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Dor

Do alto da cruz Jesus já havia experimentado todas as dores do mundo. As dores da carne causadas pela intensidade dos espinhos que penetravam em sua cabeça. Seu corpo também já havia sofrido com as torturas, acoites e os enormes pregos que atravessaram mãos e pés. A dor causada pela humilhação, pelo cuspe e também o tapa. O desdém, a indiferença e a traição.

Mas o pior ainda estava por vir. Jesus ainda sentiria a maior dor que alguém pode experimentar. A dor da ausência de Deus, quando abraçaria o pecado da humanidade, como um soldado que pula em cima de uma granada pra salvar seus companheiros a quem ama. Abandono, alienação, silencio. São as consequências naturais do pecado, quando Deus parece morto.

“Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” Mt 27.46

Esse é o momento em que Jesus grita de dor. Quase não a suporta o distanciamento de Deus que o fere profundamente, muito mais do que seus estigmas. Porém, não interrompe seu diálogo com Deus nem mesmo no momento em que experimentou a solidão da alma. Ele clama com sua fé ferida.

Que essa seja a nossa atitude. De clamar pelo nosso Deus, mesmo com Seu aparente silêncio e colocar diante dele as dores da carne que abrem feridas, que nos desanimam e nos fazem chorar e perder a esperança.

Insuportável mesmo é viver sem a presença de Deus.

Do templo à cruz

Em Lucas 2 lemos um episódio de Jesus, ainda uma criança de 12 anos, no templo com os mestres religiosos da época. Ficou durante três dias “ouvindo-os e fazendo-lhes perguntas”, fazendo pessoas se maravilharem “com seu entendimento e com as suas respostas. Naquele momento, com doze anos, esse era o lugar que Ele deveria estar (vs 49). Não posso afirmar, mas creio que Jesus ia, aos poucos, se tornando consciente de sua missão. Ainda como uma criança, talvez sua missão fosse estar no templo, ouvindo e conhecendo as posições dos “mestres”. Da mesma forma, vemos um Jesus jovem, sendo obediente aos pais e honrando sua família dando continuidade ao trabalho de José como carpinteiro. Aos trinta anos, e com a maioridade judaica, Jesus parecia consciente de sua grande missão.
Interessante notar lendo os evangelhos que Jesus nunca voltou a fazer o que fez quando tinha doze. Ou seja, agora com missão, nunca teve mais tempo (ou preocupação) em ficar debatendo com os mestres no templo. Escrevo isso porque me preocupo com cristianismo de templo em detrimento ao cristianismo de rua, de caminho, de vida… Jesus nunca investiu em cristianismo de templo enquanto tinha missão. Várias vezes foi abordado por “homens de templo” mas chegou até a ignorá-los (Mc 11:33). Confesso que tenho grande preguiça de cristianismo feito no templo e temo que essa escolha enfraqueça muito o nosso poder de sermos sal e luz. Antes fosse ficarmos dentro do templo ouvindo um menino de 12 anos nos maravilhar. No entanto, sinto que o cristianismo de templo discute de si para si, confabulando sobre o que e como deve ser feito, criticando muitos que estão no caminho por seus métodos ineficazes e míopes.
Tenho receio dos “mestres do templo” se distanciarem do dia a dia de Cristo, se distanciando assim da cruz. Dentro do templo passam a fazer sentido somente para eles…
Hoje é dia de lembrar aos cristãos preguiçosos e relapsos que aquela criança se tornou homem e seguiu sua missão até o fim, nos conclamando a segui-lo. Portanto, qual é o caminho que tem percorrido? Mas aproveito, principalmente, para falar aos cristãos do templo… nosso Jesus tem missão, viveu missão e morreu missão. No momento que esta se tornou clara, Ele não teve mais tempo (e nem vontade) de ficar no templo, discutindo com os mestres. Ele não poderia se esquivar de sua grande missão.
Creio que alguns dos mestres que se encontraram com o menino Jesus continuavam a assistir do templo àquele movimento que viria nos trazer salvação que é sem fim. Triste pensar que, vinte anos depois, alguns que antes se maravilharam por receber a visita de um menino, nunca saíram de lá. E de lá, arquitetaram a morte de cruz daquele homem que anos antes o fizeram ficarem perplexos.

Abraço e até a próxima

O dia em que tudo mudou

Fico imaginando aquele homem, cansado por uma noite inteira de trabalho. Pastorear ovelhas na escuridão fria, do lado e fora de sua cidade, não era uma tarefa fácil. Era necessário estar muito ligado ao longo de toda a noite pois os perigos eram variados e reais. Por isso, naquela sexta feira bem cedo, ao retornar para sua casa, ele só pensava em sua cama. Como desejava um descanso. Bem próximo de seu lar ele nota uma pequena confusão, ao chegar mais próximo percebe que algum malfeitor estava sendo punido, carregando sua cruz com destino ao monte da vergonha. Quando chegou perto da confusão sem que pudesse reagir, foi puxado por um dos guardas responsáveis pela escolta. A ordem era clara, ele deveria ajudar aquele homem a carregar sua cruz.
Fico imaginando os seus questionamentos: “como assim, eu nem conheço esse cara!”; “Logo eu! Estou super cansado!”; “Por essa eu não esperava! Que injustiça!”. Creio que esses eram os murmúrios mais leves…
Mas como eu me identifico com a história de Simão Cirineu! Quando algo sai do que era esperado e uma cruz aparece em meu caminho eu logo murmuro! Deus é um alvo dos meus murmúrios, os outros são alvos também (governo, chefe, família, etc…)
No entanto, o mais legal de nosso Deus é a capacidade de nos surpreender. E meio à caminhada (seja ela de cruzes, noites de trabalho, descanso ou alegrias) Ele está sempre fazendo algo novo. Um texto mexe muito comigo:

“Esqueçam o que se foi; não vivam no passado.Vejam, estou fazendo uma coisa nova! Ela já está surgindo! Vocês não o percebem? Até no deserto vou abrir um caminho e riachos no ermo.” Isaías 43:18-19

Esqueça o que se foi! Para de murmurar! Estou fazendo algo novo! Você não percebe? … E quantas vezes não percebemos pois estamos muito agarrados às circunstâncias. O nosso Deus abre caminhos em desertos, riachos no ermo! Você Percebe?

Simão percebeu! E quando deixou aquela cruz no alto do monte, olhou para aquele homem em extremo sofrimento. Aquele olhar mudou sua vida, aquela cruz mudou sua história, aquele homem entrou em sua família e trouxe salvação. Creio que as cruzes que carregamos são um convite para notarmos o que Deus tem feito e novo!

Você percebe?

Abraço e até a próxima

Os dois jardins

“Ó vós que passais, vinde ver;
o homem roubou o fruto, mas eu devo subir na árvore;
a árvore de vida para todos, menos para mim:
‘Já houve dor como a minha?'”.
(George Herbert)

No início, um jardim e uma ordem. Adão e Eva tinham muita liberdade e uma única ordem: “Obedeçam- me acerca da árvore e viverão.”
Obedeçam e eu os abençoarei, mas eles desobedeceram. Esse talvez seja o protótipo de todas as suas ordens à humanidade.
Séculos mais tarde, um outro jardim e um segundo Adão (ICo15:45), e uma nova ordem. De “não coma do fruto” para “beba do cálice”. De “cuidado com a árvore do centro” para “se entregue naquele madeiro que será o centro da história”. Ao invés de “obedeçam e viverão”, a promessa “obedeça-me no madeiro e eu o esmagarei”. No lugar da desobediência, obediência.
Naquela noite, Jesus sentiu o cheiro do liquido transbordante do cálice. Talvez Deus o tenha feito dar as primeiras goladas para ajudá-lo a antever o que estava por vir. “Você beberá … esse copo de desgraça e desolação … Você o beberá até a última gota”. (Ez.23:32-34). “Você que bebeu da mão do Senhor o cálice da ira dele, você que engoliu, até a última gota, da taça que faz os homens cambalearem.”(Is.51:17).
Por isso a agonia
Por isso o suor
Por isso a tristeza
Mas, por fim, a oração “seja feita a tua vontade”

Mais que uma obediência passiva (se entregar na cruz), uma obediência ativa (caminhar, obstinadamente, em direção ao madeiro)

Você compreende tamanho amor?
Você compreende tamanha obediência?

Abraço e até a próxima!

Insuficiência obesa

Era dia de Marcos 8. Eu estava no meio do estudo do último domingo e um dos participantes disse: “O meu problema não é carregar a cruz para segui-lo. O meu problema é assumir que não consigo carregá-la e que sou fraco. É como se não fosse a cruz que pesasse… O que pesa mesmo é a incapacidade de carregá-la!”

Eu não sei se os outros participantes do grupinho entenderam a profundidade dessa revelação. Para se ter uma ideia, na segunda-feira eu mandei uma mensagem para esse amigo, dizendo que estava orando pela sua vida e partilhando que eu sabia muito bem o que ele queria dizer. Afinal, quantas vezes minhas lágrimas não foram derramadas diante da minha insuficiência?

Como se não bastasse, na terça-feira à noite, recebo uma mensagem no whatsapp. Era a foto da página de um livro em que Jesus falava com alguém que o seguia. Ele dizia assim:

“Talvez a coisa mais difícil para você aceitar nesse momento seja o fracasso. Assumir que você não consegue viver o que deseja. Esta é a cruz que você menos quis, a cruz que você menos esperava carregar. De algum lugar você tirou a ideia de que eu esperava que sua vida fosse uma história imaculada de sucesso, um espiral ascendente indestrutível de santidade. Não percebe que eu sou realista demais para isso?

Eu testemunhei Pedro dizendo que me amava a ponto de morrer comigo e, logo em seguida, negando-me por 3 vezes ao dizer que não me conhecia. Tiago e João reivindicaram poder e queriam se assentar ao lado do trono, em troca do serviço ao Reino. Filipe, depois de 3 anos comigo, ainda não compreendia que a imagem do Pai estava refletida em mim. ‘Como assim, mostra-nos o Pai, Filipe?’

A questão é esta: espero mais fracassos seus do que você espera de si mesmo!”

Por que a gente se esquece de que onde abundou o pecado, superabundou a graça? (Rm.5:20)

Por que a gente se esquece que Ele conhece a nossa estrutura e sabe que somos pó? (Sl.103:14)

Ele já havia declarado que o seu poder prefere se aperfeiçoar na fraqueza, porque quando somos fracos, então é que somos fortes, lembra? (II Co.12:9-10)

“No tocante a mim, confio na tua graça;”(Sl.13:5)

Que essa seja a nossa confiança. Que essa seja a nossa oração.

Porque a graça, meus amigos, faz emagrecer toda e qualquer insuficiência obesa. Torna a cruz leve como uma pena.

A árdua luta pela santidade absurdamente se transforma num caminho de alívio, refrigério.

“Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; ora, os seus mandamentos não são penosos…” (I Jo.5:3)

Porque penoso mesmo, é viver sem a cruz nas costas!

Um grande abraço!!!

Post dedicado ao Leonardo Miranda e à Bruna Pinheiro. Obrigado pelo estudo de domingo e pela mensagem de terça-feira! Eles acabaram virando um post!

 

Ágora* sem cruz

Há uns dias atrás gastei um pouco de tempo vendo alguns debates na Internet entre teólogos e ateus. Já fui um entusiasta desse tipo de debate com disputas acaloradas e torcida dos dois lados. Hoje tenho preguiça. Enquanto via os debates me lembrei de uma passagem inusitada onde Jesus foi convidado a ter um papo com alguns gregos (Jo. 12:20-24). Através de seu discípulo Filipe, que pelo nome tinha vínculos com gregos, foi convidado para um papo filosófico. Provavelmente Jesus seria convidado a deixar de lado aquele pequeno mundo palestino para ampliar suas fronteiras, fazendo seus sermões na ágora de Atenas, onde suas palavras seriam amplificadas mundo afora. Com certeza ele se tornaria o maior filósofo da história!  Dialogaria com as ideias de Sócrates, Platão, Aristóteles e tantos outros.

Mas, diferentemente do esperado, Jesus responde de forma esquisita: “E Jesus lhes respondeu, dizendo: E chegada a hora em que o Filho do homem há de ser glorificado.Na verdade, na verdade vos digo que, se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer, dá muito fruto.” (João 12:23-24)

Jesus tinha um propósito claro, nada mudaria seu caminho. Ele abriu mão da ágora em detrimento da cruz. Abriu mão de todo reconhecimento intelectual e filosófico ao escolher o sacrifício, a dor , a humilhação e o amor! Esse é o caminho que Ele deixou para que seus seguidores percorressem, o caminho da cruz e do amor sacrificial! Não sou contra a apologética, entendo sua importância. Muitos são “conquistados” para Cristo através da defesa da fé. Sou contra uma apologética que caminha para o ágora sem passar pela cruz! Não consigo entender a arrogância com que muitos cristãos usam dela  ao invés de escolher o caminho da cruz e do amor sacrificial! A ágora é um local legitimo de discussão, como todos os outros locais esse é mais um onde devemos ter cristãos! É nesse espaço onde ateus, filósofos, intelectuais são ganhos para Cristo. O problema é quando os nossos representantes estão na ágora para ganhar uma disputa, para que a vaidade seja alimentada e não para que Jesus seja glorificado através de uma postura de servo e amor sacrificial! Infelizmente as ágoras estão repletas de cristãos que ainda não compreenderam e, muito menos, caminharam até a cruz!

Que possamos caminhar pelas ágoras do mundo depois de passarmos pela cruz!

Abraço e até a próxima!

 

*Ágora: Ágora era a praça principal na constituição da polis, a cidade grega da Antiguidade clássica. Normalmente era um espaço livre, configurada pela presença de mercados e feiras nos seus limites, envolvido por edifícios de carácter público.É na ágora que o cidadão grego convive com outro, onde decorrem as discussões políticas e os tribunais populares: é, portanto, o espaço da cidadania. (fonte: wikipédia )

Moriá

A bíblia fala muito sobre montes. Mas existe um que sobressai: o monte Moriá. Temos 2 histórias importantes nesse monte.

A primeira delas é uma história complicada, pois mostra um Deus que pede para um pai matar o filho (Gn.22). Abraão, em sua obediência, sobe o monte junto com seu filho Isaque pronto para sacrificá-lo. Fico imaginando Abraão tendo que amarrar o filho da promessa, o seu maior apego! Não deve ter sido fácil para ele. Levantar aquela faca, olhando para os olhos assustados do filho. No entanto ele não contava com o Deus consolador, que propiciou um cordeiro para morrer no lugar de Isaque. Um anjo o impede de continuar, trazendo esperança.

Centenas de anos depois o Moriá recebeu uma cidade que se tornou uma das mais famosas do mundo: Jerusalém. O monte foi cortado no meio por questões de segurança no muro norte da cidade. O que ficou para fora da cidade se tornou uma escarpa, local provável onde um outro Pai subiu com seu Filho para imolá-lo. Uma escarpa que ganhou o nome de Gólgota por se parecer com uma caveira. Foi nesse local onde o Pai deu o Seu Filho, o que tinha de mais valioso. Ao invés de uma faca uma cruz. Ao invés de um anjo com uma boa notícia, homens curiosos, raivosos, indiferentes. O Pai que consola não foi consolado. Sangue derramado, corpo estendido, separação pela morte! Você já pensou em consolar Deus? Afinal de contas a dor de Abraão não chegou ao ápice da dor de Deus, pois ele foi consolado por um anjo e Deus só pode chorar e esperar!

Quando penso nos sacrifícios que tive que fazer em minha vida o Moriá me deixa uma grande lição. Lição de entrega e fé no caso de Abraão, lição de consolo e amor sacrificial no caso de Deus. Espero poder subir no monte Moriá por fé e entrega e encontrar consolo e amor!

Abraço  e até a próxima!