Arquivo da tag: choro

O choro de Jesus

Quanto sofrimento passamos nesta vida. Quanta coisa ruim. Impossível imaginar uma vida sem Cristo. Mas e quando somos acometidos de alguma tragédia ainda sendo cristãos?

Já me questionei muito em relação às intenções de Deus para comigo diante do sofrimento. Parece que Ele não quer fazer nada para aplacar a dor, visto que ele pode tudo.

Quando volto para a Bíblia vejo em Jesus alguém que se preocupa com o outro, que sente e que sofre junto. Foi assim com a dor de Maria, Marta e do seu amigo Lázaro.

Eram três irmãos que tinha uma amizade muito profunda com Jesus. Maria e Marta, certo dia, mandam mensageiros a Jesus para que ele os visite porque Lázaro estava doente. Jesus estava atarefado e não pôde ir no momento que soube da enfermidade. Quando finalmente chegou à Judeia, Jesus foi informado do falecimento de seu amigo. As esperançosas Marta e Maria sabiam da ressurreição dos mortos num futuro, mas ainda estavam profundamente tristes pelo ocorrido. Jesus, tal como elas, também entristeceu-se por Lázaro ter sofrido os males da doença e ter morrido. Ele então o ressuscita. O que chama atenção na passagem de João 11 é o menor versículo da Bíblia – “Jesus Chorou” (vers. 35).

Jesus tem sentimentos e se preocupa com a vida de seus amigos. A relação de Marta, Maria e Lázaro com Jesus vai muito além de um pedido de auxílio. Talvez por isto a tristeza.

Deus não é responsável pelo mal no mundo e não faz mal a ninguém. Estamos diante do caos, em que muita coisa está fora do seu lugar planejado por Deus. Não quero com um pequeno post resolver o mistério milenar de quando, como e porque Deus age. Quero hoje, um dia triste para alguém, somente o lembrar de que nosso amigo Jesus tem se preocupado com a situação presente e tem chorado junto.

Que este mesmo Jesus aplaque nossas dores na adversidade, amém!

O choro mais triste

Ao exílio, à tristeza, ao descaso, à descrença… à ruína! Este foi seu choro mais triste.

Ercole_de_Roberti_Destruction_of_Jerusalem

Tudo começou com uma pequena atitude, um pequeno erro. Aos poucos começou a se afastar daquilo que acreditava ser o certo. Aliás, o “certo” virou um conceito abstrato na sua mente confusa. A falta de perspectiva em relação ao futuro aliada à dificuldade de avaliar seu passado deixaram seu coração vazio. As coisas não faziam mais sentido. O questionamento da sua mente era se algum dia aquilo tudo fez algum sentido. Duvidou se algum dia acreditou naquela pessoa, naquele estilo de vida. Ou teria apenas vivido de maneira adolescente o sonho dos outros. A utopia do mundo perfeito com pessoas transformadas já não empolgava seu coração.

Seria mesmo a vida uma sequência de nascer, ser educado, encontrar alguém, estudar, formar, encontrar um emprego, casar, ter filhos, comprar uma casa, educar os filhos, deseducar os netos, envelhecer e morrer? Fazer hora entre uma refeição e outra esperando a morte chegar? Estaria mesmo preso no determinismo de ser aquilo que a vida lhe disse que era desde a infância? Deveria agir para sempre com a mesma forma com que fora condicionado? Repetiria inevitavelmente os erros dos seus pais?

As coisas foram tomando proporções maiores. Suas dúvidas o desanimavam e os pequenos erros se repetiam numa freqüência que se tornara incontrolável. Quando percebeu já era tarde. Estava distante demais daquilo tudo que um dia havia vivido.

Seu nome: Israel. A conseqüência de ter deixado esfriar seu coração: o exílio. Jerusalém vazia, povoada apenas por aqueles que não poderiam ser produtivos ao novo império que a controlava. Fome, sede, ausência de recursos. Assim como um homem que um dia virou as costas para o Deus da sua mocidade, o povo que um dia fora chamado “de Deus” enfrentava a pior tristeza poderia sentir, a distância do próprio Deus.

Apesar dos pedidos para que o profeta não lhe suplicasse por aquele Israel rebelde é notório o quanto a tristeza não era sentida apenas pelo povo. No fundo, no fundo, o que Ele mais queria era que o povo se arrependesse e voltasse a andar no seu Caminho. Assim Deus chorou seu choro mais triste. E nesse contexto é que vejo a oração com o coração mais puro de Jeremias.

“Lembro-me da minha aflição e do meu delírio, da minha amargura e do meu pesar. Lembro-me bem disso tudo, e a minha alma desfalece dentro de mim. Todavia, lembro-me também do que pode dar-me esperança: Graças ao grande amor do Senhor é que não somos consumidos, pois as suas misericórdias são inesgotáveis. Renovam-se cada manhã; grande é a tua fidelidade! Digo a mim mesmo: A minha porção é o Senhor; portanto, nele porei a minha esperança”.
Lamentações 3:18-25

Esta é a história de Israel. Qualquer semelhança é mera coincidência. Esta hoje é minha oração, as coincidências se repetem…

Snif, Snif *

É engraçado como somos seletivos em nossas práticas cristãs. Somos desafiados a espelhar várias características de Deus, e o motivo é que nos tornemos (novamente) a imagem e semelhança Dele. Pois bem, em que circunstâncias devemos espelhar Deus? Amor, justiça, vida social, criatividade, zelo, pureza, fidelidade… etc. Há uma resposta que raramente entra nessa lista: em nosso sofrimento! Refletimos Deus em nosso sofrimento? Devemos ser Sua imagem no sofrimento? “Se somos filhos, então somos herdeiros; herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo, se de fato participamos dos seus sofrimentos, para que também participemos da sua glória” (Romanos 8:17). Precisamos aprender a sofrer como Deus, passando pelos nossos sofrimentos entendendo que são de Deus também. Por que o culpamos se Ele sofre também? Concordo com Rob Bell quando diz que a cruz é o modo como Deus fala para a humanidade: “Eu sei como é!”

A característica do sofrimento é o choro. E como Jesus diz: “Bem aventurados os que choram”. O que isso quer dizer? Vivemos em um mundo onde os fotógrafos de nossas vidas nos pedem para sorrir, viramos as costas àqueles que choram! No entanto o salmista me recorda que “aqueles que semeiam com lágrimas, com cantos de alegria colherão, aquele que sai chorando enquanto lança a semente, voltará com cantos de alegria, trazendo os seus feixes.” (salmo 126 5-6). Então quem são os que choram? Creio que são aqueles que vivem com a perspectiva do dia do Senhor, aqueles que anseiam com todo o seu ser o grande dia do Senhor. São aqueles que percebem que nesse dia não haverá cegos e sofrem quando vêem um. Não haverá fome e sofrem quando vêem alguém com fome. Não haverá injustiça e sofre quando sofre ou vê injustiça. Não haverá corrupção e sofre quando vê corrupção. Não haverá incredulidade e sofre quando vê um incrédulo. Não haverá opressão e sofre quando vê o oprimido. Não haverá morte e sofre perante a morte!

“Os que choram são os videntes que sofrem, os quais Jesus abençoa” Nicholas Wolterstorff

Que possamos aprender a sofrer pois somos imagem e semelhança de um Deus que escolheu sofrer por amor. E que tem autoridade, em qualquer tipo de sofrimento de nos dizer: “Eu sei como é!”

Abaixo segue a letra de parte da música “Jesus chorou”, do, sempre inteligente, grupo racionais.

O que é, o que é?

Clara e salgada,
cabe em um olho e pesa uma tonelada.
Tem sabor de mar,
pode ser discreta.
Inquilina da dor,
morada predileta.
Na calada ela vem,
refém da vingança,
irmã do desespero,
rival da esperança.
Pode ser causada por vermes e mundanas
ou pelo espinho da flor,
cruel que você ama.
Amante do drama,
vem pra minha cama,
por querer, sem me perguntar me fez sofrer.
E eu que me julguei forte,
e eu que me senti,
serei um fraco quando outras delas vir.
Se o barato é louco e o processo é lento,
no momento,
deixa eu caminhar contra o vento.
Do que adianta eu ser durão e o coração ser vulnerável?
O vento não, ele é suave, mas é frio e implacável.
(E quente) Borrou a letra triste do poeta.
(Só) Correu no rosto pardo do profeta.
Verme sai da reta,
a lágrima de um homem vai cair,
esse é o seu B.O. pra eternidade.
Diz que homem não chora,
tá bom, falou,
Não vai pra grupo irmão aí,
Jesus chorou!

Sou muito grato à Nicholas Wolterstorff por me fazer refletir no tema a partir de sua dor!

Abraço e até a próxima!