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A grande tragédia

Ainda era madrugada. Elas entraram no túmulo às pressas. Tinham nas mãos os aromas para embalsamá-lo. A desesperança cheirava mais forte que as especiarias trazidas para o embalsamento.

O que alguém espera encontrar num túmulo? Morte.

Embalsamar alguém morto é curioso. Você concede alguns cuidados finais, mas fica aquela sensação de impotência. Nenhum perfume trará alguém de volta à vida. Fica uma impressão de zelo e estupidez, mas talvez a morte seja para nós tão horripilante, que criamos o hábito de maquiá-la.

O que elas encontraram? Um questionamento.

Por que buscais entre os mortos ao que vive?” (Lc.24:5), perguntaram os anjos.

Ele está vivo? “Sim!”, disseram os anjos.

Elas saíram do sepulcro diferentes de como haviam entrado. As mãos não carregavam mais aromas. As mãos agora continham esperança.

O que mais importa quando não temos mais nenhuma outra coisa é esperança. Não apenas a esperança do verbo “esperar”, mas esperança do verbo “esperançar”. A primeira, tem a ver com a espera e nos torna passivos. Somos lembrados da nossa dependência de Deus. A segunda, tem a ver com ir atrás, buscar, não desistir. A responsabilidade humana não pode ser ignorada.

Nosso problema é quando nos falta esperança. Você desiste de esperar e fica paralisado. Ignora o fato de que é dependente de Deus e permanece imóvel. Quando morre a esperança danou. É por isso que dizemos que ela é a última que morre.

A tragédia não é quando um homem morre! A tragédia é aquilo que morre dentro de um homem enquanto ele ainda está vivo.

Qual é a sua tragédia?

O que já esteve vivo dentro de você e hoje encontra-se morto?

Quais eram seus sonhos?

Por que você parou de esperar?

Por que parou de correr atrás daquilo que tanto almejava?

Por que buscais entre os mortos ao que vive?

Aquelas mulheres saíram de lá cheias de esperança. Elas ainda não tinham visto o Cristo ressurreto, mas esperavam vê-lo. Além de esperar, elas correram para anunciar o que tinha acontecido aos onze e a todos os outros que também creram.

Não foram os aromas que trouxeram vida. Foi a esperança.

Que seja assim também conosco!

Um grande abraço!!!

 

Não havia esperança

Não havia nada de novo naquela proposta. Porque, embora o local fosse diverso, os personagens eram os mesmos. A maldade praticada durante a semana repetia-se no final de semana. Pergunta, então, o coração aflito: em que consistia a mencionada maldade?

O esquecimento, a indiferença e a distância eram as piores armas e foram reiteradamente usadas naquele período. Você pode ter certeza que é possível estar sozinho mesmo cercado por 400 pessoas. E o coração sem esperança pergunta, então: qual era a razão da maldade? Como ilustre agente e hoje observador distante percebo que era o mal não refletido. O mal pelo mal.

O desespero acometido. A busca por outro cômodo, apenas um cômodo que pudesse libertar das correntes e vergonhas visíveis, mas não só. O coração desesperado gritava: Liberte-me das algemas interiores!

Num piscar de olhos: teofania ou um enviado? Não se sabe. Mas os poucos segundos de duração produziram resultados para a eternidade.

No lugar de sombra, luz. No lugar de sofrimento, alegria. Nos rostos repetidos, novas figuras. No lugar do mal, amor. No lugar da dúvida, fé. No lugar do vazio, esperança.

Tudo fez-se novo e o novo era Jesus Cristo.

O seu encontro com o Criador por meio de Jesus pode não ter sido tão espetaculoso, mas ele é o seu encontro e por isso é muito especial. Reviva esse dia ou essa fase em sua memória. Não deixe esquecido o que te deu ar para respirar, o que renovou e consolidou para sempre a sua esperança.

Um convite à esperança

Nos últimos dias voltei a ouvi um CD do qual gosto muito. É o Ventura dos Los Hermanos. Tem uma coletânea realmente boa de músicas que raramente podem ser ouvidas juntas num único disco. Este ano completam dez anos de lançamento do CD. Ao ouvir pensei no tempo que se passou e lembrei muito das coisas que vivia naquele momento, há dez anos… Recordo-me de ter sido um tempo de muita luta. Não que eu não tivesse lutado depois e que não tivesse ouvido o CD em outros momentos, mas naquela época era algo diferente.

Venturaclique para ouvir o CD online

Em 2003 eu começara a trabalhar como caixa numa administradora de imóveis. Minha cabeça, no entanto, estava muito distante de lá. Por este motivo deixava de lado pequenos, mas importantes, detalhes praticamente todos os dias. E exatamente todos os dias ouvia os gritos da minha chefe. Quem chegava para pagar o aluguel me achava uma pessoa normal, mas quem via de trás do balcão teria certeza de que eu era um louco. Papéis de lembrete espalhados por todos os cantos para que não cometesse os mesmos erros que já havia cometido. Lembretes do tipo “conferir se o cheque está assinado” demonstravam meu grau de atenção com o trabalho. Um belo dia levei todos ao delírio quando cheguei na reunião de oração do saudoso Grupo do Gutierrez com o pedido de que Deus interviesse porque meu caixa do mês estava com uma diferença nas contas, alto em torno de R$20.000,00, se não me falha a memória.

Naquele agosto frio eu também chorava o término de um namoro que fora muito curto e muito intenso. Estive envolvido, percebi o quanto não tínhamos muito em comum e, mesmo tendo tomado a atitude do término, sofria amargamente.

Vivia também naquele ano o desafio de cursar um pré-vestibular. Desafio porque passara os três anos anteriores apenas indo nas aulas e sequer sabia o que era um átomo. A dificuldade era grande porque abandonava todos os projetos aos quais me propunha pelo caminho. Minha vontade fraca fazia com que não perseverasse em muita coisa e logo na primeira dificuldade sentia preguiça de seguir adiante. Todo dia passava uma ideia nova na minha cabeça, todo dia sentia vontade de começar algo novo. Chegar ao último dia de aula no cursinho seria em si uma grande vitória.

Em casa carregava a responsabilidade de ajudar nas despesas. Fazia o que podia, e não era muita coisa. Ainda com a mente adolescente me preocupava mais com as festas de fim de semana do que com qualquer outra coisa que na prática fosse mais importante. Não sabia muito bem o que seriam dos anos seguintes, muito menos do que seria de mim hoje. Tinha lá no fundo uma certeza de que Deus estava comigo e mesmo que tudo estivesse caminhando tão mal aquilo tudo seria usado para glorificá-lo no futuro.

Pois bem, o ano terminou e logo apareceu um emprego diferente, em que pude ser melhor sucedido. Cresci e aprendi muita coisa sobre o valor do trabalho de lá pra cá. Esqueci a garota e arrumei algumas outras com quem me preocupar ao longo desses anos (rs). O sonho do vestibular permanecer vivo foi realmente a vitória de 2003. E permaneceu tão vivo que foi levado para 2004 e 2005, quando finalmente fui aprovado. Estudei, formei, tenho um ótimo emprego e posso fazer mais pela minha família do que fazia naquela época. Os projetos novos continuam a minar na minha cabeça todo o tempo e descobri que isto é bom, que é meu perfil. Aprendi a filtrá-los e a colocar em prática um de cada vez, com a ajuda de pessoas que podem dar continuidade para que haja espaço para o surgimento de novas e novas ideias. Até hoje gosto muito de ir a festas, mas aprendi a valorizar o que há de mais importante na vida além delas.

Passou-se uma década inteira. Chorei e lutei muito neste tempo. O que pude perceber é que Deus tem construído de maneira muito legal minha história. De todas as transformações a mais profunda, sem dúvida, foi interna. Vejo que meu caráter tem sido transformado. Ouço de forma mais clara a voz de Deus com sua vontade nem sempre compreendida, mas sempre perfeita. Sinto hoje uma liberdade que é indescritível. Liberdade de mim mesmo, dos meus medos, dos meus conflitos. Me conheci mais ao longo desse tempo e vejo o quanto ainda precisa ser transformado.

Ainda luto, ainda choro, mas há claramente um convite de Deus para que continue no caminho, e é isto que divido com você através deste texto. Assim como me sinto convidado quero também lhe convidar a olhar para trás e ver o que Deus fez por você nos últimos tempos. Se Deus não fez nada quero deixar o convite para que você se entregue nas suas mãos e permitir que ele o faça.

A boa obra nas nossas vidas só será completa no dia de Cristo, que até lá possamos continuar na labuta de sermos discípulos de Jesus e ter a imensa oportunidade de conviver de perto com ele dia após dia. Forte abraço!

Estrela da Alva

Cair da tarde, após um período de chuva e belo sol no horizonte. A luz ficava terna. Acendia-se ali uma lamparina. Seria ela a responsável por iluminar uma noite sem sono. Lugar afastado da cidade, escuro. Não havia outra senão a chama daquele pequeno instrumento. Cama de chão: estrado. Tentativa de dormir. Abrir ou fechar os olhos não fazia muita diferença. Só se enxergava o vulto das coisas. E a sombra delas causava medo. Mais um pouco de tempo e a impressão de que algum pequeno animal estava a caminho. Tentativa de pegar no sono, sem sucesso. Cheiro forte de querosene. Fio de fumaça. Um pouco mais e a impressão de que algum animal peçonhento se aproximava. Sonho, realidade, pesadelo, realidade. Sem muita certeza da diferença entre cada um deles. Escuridão, sobra. E enfim, uma fresta na janela começava a tomar conta do lugar. Luz! Aos poucos inundava o espaço. Pássaros cantavam: o dia clareava. E as tenebrosas sobras da imagem da lamparina deixavam de causar incômodo. A luz dela já não iluminava muito além do seu pavio. Coração quente. Mais um pouco e finalmente aparecia A Estrela da Alva.

O alicerce

Estava estudando o seguinte salmo durante essa semana:

“Quando o Senhor trouxe os cativos de volta a Sião, foi como um sonho.

Então a nossa boca encheu-se de riso, e a nossa língua de cantos de alegria. Até nas outras nações se dizia: “O Senhor fez coisas grandiosas por este povo”.

Grandes coisas tem feito Deus por nós; Somos cheios de alegria

Senhor, restaura-nos, assim como enches o leito dos ribeiros no deserto.

Aqueles que semeiam com lágrimas, com cantos de alegria colherão.

Aquele que sai chorando enquanto lança a semente, voltará com cantos de alegria, trazendo os seus feixes.”

(Salmo 126)

É impressionante como o texto tem um divisor de águas ou um “verso alicerce” em sua estrutura! No verso 1 e 2 temos o salmista relembrando o passado. Os grandes atos de Deus no meio do povo! Do verso 4 ao 6 vemos o salmista cheio de esperança, olhando para o futuro e recorrendo ao mesmo Deus. Mas ligando a memória do passado à esperança do futuro temos o verso 3 : “Grandes coisas tem feito Deus por nós; Somos cheios de alegria.” O verso 3 mostra uma faceta da identidade do povo que pode olhar para trás e ver feitos grandiosos de Deus e pode olhar para frente e esperar feitos grandiosos do mesmo Deus, essa faceta é a alegria! A alegria está presente em vidas que foram recheadas de experiências com o Pai no passado. Assim como a alegria se faz presente em vidas que se enchem de esperança nas promessas do Pai para o futuro.

O alicerce está presente em sua vida? O verso 3 liga seu passado e seu futuro?

Que possamos viver com o verso 3 no centro de nossa vida, de nossa história!

Abraço e até a próxima!

Ele é um

“Ao que era. Nos dias em que tivemos de montar guarda nos lajeiros e lajeados, aprendi os rasgos daquele homem. Sô Candelário – como vou explicar ao senhor? Ele era é um. Acho que nem dormia, comia o nada, nada, às pressas, pitava o tempo todo. E olhava para os horizontes, sem paciência neles, parecia querer mesmo: guerra, a guerra, muita guerra. Donde ele era, donde vindo? (…) Doido, era? Quem não é, mesmo eu ou o senhor? Mas, aquele homem, eu estimava. Porque, ao menos, ele, possuía o sabido motivo.” (Riobaldo explicando sobre Sô Candelário em Grande sertão: veredas.)

Minha infância e início da adolescência foram marcadas por contatos com igrejas em busca de um Deus. “Um” porque eu passei muito tempo sem conhecê-lo. Visitei muitos lugares em diferentes denominações, mas nenhum deles conseguia me mostrar o Deus que queria se mostrar a mim. Em todos eles via o mesmo: pessoas perfeitas que me vigiavam para ver se seguia o padrão de perfeição ou, pior, pessoas que não buscavam a perfeição e faziam da comunidade cristã um clube social. Não sei se escolhi mal os lugares, não sei se hoje conheço lugares melhores… o fato é que, aos 18 anos de idade, conheci o que parecia, num primeiro momento, apenas mais um espaço com a promessa de ajuda no meu encontro pessoal com Deus.

Minha surpresa ocorreu quando conheci o líder daquela instituição na minha cidade. Ele era de carne e osso. Não usava grandes vestidos, muito menos terno e gravata. Ele era um de mim – pecador, sonhador e grande batalhador. Com ele não sentia o abismo entre o púlpito e as fileiras da igreja. Vencida a distância, compreendi melhor a mensagem. Após dois anos de experiências com Deus contando com o auxílio dos amigos daquela associação, em um acampamento nas margens da represa de Furnas, em uma palestra de sábado (ou domingo, não me lembro exatamente) à tarde, descobri finalmente que Deus queria ser meu amigo. As palavras e atitudes daquele homem influenciaram positivamente minha vida.

Este foi um marco para uma mudança de paradigma na minha forma de me relacionar com Deus. Sou grato a Adilson Donatelli pelas palestras e principalmente pelo testemunho como um cristão que vive em guerra para ser discípulo de Cristo. O vejo com características próximas com as que o personagem de Guimarães Rosa via o senhor descrito acima – ele é um para mim assim como Sô Candelário era para Riobaldo.

Minha simples homenagem e meus sinceros votos de melhora ao amigo que se encontra internado.

Travessia

Travessia. É a última frase do livro Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa. Ele explica melhor no transcorrer da obra e faz com que consigamos entender porque essa simples expressão se transforma em uma frase cheia de sentido próprio:

Eu atravesso as coisas – e no meio da travessia não vejo! – só estava era entretido na idéia dos lugares de saída e de chegada. Assaz o senhor sabe: a gente quer passar um rio a nado, e passa; mas vai dar na outra banda é num ponto muito mais embaixo, bem diverso do em que primeiro se pensou. Viver nem não é muito perigoso?¹

Aqui a gente luta, sofre, luta, sofre, tem alguns prazeres, algumas alegrias… sim, viver é mesmo perigoso. Tenho refletido sobre as lutas, sofrimentos, prazeres e alegrias da minha vida. Me espanta saber o quanto a parte da luta e do sofrimento ocupa lugar de destaque. Admito que não tenho visto com muita precisão o outro lado da margem do rio. Quando pensava sobre o assunto li algo no livro de C.S. Lewis que me chamou a atenção. Jack, como ele se auto-denominava, chegou ao final de sua vida com a maior tranqüilidade possível. Um mês após escrever o trecho que transcrevo abaixo morreria vítima paradas cardíacas. Para ele, a travessia se daria da seguinte forma:

Imagine-se como uma semente aguardando pacientemente dentro da terra, esperando para brotar como uma flor no tempo certo do Jardineiro, no mundo real, o verdadeiro despertar. Suponho que toda nossa vida presente, se observada de lá, parecerá apenas uma semivigília sonolenta. Estamos aqui na terra dos sonhos. Mas a primeira luz da aurora está chegando.²

Não que eu pense em morte tendo vivido apenas 26 anos. Mas estas palavras e um papo ao telefone me lembraram o quanto há algo melhor à nossa espera e que tudo aqui, inclusive a parte da luta e da dor, serão vistas apenas como uma pedra de sal no oceano. Termino com um versículo de que gosto muito e que acredito ter tudo a ver com o que escrevi.

Todavia, como está escrito: “Olho nenhum viu, ouvido nenhum ouviu, mente nenhuma imaginou o que Deus preparou para aqueles que o amam” (1 Coríntios 2:9).

¹ Grande Sertão: Veredas. João Guimarães Rosa – Nova Aguilar, 1994.

² Cartas a Uma Senhor Americana / C.S. Lewis; tradução Lenita Esteves. – São Paulo : Vida, 2006

Aonde estou indo mesmo?!

Foi o que mais me perguntei na missa da Gabriela, citada no post anterior. Foi uma missa extraordinária. Fiquei muitíssimo impressionado principalmente com o que a mãe dela disse, consolando-nos todos com a esperança da ressurreição. Foi fantástico e muitíssimo poderoso. A Gabi foi uma pessoa muito especial, o padre leu uns trechos de um diário espiritual que ela tinha, conversando de forma natural e poética com Deus.

Ontem certamente foi “melhor ir a uma casa onde há luto do que a uma casa em festa” pois quando deparamos com a realidade da morte lembramos que ela “é o destino de todos; os vivos devem levar isso a sério”. Ontem questionei-me quanto a uma série de coisas e me vi como uma pessoa extremamente egoísta.  Quantas vezes quero fazer o bem muito para ser notado com uma pessoa boa, ou mesmo ter razão nas conversas. Ser cristão muitas vezes me leva a correr em uma direção pensando ir a outra, como os fariseus que esqueciam de ser piedosos devido a seu “altíssimo padrão de justiça” – pf.

A Gabriela foi muito exaltada como uma pessoa que fazia a diferença, uma sonhadora, uma pessoa próxima de Deus. Não que devamos buscar a fama de boas pessoas como um fim em si mesmo – como hoje me vejo fazendo – mas como você será lembrado?

Hoje acordei diferente. Não queria que aqueles pensamentos me escapassem então separei a manhã para refletir, orar e ler. Meu objetivo era marcar na memória a experiência para que eu pudesse realmente usufruir de transformação. Não é fácil, com a correria e a enorme carga de informações que temos a cada hora desta chamada Era da Informação. Lembro-me da minha prima que diz “muita informação é informação nenhuma” pois, perdidos no meio de nossa enorme base de dados, temos menor poder de tomada de decisão.

Twitter, google, orkut, facebook, rádio, músicas, notícias, jornal, revistas, aulas, telefonemas, conversas; quanta informação! Será que não estamos deixando o principal se perder no meio de tanta papelada? A longo prazo, será que isso não nos leva a seguir caminhos contrários dos quais gostaríamos?

Vida Após a Morte

2h da manhã. Recebo um telefonema da Argentina. Uma grande amiga minha me ligou ao saber do que acontecera com minha ex-namorada dos tempos do colégio, que envolveu-se num fatal acidente de trânsito. Foi duro saber da notícia, muito duro. E foi duro receber o telefonema da minha amiga.

Antes de eu me tornar cristão, como já disse anteriormente, eu era agnóstico e, como tal, pensava que após a morte era aquilo ali mesmo, a matéria se transformava e só. E isso não me incomodava. Seria melhor se não acabasse ali, mas se acabasse eu não ligava tanto.

Essa minha amiga, embora em dúvidas sobre o que acredita, não lida bem com a ideia da não-continuidade da vida: “Não é possível que isso aconteça! A vida não pode acabar assim. Num é possível que não continua…” Foram mais ou menos as palavras que ela usou. Aquilo me marcou muito, justamente por ser tão diferente de mim, mesmo antes de me tornar cristão.

Em situação semelhante a nossa, conversando com a irmã de um amigão dele quando este morrera, Jesus disse algo extremamente incrível.

Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que morra, viverá; e quem vive e crê em mim, não morrerá eternamente. Você crê nisso?

Imagine como é ouvir “Eu sou a ressurreição”! Ou seja, Jesus não é como eu que acredito na ressurreição, ele mesmo a é! Em seguida ele diz como podemos ressuscitar: aquele que crê em mim viverá, não morrerá eternamente. Realmente interessante: não é por ser uma boa pessoa (frequentemente ouvimos isso, não? Fulano era tão bom que com certeza está com Deus…) o que interessa aqui é a fé em Jesus. As obras boas, estas virão em decorrência.

Não somente obras, crer em Jesus implica em muitas coisas, as quais vamos descobrindo ao longo da caminhada a seu lado. Mas essa caminhada tem que ter um início e é exatamente deste início que estou falando: decidir caminhar com ele. Isso nos leva à parte final da fala de Jesus, uma pergunta extremamente atual e talvez a mais importante das nossas vidas.

Jesus disse àquela mulher: Você crê nisso?

Acho que não foi somente a ela.

***

Costumamos dizer que a única coisa na vida de que temos certeza é que iremos morrer um dia, e dizemos também: nada é irreversível, senão a morte. Pois bem, Jesus venceu a morte. Não é à-toa que ele é tão celebrado. Jesus traz uma revolução de esperança, uma nova visão sobre a vida.

Deus limpará de seus olhos toda a lágrima; e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas. E o que estava assentado sobre o trono disse: Eis que faço novas todas as coisas. Apocalipse 21:4,5

Dedicado à amiga na Argentina.

Carta a um amigo distante

Belo Horizonte, 09/02/2010

Rafael Santos, servo de Cristo Jesus pela vontade de Deus, ao amigo que hoje se encontra distante. Graça e paz da parte de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo. Dou graça ao meu Deus sempre que me lembro de você e da nossa amizade. Deus sabe o amor que sinto por você e da falta que me faz todo o tempo em que a vida tem me pregado peças, bem como nas minhas novas alegrias.

Hoje escrevo com lágrimas nos olhos lembrado de tudo quanto já vivemos juntos, até mesmo antes de termos conhecido o Caminho. Tenho muitos motivos para agradecer a Deus por você existir e por ele ter permitido que andássemos juntos na nossa profissão de fé.

Escrevo-lhe para primeiro pedir notícias, também porque antes que pudesse perguntar como estava você se foi. Quero, junto de Deus, saber o que lhe aconteceu para que deixasse de seguir o Caminho, se é que deixou, como foi e porque não meu contou. Escrevo para perguntar se ainda somos irmãos e se ainda temos em comum aquele mesmo amor que outrora nos unia.

Sempre quando me vem à memória sua vida tenho orado junto ao Pai para pedir que não se esqueça de você, antes o continue tendo em alta estima, com aquele mesmo cuidado que a gente sabe que Ele tem mesmo quando não o reconheçamos.

Minha falha memória me traz à mente nossos primeiros passos caminhando com Ele. Desde os tempos naquele campo verde, às descobertas de novo padrão e principalmente de nossa esperança de uma nova vida. Com dificuldades escrevo lembrando da nossa cumplicidade até mesmo nos momentos em que não queríamos viver o que nos era ensinado. Lembro-me também da nossa luta por tentar memorizar as escrituras a caminho da casa de nosso mestre para o estudo delas aos domingos pela manhã. Você, melhor que qualquer outro, sabe de tudo quanto se passou comigo desde aquela época e quanta coisa mudou. Só você sabe aquilo que vivia e que ninguém acreditaria se não fosse tão próximo de mim.

Ainda hoje luto, com desafios maiores, tentando memorizar não versículos, mas livros inteiros das Escrituras. Tenho amor pela vida, até para ajudar os que ainda não viveram o que vivemos. Espero, no entanto, a cada dia com maior expectativa aquilo que há guardado para nós num futuro que não sabemos quando virá.

Exorto-lhe para que volte a viver junto ao Pai. Não sei se tem respeitado princípios bíblicos, mas de toda forma quero lhe lembrar de que eles são uma proteção de nosso Senhor à nossa carne animal que só age segundo seus próprios desejos. Admoesto-lhe para que se arrependa de algo que lhe cause incomodo e lhe provoque, não permitindo que se esqueça Daquele com quem viveu por anos e anos. Cuide para que as vãs filosofias não o façam presa.

Todos que um dia estiveram conosco sempre se preocupam sinceramente com você. Eles não só se preocupam como também torcem para que tudo lhe vá bem naquilo que tem escolhido. Lembro-lhe que se quiser  plantar rosas que vá à terra fofa e não ao frio gelo, muito menos à rocha – lugares que deixam a terra imprópria ao plantio. Enviei-lhe agricultores dessa terra e você não lhes respondeu. Não torno a os enviar para não forçar nada, só reafirmo que estão lá à sua disposição.

Continuo a orar ao nosso querido Senhor que tanto tem nos amado para que sua graça permaneça sobre você e ainda voltemos a caminhar juntos aquele Caminho que um dia conhecemos. Não escrevo mais porque as palavras, por mais numerosas que sejam, jamais serão capazes de descrever quanto sinto sua falta, quanto quero continuar a caminhar contigo e, principalmente, quanto nosso Senhor ainda o ama e lhe aguarda. No nome de Cristo, que o Pai desse amor lhe guarde hoje e sempre, amém e amém.

Sinceramente, seu amigo.

Todos nós temos um amigo que caminhou com a gente um tempo e deixou de lado a fé. Talvez até mais de um amigo.