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Pais da Igreja – Cipriano

Cipriano , nascido em Cartago numa rica família pagã. Aos 35 anos se converte ao Cristianismo. Pouco tempo depois se tornou o bispo de Cartago. De sua conversão ao martírio temos apenas 13 anos. Foi o primeiro bispo africano a ser martirizado.

Escreveu bastante sobre sua atividade pastoral. Além dos desafios externos que enfrentou (duas perseguições decretadas por édito pastoral – Décio em 250 e Valeriano em 257,258) teve um grande desafio interno, no seio da Igreja. O que fazer com aqueles cristãos que apostataram da fé durante a perseguição? Aceita-los ou não ao convívio da Igreja? Esses cristãos eram os chamados “lapsi”, isto é, “os que caíram”. Esse debate trouxe divisão dentro da Igreja (para quem gosta do tema indico o sensacional romance de Susaku Endo – “O Silêncio”, apesar de tratar de outro momento da história o romance explicita bem a questão aqui colocada). Cipriano foi favorável à reintegração dos “lapsi” , mas com severa penitência.

Em seus escritos trabalha bastante a questão da Igreja. Ele faz distinção da Igreja visível, hierárquica e Igreja invisível, mística. Mas é rigoroso ao afirmar que a Igreja é uma só.  Cunhou duas importantes frases sobre a Igreja:

“Fora da Igreja não há salvação”

“Não pode ter a Deus como Pai quem não tem a Igreja por mãe”

Apesar dessas frases serem ditas em muitos contextos errados, para defender exclusividade, entendo que são frases poderosas em um momento onde vivemos uma “crise de Igreja”. O grupo dos “desigrejados” aumentam, mas nesse grupo temos de todos os tipos, desde aqueles que foram amplamente machucados pelas igrejas dos homens àqueles que são imaturos, mimados e não querem prestar contas a ninguém. Portanto, vale a reflexão. Qual é o meu contato com a Igreja de Cristo? Como tenho me relacionado e desenvolvido meus dons dentro dessa grande Arca de Noé?

Abraço e até a próxima!

 

Pais da Igreja – Tertuliano

Hoje falaremos do africano Tertuliano. Não conhecemos com exatidão as datas de seu nascimento e morte. Sabemos que seus escritos mais famosos são publicados a partir do ano 197.  Teve uma sólida formação filosófica, retórica, jurídica e histórica em Cartago. Falou sobre temas amplos do cristianismo. Dois deles saltam aos olhos, o primeiro o de contestar as gravíssimas acusações que os pagãos faziam contra o cristianismo. A outra a ênfase em comunicar a mensagem do evangelho em dialogo com a cultura do tempo. Além disso, Tertuliano dá um grande passo ao desenvolvimento do dogma trinitário, ao lançar termos como “uma substância” e “três pessoas”.

Mas gostaria de focar em uma questão mais pessoal de Tertuliano. Os biógrafos de sua vida demonstram que era um homem muito severo, e que, aos poucos , deixou a comunhão com a Igreja, aderindo à seita do Montanismo. O que o levou foram frustrações com pessoas, com a Igreja.

A grande característica de um grande teólogo é a humildade de estar com a Igreja, aceitando as fraquezas delas e compartilhando as próprias fraquezas. Um homem em ebulição, muito severo com as pessoas e consigo mesmo, acaba tendo sérios problemas de comunhão.

Vejo, em nossa sociedade individualista, muitos cristãos caindo no jogo , ao deixar de olhar para a cruz e tendo os olhos fitos nos pecadores.  Devemos criar o hábito de olharmos para a cruz, descobrindo descanso de nós mesmos e dos outros. Duro é carregar expectativas irreais sobre pessoas e a instituição Igreja. Muitos cristãos tem se tornado fechados, ressentidos, melancólicos e murmuradores….

Que tipo de vida tem levado?

Abraço e até a próxima

Cidade dos homens

Um passeio durante o dia para ver o estressado, o viciado em dinheiro, em trabalho.

Na cidade dos homens há muita correria, tem briga de buzina, insatisfação, e tem muita, mas muita corrupção.

Um passeio pela noite para ver o viciado em cocaína, cheira cola ou gasolina. Sexo, loucura, miséria e escuridão. Tem gente comendo na vida o que jogamos no lixão.

Na cidade dos homens é muita pressão, as pessoas não aguentam mais fingir quem não são.

Cartão estourado, sonhos roubados. Cadê a alegria? Cadê o frio na barriga?

Na cidade dos homens há uma igreja de missionários; igreja de homens que se orgulham de seu trabalho. “Meu ministério, meu reino, meu ego.”

Na cidade dos homens há uma igreja que busca novos, sem espaço para os velhos.

Na cidade dos homens há muita loucura…

Cooperador de Cristo

Pais da Igreja – Santo Irineu de Lyon

Irineu nasceu em Esmirna (hoje Turquia), por volta do ano 135. Era um frequentador da escola de Policarpo, discípulo do apóstolo João.  Anos mais tarde se dirigiu para a região da Gália, onde ajudou a desenvolver a comunidade cristã de Lyon. Em uma missão especial, foi até Roma entregar uma carta dessa comunidade ao bispo de Roma (Eleutério). Mal sabia ele que, durante esse período, o imperador Marco Aurélio sacrificou 48 cristãos em Lyon (inclusive o bispo de Lyon – Potino). Ao retornar, Irineu se tornou o bispo da cidade. Pastoreou a comunidade até o ano de 202-203, morrendo (talvez) como mártir.

Duas obras dele chega até o nosso tempo:  “Contra as heresias” e “Exposição da pregação apostólica”. Irineu pode ser considerado o primeiro grande teólogo da Igreja, é o criador da primeira teologia sistemática, isto é, a coerência interna de toda a fé. Foi um grande confrontador do gnosticismo, grupo altamente intelectualizado e muito fragmentado (muitos pensamentos conflitantes entre eles). Em suma, os gnósticos acreditavam que a Igreja usava de símbolos para ajudar o povo a compreender algumas coisas , mas que a “verdadeira verdade” foi descoberta por eles, um grupo restrito e intelectual. Acreditavam no dualismo entre o Deus bom e um princípio negativo. Esse princípio criativo foi o responsável por criar a matéria. Tudo que era matéria era mal. O Cristo não veio em carne e sim em espírito sobre a carne, segundo eles. Irineu bate de frente mostrando a original santidade da matéria, do corpo em simetria com a santidade do Espírito. E afirmava que a Igreja era a detentora da verdade, uma verdade simples e disponível a qualquer um que a recebesse com humildade. Segundo ele não há doutrina secreta por detrás do credo comum da Igreja.

Na luta contra o gnosticismo ele trabalha muito a ideia do ensino dos apóstolos, resumindo em três pontos:

  1. A tradição apostólica é pública: Não é privada e nem secreta. Pública e disponível, com Cristo e seus apóstolos
  2. A tradição apostólica é única: Gera unidade através dos povos, através de diferentes culturas e de grandes diversidades.
  3. A tradição apostólica é “pneumática” (do grego “pneuma” é espírito): É guiada pelo Espírito. É viva, criativa. Não depende da habilidade de homens doutos ou com a “gnose” e sim do agir do Espírito.

Que possamos aprender com Irineu, que a fé da Igreja seja, hoje, transmitida como “pública”, “única”e “pneumática”! E que sigamos dentro da simplicidade e ousadia da tradição apostólica!

Abraço e a té a próxima!0

Família cristã

O que é a família? Muito se discute a respeito do que seria ela nos dias atuais. Como tudo é medido pelo valor monetário nos tempos capitalistas, alguns afirmam ser ela um negócio. Acredito que não, antes de tudo ela é uma instituição.

A história

Desde o início dos tempos Deus viu na família uma maneira do ser humano não viver isolado – assim é interpretado o “não é bom que o homem esteja só” de Gênesis. Para alguns estudiosos ela representa a base da sociedade. Sua função é de auxílio tanto nos primeiros passos do indivíduo através de sua função pedagógica quanto nos momentos de dificuldades pessoais, com o amparo devido de alguém que possui vínculos mais próximo do que sofre. A família seria também a responsável por acompanhar a pessoa nos seus últimos momentos de vida. Pelo menos assim deveria ser. A história nos mostra, no entanto, que isto nem sempre é verdadeiro. Ainda no início, Caim cometeu o primeiro homicídio ao assassinar Abel. Isto demonstra que a família vive em crise desde sua formação e a sociedade, por conseqüência, segue o mesmo destino. Salta aos olhos o quanto isto parece ter piorado ao longo dos milhares de anos, sobretudo no último milênio. Vivemos o tempo descrito por Jesus em que irmão mataria irmão, pai mataria filhos e toda a sorte de tragédias possível. Muito da crise atual é fruto da perda do referencial valorativo dentro de nossos lares. Alguns estudiosos do Direito dizem que o Código Civil de cada país representa o que pensa a sociedade daquele lugar. Analisando por este prisma vemos a expressão desta crise nas alterações dos códigos civis por todo o mundo ocidental com formalização de condutas incoerentes à natureza divina.

O modelo de Jesus

Ao seu tempo, Jesus porém nos mostrou algo diferente. Sendo ele filho de Deus, respeito seu pai e sua mãe terrenos. Crescia aprendendo o que era ensinado na casa de José e assim procedeu até alcançar a fase adulta. Isto só mudou no meio do seu ministério, em que Jesus instituiu uma nova visão a respeito da instituição família. Com nova perspectiva, seu pai, sua mãe, seus irmãos e seus filhos seriam aqueles que fizessem a vontade de Deus. Antes a membresia em relação à família era definida por laços de sangue ou por meio de casamentos, basicamente.. A nova visão baseava os laços fraternos por meio do compartilhamento da mesma crença e, acima de tudo, por seguir o que dispunha a crença. Isto representa uma revolução no modo de ver o convívio entre os pares e, assim, Jesus inaugura o que ficou conhecido ao longo dos tempos como família cristã.

Após sua morte e ressurreição é possível verificar como a nova família vivia e crescia. Saciar necessidades era a marca maior daquele novo movimento pela leitura que fazemos de Atos dos Apóstolos. Como em qualquer família, as dificuldades logo apareceram e marcaram a família cristã ao longo dos séculos da nossa era. Até hoje ainda somos fortificados e animados pelos pequenos grupos que se congregam em torno da crença em Jesus. Até hoje experimentamos as contradições inerentes deste convívio. Para alguns ela representa, por este motivo um paradoxo – é imprescindível para o crescimento enquanto filhos de Deus; mas ao mesmo tempo é formada por pecadores e, assim, fruto de muita tristeza tanto para os que dela fazem parte, quanto para os que a observam à certa distância.

Minha experiência

É muito bonito falar da teoria, mas o que mais me interessa é a prática. Por este motivo relato o que a instituição família cristã representa para mim. Foi através dela que pude perceber que é possível viver os mais “absurdos” mandamentos de Cristo. Por meio dela tenho a liberdade de ser quem verdadeiramente sou, sem máscaras e medo. Através dela descobri e desenvolvo meus dons. Nela encontro mães, pais, irmãos e filhos na fé. Com eles sonho, sofro, choro e rio muito e muito. Por meio dela tenho a oportunidade de servir a Deus. Acredito que teria e tenho boa parte deste relacionamento fora da comunidade cristã, mas no que diz respeito às necessidades, não há outro lugar, outro grupo de pessoas, outra família que sirva como a família cristã. Estes são dias de dificuldade para alguns e sou feliz por poder partilhar destes momentos servindo com aquilo que Deus me deu. São também dias de alegria e realizações para outros. Compartilho com eles esta felicidade.

E você, o que tem a dizer sobre a família?

O Homem que bebeu do cálice *

– ¨Deus, o Senhor não entende! A vida é muito complicada, o pecado é aterrador, o mundo é frio. Problemas em todas as áreas. Parece que o mundo se volta contra a minha existência! É fácil ficar desse lado, com todo o Seu poder, em uma realidade totalmente boa e que faz a sua vontade! Me desculpa Deus, mas, às vezes, acho que o Senhor é sarcástico! Olhando aí de cima, sem compreender o que vivo aqui embaixo. Pessoas do meu convívio são volúveis, ora se aproximam, ora se tornam competidores. Dependendo da situação estão comigo, em outras, se voltam contra. Ainda tenho os amigos. Mas os amigos também me traíram, em momentos que precisavam deles, sei que por fraqueza deles, mas é duro conviver com isso. Tenho um Estado que, quando necessito, não me atende. Só consigo ver injustiças e corrupção. Na saúde (O Senhor não sabe o que é uma fila do SUS!), na justiça, no salário mínimo, nos altos impostos. Ah! Me resta a tua Igreja, mas infelizmente, dentro dela, já fui condenado e julgado. Sem tudo isso só tenho o Senhor, e, várias vezes me sinto desamparado até por Ti! Essa é a minha vida! O Senhor não compreende!!!!¨

-¨Meu querido, você se lembra quando estive com vocês? Como um homem? Você se lembra da minha última semana entre vocês? Você se lembra do povo, que queria me tornar rei e, em alguns dias, me mandou para a cruz? Você se lembra dos meus amigos mais íntimos, que dormiam enquanto deviam vigiar? Que me negaram na frente de pessoas? Você se lembra de um Estado que lavou suas mãos frente a minha causa? E a Igreja, aquela mesma que Eu trouxe à existência, que não me reconheceu em sua alta cúpula e instigou a minha condenação por cruz! Você se lembra da minha frase naquela cruz, ao sentir o peso do pecado: ¨Por que me desamparaste?¨ Eu conheço seus anseios, eu vive os seus conflitos, eu vivi no mundo sem luz. Eu Sou Deus de forma plena, mas  Eu fui Homem de forma plena! Eu bebi do seu cálice! E agora te convido a beber do meu!¨

Abraço e até a próxima!

* Esse título é um empréstimo de uma música sensacional da banda Sujeito à Reboque. Confesso que o texto não chega aos pés da letra da música, mas não encontrei título melhor para o que gostaria de compartilhar.

Os dois montes

O profeta Obadias (menor livro do Antigo Testamento, com 21 versos) faz uma contraposição interessante no fim de sua profecia. Ele cita dois montes: o monte Sião e o monte de Esaú. Creio que esses montes representam a Igreja e o mundo respectivamente. No verso 17 ele mostra 3 características do monte Sião: ¨Mas no monte de Sião haverá livramento; o monte será santo; e os da casa de Jacó possuirão as suas heranças.¨

  1. Lugar de livramento: creio que a Igreja (Igreja como corpo e não como denominação) é um lugar de libertação, lugar onde pessoas encontram liberdade. Onde elas são aceitas e amadas como são!
  2. Lugar de santidade: Creio que a Igreja é o lugar onde os pecadores redimidos se encontram e aprendem, um com outro e com Deus, como ser cada dia mais parecidos com Cristo!
  3. Lugar de receber herança: Creio que é no Monte Sião onde recebemos uma série de heranças espirituais. Herança de ser filho amado, herança de uma nova família (meus irmãos em Cristo) e herança de vida abundante.

Creio que o monte de Esaú, como o mundo, nos leva ao extremo oposto. Escravidão, impurezas e sua herança é palha (Verso 18).

Jesus é o caminho que nos leva do monte de Esaú ao monte Sião. Ele que nos libertar, pagar a fiança, moldar nosso caráter e nos encher de heranças espirituais!

Em que monte você está vivendo?

O que você tem feito por aqueles que se encontram no monte de Esaú?

Abraço e até a próxima!