mas também as pessoas param de respeitar as regras sociais: como ninguém vê ninguém, perde-se o medo, o pudor, a vergonha, tudo. Caos. Mata-se por nada, briga-se por comida, água limpa, as pessoas fazem suas necessidades pela rua, comem carne humana: tudo pela sobrevivência. A erosão das regras sociais os leva à guerra de todos contra todos…

Fico pensando em como seríamos nós, como seria a vida em sociedade se nós estivéssemos cegos…

Muitas vezes minhas atitudes são pautadas não só pela minha “consciência” ou pela vontade de querer fazer o bem, mas muito pelas regras sociais e pelo medo de me julgarem, medo do que os outros vão pensar… E se ninguém pudesse nos ver e nos julgar, como agiríamos? Externalizaríamos as atitudes e vontades que temos em segredo, mas que não demonstramos?

Até onde agimos por verdadeira mudança de caráter? Ou até onde é por vontade (sincera, por que não?) de dar bom testemunho e também pelo medo de sermos julgados que agimos da forma que agimos? Como é você, sozinho com seus pensamentos?

Como seria se ninguém pudesse te ver?