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Do privilégio de ficar doente

Semana passada fiquei doente. Marasmo, dor, mal-estar. Não adianta: por mais que vc tenha mil afazeres, simplesmente não é possível cumpri-los. É necessário fazer uma pausa.

Enquanto ficava enjoada e ia a caminho do hospital, comecei a pensar em como seria a minha vida se eu fosse uma escrava. Ou se eu fosse judia na Alemanha nazista. Ou menina de rua. Vocês acham que o ritmo da labuta seria mais leve por causa de uma “gastroenteritezinha”? “Se vira”, você tem esse tanto de cana pra cortar. “Se vira”, quem mandou ser um judeu imundo? “Se vira”, por acaso vc tem papai e mamãe pra cuidarem de você, plano de saúde, cama limpa?

Ano passado visitei dois locais na Alemanha que muito me chocaram: Dachau, um campo de concentração nazista e uma prisão em Berlim oriental, do regime comunista.

,,Arbeit macht frei", saudação amigável na entrada de todos os campos de concentração que significa "o trabalho liberta". Por Alexis Metzger.
,,Arbeit macht frei”, saudação amigável na entrada de todos os campos de concentração que significa “o trabalho liberta”. Por Alexis Metzger.

No primeiro, o choque veio de ver a condição a que se submetiam as pessoas ali, o (des)tratamento. Ler sobre a experiência de um judeu, que durante algumas semanas só recebeu água do mar pra se alimentar, pois queriam testar os limites humanos. O cara tinha convulsões terríveis. Imaginar que viviam um frio de -20 graus sem aquecimento.

Câmara de gás. Dachau. Por Alexis Metzger.
Câmara de gás. Dachau. Por Alexis Metzger.

O segundo lugar, essa prisão, fui visitar num muito quente dia de verão. Perguntei à moça da portaria, inocentemente, se havia ar condicionado lá dentro. Ela, obviamente, riu da minha cara. Enquanto a guia (que havia sido prisioneira de lá) descrevia com lágrimas o lugar e o tipo de tortura física e psicológica pela qual passou, eu pensava o tanto que isso era distante da minha realidade.

Imaginar-se no lugar do outro é muito difícil, mas é um bom exercício para que percebamos as coisas que temos e que nem damos valor. Dar valor e sermos gratos por “direitos” que temos que muitos outros nem imaginariam quais sejam.