Arquivo da tag: cristianismo

Uma análise cristã de nosso momento político

Surge um problema teológico quando identificamos como espirituais apenas aquelas atividades relacionadas diretamente à igreja (comunidade de redimidos). Como sabemos, Deus não é só Criador, mas Mantenedor de toda a criação. A realidade é uma só, criada por Deus, e Ele disse que tudo era bom. Para os proponentes da Reforma Protestante, não havia uma área da vida que fosse menos digna do que outra, por isso romperam com o pensamento medieval que via no ascetismo e na contemplação os únicos caminhos para servir a Deus. O pensamento corrente era de que havia um andar de cima espiritual e um andar de baixo profano, mas na reforma observamos uma sacralização de tudo o que a criação nos oferece nas artes, ciências, política, etc. Espiritual, portanto, não é sinônimo de sobrenatural, é senão tudo aquilo que não envolve pecado. A revelação das escrituras nos fornece orientação para a unidade da vida, e não sua segmentação.

Nesse sentido, duas alternativas se apresentariam diante de nós para lidarmos com os fatos políticos recentes: a) omitir-se; b) lançar a luz bíblica sobre a política.

Ora, a Bíblia é o livro sobre o Rei, mas também sobre o reino do Rei e não há campo de nossas vidas no qual ela não lance luz. Há muitos cristãos amigos (e eu me incluo) que tem respirado dia e noite os noticiários políticos e manifestam, em qualquer meio possível (redes sociais, refeições em família, ambiente de trabalho), sua aprovação ou indignação com o governo atual. Mas quantos de nós já parou para refletir se a narrativa bíblica, o Deus TriUno e o seu projeto de Reino em curso tem algo a dizer sobre a política?

E por quê essa reflexão seria importante? Porque quando entramos na narrativa de Deus e somos abraçados por sua Graça, o Senhor nos dá um novo coração, que é o centro de ordenação de todo o nosso horizonte de vida. Se ele é o centro como a Bíblia nos diz que é, a nossa noção de justiça, nosso sentido estético, econômico, ético, vão sendo afetados radicalmente pelos valores do reino de Deus.

Uma primeira pergunta é: qual é o fundamento da sua Esperança?
Uma primeira resposta é:“Saiamos, pois, a ele, fora do arraial, levando o seu vitupério. Na verdade, não temos aqui cidade permanente, mas buscamos a que há de vir” [Hebreus 13.13-14] Então, lembre-se disso, o Cristo ressurreto virá em glória para a consumação do Seu Reino. Sua vida não está nas mãos da Dilma, mas do Deus Todo Poderoso.

Isso não quer dizer que não devemos nos posicionar. Ao contrário, a política é um dos elementos da criação, indispensável para os seres relacionais e comunitários que somos. Contudo, um momento tão confuso quanto o que vivemos, exige cuidado. Uma primeira dica seria: fuja dos extremos! Veja que Deus pintou nossa vida com várias cores, motivo pelo qual embora ela seja uma unidade, se expressa em diferentes campos. Poderíamos dividir em esfera pística (fé), ética, jurídica, econômica, social, psíquica e por aí vai…Todas elas possuem um núcleo de sentido e, portanto, reduzir toda a complexidade da vida em uma dessas áreas seria negligenciar o chamado à completude de Deus. Quanto mais reducionistas formos, menos humanos seremos.

Abraçar irrestrita e acriticamente o projeto do Partido dos Trabalhadores tem implicações sérias para o cristão (o que fui perceber há pouco tempo). As razões são diversas, mas poderia citar algumas como: uma inclinação para um sonho hegemônico, um Estado que acaba por colonizar a sociedade civil em muitas de suas iniciativas,  um discurso messiânico e um ‘projeto de redenção’. Tudo isso sob a batuta de um pensamento dito secular, mas que não passa de um uma outra cosmovisão com fundamentos religiosos. Esse ponto é importante porque o homem é essencialmente religioso e, se absolutizamos um aspecto da criação (por exemplo quando definimos o homem como homus economicus), tiramos o Único Absoluto (DEUS!) do seu lugar e incorremos no pecado da idolatria. Não há dúvidas de que a ideologia política é uma espécie moderna de ídolo (podemos conversar sobre isso em posts futuros). É verdade que houve inclusão social, é verdade que o acesso ao ensino superior foi quase universalizado, é notável que o salário mínimo teve ganhos reais e isso precisamos dizer porque a luta contra injustiça social fez parte da atividade profética do Velho Testamento.

Contudo, conforme nos ensina Guilherme de Carvalho: “Ao mesmo tempo, o conceito de injustiça em certos círculos dessa esquerda é quase absorvido pelo de igualdade, sem clara noção de retribuição jurídica nem de mérito, sem reconhecimento inambíguo de direitos individuais naturais (como o de propriedade), sem percepção da importância da liberdade das esferas sociais e da justiça interesferas; cultivam um conceito de injustiça já maculado pela ausência da crítica teológica aos ídolos do historicismo e do economicismo, sem complexidade e reduzido à noção de desigualdade; um olhar seletivo que, no tocante à teologia econômica, ressalta alguns textos bíblicos aparentemente “socialistas” mas exclui aqueles incômodos textos bíblicos aparentemente “liberais”

Por outro lado, não vá então abraçar o antipetismo cego disseminado pela mídia massificada. Se fosse você, teria os dois pés atrás quando confrontado com esse outro extremo. Não foi o PT o criador da corrupção do nosso sistema republicano. A opção que fizemos pelo presidencialismo pode ter agravado aspectos de corrupção presentes na cultura do brasileiro, o famoso “jeitinho tupiniquim” e a “lei de Gérson” e isso não vem de agora. Consulte o seu coração: existe aí dentro um equilíbrio entre a insatisfação com os excessos petistas e a tristeza com as injustiças e falta de oportunidade para os pobres? Porque defender a propriedade quase absoluta, a noção de retribuição jurídica e de mérito parece mais simples para quem sempre teve muitas oportunidades, mas como fica o pobre até que a sociedade civil brasileira aprenda a se organizar e tratar essa questão? Não vejo porque não defender um Estado que promova justiça entre os diferentes aspectos da vida, que faça correções pontuais e se apresente como um Estado suficiente. Nem tudo é Estado, nem tudo é mercado. Nossa vida abrange família, igreja, trabalho, lazer e por aí vai… Reduzí-la a um aspecto é desumanizar o humano.

Como conclusão, sugiro que para que o nosso discurso seja uma leitura harmônica da realidade política a partir das Escrituras,  ele inclua a denúncia contra as injustiças sociais, ouça o clamor do pobre, mas também reafirme os valores do trabalho, da ética, do compromisso e da soberania dos aspectos da vida em relação aos outros (embora todos dependentes de Deus) e, por fim, a denúncia contra o risco da idolatria.

Não deixe a política colonizar os seus relacionamentos, suas refeições, sua família, seu trabalho. Respire ar fresco um pouco, dê um passo atrás para reflexão, lance luz bíblica sobre suas “convicções políticas” e seja mais moderado. Distanciar-se dos extremos nesse momento de indefinição pode ser uma boa, até que sua conclusão converta-se em posturas propositivas de inspiração bíblica. Omissão não deveria ser uma saída possível, mas o silêncio reflexivo pode ser um excelente aliado por ora porque, sem dúvidas, analisar toda a realidade a partir da concepção de mundo presente na narrativa bíblica é o melhor caminho para o cristão.

 

Único

Nessa semana temática, gostaria de abordar uma relação em especial dentro da trindade: Pai e Filho. Muito pode ser dito sobre esse tema, porém, com a permissão do Rato, “dono” desse Evangelho :D, gostaria de escrever algumas idéias baseando-me no evangelho de João.

Apesar de termos sido criados à imagem e semelhança de Deus (Gênesis 1:26), tomamos decisões em nossa vida que nos afastaram do plano original dele. O nosso DNA não é exatamente igual ao de Deus (olhe bem pra dentro de você e veja se Ele teria muitos dos pensamentos e atitudes que você tem). Mas Ele gostaria muito que você fosse muito parecid@ com Ele. O máximo possível. Já Jesus se colocou como Filho de Deus, com um DNA exatamente igual, porém despido da glória, limitado a viver entre nós como um simples mortal, que tem sede, fome, frio e que morre.

Ao se dizer “Filho de Deus”, Jesus sabia da força de suas palavras, sabia estar se igualando ao próprio Deus para os judeus da época. Sabia estar declarando-se ter uma relação com Deus maior que a que qualquer pessoa poderia ter. E deveria imaginar que os judeus, se não cressem em sua divindade, ficariam indignados com as afirmações dele, o que de fato ocorreu.

Mas seus títulos não se esgotam em “Filho de Deus”: Jesus também se diz “pão que desceu do céu e dá vida ao mundo” (João 6:33 e 35),  “fonte de água viva” (João 4:14), dentre outros. Vale a pena ler o contexto em que Ele afirmou ter esses títulos no evangelho de João. Jesus nos deixa bem claro nesse capítulo que desceu dos céus, i.e., se despiu de seu poder e se fez homem, tendo fome e sede, não para fazer sua vontade, mas a de Deus (João 6:38) . Também afirma que vive por causa de Deus e aquele que dele vive viverá do Pai (João 6:57). As palavras dele são muito claras: Ele é o único mediador possível. O caminho até Deus, A verdade e A vida (João 14:6), não um caminho, uma verdade e uma vida. ÚNICO. Ninguém chega a Deus senão através dele, pois Jesus é o único que viu a Deus (João 6:46). Jesus possuía um relacionamento ÚNICO com Deus, com certeza seu bem mais precioso, que o alimentava de fato (João 4:34). O modelo dele de relacionamento com Deus deve ser o nosso também.

 DSC07258

No dia-a-dia, muitas vezes nos referimos a nós mesmos ou ouvimos outras pessoas dizerem coisas do tipo: “Ah, mas eu mereço, também sou filha de Deus!” Porém, o que não percebemos, muitas vezes, é que há uma certa imprecisão nessa afirmação. Na verdade, segundo a bíblia (João 1:12), somente Jesus é filho “de sangue” de Deus, com o mesmo DNA. Nós podemos nos tornar também filhos (adotivos) ao crermos e aceitarmos tudo o que Jesus fez por nós: sua vida sem pecado, seu exemplo de fé e esperança e o caminho que Ele nos abre, ao morrer por nós na Cruz. Ao morrer, no meu e no seu lugar, ele nos dá a oportunidade de sermos limpos dos nossos pecados – tanto da “névoa” que nos encobre perante Deus quanto nos dá a possibilidade de mudar – e nos mostra o caminho até Deus. Deus está de braços abertos para nos receber (João 6:37). E é através da fé em Jesus que teremos acesso, que nos tornaremos moradia do terceiro vértice da trindade (I Coríntios 3:16), o Espírito Santo.

Para vivermos, portanto, limpos e sermos adotados por Deus, basta-nos apenas decidir em que lado queremos estar, agradecer a Deus por tudo o que fez por nós através de Cristo e crer. O resto ele nos ajudará a fazer, mas o primeiro passo é nosso. E você, quer ou não dar esse passo? Ou já deu? Que diferença fez na sua vida? Compartilhe conosco!

Proibida a entrada de pessoas perfeitas

“A despedida. O beijo. Lágrimas. ‘É melhor eu ir.’ Entra na sala de embarque, sem se importar em conter as lágrimas, que, já longe deles, correm soltas. Uma estranha se compadece e lhe compra uma garrafa de água. ‘Talvez isso te acalme’. Mal sabia que, quando estivesse de volta aquele aeroporto, já não haveria motivo para choro.”

Não, não vou repetir o post anterior. Gostaria de compartilhar com vocês um pouco da minha vida. “Ana, você acha que alguém está interessado?” Hum… Não. Mas acho que vai te interessar sim. Por favor, gaste alguns instantes aqui.

Às vezes nos sentimos sozinhos e engolidos pelos nossos próprios problemas e não nos abrimos com os outros. Pelo simples motivo de que muitas vezes sentimos que estamos sozinhos em um problema e que “ninguém vai me entender”, pelo contrário, “vai me julgar”. Mas não é assim, precisamos tomar consciência de que somos todos pecadores (Rm 3:23) e parar de achar que os cristãos à nossa volta nunca erram. Precisamos procurar os amigos, se abrir, confessar (Tg 5:16), nos fará muito bem! Conversei com uma pessoa recentemente que me apresentou exatamente esse ponto de vista e me partiu o coração pensar que, talvez se eu transparecesse melhor como sou pecadora, como eu erro, como eu faço burradas mesmo sabendo que precisava continuar olhando pra Jesus, essa pessoa tivesse me procurado para conversar mais cedo e talvez quem sabe a história dela pudesse ter sido um pouco diferente.

Todos nós temos as nossas fases de não pertencer a nem um mundo nem a outro. Eu já tive. De nos sentirmos perdidos. Mas eu quero te dizer, amigo, que isso muda. Coragem nesse momento difícil: se você permitir, Deus quer te tirar dessa. Não importa a(s) burrada(s) que você fez (muitas vezes sabendo que era burrada mesmo), as coisas podem melhorar, não se sinta a pior das pessoas. Você sairá dessa uma nova pessoa. Não desista de lutar contra tudo que quer te afastar de Deus, de uma vida nova ao lado dele. “Você sempre será amado“. Permita que Deus lute a batalha por você (porque na verdade só assim “nós” venceremos). Ore com todas as suas forças. Se você não tem forças para orar, peça a um amigo de confiança que ore por você e sei que ele terá o maior prazer.

“Vocês corriam bem. Quem os impediu de continuar obedecendo à verdade? Tal persuasão não provém daquele que os chama. ‘Um pouco de fermento leveda toda a massa.'” (Gl 5:7-9)

Passei por um momento muito difícil no passado e um fragmento do que houve comigo é o trecho citado no início do post. 2008 foi um ano extremamente conturbado, pois coloquei em xeque diversas coisas que eram importantes para mim. Não soube lidar com questionamentos que surgiram e isso se traduziu em uma grande crise pessoal: não queria estar fisicamente longe de tudo aquilo que me confortava , i.e., família e namoro (bobinha eu achando que isso era o que de poderia me confortar completamente). Nesse cenário, a perspectiva do antes tão sonhado intercâmbio que eu iria fazer se tornou um pesadelo.

Mas fui, enfim. Aos trancos e barrancos. Como poderia ter sido melhor se eu tivesse conversado melhor, me aberto com meus amigos! Mas fui e tentei resolver as coisas “por mim mesma”. Aos poucos, Deus tomou a rédea da situação, mesmo sem que eu quisesse muito e as coisas foram mudando. Os novos ares foram benéficos. Deus colocou algumas pessoas muito especiais no meu caminho (Becky Pippert, meus amigos do Brasil e os novos de , GBU, Església de Verdi…) e foi mudando aos poucos sua direção. No processo, me machuquei, me conheci melhor e Deus me reergueu, de forma que estou aí outra vez. 😀

As minhas roomates, Libby (UK) e Rita (Portugal) na Església de Verdi, à qual íamos todos os domingos
Minhas roomates, Libby (UK) fazendo careta e Rita (Portugal) na Església de Verdi, à qual íamos todos os domingos.

Talvez somente com uma reviravolta na sua vida você acorde e as coisas mudem de verdade. Mas não se deixe iludir: as coisas podem mudar. Deus não quer sofrimento para a sua vida. E você não precisa pagar pelo que fez pra que tudo se acerte, há uma pessoa que já pagou por você (Rm5:8). Todos nós temos crises: não se cobre se você não é “perfeito”, como diz o manual. Na vida cristã é proibida a entrada de pessoas perfeitas. “Quem não tem pecado, que atire a primeira pedra” (Jo 8:7). Lembre-se disso nos momentos de crise e não deixe que a culpa te consuma.

Pra encerrar, deixo com vocês um trecho de Fôlego, de Tim Winton. Nesse trecho, uma ex-campeã de esqui frustrada fala a um jovem surfista sobre a adrenalina sentida por eles: “Quando você experimenta uma coisa diferente, uma coisa extraordinária, então é difícil desistir. O negócio toma conta de você. Depois, nada mais faz você se sentir do mesmo jeito” (pg 159). Você, que já experimentou a vida com Deus, sabe a alegria que é. Nada mais que você experimentar te trará aquela mesma sensação. Você sabe que vale a pena. Não desista disso por nada nesse mundo. Não deixe que o que ocorreu de ruim no passado defina o que você será no futuro.

Um abraço a todos vocês.

Esse post é dedicado a uma pessoa muito especial para mim. Ela sabe quem é.

Morte e Vida (Severina)

“Somos para Deus o perfume de Cristo entre os que se salvam e entre os que se perdem. Para estes, na verdade, odor de morte e que dá a morte; para os primeiros, porém, odor de vida e que dá a vida. E qual o homem capaz de uma tal obra?” (2 Co 2:15-16)

Como dito nesse versículo “de abertura”, representamos algo como Cristãos que as pessoas muitas vezes não entendem e muitas vezes repelem por não considerar verdade pra elas. É verdade, os cristãos são muitas vezes vistos como “morte”, como a materialização de muita coisa que há de mal no mundo e por isso foram perseguidos. Cristo mesmo foi perseguido, assim como Paulo, Pedro, Águeda

O Martírio de Santa Águeda, que teve os seios arrancados
O Martírio de Santa Águeda, que teve os seios arrancados

E, quantas vezes não somos vistos como “morte” no meu meio não por sermos cristãos, mas pela arrogância com que apresentamos a mensagem cristã (você, se não fosse cristão/ou se não é cristão, seria amigo de alguém que tem uma atitude de superioridade sobre sua fé em relação aos outros? eu não!)?

Quantas vezes com os meus pecados não mancho o nome de Deus e aí sou de fato morte e testemunho ruim para os de fora? A lista vai: ignorância, intolerância, orgulho, falta de sabedoria, de sensibilidade, de cuidado, de discrição (=fofoca)…

Sobre essa última da lista: fofoca. Muitas vezes, até mesmo não por mal, acabamos espalhando coisas que não devíamos, contando segredos dos outros, fazendo comentários inapropriados. Isso é muito ruim: pra quem é o assunto, pra quem escuta (pois às vezes escuta coisas que não eram pra ser divulgadas, que podem mudar a imagem que se tem de uma pessoa) e pra quem fala (os amigos passam a confiar menos nessa pessoa). Eu, recentemente, passei por uma situação muito legal em que poderia ter feito um comentário ruim sobre uma pessoa e não fiz. Pelo contrário, orei por ela, pelo que tinha ocorrido e as coisas se encaminharam de uma forma muito melhor. Se eu tivesse externado o que estava pensando, não só teria influenciado outra pessoa a pensar como eu (ou a me achar uma hipócrita, por eu me dizer cristã e sair fofocando), como reforçaria meu próprio pensamento.

Fogueira de São JoãoMoral da história: se agimos como Deus quer, somos morte para os de fora. Se agimos como Deus não quer, somos também morte para os de fora, por mal testemunho. Que nos resta fazer? Cito Daniel 3:17-18, trecho que mostra o que acontece com Mesaque, Sedraque e Abedenego, judeus que decidem fazer a vontade de Deus mesmo no exílio babilônico e se recusam a adorar uma estátua de ouro do rei Nabucodonosor. A pena para tal desobediência é a fornalha. Eles respondem ao rei, quando presos: “Se assim deve ser, o Deus a quem nós servimos pode nos livrar da fornalha ardente e mesmo, ó rei, de tua mão. E mesmo que não o fizesse, saibas, ó rei, que nós não renderemos culto algum a teus deuses e que nós não adoraremos a estátua de ouro que erigiste.” É meio assim: olha, tô com Deus e não abro. Ele pode nos tirar da fornalha se Ele quiser, mas mesmo se for pra gente morrer, nem assim vamos adorar a sua estátua!

Esses caras, que são salvos no final (foi mal, estraguei o fim da história!), viveram uma vida de fé e entrega completa. Foram morte no sentido de choque com a cultura em que viviam, mas o seu testemunho, no fim das contas, tocou até mesmo o rei.

Nos deixando levar pela vontade de Deus, fazendo o que ele deseja de nós, nem imaginamos quais fronteiras romperemos e onde podemos chegar.

“Procedei com sabedoria no trato com os de fora. Sabei aproveitar todas as circunstâncias”. Cl 4:5

Uma dose homeopática de economês

“Se é para o bem de todos
E felicidade geral da nação
Eis aqui um post sobre marxismo”
(ALMO, Junho de 2009)

 

Muitas vezes estamos acomodados na nossa vidinha, sem ter falta de quase nada e esquecemos de que tem gente aí fora vivendo realidade com a qual a gente nunca sonhou (ou teve pesadelo, na verdade). Isso me irrita, muitas vezes. No último fim de semana, ao conversar com um cristão, muito me preocupou a visão dele de que, já que só Cristo muda completamente as pessoas e dá sentido a tudo, é a maior bobagem do mundo discutir sobre qualquer outro assunto superficial que não se refira ao cristianismo, qualquer alternativa que não venha dele é inútil e nem merece ser discutida. Depois conversamos melhor e vimos que não era bem assim. Aí fiquei mais aliviada. Mas o que eu lhe disse é que creio que corremos o risco de sermos passivos e não levar a sério as teorias “seculares” que nos cercam e as alternativas que elas nos oferecem: se só podemos aprender com a bíblia e por exemplo fazer uma faculdade não vai acrescentará em nada, se tudo entra por um ouvido e sai pelo outro e você fica ali tapado (estuda, aprende, vomita aquilo na hora da prova e apaga da mente), sugiro que não gastemos nosso tempo e dinheiro estudando algo. Sério mesmo, invistamos energia em algo mais produtivo pra nós mesmos e em algo que seja socialmente mais eficiente. Fazer curso superior só pra ter cela especial quando/se for preso não vale taaanto a pena assim.

Politicamente, economicamente, cada um pense o que quiser. A única verdade absoluta que existe pra mim é Cristo. Como eu disse na minha apresentação, sou uma cristã que tende ao marxismo. Entendo a confusão da maioria: esse termo marxismo vem carregado de significados que não lhe são intrínsecos, mas frutos de interpretações (certas ou não) que não são as que eu dei ao conceito. Explico. A gente escuta o termo marxismo e logo pensa no Stálin, na galere invadindo propriedade, matando patrão, até no MST. Mas calma aí, não é bem assim. A primeira vez em que eu vi um cara evangélico dizendo que era marxista eu pensei de cara que o homem era louco, mas depois entendi melhor.

Que fique bem claro que eu sou uma mera estudante de economia que estuda essas coisas e que pode estar (muito) errada, mas continuo lendo e estudando (até mesmo porque, para criticar a gente tem que ler. Não dá pra achar que sabe, achar que entendeu e fechar os olhos e ouvidos e deixar só a língua funcionar. Até pra criticar o Paulo Coelho eu me senti na obrigação de ler livro dele rs.) Não adianta, discutir baseado no achismo sem ter lido nada não dá. Pra criticar tem que conhecer, inclusive ter a mente aberta pro caso de estar errado. E ponto.

DSC01090Não é segredo pra ninguém que me conheça minimamente bem que eu tenho diversas “pendengas” com a economia e com os modelos que aprendemos em 90% das matérias obrigatórias do curso. São teorias que eu estudei, aprendi, fiz prova e passei… Passei na matéria mas não passou na garganta. Eu não engulo essa história de agente racional nem por decreto, essa de maximização, de abstração completa de quase tudo até não ter nada de real no modelo, muito menos essa de perenidade do capitalismo: escutar isso de que é uma tendência natural do homem acumular, ser capitalista e que lutar contra o capitalismo é lutar contra o homem me faz ferver o sangue. Vai estudar história econômica, antropologia econômica!! hehe E falar que na sociedade capitalista há simetria na relação patrão/empregado ou que o capitalismo é igualitário e dá chances a todos me irrita mais ainda: se em t=0 (momento inicial, para os não introduzidos no economês) todas as pessoas tivessem tido condições igualitárias de se desenvolver ainda vá lá, mas esse definitivamente não foi o caso do capitalismo (e nem de outro sistema qualquer, todos se basearam em algum tipo de poder ou desigualdade), tem MUITA gente que rala a vida inteira e continua na pindaíba… E tem gente que não faz nada a vida inteira e tem tudo o que quer (reizinhos, né Rafa?).

(Na foto, Kastanienallee em Prenzlauerberg – antiga Berlim oriental. A frase no prédio diz “O Capitalismo normatiza, mata e destrói”)

Nessas e outras, nas crises com a economia e as micros e macros, me deparei com o livro “O Capital” de um mocinho chamado Marx. Toda a frustração que eu tinha com a economia neoclássica/neokeynesiana/novokeynesiana etc foi de certa forma dirimida: havia alguém (ou “alguéns”) que tratava a economia como parte da sociedade, como uma economia política1. Não só o Marx, mas vários outros caras como Smith, Ricardo, Malthus etc. Caras que não se fecharam em um campo, mas foram interdisciplinares e escreveram sobre muitas coisas com muita propriedade (todos esses aí transitam até hoje em várias áreas do conhecimento). Mas o Marx especificamente faz uma análise do capitalismo que na minha humilde opinião é SENSACIONAL. Não conheço outro teórico que tenha entendido tão bem a dinâmica desse sistema como o Marx: as contradições, as bases fundamentais, as tendências… Além disso, o método do cara de dialética, contraste é uma coisa impressionante. É uma pena que ele seja tão mal-dado nas escolas, o que faz com que os que não o estudam profundamente depois tenham uma opinião viesada como eu tinha.

Resumidamente porque já escrevi muito, a análise do Marx é inovadora porque mostra que o sistema se baseia em contradições, as mesmas que um dia (sei lá quando) levarão à sua crise e derrocada. Por ele mesmo… Assim como o sistema antigo ou o feudal caíram, o capitalismo também cairá um dia, apesar de ele mesmo tentar atrasar essa tendência criando certos mecanismos, tendo ao seu lado muitas vezes o estado e as leis. Ainda estou estudando as análises dele (inclusive minha monografia de fim de curso é sobre as crises no capitalismo em uma abordagem marxista, pra quem quiser mais detalhes), lendo o que ele escreveu. No momento, Marx e alguns bons Marxistas que o precederam (como Ernest Mandel), não deixaram de me surpreender e maravilhar em suas análises sobre esse sistema. Eu sei que Marx tinha vários problemas com o passado religioso dele e de sua família judaica, tendo escrito muitas coisas sobre/contra religião também, isso eu não li ainda, mas lerei. 

Eu não consigo olhar pro mundo hoje e defender o capitalismo, defender esse sistema e as bases nas quais ele se pauta. Sinto muito. Agora, também não tô falando pra ninguém matar rei, roubar carro, invadir casa dos outros. Mas que o mocinho teve a manha, isso teve. É nesse sentido que eu digo que eu tendo ao marxismo. E isso inspirou tanta gente legal… A CEPAL de Celso Furtado e Raul Prebisch, o próprio Keynes (que era bastante vermelhinho), várias políticas bacanas da social-democracia… A lista vai…

E só pra provocar, uma fotinha minha com o Marx e o Engels em Alexanderplatz (Berlin) pra vocês verem como eles são dois barbudos simpáticos:

DSC01154 - eu, Marx e Engels

Chega de economês, né? Ficando dúvidas/questionamentos/dialéticas eu escrevo mais…

***

Conversando com um amigo cristão2 esses dias, o cara me contou a seguinte história: Estava ele mais 4 amigos cristãos andando na rua quando veio um mendigo pedir esmola. Todos eles deram, menos um, que não tinha dinheiro. Esse cara se desculpou por não poder dar uma moeda e disse “não tenho grana pra te dar, mas posso fazer mais que isso, posso orar pela sua vida”. O mendigo largou a sacolinha que carregava e disse que isso era a melhor coisa que poderiam fazer por ele.  O cara perguntou o nome dele, pôs a mão no seu ombro e orou. Diz que o mendigo quase chorou.

Cuidar do que está dentro das pessoas é infinitamente mais importante que qualquer coisa: a verdadeira revolução vem de dentro. Agora, se é contra o cristianismo tentar fazer a vida material das pessoas melhor (seja ensinar alguém a ler, diminuir a desigualdade de renda, a exploração dos trabalhadores, dar cultura ou um prato de comida, seja o que for), então eu não sou cristã. Não foi esse tal de Jesus mesmo que, além de falar diversas coisas sobre ele mesmo, sobre o céu e a terra, curou cegos e paralíticos, alimentou multidões e aconselhou pessoas a doarem até mesmo tudo o que possuíam aos pobres?

Falando claro então: Nenhum sistema político humano jamais será perfeito. Nós somos falhos, portanto nossos sistemas também serão e nunca ninguém se sentirá completo se se basear somente nisso. A maior prova disso são os índices de suicídio nos países nórdicos, os mais igualitários do mundo e considerados como exemplo de social-democracia: se ter uma boa condição é suficiente para ser feliz, essa galera não tava se suicidando por lá.

DSC01420

(Na foto ao lado, o Stasigefängnis, ou prisão do governo da antiga DDR, Alemanha Oriental, em Berlim, onde eles mantinham aqueles que eram contra o regime)

Lendo essa semana o evangelho de João, um versículo me prendeu a atenção. Jo 3:34: “Disse Jesus: ‘A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou e concluir a sua obra'”. Será que essa é a nossa verdadeira preocupação, diária, de em tudo fazer a vontade de Deus e cumprir o propósito dele? É o que de fato nos alimenta? Será que não temos muito a melhorar ainda para sermos sal e luz em todos os sentidos para o mundo aí fora?

Desculpem o tamanho do post, ficou de fato muito grande, mas não tinha como…

1 Como curiosidade: ao decorrer do tempo, com a vitória da primeira corrente que não me agrada, o termo economia passou em inglês passou de Economy (ligado a economia política, à sociedade) para Economics (qualquer semelhança com o sufixo de Physics não é mera coincidência: a galera começou a achar que a economia era mais parecida com a física, ciência exata, do que com as ciências sociais, com o homem. Começou a achar que todos somos robôs e que temos uma única racionalidade.

2 Agradecimentos ao Renatão pela paciência comigo em momentos de revolta e também agradeço a ilustração.