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Foi bom enquanto durou

Insistência. Essa é a palavra que explica minha participação aqui no blog. Nunca fui um escritor e nem tinha a pretensão de me tornar um. Faltava-me praticamente tudo. Desde vocabulário, até habilidade com a língua portuguesa. Insistência.

Em minha primeira postagem, março de 2010, disse que o mundo estava cheio de pessoas que se especializavam na arte de compreender o mar e seus mistérios, mas que nunca aprenderam a nadar. O contrário também era verdadeiro. Os peixes vivem imersos no fundo do mar, mas nunca ouviram falar da densidade da água. O desejo era que não fôssemos apenas teóricos na arte da vida. A teoria é importante, sim! Mas a vida fica fria, mecânica e entediante se vista apenas do plano teórico. “Vamos nadar?”, foi o convite inicial que eu fiz pra cada leitor (a) desse blog.

E foi assim. Quase 7 anos de posts semanais. Às sextas-feiras, eu brincava que tinha “post saindo do forno”… Foram 377 posts ao todo! Alguns foram marcantes e, de alguma forma, Deus fez com que chegasse em corações que eu nem podia imaginar. Tecnologia em nome do Reino de Deus. Tentei repartir um pouco do meu coração e daquilo que estava vivendo. O “Outras Fronteiras” (OF) virou uma espécie de semanário e é interessante como minha vida sempre ditava o tom dos posts.

Quero agradecer cada leitor (a) pelo carinho, pelos muitos comentários (convergentes e divergentes), agradecer àqueles que convidei para repartir alguma ideia em alguma sexta-feira destes quase 7 anos, agradecer aos primeiros idealizadores do OF, ao convite recebido para escrever nas sextas e Àquele que continua sendo a pessoa mais importante da minha vida: Jesus Cristo! Ele foi, Ele é e continuará sendo eternamente a minha “fonte”. Eu ainda tenho sede e preciso Dele!

Último dia de post saindo do forno! O blog, com absoluta certeza, foi motivo de festa e alegria na minha vida. Eu continuo sedento e as Escrituras insistem em fazer sentido:

“No último dia, o grande dia da festa, levantou-se Jesus e exclamou: Se alguém tem sede, venha a mim e beba.” (Jo.7:37)

Que Ele continue levantando-se! Que Cristo continue fazendo suas exclamações! E que eu e você possamos confessar nossa sede, termos a humildade de irmos até Ele e bebermos da fonte chamada Jesus…

Foi bom enquanto durou!

Um grande abraço!!!

Contentamento

Domingo. Família reunida à mesa. Comida de mãe. Clássica cena, a não ser por um detalhe.  Acompanhe comigo…

Havia um convidado especial naquele dia. Um primo vindo de uma cidadezinha próxima. Não era qualquer primo. Ele era um pouco mais velho. Já o era quando eu ainda me achava em meio aos brinquedos. Sempre muito humilde. Segundo conta minha mãe, não tinha aprendido a ler e escrever por conta das responsabilidades que assumira no lugar de ir para a escola.  À época, tinha o dever de ir para a roça ajudar a fazer o almoço para seu pai e os demais homens que com ele trabalhavam. Ironicamente, não serviu o próprio alimento naquele domingo. Minha mãe o fez e o faz até hoje quando nos visita. Não aprendeu a comer de garfo e faca, a colher sempre lhe foi mais que suficiente. Nunca se acostumou também com a ideia de comer com o prato sobre a mesa. De pernas cruzadas, ele carrega confortavelmente a refeição na mão.

Ver aquele homem grande, negro, com o rosto abatido pela vida dura de trabalhador de olaria, segurando um prato de comida de domingo na mão, fez com que aquele momento se tornasse ainda mais intrigante. Eu o observava sem saber que o fazia. Nunca quis constrangê-lo. E não o fiz. Aliás, ao contrário, fui eu quem ficou constrangido. Ele não sabe e nunca saberia o porquê. Mas eu sei: uma pessoa com estas características, tão distantes daquilo que imagino para meu futuro e, por que não(?), para meu presente, ao ver que meu pensamento ia longe naquele momento, olhou-me com os olhos negros de sempre e, instintivamente, abriu aquele sorriso… Foi o conjunto de dentes mais sincero com que já fui encarado até hoje. Vi no modesto senhor aquilo que busco e muito gostaria de ver em mim – o contentamento descrito por Jesus!

Naquele tempo, respondendo Jesus, disse: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos. (Mateus 11:25)

Impressionante o quanto o que vestir e o que comer satisfez os anseios do meu primo. Estou longe de ser sábio e entendido, ainda mais de ser um destes pequeninos. Mesmo assim, depois de tanto resmungar, hoje venho aqui para compartilhar com você o que tenho vivido. Assim, não sei se com o sorriso tão sincero do meu primo, digo ao meu Pai – Senhor, muito obrigado!

Ele é um

“Ao que era. Nos dias em que tivemos de montar guarda nos lajeiros e lajeados, aprendi os rasgos daquele homem. Sô Candelário – como vou explicar ao senhor? Ele era é um. Acho que nem dormia, comia o nada, nada, às pressas, pitava o tempo todo. E olhava para os horizontes, sem paciência neles, parecia querer mesmo: guerra, a guerra, muita guerra. Donde ele era, donde vindo? (…) Doido, era? Quem não é, mesmo eu ou o senhor? Mas, aquele homem, eu estimava. Porque, ao menos, ele, possuía o sabido motivo.” (Riobaldo explicando sobre Sô Candelário em Grande sertão: veredas.)

Minha infância e início da adolescência foram marcadas por contatos com igrejas em busca de um Deus. “Um” porque eu passei muito tempo sem conhecê-lo. Visitei muitos lugares em diferentes denominações, mas nenhum deles conseguia me mostrar o Deus que queria se mostrar a mim. Em todos eles via o mesmo: pessoas perfeitas que me vigiavam para ver se seguia o padrão de perfeição ou, pior, pessoas que não buscavam a perfeição e faziam da comunidade cristã um clube social. Não sei se escolhi mal os lugares, não sei se hoje conheço lugares melhores… o fato é que, aos 18 anos de idade, conheci o que parecia, num primeiro momento, apenas mais um espaço com a promessa de ajuda no meu encontro pessoal com Deus.

Minha surpresa ocorreu quando conheci o líder daquela instituição na minha cidade. Ele era de carne e osso. Não usava grandes vestidos, muito menos terno e gravata. Ele era um de mim – pecador, sonhador e grande batalhador. Com ele não sentia o abismo entre o púlpito e as fileiras da igreja. Vencida a distância, compreendi melhor a mensagem. Após dois anos de experiências com Deus contando com o auxílio dos amigos daquela associação, em um acampamento nas margens da represa de Furnas, em uma palestra de sábado (ou domingo, não me lembro exatamente) à tarde, descobri finalmente que Deus queria ser meu amigo. As palavras e atitudes daquele homem influenciaram positivamente minha vida.

Este foi um marco para uma mudança de paradigma na minha forma de me relacionar com Deus. Sou grato a Adilson Donatelli pelas palestras e principalmente pelo testemunho como um cristão que vive em guerra para ser discípulo de Cristo. O vejo com características próximas com as que o personagem de Guimarães Rosa via o senhor descrito acima – ele é um para mim assim como Sô Candelário era para Riobaldo.

Minha simples homenagem e meus sinceros votos de melhora ao amigo que se encontra internado.

Flutuação

Acabo de chegar de uma viagem à Bonito no Mato Grosso do sul. Indico a todos! Mas um passeio me levou a refletir algumas coisas que gostaria de compartilhar com vocês! O passeio se chama flutuação e, no meu caso, foi feito no rio Sucuri. O passeio consiste em descer o rio durante 1 hora admirando toda a riqueza subaquática. Foi uma experiência fantástica. Mas para que ela acontecesse da melhor forma tive que me preparar de duas formas: Me equipando e colocando em prática as orientações do guia.

Flutuação no rio Sucuri

Em termos de equipamento precisei usar 3 acessórios: Uma roupa de mergulho, um colete e um Snorkel. Todos tem sua importância: Sem  roupa o frio me tira o prazer do passeio, sem o colete não consigo flutuar e sem o Snorkel não consigo admirar e nem respirar! Esses itens são obrigatórios para que o passeio seja feito, e é de minha responsabilidade colocá-los e usá-los.

Quanto às recomendações do guia preciso ouvir e colocar em prática para curtir o passeio. Sabe quais são elas? Fique parado, deixe a correnteza te levar. Seus esforços podem atrapalhar a visualização do caminho, pode levantar sujeira. Não pise no chão, não faça movimentos bruscos com o braço … deixe a correnteza te levar e curta.

Quantas vezes não quis mudar o caminho. Quantas vezes não esperneei, sujando toda a água e me impedindo de ver e admirar o caminho! Muitas vezes ouço Deus falando comigo: “Fique parado, deixe a correnteza te levar!”

E você? Como tem vivido? Se deixando levar, equipado com os acessórios ou “bagunçando”o caminho, sem os acessórios necessários?

Coloque os acessórios e vamos flutuar!

Do privilégio de ficar doente

Semana passada fiquei doente. Marasmo, dor, mal-estar. Não adianta: por mais que vc tenha mil afazeres, simplesmente não é possível cumpri-los. É necessário fazer uma pausa.

Enquanto ficava enjoada e ia a caminho do hospital, comecei a pensar em como seria a minha vida se eu fosse uma escrava. Ou se eu fosse judia na Alemanha nazista. Ou menina de rua. Vocês acham que o ritmo da labuta seria mais leve por causa de uma “gastroenteritezinha”? “Se vira”, você tem esse tanto de cana pra cortar. “Se vira”, quem mandou ser um judeu imundo? “Se vira”, por acaso vc tem papai e mamãe pra cuidarem de você, plano de saúde, cama limpa?

Ano passado visitei dois locais na Alemanha que muito me chocaram: Dachau, um campo de concentração nazista e uma prisão em Berlim oriental, do regime comunista.

,,Arbeit macht frei", saudação amigável na entrada de todos os campos de concentração que significa "o trabalho liberta". Por Alexis Metzger.
,,Arbeit macht frei”, saudação amigável na entrada de todos os campos de concentração que significa “o trabalho liberta”. Por Alexis Metzger.

No primeiro, o choque veio de ver a condição a que se submetiam as pessoas ali, o (des)tratamento. Ler sobre a experiência de um judeu, que durante algumas semanas só recebeu água do mar pra se alimentar, pois queriam testar os limites humanos. O cara tinha convulsões terríveis. Imaginar que viviam um frio de -20 graus sem aquecimento.

Câmara de gás. Dachau. Por Alexis Metzger.
Câmara de gás. Dachau. Por Alexis Metzger.

O segundo lugar, essa prisão, fui visitar num muito quente dia de verão. Perguntei à moça da portaria, inocentemente, se havia ar condicionado lá dentro. Ela, obviamente, riu da minha cara. Enquanto a guia (que havia sido prisioneira de lá) descrevia com lágrimas o lugar e o tipo de tortura física e psicológica pela qual passou, eu pensava o tanto que isso era distante da minha realidade.

Imaginar-se no lugar do outro é muito difícil, mas é um bom exercício para que percebamos as coisas que temos e que nem damos valor. Dar valor e sermos gratos por “direitos” que temos que muitos outros nem imaginariam quais sejam.