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Os Pais da Igreja – São Clemente Romano

Vou começar um pequena série dos pais da Igreja, ou seja, os primeiros homens depois dos apóstolos. Enfrentaram grandes problemas com os de fora da Igreja, mas problemas maiores com os de dentro da Igreja. Seus ensinos são bem interessante para a vivência cristã contemporânea.  O objetivo não é estudar a fundo cada um deles , e sim trazer uma ideia que cada um trouxe como contribuição.

Vamos começar com Clemente, bispo de Roma nos últimos anos do século 1. Fontes dizem (ex.: Santo Irineu)que Clemente “viu os apóstolos” , “encontrou-se com eles” e ainda tinha nos ouvidos a sua pregação (dos apóstolos)”.  A única obra certa de sua autoria é a ” Carta aos Coríntios”, provavelmente escrita após o ano 96.

O tema dessa carta remonta questões trabalhadas por Paulo em suas duas extensas cartas à mesma comunidade. O ensino da salvação e o imperativo do compromisso moral.

“Somos uma porção santa, realizemos , portanto, tudo aquilo que a santidade exige”

Além disso, pela primeira vez na literatura cristã, aparece a palavra grega Laikós , que significa “membro do laós” ,isto é, membro do povo de Deus. O nome em português é  leigo. Ou seja, quando diz que é leigo , na verdade, você é membro de um povo. Um povo santo, separado, encarregados de boas notícias , chamado ao serviço e amor sacrificial… algo bem diferente do contexto em que é usada hoje. O contexto atual paralisa 90 % dos povo de Deus , colocando a responsabilidade nas costas de um elite religiosa (clero).

Que possamos nos identificar como povo de Deus e entendermos o que isso significa!

Abraço e até a próxima

Super-homem

Friends

“Nowadays, nobody speaks about the way they feel about things”
“Hoje em dia, ninguém fala de como se sente sobre as coisas”
(Lighthouse Family – Question of Faith)

        

 

Em um episódio de Friends que vi faz pouco tempo, aparece um personagem bastante peculiar chamado Parker, namorado de Phoebe Buffay. Ele é um cara extremamente positivo, vê a vida com óculos cor-de-rosa, em tudo há arco-iris… Nada está ruim para ele, tudo está 100%.

De fato, o cara é muito irritante. A própria Phoebe, que no início gostava muito de Parker, vai se irritando com o moço até terminar com ele. E olha que ela é uma pessoa super de bem com a vida.

Enfim, o que quero dizer é que podemos reclamar da vida.

Não ter problemas não nos faz super-homens mas sim super-chatos. Mulheres-maravilha que escondem o que sentem escondem as suas dificuldades. Somos humanos. Ninguém é perfeito, todos temos problemas, não adianta negar. Nem pras pessoas e nem pra Deus.

Nietzche disse que devemos ser super-homens (Übermensch, ao pé da letra acima da pessoa ou super-pessoa) e não pessoas fracas, dependentes de Deus, pessoas débeis como a figura de Jesus na cruz. Devemos ser fortes, demonstrar do que somos capazes, não nos comportar como pessoas limitadas (isso é o que eu entendo do pensamento dele, posso estar errada).

Mas o que parece que ele não entendeu é que é quando nos entregamos a Deus é que somos fortes: “quando estou fraco então sou forte”, já disse Paulo em II Co 12:10.

Só Deus tem total controle das situações que enfrentamos. Só ele pode nos dar a verdadeira tranquilidade para que enfrentemos os desafios pelos quais passaremos. Um trecho de Filipenses (4:6-7), do qual eu gosto muito e que já citei aqui, expressa muito bem esse fato: “Não andem ansiosos por coisa alguma, mas em tudo, pela oração e súplicas, com ação de graças, apresentem seus pedidos a Deus. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o coração e a mente de vocês em Cristo Jesus.” Muitas vezes sofremos exatamente por isso: querendo ter um controle que é impossível que tenhamos, nos estressamos, ficamos ansiosos, sofremos à toa.

Ainda bem que não precisamos fingir que está sempre tudo bem. Ainda bem que temos um Deus que já passou pelas nossas experiências terrenas, como humanos, e nos entende perfeitamente. Ainda bem que podemos confiar nele, nos sentirmos especialmente fortes quando estivermos fracos. 

Morte e Vida (Severina)

“Somos para Deus o perfume de Cristo entre os que se salvam e entre os que se perdem. Para estes, na verdade, odor de morte e que dá a morte; para os primeiros, porém, odor de vida e que dá a vida. E qual o homem capaz de uma tal obra?” (2 Co 2:15-16)

Como dito nesse versículo “de abertura”, representamos algo como Cristãos que as pessoas muitas vezes não entendem e muitas vezes repelem por não considerar verdade pra elas. É verdade, os cristãos são muitas vezes vistos como “morte”, como a materialização de muita coisa que há de mal no mundo e por isso foram perseguidos. Cristo mesmo foi perseguido, assim como Paulo, Pedro, Águeda

O Martírio de Santa Águeda, que teve os seios arrancados
O Martírio de Santa Águeda, que teve os seios arrancados

E, quantas vezes não somos vistos como “morte” no meu meio não por sermos cristãos, mas pela arrogância com que apresentamos a mensagem cristã (você, se não fosse cristão/ou se não é cristão, seria amigo de alguém que tem uma atitude de superioridade sobre sua fé em relação aos outros? eu não!)?

Quantas vezes com os meus pecados não mancho o nome de Deus e aí sou de fato morte e testemunho ruim para os de fora? A lista vai: ignorância, intolerância, orgulho, falta de sabedoria, de sensibilidade, de cuidado, de discrição (=fofoca)…

Sobre essa última da lista: fofoca. Muitas vezes, até mesmo não por mal, acabamos espalhando coisas que não devíamos, contando segredos dos outros, fazendo comentários inapropriados. Isso é muito ruim: pra quem é o assunto, pra quem escuta (pois às vezes escuta coisas que não eram pra ser divulgadas, que podem mudar a imagem que se tem de uma pessoa) e pra quem fala (os amigos passam a confiar menos nessa pessoa). Eu, recentemente, passei por uma situação muito legal em que poderia ter feito um comentário ruim sobre uma pessoa e não fiz. Pelo contrário, orei por ela, pelo que tinha ocorrido e as coisas se encaminharam de uma forma muito melhor. Se eu tivesse externado o que estava pensando, não só teria influenciado outra pessoa a pensar como eu (ou a me achar uma hipócrita, por eu me dizer cristã e sair fofocando), como reforçaria meu próprio pensamento.

Fogueira de São JoãoMoral da história: se agimos como Deus quer, somos morte para os de fora. Se agimos como Deus não quer, somos também morte para os de fora, por mal testemunho. Que nos resta fazer? Cito Daniel 3:17-18, trecho que mostra o que acontece com Mesaque, Sedraque e Abedenego, judeus que decidem fazer a vontade de Deus mesmo no exílio babilônico e se recusam a adorar uma estátua de ouro do rei Nabucodonosor. A pena para tal desobediência é a fornalha. Eles respondem ao rei, quando presos: “Se assim deve ser, o Deus a quem nós servimos pode nos livrar da fornalha ardente e mesmo, ó rei, de tua mão. E mesmo que não o fizesse, saibas, ó rei, que nós não renderemos culto algum a teus deuses e que nós não adoraremos a estátua de ouro que erigiste.” É meio assim: olha, tô com Deus e não abro. Ele pode nos tirar da fornalha se Ele quiser, mas mesmo se for pra gente morrer, nem assim vamos adorar a sua estátua!

Esses caras, que são salvos no final (foi mal, estraguei o fim da história!), viveram uma vida de fé e entrega completa. Foram morte no sentido de choque com a cultura em que viviam, mas o seu testemunho, no fim das contas, tocou até mesmo o rei.

Nos deixando levar pela vontade de Deus, fazendo o que ele deseja de nós, nem imaginamos quais fronteiras romperemos e onde podemos chegar.

“Procedei com sabedoria no trato com os de fora. Sabei aproveitar todas as circunstâncias”. Cl 4:5

Like a rolling stone

“How does it feel
To be without home
Like a complete unknown
Like a rolling stone?”
(Bob Dylan – Rolling Stone)
Foto: ALMO (Jüdisches Museum Berlin)

Faz uns dias, perdi algumas horas de sono ao ser “fisgada” por um filme que passava na TV: “12 Macacos”. É um filme com Bruce Willis e Brad Pitt, do estilão ficção anos 90, em que tudo o que era moderno pra época, pra nós hoje é feio e sujo (é muito engraçado como a nossa perspectiva muda sobre as coisas ao longo do tempo. Esses filmes, na verdade, mostram não o futuro, mas a perspectiva que as pessoas tinham dele à época, revelando a elas mesmas). Mas enfim, resumidamente o enredo trata de uma epidemia que matou 5 bilhões de pessoas em uma determinada data e Willis é enviado ao passado, a uma época pré-epidemia, para coletar informações sobre esse tal vírus, de forma a ajudar o 1% dos humanos que sobreviveram.

Claro que, ao chegar ao “passado” e dizer que vinha do futuro, que viria uma epidemia logo e que ele tinha sido enviado para salvar a humanidade, Willis é tido como louco e internado num hospício. Depois de muita luta e tratamento psiquiátrico, ele se convence de que estava louco mesmo e que essa história de missão salvífica era coisa da cabeça dele. Porém, depois de um certo episódio, os cientistas de sua dimensão no futuro o trazem de volta… e ao vê-los, Willis os acusa de serem somente fruto da imaginação da cabeça dele, diz que eles não existem, que está convencido do que os psiquiatras lhe haviam dito… Depois da lavagem cerebral, para ele não há mais essa de vírus, contaminação, nada… É claro que os cientistas duvidam de sua serenidade também e o internam. E aí? Considerado louco em uma dimensão temporal… e… considerado louco em outra também. Coitado.

Isso é só um pedacinho do filme, mas vou me deter aqui. Creio que esse é muitas vezes o dilema do cristão, dilema pelo qual já sofri muito: mergulhar num mundo cuja lógica é totalmente diferente da planejada por Deus e mesmo assim não se esquecer de qual é a sua verdadeira pátria, não se esquecer de que é fundamental continuar tendo consciência do “vírus” e de sua letalidade, estar ali para coletar informações e não duvidar de sua missão.

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É difícil. Muitas vezes o caminho é árduo. Como diz Ed René Kivitz, “a vida cristã não é difícil. É impossível”. É impossível se tentamos vivê-la por nós mesmos, se enfrentamos as coisas sozinhos, porém Deus nos dá todo o apoio para que vençamos as dificuldades (ICo10:13). Muitas vezes, as coisas em que cremos são descreditadas e ocorre exatamente o que diz Paulo em I Coríntios 1 a 3. Cito aqui dois versículos: “Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente” (ICo2:14) e “a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus” (ICo3:19). Os cristãos muitas vezes são considerados loucos e de fato o são, ao desafiar a ordem de pensamento vigente.

Mas ser louco para uns e normal para outros, ainda vá lá… O pior de tudo mesmo é se sentir como se sente Bruce Willis no filme: sem chão, sem pátria, sem identidade própria. Sem ser de um nem de outro. Nem quente nem frio, morno. Louco para uns e louco para outros, sem saída. Like a rolling stone. Num período da minha vida já me senti assim: sem pertencer nem ao mundo nem a Deus e foi muito ruim. Mas graças a Deus (hehe) Ele mesmo não desiste de nós e isso tudo passou. Mas permanece o desafio: viver com sabedoria e não me desviar nunca da minha “missão”.

Câmbio e desligo.