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Cartas a um cristão como eu #3

Belo Horizonte, 08 de Agosto de 2015

Caro Ed, desta vez quem teve que lidar com a demora em responder foi você, não é mesmo? Me perdoe a falha. O ritmo agitado e a negligência com o uso do meu tempo me fizeram protelar muito (o pedido de perdão fictício foi a minha maneira de pedir perdão ao leitor pela minha atual negligência em vos escrever aqui no blog.) Mas aqui estamos, e temos bastante a conversar. Tanto que não creio que este assunto se encerrará com poucas correspondências…

Falávamos sobre a liberdade que existe no perdão divino e da nossa constante necessidade em depender dele, uma vez que a nossa ignorância e teimosia em escolher pelo pecado é também constante. Bom, a questão levantada por você é pertinente, mas não verdadeira, na minha opinião. Não se levarmos em conta os conceitos de GRAÇA e AMOR.

Por graça entendemos do favor imerecido do Único  que pode nos livrar da condenação do pecado. Por amor vamos considerar a escolha deliberada e eterna do Único que pode nos tratar com graça de fazê-lo dia após dia, chamando o auge desta escolha de cruz. São conceitos rasos para a complexidade dos termos, mas vamos partir deste ponto.

O perdão não pode ser considerado obsoleto se considerado à luz destas duas palavras. O pecador, de antemão amado, encontra graça a cada vez que cai, se arrepende e busca ao Pai. A graça aponta para a cruz, e a cruz o lembra do amor. E o amor, como disse Paulo, jamais acaba. Antes, “tudo sofre, tudo crê, tudo espera e tudo suporta.” Eu até entendo o seu sentimento e os seus questionamentos. Pensando de maneira humana é realmente um abuso o que fazemos. A repetição do erro e do pedido de perdão pode parecer manipulação, hipocrisia e até mesmo artimanha para se viver de forma libertina e deliberada. Creio que isso de fato possa acontecer, mas veja bem, o enganador nunca corrompe a graça e o amor, apenas engana a si mesmo e à sua própria consciência. Mas o pecador arrependido vive o paradoxo de experimentar, ainda que repetidas vezes, um movimento que se torna inédito da parte de Deus, o perdão que se renova e  que nasce da graça e do amor. Analisando sob a perspectiva divina não existe manipulação e nem abuso, existe a escolha deliberada e o favor imerecido de um Pai para com todos os filhos  que caem em si e que se mostram arrependidos dos seus atos.

Agora, vamos tomar novamente os conceito de graça e amor que escrevi acima. Observe como a ação deles move o ser humano. Do pecado ao arrependimento, do arrependimento à graça, que faz lembrar o amor e que nos leva para a cruz, e daquele ponto em diante experimentamos liberdade, até que pecamos de novo, e tudo se repete. Bom, eu não diria que se trate de um ciclo. Escolha um ponto em um círculo, caminhe com ele por toda a extensão do limite do mesmo e você chegará ao mesmo lugar, e será eternamente assim. Prefiro comparar este movimento do amor e da graça a uma espiral, que caminha sempre adiante, num movimento aparentemente cíclico, mas que está em constante evolução. Ser perdoado é sempre progredir, e nunca regredir ou continuar estagnado. Sempre avançamos para a cruz quando experimentamos do favor divino, e por mais que pareça que vamos acabar no mesmo ponto de antes, depender do perdão constante de Deus e busca-lo com arrependimento é esquecer das coisas que para trás ficaram e progredir para o Alvo, rumo ao prêmio da soberana vocação.

Não compreendemos a mente e o coração de Deus, Ed. É impossível. Mas saiba que de alguma forma maluca e maravilhosa Ele está sempre pronto para nos redimir, ainda que os erros sejam repetidos por diversas vezes. E não só isso, Ele faz com que essa constante dependência do Seu perdão seja um ganho para nós. Não fuja do perdão divino, Ed. Abrace-o e agarra-o quantas vezes forem necessárias, pois Deus o tratará com graça e amor quantas vezes forem necessárias.

Espero, de coração, que tudo isso tenha feito algum sentido.

Com carinho, Dudú Mitre.

Cartas a um cristão como eu #2

Belo Horizonte, 20 de Junho de 2015.

Querido Ed, fiquei muito feliz em receber a sua correspondência. Admito que achei que os nossos diálogos teriam fim naquela ocasião, uma vez que mais de um mês se passou e eu não tive nenhum tipo de resposta sua. Várias coisas se passaram pela minha cabeça, mas recebendo notícias dos seus amigos cheguei a conclusão de que provavelmente você estivesse fugindo. Não de mim, uma vez que não apresento ameaças a ninguém, mas do rumo que a nossa conversa estava tomando. Não lhe julgo, pois sei que em tempos de crise pessoal e moral, pensar na própria vida e ter um amigo abusado que lhe toque as feridas não é nem um pouco confortável.

Quanto á fuga, permita-me apontar uma verdade: uma pessoa não pode fugir e aprender ao mesmo tempo. Ela precisa permanecer algum tempo para tirar lições que façam algum sentido e que produzam alguma coisa. Ora, não há nada anormal em se passar por uma crise. O coração humano, inclinado para o pecado, nos faz cair com frequência naquilo que sabemos estar longe da vontade do nosso Pai. Mas veja, cada uma dessas quedas pode ser uma escola! Me lembro do “Peregrino”, na obra de John Bunyan, quando se depara com dois leões dorminhocos à beira da estrada que levava à Cidade Celestial e conclui: “voltar (ou fugir) é ir de encontro à morte certa; prosseguir é apenas temer a morte, mas com a vida eterna em perspectiva. Avante, pois!”. Não tenho mais o que falar sobre isto, e espero que você entenda que o meu tom não é de juízo, mas de exortação.

Agora, quanto ao que você me escreveu, digo que se trata de um aprimoramento pelo qual todo cristão deve passar. Você não é o único que, como você mesmo me escreveu, “maquina o mal e o pratica com uma facilidade gigantesca”. Desconheço um irmão que não tenha vivido a tensão entre a carne e o Espírito, a tensão entre o querer satisfazer seus desejos e o desejo de satisfazer a sua alma no Criador. As afirmações do Apóstolo Paulo são, nesse sentido, reveladoras e muito pesadas: “Porque tenho o desejo de fazer o que é bom, mas não consigo realizá-lo. Pois o que faço não é o bem que desejo, mas o mal que não quero fazer, esse eu continuo fazendo. Ora, se faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, mas o pecado que habita em mim”. Apesar de livres do poder do pecado por causa do sacrifício do Filho de Deus, ele ainda nos influencia grandemente. Saber lidar com essa tensão é um ponto fundamental na caminhada cristã. Paulo clama aos céus: “Miserável homem que sou! Quem me libertará deste corpo sujeito à morte?”, e conclui de forma fantástica: “Graças a Deus por Cristo Jesus”.

Existe grande liberdade em Cristo Jesus. Liberdade trazida pelo perdão da cruz, pelo perdão que nasceu do amor. O pecado é real, é forte. Nos manipula e influencia. Nos seduz e nos faz escolher por ele. E sim, ele é muito mais poderoso do que nós. Mas o amor, o perfeito amor com que Jesus Cristo nos amou, este cobre uma multidão de pecados. E a liberdade oferecida por esse amor nos possibilita experimentar o perdão a cada vez que fazemos o que não queremos, a cada vez que maquinamos o mal e o cumprimos com uma facilidade gigantesca.

Você está perdoado, Ed!

Com carinho, Dudú Mitre.

Ps:. as citações de Paulo a que me referi se encontram no livro de Romanos, no capítulo 7, com fragmentos dos versículos 18 a 25.