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A semente e os espinhos

A parábola da semente contada por Jesus a seus discípulos traz alguns elementos: um semeador, a semente, o solo à beira do caminho, o solo pedregoso, o solo cheio de espinhos e solo fértil (texto completo em Mateus 13:1-23, Marcos 4:1-20 e Lucas 8:4-15). Escrevo hoje especificamente sobre a semente caiu entre os espinhos.

A semente que caiu entre espinhos é, segundo Jesus, a situação de alguém que tem contato com ideias de Deus, mas se deixa levar pelas preocupações deste mundo e o engano das riquezas. E por este motivo tais ideias não fazem efeito nele.

Nas primeiras vezes em que ouvi/li esta parábola refleti muito a respeito do que poderiam ser estes espinhos. Foi muito bom entender que boa parte das situações com as quais estava inteiramente envolvido não me faziam bem. Não sei dizer ao certo todas elas, mas creio que uma pode servir de exemplo. Meus amigos e eu vendíamos loló, uma mistura química que causa efeito alucinógeno de curta duração, que aparentemente não vicia, e é de fácil acesso para os então adolescentes. Víamos basicamente três vantagens em sermos os “reis do loló” naquela época: 1) todos nos procuravam para comprar o produto, o que nos fazia populares, e passávamos a impressão de corajosos por comercializar algo proibido; 2) auferíamos uma quantidade não muito grande de dinheiro, mas o suficiente para ostentar um padrão de diversão minimamente legal; e 3) aliado à “moral” e à grana, estava nossa fama com as meninas do nosso grande círculo de relacionamentos, vivíamos cercado por elas. As transformações que o Espírito Santo fez em mim naquele primeiro momento como cristão não podem ser compartimentadas e racionalizadas. Assim, não tem como afirmar com precisão se foi após entender sobre os espinhos que deixei o loló de lado, mas com certeza estas ideias tiveram alguma influência.

Percebo que era imprescindível deixar de lado todos aqueles espinhos para conseguir prosseguir como cristão, para que as palavras ouvidas surtissem algum efeito em mim. Foi um marco muito grande deixá-los de lado. Passada pouco mais de uma década, volto a pensar no assunto.  Será que acabou, os espinhos foram todos vencidos? Claro que não! Parece óbvio que os espinhos não deixaram de me sufocar, mas uma análise superficial faz com que eu pense neles como aquelas primeiras dificuldades enfrentadas.

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Os espinhos estão sempre presentes. E ao olhar à minha volta tenho percebido que eles tem sufocado não só a mim, mas também muitos dos meus irmãos e irmãs na família cristão. Merecem atenção por estarem mais evidentes os espinhos poder, dinheiro e relacionamentos. Vou exemplificar falando de mim:

O poder de ser um jovem bem sucedido profissionalmente tem falado para que eu dedique cada vez mais tempo à minha carreira e negligencie meu tempo com Deus. Sinto isto pessoalmente, ao ir dormir cada vez mais tarde trabalhando e acordar mais cedo para ir para o trabalho, pois deixo de ter aqueles tempos de leitura e oração com qualidade (não necessariamente demorados); sinto comunitariamente, por adotar cada vez mais uma postura egoísta de correr atrás dos meus próprios interesses; sinto no ministério pessoal, ao dedicar cada vez menos tempo para construir o Reino de Deus através do grupo de estudos bíblicos do qual sou um dos responsáveis.

O dinheiro me chama mais a atenção do que Deus ao fazer com que eu veja mais necessidades e urgências que dependem dele. Preciso muito procurar dinheiro para sustentar um padrão alto de consumo. Preciso muito do dinheiro para nutrir minha falsa sensação de segurança na medida em que consigo comprar “com meus próprios esforços” aquilo que julgo ser indispensável à minha vida abundante.

Os relacionamentos não falam, eles gritam, com uma voz de pavor. Pavor que se manifesta no pensamento de que se eu não relativizar meus princípios ou aceitar namorar a primeira pessoa que aparecer vou acabar sozinho pelo resto da vida. Esta assombração ganha força quando aliada ao meu desejo natural de deixar de fugir da “solidão”. Ganha maior expressão também por eu ser um ser, a princípio, um animal que tem desejos hormonais de “beijar na boca e ser feliz”.

Os espinhos citados são apenas exemplos. Pode ser que os seus sejam outros, completamente diferentes em sua manifestação, mas exatamente iguais na maneira de nos afastar daquela palavra tão boa que ouvimos há pouco. Sim, há pouco, porque o que são dez anos comparado a cinquenta ou sessenta anos nos quais ainda pretendo viver, e como cristão. Talvez Jesus tivesse dito sobre estes espinhos justamente para pessoas de alguns anos de caminhada ao seu lado, ao contrário do que já pensei um dia.

Para terminar, deixo o grande desafio de pensarmos um pouco nos nosso espinhos atuais e, principalmente, um apelo (àqueles com quem tenho liberdade para tal) para que consigamos lutar contra eles em direção ao que Jesus disse sobre a boa semente.

E estes são os que foram semeados em boa terra, os que ouvem a palavra e a recebem, e dão fruto, um trinta, e outro sessenta, e outro cem. (Marcos 4:20)

Ps. Se tiver dificuldade de pensar se há espinhos atrapalhando o crescimento hoje e sobre como tem ouvido a voz de Deus, é só refletir sobre seus frutos.

Forte abraço!

A entrega derradeira: coração

Nos últimos dias tive a oportunidade de partilhar de momentos de muita comunhão com muitos dos irmãos em Cristo que mais amo, meus amigos que são parte da Comunidade de Alvo da Mocidade em Belo Horizonte. Neste tempo pude experimentar novamente um tipo de amor que infelizmente não me acompanha no dia-a-dia, aquele que só pode ser partilhado por quem conhece a Cristo. Em meio a este clima pude refletir bastante a respeito da minha vida e do que Deus tem de legal pra mim.

Muita coisa foi dita durante os quatro dias, em especial pelo Adilson Donatelli. A que mais me chamou atenção foi a  história de uma mulher paralítica curada por Cristo. Encontrei o vídeo abaixo do filme que ele fez menção: The Robe, 1953 (“O Manto Sagrado”). A versão é em inglês e as cenas narradas estão do minuto 1:03:42 a 1:15:40.

Senti um golpe profundo quando foi mencionado que a cura da mulher, segundo seu próprio entendimento, não fora física, mas sim do seu coração. Imediatamente pensei no meu espinho na carne,  em quanto dedico atenção a ele quando poderia batalhar pra ficar bem com Deus. Não consegui pensar em mais nada desde então. Como pode ser? Deus deixa a mulher conviver com seu problema e ainda assim ela entende que foi curada? Sinto que estou profundamente distante disto.

O incomodo me fez ver que mesmo após muitos anos andando com Jesus, de pensar que havia entregue tudo quanto tenho, ainda me falta algo… E o que falta, para meu espanto, é só o principal: meu coração. Vivo justificando, colocando a culpa em Deus, nas pessoas do meu passado que me mostraram seu lado ruim, em mim mesmo. Nada disso tem surtido efeito.

Confesso que não fiquei muito empolgado com a ideia de ter que resolver algo tão crítico com Deus. Tenho certeza, no entanto, que os resultados serão excelentes, leve o tempo que levar. Se todos somos seres do mesmo pai e iguais por natureza, creio que cada um também já viveu, vive ou viverá este mesmo dilema da entrega derradeira, deixando nas mãos de Cristo as dores mais profundas da nossa alma, o que mais poderia nos afastar dele.

Que a cura da mulher possa servir de estímulo para que busquemos também nossa cura no amor de Cristo. Que possamos orar um pelo outro em comunidade e que este amor sentido quando juntos possa nossa ajudar a superar esta e todas as outras dificuldades de ser um cristão genuíno. Se tiver alguma experiência legal sobre esta entrega não deixe de dividir com a gente, comente!

Forte abraço!!!

Espinho

Três vezes roguei ao Senhor para que retirasse o espinho. Acredito que já tenha suplicado mais de três vezes, na verdade.

Após tantos anos de caminhada cristã, após tanta luta, grandes vitórias, ele ainda está presente. Não tenho nada em mim que por mim possa exaltar. A dor é imensa. Quem pode com ela? Talvez seja a cruz que Cristo disse que teria que carregar. Não sei ao certo. Já lutei, já briguei, já jejuei, ja pedi a todos os amigos para que orassem por mim, já passei noites em claro e ele ainda incomoda. Tenho uma enorme vontade de arrancar meu coração e um pedaço do meu cérebro fora para ver se resolve. É complicado, só quem tem um espinho na carne sabe do digo.

Ao mesmo tempo e felizmente, se dissesse que em nada evoluí estaria mentindo. Hoje já não sou aprisionado pelo espinho como antes de crescer com Cristo. Tenho, no entanto, muito medo ainda de que me sufoque e me tire do Caminho, tamanho é o incômodo.

Pergunto a todo o tempo por que eu, será que é só comigo, quando terá fim… Mas o Senhor apenas me responde “minha graça lhe basta, o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza”. Então tiro disto proveito, fazendo da minha relação com Cristo mais profunda e tentando nele me alegrar.

Hoje compartilho mais minhas dúvidas e um pouco da minha vida do que qualquer doutrina ou reflexão. Sinta-se livre para comentar e dividir suas experiências comigo.