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O Homem que bebeu do cálice *

– ¨Deus, o Senhor não entende! A vida é muito complicada, o pecado é aterrador, o mundo é frio. Problemas em todas as áreas. Parece que o mundo se volta contra a minha existência! É fácil ficar desse lado, com todo o Seu poder, em uma realidade totalmente boa e que faz a sua vontade! Me desculpa Deus, mas, às vezes, acho que o Senhor é sarcástico! Olhando aí de cima, sem compreender o que vivo aqui embaixo. Pessoas do meu convívio são volúveis, ora se aproximam, ora se tornam competidores. Dependendo da situação estão comigo, em outras, se voltam contra. Ainda tenho os amigos. Mas os amigos também me traíram, em momentos que precisavam deles, sei que por fraqueza deles, mas é duro conviver com isso. Tenho um Estado que, quando necessito, não me atende. Só consigo ver injustiças e corrupção. Na saúde (O Senhor não sabe o que é uma fila do SUS!), na justiça, no salário mínimo, nos altos impostos. Ah! Me resta a tua Igreja, mas infelizmente, dentro dela, já fui condenado e julgado. Sem tudo isso só tenho o Senhor, e, várias vezes me sinto desamparado até por Ti! Essa é a minha vida! O Senhor não compreende!!!!¨

-¨Meu querido, você se lembra quando estive com vocês? Como um homem? Você se lembra da minha última semana entre vocês? Você se lembra do povo, que queria me tornar rei e, em alguns dias, me mandou para a cruz? Você se lembra dos meus amigos mais íntimos, que dormiam enquanto deviam vigiar? Que me negaram na frente de pessoas? Você se lembra de um Estado que lavou suas mãos frente a minha causa? E a Igreja, aquela mesma que Eu trouxe à existência, que não me reconheceu em sua alta cúpula e instigou a minha condenação por cruz! Você se lembra da minha frase naquela cruz, ao sentir o peso do pecado: ¨Por que me desamparaste?¨ Eu conheço seus anseios, eu vive os seus conflitos, eu vivi no mundo sem luz. Eu Sou Deus de forma plena, mas  Eu fui Homem de forma plena! Eu bebi do seu cálice! E agora te convido a beber do meu!¨

Abraço e até a próxima!

* Esse título é um empréstimo de uma música sensacional da banda Sujeito à Reboque. Confesso que o texto não chega aos pés da letra da música, mas não encontrei título melhor para o que gostaria de compartilhar.

Estado Laico

“…e o que se torna antiquado e envelhecido está a ponto de desaparecer.” (Hb 8:13)

Em certas nações da Europa, a religião não mais tem um grande papel. Nem sequer “formalmente”, como quando perguntamos pra um brasileiro e ele responde hipocritamente “católico” sem ter nenhuma relação verdadeira com a igreja. Na República Tcheca, por exemplo, segundo um amigo meu tcheco, 80% da população é atéia (inclusive esse amigo meu). Pelo passado comunista do estado, houve perseguição a padres e pastores e não houve apoio do estado às igrejas. O deus deles tinha que ser o estado. E hoje há diversas igrejas abandonadas. Passei o Natal lá e a minha amiga de lá veio me explicar a história de Jesus, do nascimento, dos reis magos, da estrela e tudo mais, pois pra ela não é um fato dado de que eu saberia essa história, pra eles não é comum saber essas coisas. Fiquei caladinha escutando a explicação, com vergonha de dizer que qualquer brasileiro sabe essa história, mesmo que nem cristão seja.

Na Alemanha e na Holanda, diversas igrejas têm fechado por falta de fiéis. Viram museus, teatros, lojas… Logo na Alemanha, terra do Lutero e do Papa. Fizeram o maior alarde quando o Ratzinger foi escolhido papa, mas os próprios costumes das pessoas mostram que a religião não tem mais importância no dia-a-dia. Mas também não que algum dia tivesse tido verdadeiramente o papel que deve ter, não faço aqui uma ode ao passado. Mas hoje é o extremo mesmo.

Esses estados “laicos” supostamente estão descolados da religião. Mas isso não significa ser neutro. Tanto a opinião de permitir quanto de não permitir o aborto (Outro tema controverso é a eutanásia. Um filme maravilhoso sobre o tema é Mar Adentro, com Javier Bardem no papel de um tetraplégico. Esse homem deseja morrer, mas o estado espanhol não permite e o diálogo dele com um jesuíta também paraplégico sobre o assunto é retratado) são opiniões, pontos de vista, visões ligados a um tipo de pensamento ou de filosofia também. O estado laico não é neutro, nem nunca será, como muita gente pensa. Nada é neutro. A nossa superestrutura é influenciada pela nossa infraestrutura, pra citar o Marx.

A minha pergunta é: será que o Brasil caminha na mesma direção? Qual é a opinião de vocês?

No caput da nossa constituição já está escrito: “promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte Constituição da República Federativa do Brasil”. Esse Deus aqui é o cristão, mas forçando bem a barra, poderíamos dizer que é o judaico-cristão + islâmico.

Aí está o dilema. Se você me perguntar, pura e simplesmente, se eu desejo um estado laico, eu direi que sim, pois estado é estado, religião é religião. Quero viver num estado e poder ter a religião que eu quiser, ninguém pode me obrigar a nada. Mas e a França, por exemplo, que proibiu o uso de artefatos religiosos na escola, tais como Kipás, Véus ou crucifixos, já que a escola é um ambiente laico? É o extremo do extremo. Pra uma menina muçulmana, é uma afronta não poder usar o véu. E quem disse que o “não usar o véu” é uma atitude laica também? É tão filosofico-cultural quanto não usar o véu. É a mesma coisa de uma menina da minha sala que me censurou certa vez por eu estar lendo a bíblia de boa no meu canto uma vez na faculdade: “Faculdade é ambiente laico, pára de ler isso”. Por acaso estou esfregando a bíblia na sua cara?

Anyway, a gente como cristãos fica até feliz de ver um “sob a proteção de Deus” escrito na constituição, mas deixa eu te perguntar: e se fosse “sob a proteção de oxalá”, “shiva” ou “tupã”? Aí a gente ia chiar, pois eu sou cristã e ninguém pode me obrigar a estar “sob a proteção” de outro deus.

Por favor, contribuam com a questão! Quero muito ouvir/ler a opinião de vocês!