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Novos tempos – um convite à fé

“o que ela [a vida] quer da gente é coragem”

Riobaldo em “Grande Sertão: Veredas” (de João Guimarães Rosa)

O ano de 2015 começou e com ele as reflexões a respeito da vida e suas dificuldades. Alguns questionamentos de quem você e eu somos nos vem à mente e nos aflige o coração. Algumas das dificuldades de 2014 que gostaríamos que estivessem lá ainda insistem em nos acompanhar. Várias decisões aguardam ansiosamente pela sua e pela minha força e vontade de agir. Com muitas e muitas delas não sabemos lidar ao certo até o momento. E, para piorar nossa angústia, algumas das situações já começaram a ocorrer (ou simplesmente continuaram a ocorrer) sem que pudéssemos escolher exatamente o que gostaríamos que fossem feitas delas.

Como lidar com tudo isto? Sentar e chorar? Será…?

Como bons cristãos voltamos nossa atenção agora para nosso manual de vida, a Bíblia. Nela tenho percebido ao longo dos anos o quanto Deus foi presente na vida das pessoas que se relacionaram com ele e o quanto pode estar presente também na minha e na sua. Um capítulo específico lista os “heróis da fé”, Hebreus 11. Abel, Enoque, Noé, Abraão, Sara, Isaque, Jacó, José, Moisés, Raabe, Gideão, Baraque, Sansão, Jefté, Davi, Samuel e os profetas, de maneira abrangente.

Dentre os exemplos listados gosto bastante das histórias de Jacó, José e de Davi. Jacó tem uma história de conflitos, dentre eles com sua família em casa, consigo mesmo e com Deus, com seu tio após ter ido morar em suas terras. José, o caçula dos onze filhos de Jacó conviveu de perto com a inveja de seus irmãos, quase foi morto por eles e foi então vendido como escravo aos egípcios. Chegou a conquistar a confiança do rei e a ocupar boa posição no palácio real. Sofreu ao não aceitar se deitar com a rainha, foi preso e passou boa parte de sua vida deixado de lado numa cela de prisão. Davi era considerado o pior entre os filhos de seu pai Jessé. Recebeu uma promessa de que seria rei em Israel. Viu de perto a possibilidade da promessa ser cumprida, mas foi obrigado a fugir da fúria de Saul, o então rei. Passou toda sorte de problemas mesmo tendo ciência de sua inteira inocência diante da perseguição que sofrera.

As histórias de Jacó, José e Davi são muito ricas e não teria como serem abordadas num simples post. Fica aqui o convite para que você as leia (Jacó e José em Gênesis, a partir do capítulo 25; e Davi nos primeiro e segundo livros de Samuel). Em todas elas é perceptível o quanto Deus se fez presente. Jacó viveu muito e foi feliz ao abençoar os filhos de José em seu leito de morte. José voltou a ocupar lugar de destaque entre os egípcios e foi considerado o segundo do reino, atrás apenas do próprio Faraó. Davi foi aclamado rei após a morte de Saul, destruiu seus inimigos e teve longo e duradouro reino em Israel. Enquanto viviam as situações que descrevi talvez eles não tivessem noção da ação de Deus, mas eles não deixaram de crer que Ele estivesse cuidando de tudo.

Hoje não sei ao certo o que você tem passado, talvez se sinta como um dos personagens bíblicos citados (ou não). Sei que estou distante de sofrer algo parecido com o que aconteceu a eles, mas vejo em minha vida muitas e muitas dificuldades na tarefa de seguir adiante. Assim como Deus fez na história de todos os heróis da fé, tenho plena convicção de que ele tem feito por você e por mim. Ao olhar para trás já tenho muitos motivos para agradecer a Ele pelo que já houve de bom, tenho certeza que você também. Aqui volto na pergunta que fiz no início: sentar e simplesmente chorar diante dos desafios que se apresentam? Creio que não foi isto que aconteceu nas histórias que comentei.

Meu convite para você hoje e principalmente para mim é que possamos estar de cabeça baixa para orar a Deus e reconhecer que ele tem muito amor por nós e quanto somos frágeis diante de tudo que se apresenta. Convido também a levantar a cabeça e tentar enxergar ao longe o quanto Deus ainda tem a fazer por nós dois. Convido principalmente para que tenhamos fé no seu amor, cuidado e atitudes para conosco.

Os personagens citados acima viram Deus mudar profundamente suas vidas e lhes proporcionar dias muito melhores do que aqueles de dificuldades. Mas a promessa de Deus a eles não era somente aquela, segundo o autor de Hebreus. A promessa de Deus para eles era Jesus. E por este motivo o autor do livro de Hebreus disse que eles nada seriam se não fosse por nós, que recebemos o perdão por meio de Jesus e podemos estar mais pertinho de Deus. Maior promessa hoje a nós é a vida eterna ao lado do Pai, quando toda lágrima será enxugada de nossos rostos e contemplaremos a Deus face a face.

Termino com o desafio: que possamos abrir nossas mentes e enxergar a caminhada das nossas vidas repleta de coragem, de ânimo e de fé nos dias melhores que ainda estão por vir nos novos tempos que agora se iniciam.

Dedico este post a um amigo que tem estado desanimado com os desafios da vida.

Forte abraço e até a próxima terça-feira.

Da medo do medo que da

O que é o medo? Para alguns, falta de fé. Para outros, um receio. Para o tio do Chico Buarque, ausência de coragem, dentre outros significados. Manifesta-se de diferentes formas – desde certo receio ao extremo pavor. É uma emoção, mas pode se transformar num estado de espírito ou até mesmo num traço da personalidade, de acordo com a maneira como ele é tratado.

Todos nós sentimos medo. Medo do escuro, medo de fantasma, de altura, de ficar sozinho em casa, de escolher, de errar, de andar de noite na rua, do desconhecido, de avião, de viajar de carro com aquele tio meio doido, de não ser amado, de escolher a pessoa errada e até de morrer solteiro. O medo pode ser visto como um vilão que tenta nos roubar o sono ou como um amigo que tenta nos alertar de um perigo. Alguns tem medo da morte e outros, da vida.

Hitler tinha medo de dentista (e tinha mal hálito, registre-se). Ghamdi tinha medo de serpentes, fantasmas e ladrões. Eu tive medo de ficar sem amigos, de não passar no vestibular, de ficar desempregado depois de formado, de visitar uma atividade mineraria no Pará, de não ser feliz com na vida. Josué, sucessor de Moisés a caminho da conquista de Canaã, também teve medo – medo de ser derrotado pelo povo mais forte que o aguardava na nova terra, medo do próprio povo que liderava, medo do desconhecido. Medo do desconhecido… Por vezes o temor está aliado à pré-ocupação.

Tudo bem que o medo seja normal, mas o que fazer com ele? Sinceramente, não sei. O que ouvi sobre ter fé foi o que mais me ajudou até hoje. Ainda assim me pego num pavor paralisante de vez em quando. Acredito que Jesus também experimentou um pouco disto antes de ser entregue para apanhar e morrer nas mãos dos soldados romanos. E a maneira como ele se entregou a Deus naquele jardim é, no mínimo, inspirador. Imagino como o Filho confiava no Pai quando passou por medo. Gosto de ver como Deus tenta encorajar Josué contra seu medo. Foram aproximadamente sete vezes, narrados entre os livros de Deuteronômio e do próprio Josué, quatro delas só no capítulo um deste.

 “Não to mandei eu? Esforça-te, e tem bom ânimo; não temas, nem te espantes; porque o SENHOR teu Deus é contigo, por onde quer que andares.”

(Josué 1:9)

O lhe causa medo hoje? Por qual motivo você sente medo? Como tem lidado com seu medo? Para quê Deus tem lhe chamado e você tem reagido com medo?

Deixo aqui o registro para um pouco de filosofia a respeito do medo do medo que da.

Que as palavras de Deus a Josué, tão bem compreendidas por Jesus, fale hoje aos nossos corações.

Plus Ultra

Quando os navegadores espanhóis começaram a aprimorar a arte da navegação, o mundo conhecido acabava no estreito de Gibraltar. Esse estreito, segundo a mitologia grega, foi separado por Hércules. O povo acreditava que dois montes; um na África (Abília) e outro na Espanha (Calpe) , eram as colunas de Hécules. Essas colunas eram representadas entrelaçadas por uma faixa onde estava escrito “Ne plus ultra”. Essa frase significa “não mais além”. “Não vá mais além, pois o fim do mundo é logo ali!”, “Cuidado com o grande abismo”.

Quando Cristovão Colombo cruzou o estreito e encontrou a América, o fato foi tão importante que passou a fazer parte do Brasão Espanhol. O brasão mostra as duas colunas entrelaçadas agora com a faixa escrita “plus utra” – “Mais além”. O que era o marco de fim, se torna marco de início! Homens seguiram em frente, não deram ouvidos ao “não mais além”. Coragem de cruzar marcos, coragem de questionar limites, coragem de se arriscar! Quantas pessoas estão paradas, por medo, no “Ne plus ultra”, deixando de viver uma vida de aventura, de fé, de esperança. A título de informação o símbolo do dólar também saiu da mesma ideia, duas colunas entrelaçadas por uma faixa: $ . Infelizmente, muitos pensam, que a única forma de viver o “plus ultra” é tendo $ dinheiro $. No entanto o “plus ultra” deve estar entrelaçado em seu coração! Conheço muitas pessoas que tem $ dinheiro $ mas em sua faixa está escrito “Ne plus ultra”.

Olhe para sua vida e avalie: onde estão os “Ne plus ultra”? O que te impede de tirar o “Ne” e passar a viver o “Plus ultra”?

Abraço e até a próxima!

Escalada

“Não quero conhecer mais ninguém. Porque você conhece e justamente quando começa a se apegar, as pessoas vão embora.”

Ouvi isso de um amigo não faz muito tempo. Realmente é muito difícil criar amizade profunda com alguém e ainda mais dolorido quando um dia chega a hora da separação. É difícil ver que a vida continua sem você, que você vai e as pessoas e os fatos não param no tempo.

Estou passando por períodos de grandes mudanças na minha vida e é complicado. Mas não podemos nos esconder atrás da “prudência” e assim evitar os relacionamentos, evitar criar laços, evitar conhecer o outro. Podemos estar perdendo grandes oportunidades dessa maneira.

Relacionamento é assim: dar um pouco de si, receber um pouco do outro, construir caminhos em comum. Cada pessoa que passa deixa uma marquinha. O medo de nos relacionar vai sim nos proteger das marcas doloridas, mas também vai nos impedir de viver as marcas gostosas. Todas, afinal, são marcas, e vão moldando quem somos.

Quem se apegar à sua vida, vai perdê-la.

Slavoj Žižek dá um exemplo nesse livro que achei muito interessante: o soldado que se vê numa situação de risco, cercado pelos inimigos, tem duas chances. Ou ele fica paralizado pelo medo e pelo apego à sua vida e se mantém ali, encurralado; ou transforma esse medo e a vontade de viver em coragem para enfrentar os inimigos. A única chance que ele tem de sobreviver é se ele se arriscar. Ele tem que estar preparado para perder a vida se quiser ganhá-la.

Hoje tive a oportunidade de escalar pela primeira vez. E quando você está lá no alto, por vezes o medo de se lançar mais alto te paralisa e dali você não sai. Mas é esse medo de cair que te impede de subir o próximo obstáculo que te faz ficar parado no mesmo lugar, agarrado naquela pedra, com medo de se mexer. Aí você se cansa e aí sim cai de verdade: o medo de se arriscar e de cair te faz ficar no mesmo lugar e é aí que você cai mesmo.

O mesmo com tudo na vida: o medo da mudança, da entrega, do relacionamento nos paralisa, a inércia toma conta. Mas ficar sempre no mesmo lugar é perda. O medo da inação nos trava.

Pra ganharmos a vida de verdade precisamos ir um passo além, estando preparados e abertos para os novos desafios.

(A todos os que deixaram e estão deixando marquinhas na minha vida)