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Uma análise cristã de nosso momento político

Surge um problema teológico quando identificamos como espirituais apenas aquelas atividades relacionadas diretamente à igreja (comunidade de redimidos). Como sabemos, Deus não é só Criador, mas Mantenedor de toda a criação. A realidade é uma só, criada por Deus, e Ele disse que tudo era bom. Para os proponentes da Reforma Protestante, não havia uma área da vida que fosse menos digna do que outra, por isso romperam com o pensamento medieval que via no ascetismo e na contemplação os únicos caminhos para servir a Deus. O pensamento corrente era de que havia um andar de cima espiritual e um andar de baixo profano, mas na reforma observamos uma sacralização de tudo o que a criação nos oferece nas artes, ciências, política, etc. Espiritual, portanto, não é sinônimo de sobrenatural, é senão tudo aquilo que não envolve pecado. A revelação das escrituras nos fornece orientação para a unidade da vida, e não sua segmentação.

Nesse sentido, duas alternativas se apresentariam diante de nós para lidarmos com os fatos políticos recentes: a) omitir-se; b) lançar a luz bíblica sobre a política.

Ora, a Bíblia é o livro sobre o Rei, mas também sobre o reino do Rei e não há campo de nossas vidas no qual ela não lance luz. Há muitos cristãos amigos (e eu me incluo) que tem respirado dia e noite os noticiários políticos e manifestam, em qualquer meio possível (redes sociais, refeições em família, ambiente de trabalho), sua aprovação ou indignação com o governo atual. Mas quantos de nós já parou para refletir se a narrativa bíblica, o Deus TriUno e o seu projeto de Reino em curso tem algo a dizer sobre a política?

E por quê essa reflexão seria importante? Porque quando entramos na narrativa de Deus e somos abraçados por sua Graça, o Senhor nos dá um novo coração, que é o centro de ordenação de todo o nosso horizonte de vida. Se ele é o centro como a Bíblia nos diz que é, a nossa noção de justiça, nosso sentido estético, econômico, ético, vão sendo afetados radicalmente pelos valores do reino de Deus.

Uma primeira pergunta é: qual é o fundamento da sua Esperança?
Uma primeira resposta é:“Saiamos, pois, a ele, fora do arraial, levando o seu vitupério. Na verdade, não temos aqui cidade permanente, mas buscamos a que há de vir” [Hebreus 13.13-14] Então, lembre-se disso, o Cristo ressurreto virá em glória para a consumação do Seu Reino. Sua vida não está nas mãos da Dilma, mas do Deus Todo Poderoso.

Isso não quer dizer que não devemos nos posicionar. Ao contrário, a política é um dos elementos da criação, indispensável para os seres relacionais e comunitários que somos. Contudo, um momento tão confuso quanto o que vivemos, exige cuidado. Uma primeira dica seria: fuja dos extremos! Veja que Deus pintou nossa vida com várias cores, motivo pelo qual embora ela seja uma unidade, se expressa em diferentes campos. Poderíamos dividir em esfera pística (fé), ética, jurídica, econômica, social, psíquica e por aí vai…Todas elas possuem um núcleo de sentido e, portanto, reduzir toda a complexidade da vida em uma dessas áreas seria negligenciar o chamado à completude de Deus. Quanto mais reducionistas formos, menos humanos seremos.

Abraçar irrestrita e acriticamente o projeto do Partido dos Trabalhadores tem implicações sérias para o cristão (o que fui perceber há pouco tempo). As razões são diversas, mas poderia citar algumas como: uma inclinação para um sonho hegemônico, um Estado que acaba por colonizar a sociedade civil em muitas de suas iniciativas,  um discurso messiânico e um ‘projeto de redenção’. Tudo isso sob a batuta de um pensamento dito secular, mas que não passa de um uma outra cosmovisão com fundamentos religiosos. Esse ponto é importante porque o homem é essencialmente religioso e, se absolutizamos um aspecto da criação (por exemplo quando definimos o homem como homus economicus), tiramos o Único Absoluto (DEUS!) do seu lugar e incorremos no pecado da idolatria. Não há dúvidas de que a ideologia política é uma espécie moderna de ídolo (podemos conversar sobre isso em posts futuros). É verdade que houve inclusão social, é verdade que o acesso ao ensino superior foi quase universalizado, é notável que o salário mínimo teve ganhos reais e isso precisamos dizer porque a luta contra injustiça social fez parte da atividade profética do Velho Testamento.

Contudo, conforme nos ensina Guilherme de Carvalho: “Ao mesmo tempo, o conceito de injustiça em certos círculos dessa esquerda é quase absorvido pelo de igualdade, sem clara noção de retribuição jurídica nem de mérito, sem reconhecimento inambíguo de direitos individuais naturais (como o de propriedade), sem percepção da importância da liberdade das esferas sociais e da justiça interesferas; cultivam um conceito de injustiça já maculado pela ausência da crítica teológica aos ídolos do historicismo e do economicismo, sem complexidade e reduzido à noção de desigualdade; um olhar seletivo que, no tocante à teologia econômica, ressalta alguns textos bíblicos aparentemente “socialistas” mas exclui aqueles incômodos textos bíblicos aparentemente “liberais”

Por outro lado, não vá então abraçar o antipetismo cego disseminado pela mídia massificada. Se fosse você, teria os dois pés atrás quando confrontado com esse outro extremo. Não foi o PT o criador da corrupção do nosso sistema republicano. A opção que fizemos pelo presidencialismo pode ter agravado aspectos de corrupção presentes na cultura do brasileiro, o famoso “jeitinho tupiniquim” e a “lei de Gérson” e isso não vem de agora. Consulte o seu coração: existe aí dentro um equilíbrio entre a insatisfação com os excessos petistas e a tristeza com as injustiças e falta de oportunidade para os pobres? Porque defender a propriedade quase absoluta, a noção de retribuição jurídica e de mérito parece mais simples para quem sempre teve muitas oportunidades, mas como fica o pobre até que a sociedade civil brasileira aprenda a se organizar e tratar essa questão? Não vejo porque não defender um Estado que promova justiça entre os diferentes aspectos da vida, que faça correções pontuais e se apresente como um Estado suficiente. Nem tudo é Estado, nem tudo é mercado. Nossa vida abrange família, igreja, trabalho, lazer e por aí vai… Reduzí-la a um aspecto é desumanizar o humano.

Como conclusão, sugiro que para que o nosso discurso seja uma leitura harmônica da realidade política a partir das Escrituras,  ele inclua a denúncia contra as injustiças sociais, ouça o clamor do pobre, mas também reafirme os valores do trabalho, da ética, do compromisso e da soberania dos aspectos da vida em relação aos outros (embora todos dependentes de Deus) e, por fim, a denúncia contra o risco da idolatria.

Não deixe a política colonizar os seus relacionamentos, suas refeições, sua família, seu trabalho. Respire ar fresco um pouco, dê um passo atrás para reflexão, lance luz bíblica sobre suas “convicções políticas” e seja mais moderado. Distanciar-se dos extremos nesse momento de indefinição pode ser uma boa, até que sua conclusão converta-se em posturas propositivas de inspiração bíblica. Omissão não deveria ser uma saída possível, mas o silêncio reflexivo pode ser um excelente aliado por ora porque, sem dúvidas, analisar toda a realidade a partir da concepção de mundo presente na narrativa bíblica é o melhor caminho para o cristão.