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Radar

Ela acorda e liga o som. Toma banho. Vai tomar café e o rádio está religiosamente ligado na Itatiaia. Entra no carro e liga a CBN, pra ir pra faculdade já informada das notícias. Chega à faculdade, aula. Na hora de estudar, porquê não uma música? Ajuda a concentrar. Almoço. Tarde, computador e uma musiquinha ao fundo pra fazer aquele trabalho. Academia e mais som alto pra ajudar no ânimo. Casa, TV. Dormir. Silêncio? Não, ainda agitação interna. Também, pudera. Ainda que parada, por dentro ela não parou.

Tive uma experiência bastante interessante com uma música da Britney atualmente. Radar, não sei se vocês já ouviram. Mas a minha primeira reação à música foi: que música horrível (nada contra!). Mas não é que hoje me peguei cantarolando a mesma?

Não sei se vocês já perceberam como funciona o processo de lançar uma música pop nas rádios. Primeiro você escuta uma música e pensa: que coisa horrível. Da segunda vez, a mesma coisa, mas já não é tanto choque. Na terceira já passa batido. Na quarta você já nem percebe. Na quinta, está cantarolando umas partes. Na sexta já sabe de cor. Na sétima você gosta. Na oitava é a sua favorita. Lá pra décima vez, você já está ligando pra rádio e pedindo pra tocarem a sua música! Formação de necessidades: te dizem tanto que você precisa gostar de algo, que você não pode viver sem a última versão do Ipod Nano 1900Gb, que fumando esse cigarro você será um grande esportista e terá todas as mulheres do mundo, insistem tantas vezes e de maneiras tão sedutoras que acabamos acreditando.

Somos muito influenciáveis e acho que precisamos estar conscientes que a todo momento estão tentando criar necessidades em nós. Vivíamos sem Ipod, celular ou internet, mas hoje muita gente ganha muito dinheiro em cima dessas ditas necessidades nossas. Claro, algumas facilitam muito a nossa vida, mas foram necessidades criadas e sem as mesmas nós também poderíamos viver (apesar de parecer impossível hoje viver sem celular, por exemplo). Pode parecer um pouco hipócrita da minha parte dizer essas coisas, dado que estou escrevendo do meu notebook, usando a internet. Mas o que quero dizer é que precisamos ter consciência do que usamos (e de que somos usados pelas coisas também, num certo processo de reificação) e de que “temos uma vida” sem elas. E que estão querendo nos pressionar e nos vender coisas a todo o tempo, mesmo que seja somente uma idéia. Saber dizer não quando for necessário.

Nosso tempo é cada vez mais escasso. Tempo de silêncio então, esquece… Preenchemos todo o tempo que tínhamos com outras coisas. Assim como queriam que fizéssemos.

Como tem sido nosso interior? Calmo? Agitado? O quão temos sido afetado pelo ritmo e pelos interesses externos na nossa vida? Como você percebe isso no seu dia-a-dia? Eu orei por “calmaria interna”, concentração e foco num passado recente, para me livrar um pouco da pressão e do ritmo acelerado, buscando viver o que de fato importava e foi muito legal ver Deus agindo e me ajudando a superar um pouco dessa “correria”. Mas ainda tenho um longo caminho pela frente.

Classificados

1970: “Procura-se economista graduado para ocupar vaga de analista de finanças. Ligar 555-5555”

2009: “Procura-se economista graduad@ para ocupar vaga de analista de finanças. Necessário 5 anos de experiência no ramo, fluência em inglês, alemão e chinês. Profissional dinâmico, com espírito de liderança e iniciativa. Desejável conhecimento de direito. Pessoa ativa, esportista e que seja engajada em movimentos sociais, realizando também trabalho voluntário. Ligar 3555-5555.”

Sabemos que o mercado exige cada vez mais das pessoas, dos profissionais que dele desejam participar. Podemos ver nesses classificados, mas a competição no sistema é cada vez mais acirrada: não só entre produtos e custos, mas entre as pessoas também. Somos uma sociedade competitiva, portanto. Pressão. Percebemos isso no nosso dia-a-dia.

Cada vez mais as pessoas precisam ser mais especialistas em mais coisas, ser polivalentes, abarcar todas as qualidades necessárias e ainda (nos diz a mídia) sermos bonitos e bons pais/amigos, pessoas com perfeita vida social também. Ok, é fácil conciliar tudo, não? E com o tempo acelerando cada vez mais, mais fácil ainda. Pense o quão rápido se passou esse mês ou esse ano em relação ao anterior. O tempo acelera porque nós aceleramos, vivemos em um ritmo frenético, cada vez mais.

Como explicitei num post anterior, tendo a utilizar o marxismo como forma de análise da economia. Marx descreveu as inviabilidades estruturais do capitalismo e as formas pela qual ele mesmo ruiria, por não ser um sistema auto-sustentável. Acho que não vale a pena aqui (aborreceria muito vocês com meu economês marxista) explicar as leis e as tendências do mesmo, mas posso fazê-lo em outra oportunidade. Mas olhemos para o próprio direcionamento que os classificados acima assinalam: exige-se cada vez mais. Querem pessoas que não sejam pessoas e sim robôs. Eis os que serão classificados, os “vencedores” do sistema: os que se extirparem de sua humanidade e viverem como máquinas. Cada vez fica mais claro que o capitalismo não é para as pessoas, mas para ele mesmo. Para seu próprio lucro e valorização. Ganância. E como é que o sistema pode se sustentar assim no Longo Prazo? Keynes já dizia que não nos preocupemos com o futuro (em linhas gerais), pois “no longo prazo estaremos todos mortos”.

Ainda na faculdade, tenho pena daqueles que já vivem para o trabalho e não vivem de verdade. É isso que o sistema quer. Não quero aqui julgar aqueles que desejam se jogar no mercado, abraçar uma empresa e viver em prol de fazê-la lucrar. É uma forma de sobrevivência também – e eu mesma não sei de que vou sobreviver (Mt6:33)-, há quem goste do frenesi dessa competição. Eu, pessoalmente, não me vejo nos dias de hoje dando raça por uma empresa, buscando o lucro da mesma e vendo a mais-valia ser extraída de mim ou explorar outras pessoas, forçando-as a comprar algo ou criando nelas uma vontade que antes elas não tinham, através da propaganda. Só acho necessário que façamos as coisas conscientemente e tenhamos a percepção de que o sistema é algo muito maior, mais profundo e com maior controle sobre a nossa vida do que imaginamos.

Grande main gauche crispée avec figure (Rodin)
Grande main gauche crispée avec figure Grande mão esquerda crispada com figura (Rodin)

Termino com uma escultura de Rodin. Mas o que eu pensei (não creio que Rodin tenha a mesma interpretação que eu)ao vê-la (está em exposição na Casa Fiat de Cultura, confiram!!) é que é exatamente a mão “invisível” que pressiona de forma silenciosa ou invisível (ou às vezes nem tanto) as pessoas, que imploram por uma chance de viver dignamente. Ok, forcei a barra com o Rodin, mas é isso…

Caminho sem volta

“These are commercial crusades, ‘cos all the oil men get paid (…)
From dirty bastards fillin’ pockets with the profits of greed”
“Essas são cruzadas  comerciais, só os petroleiros recebem (…)
Babacas enchendo os bolsos com os lucros da ganância”
 (Ian Brown – Illegal Attacks)

 

Guerra no Iraque
Guerra no Iraque

Woody Allen não faz meu estilo. Pra mim, as histórias dele consistem de personagens extremamente perturbados e ele busca perturbar o leitor/telespectador através de clichês pra tentar fazer com que eles se sintam também afetados. Artificial. Scoop, Vicky Cristina Barcelona, Sonho de Cassandra, Que loucura!. Eu dei várias chances ao Woody Allen,mas não consigo gostar do estilo dele. Acho que o problema é comigo! 😀 Continuo preferindo o Woody WoodPecker.

Guerra no Iraque
Guerra no Iraque

Mas uma frase de um personagem de “Sonho de Cassandra” me chamou a atenção: ao discutir sobre homicídio, um personagem diz ao outro que encarasse com naturalidade o fato de ele ter que matar alguém para salvar a pele de um ente querido. Se ele estivesse em alguma guerra, da mesma forma teria que matar alguém, não por um motivo nobre de defesa da pátria como os pobres soldados são levados a acreditar, mas sim  por motivos egoístas dos escalões superiores ou dos políticos, na maioria das vezes ganância, também para salvar o pescoço dos mesmos. Isso é a guerra, nada mais que isso. Pessoas desconhecidas com ódio mortal pelos soldados do outro lado sem nunca tê-los visto. Pessoas comuns odiando pessoas comuns. Ódio irracional, levado pela racionalidade econômica ou política dos poderosos.

Guerra do Iraque
Guerra do Iraque

Fiquei pensando, ao ver esse filme, no peso de um dos personagens ao matar alguém. Ele repetia: “Matar é um caminho sem volta”. Mas, se me perguntassem se eu já matei alguém, a resposta é sim. Quantas pessoas já matei na minha mente! O simples desejar mal, falar mal, desejar que estivessem mortas já é matar. O que vale é a intenção. O simples realizar na nossa mente já é um caminho sem volta. Já é estimular o mal em nós mesmos, dar corda aos piores sentimentos. Já é criar uma guerra dentro de nós, em prol dos nossos insaciáveis desejos egoístas. Escolher incentivá-los é um caminho sem volta. Até que escolhamos o contrário, diariamente.

E as suas escolhas, como têm sido?

Ídolos

 Sarney, eu sou seu ídolo!”  (Popular confuso, pensando elogiar Sarney no último programa do pânico)

Ideal
Ideal
Dinheiro
Dinheiro

 

Não, não vou falar daquele programa ó-t-e-m-o da Record.  

 

 

 

Segundo a wikipedia, “um ídolo (do grego antigo εἴδωλον, “simulacro”, derivado de εἶδος, “aspecto”, “figura”) é um objeto de adoração que representa uma entidade espiritual. A idolatria é, portanto, a prática de adoração de ídolos. Na atualidade, especialmente após os avanços tecnológicos do século XX que permitiram maior acesso da pessoa comum a trabalhos de artistas, políticos, e personalidades importantes, o termo “ídolo” expandiu-se da esfera divina para a esfera humana”. E a idolatria continua sendo muito presente na nossa vida diária.

Madonna
Madonna

Podemos adorar diversas coisas no nosso dia-a-dia. Eu como cristã não adoro a algo abertamente como um deus, mas posso estar sujeita a isso veladamente: política, um ideal, dinheiro, futebol, música, sucesso, relacionamentos… e a lista vai. Muitas vezes, transformamos relações que podem ser saudáveis em doentias, em pecados, por colocar certas coisas fora de prioridades, acima do que não devem estar.

Muitas vezes, nosso maior ídolo é a nossa barriga, é nós mesmos. É fazer a nossa vontade, cumprir os nossos desejos: “O destino deles é a perdição, o seu deus é o estômago e eles têm orgulho do que é vergonhoso, só pensam nas coisas terrenas” (Fp 3:19). Estômago, nesse trecho, não quer dizer o estômago em si que conhecemos hoje, relacionado à comida, mas em algumas culturas cria-se que o centro do “ser”, da pessoa, estava em seu ventre. Como hoje às vezes falamos da cabeça.

Só Deus é digno de adoração. Em Sl 16, Davi afirma só procurar refúgio nele, que fora dele não há felicidade. Vejamos parte do texto:

1 Guardai-me, ó Deus, porque é em vós que procuro refúgio.
2 Digo a Deus: Sois o meu Senhor, fora de vós não há felicidade para mim.
4 Numerosos são os sofrimentos que suportam aqueles que se entregam a estranhos deuses. (…) Meus lábios jamais pronunciarão o nome de seus ídolos.
8 Ponho sempre o Senhor diante dos olhos, pois ele está à minha direita; não vacilarei.
9 Por isso meu coração se alegra e minha alma exulta, até meu corpo descansará seguro,
10 porque vós não abandonareis minha alma na habitação dos mortos.
11 Vós me ensinareis o caminho da vida, há abundância de alegria junto de vós, e delícias eternas à vossa direita.
Futebol
Futebol

                                                                   

Me atenho a um trecho em especial: “Numerosos são os sofrimentos que suportam aqueles que se entregam a estranhos deuses”. De fato, Deus tem uma vida muito mais completa, abundante, que qualquer coisa pode nos proporcionar. A maior besteira do mundo que podemos fazer é dar as costas a essa oportunidade de ter uma vida plena, que jorre para a vida eterna (Jo 4:14) e tentar conseguir essa abundância de outra forma. É impossível.

Temos nos distraído com outros deuses, brincado com idolatrias? Ou esse Salmo de Davi tem sido verdade nas nossas vidas?

Uma vez, quando passei por uma situação difícil, brinquei com um amigo que ia comer, comer, comer até me sentir completa. Ele me desejou boa sorte, porque não havia comida no mundo que pudesse preencher o espaço que só Deus poderia ocupar na minha vida.

O pandemônio da pandemia

Carpe diem? Quase isso…

Na segunda-feira, fui a um hospital devido a problemas respiratórios que sempre teimam em aparecer na época de frio. Me espantou a quantidade de gente usando máscaras lá dentro, buscando prevenir-se da gripe H1N1. Ok, claramente é válido tentarmos nos proteger dessa doença, porém o frenesi que foi criado em torno da mesma é indescutivelmente desproporcional aos seus efeitos, se consideramos outros males que nos acometem no Brasil: a dengue mata mais, a febre amarela também. Ainda matam muito doenças que podem ser evitadas com o uso de mosquiteiros ou evitando deixar água parada, i.e., são ações muito baratas! A doença de chagas também, que inclusive matou meu avô paterno. Até a gripe comum mata mais que a H1N1: matou 17 pessoas por dia ano passado em São Paulo. Por quê escolheram falar tanto dessa? Pode ser por ser ela nova e ter um quê de desconhecida, de aleatória. Não escolhe classe social ou anos de estudo, é transmitida a todos e o “pior”: quem está mais sujeito a ela é justamente quem mais viaja, i.e., quem tem mais dinheiro. E que tem muita gente ficando milionário com essa história, isso tem…

Deixo com vocês um vídeo, Operação Pandemia. Paciência, há legendas em português. Podem falar que esse vídeo é teoria da conspiração, mas pra mim, teoria da conspiração mesmo é o pânico que a mídia instaurou em relação a esse vírus no mundo. Há coisas mais importantes que essa paranóia.

Sim, todos vamos morrer um dia, desculpe contar o fim do filme (e aqui não estou desqualificando qualquer medida de saúde pública ou de aumento da longevidade populacional), mas bom seria se tivéssemos de fato a consciência de que tudo pode acabar hoje. Agora.

Assim se pega gripe suína
Assim se pega gripe suína

Então, se vc estivesse com gripe suína agora e tivesse 1 semana de vida, o que você gostaria de fazer? Eu já me peguei pensando nessas coisas, de tanto que escuto falar dessa gripe. Quais seriam as coisas de fato necessárias que você fizesse? Por que você não as está fazendo agora, se são tão importantes?

Li em algum lugar que só estamos prontos a viver a vida se tivermos a consciência de que podemos perdê-la a qualquer momento.

E não é que é verdade?

O Equilibrista

“Há uma linha tênue entre a genialidade e a loucura” – O Equilibrista

Assisti a esse filme no cinema essa semana e achei bastante interessante. Conta a história de um equilibrista francês, Philippe Petit, que, não satisfeito em atravessar num arame de uma torre da Notredame em Paris para a outra, passou anos e anos arquitetando um meticuloso plano, junto com seus amigos, para atravessar de uma (in memoriam) torre gêmea do World Trade Center pra outra. Isso na década de 70. Na foto do cartaz, uma suposta visão de Philippe ao cumprir seu feito:

O Equilibrista
O Equilibrista

O filme é maravilhoso pelas imagens do equilibrista em Notredame e nas Torres Gêmeas, mas mais ainda pela riqueza das falas dos entrevistados.

Como deve ser do conhecimento de vocês, escalar esse tipo de prédio/monumento é ilegal em diversos países. Obviamente, Philippe foi preso. E não só isso, foi levado a um manicômio, já que quando a imprensa e a polícia perguntou o porque de ele ter feito aquilo e ele disse que não havia porquê. Se não há um porquê, ele tem que ser louco mesmo, não? 

Mas uma fala dele no filme muito me chamou a atenção: “Os americanos são assim:  pegam um momento magnífico, esplendoroso e têm que descobrir o porquê. Perguntam em tom de repreensão “por que?”. Tem que haver sempre um porquê?” Às vezes criamos perguntas onde não existem. Pensamos demais. Questionamos excessivamente coisas para as quais não encontraremos respostas (por que Deus fez o céu azul?, adão tinha umbigo?, elvis morreu?) Às vezes nos cabe apenas aproveitar um momento.

Acho que dá pra nos questionar em outros quesitos também…  O que é normal? É colocar-se num arame sem proteção alguma a 450m de altura do chão ou viver dentro do WTC (se ainda houvesse) num ritmo alucinado (e porque não suicida), em busca de $ e mais $?

Lembro ainda de O Alienista e de Simão Bacamarte, personagem principal desse livro (uma vez interpretado por dois grandes amigos meus): o dito médico ultra-qualificado e racional acaba se trancando no manicômio da cidade, por perceber que no fim das contas ele era o único normal da cidade e todos os demais eram loucos. Será que era assim mesmo?

Termino parodiando Eduardo Viveiros de Castro: “No mundo, todo mundo é louco, exceto quem não é”.

Conforme

Estava em uma reunião esses dias e, como o clima de Brasília é bastante seco, estávamos todos querendo beber água. Eis que chega o senhor que serve água (=garçom). Um dos caras na reunião comenta: “Eba, a água chegou”. Aí eu pensei: “Não, moço. A água não chegou. Chegou o moço que serve a água.” E aí comecei a viajar nisso. Vc, caro leitor, deve estar pensando assim: “Ai, Ana, deixa de ser chata. Qual é o problema de falar isso?” Me explico.

Estamos em uma sociedade que se relaciona com as coisas e usa as pessoas. As coisas, as relações (pessoais, produtivas etc) estão tão fragmentadas que perdemos o sentido. A nossa relação com as pessoas ao redor é muito mais pelas coisas que elas fazem pra nós do que por elas mesmas. Um exemplo besta é a de você entrar numa lanchonete e pedir um pão-de-queijo. A relação é, na verdade, entre o dinheiro no seu bolso e o pão-de-queijo do que entre você e a pessoa que te atendeu. Se não tomarmos cuidado, essa inversão de foco e coisificação das pessoas pode invadir a esfera mais pessoal ainda, nos nossos relacionamentos com amigos e família – se é que já não ocorreu.

O sistema econômico em que vivemos estimula esse tipo de comportamento e nós o retroalimentamos com as nossas respostas a esses incentivos. E nós mesmos o criamos assim. E aí? Queremos tratar as pessoas como coisas e as coisas como pessoas? Será que nós realmente amamos as pessoas ao nosso redor? O que nos move a estar perto delas? 

Me lembro do versículo de Romanos 12:2, em que Paulo nos aconselha: “E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus.” Conformados não é só o “tomar forma”, imitar, propriamente dito, mas também, creio eu, quisesse ele se referir à atitude passiva de aceitar as coisas como são, o não mudar a nós mesmos e à realidade aí fora.

Essas coisas me fizeram pensar na minha própria vida. Ao ler Gálatas recentemente, um livro do novo testamento que fala sobre a lei para os judeus, me deparei com um versículo: em Gl 4:9 está escrito “mas agora, conhecendo a Deus, ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir?” Poxa, a vida com Deus pode (e tem que ser!!!) tão completa e gratificante, mas às vezes nos prendemos a certos elementos da vida antiga, do mundo antigo, da visão antiga e sofremos demais. Lembro da ilustração de Jesus dos vinhos e odres em Mc 2:22, em que diz que não devemos misturar as coisas novas com as antigas: é incompatível, já passou! Deus quer nos propor uma nova natureza, uma não contaminada. Pura.

Creio que, de certa forma, devemos romper com o estilo de vida que o mundo nos propõe. Nos tornamos (falo muito por mim) imbuídos de um ritmo que não é “natural”, não é normal, não é saudável. Tudo é pra ontem, tempo é dinheiro. Até ao fazer as coisas pela igreja cristã, muitas vezes, fazemos dessa maneira. O mundo vai cada vez mais rápido, as revoluções tecnológicas cada vez mais frequentes. Pode parar pra reparar: vc vai ter a sensação que esse ano vai passar mais rápido que o anterior, e o anterior mais que o outro anterior e por aí vai.

Será que esse ritmo frenético é auto-sustentável e é o que queremos pra nossa vida? Queremos dançar conforme essa música? Será que esses vinhos e odres são compatíveis? Ou essa vida é um peso? Até que ponto a sociedade nos tem influenciado negativamente, para que invertamos as bolas e vivamos em um ritmo alucinado?

Uma dose homeopática de economês

“Se é para o bem de todos
E felicidade geral da nação
Eis aqui um post sobre marxismo”
(ALMO, Junho de 2009)

 

Muitas vezes estamos acomodados na nossa vidinha, sem ter falta de quase nada e esquecemos de que tem gente aí fora vivendo realidade com a qual a gente nunca sonhou (ou teve pesadelo, na verdade). Isso me irrita, muitas vezes. No último fim de semana, ao conversar com um cristão, muito me preocupou a visão dele de que, já que só Cristo muda completamente as pessoas e dá sentido a tudo, é a maior bobagem do mundo discutir sobre qualquer outro assunto superficial que não se refira ao cristianismo, qualquer alternativa que não venha dele é inútil e nem merece ser discutida. Depois conversamos melhor e vimos que não era bem assim. Aí fiquei mais aliviada. Mas o que eu lhe disse é que creio que corremos o risco de sermos passivos e não levar a sério as teorias “seculares” que nos cercam e as alternativas que elas nos oferecem: se só podemos aprender com a bíblia e por exemplo fazer uma faculdade não vai acrescentará em nada, se tudo entra por um ouvido e sai pelo outro e você fica ali tapado (estuda, aprende, vomita aquilo na hora da prova e apaga da mente), sugiro que não gastemos nosso tempo e dinheiro estudando algo. Sério mesmo, invistamos energia em algo mais produtivo pra nós mesmos e em algo que seja socialmente mais eficiente. Fazer curso superior só pra ter cela especial quando/se for preso não vale taaanto a pena assim.

Politicamente, economicamente, cada um pense o que quiser. A única verdade absoluta que existe pra mim é Cristo. Como eu disse na minha apresentação, sou uma cristã que tende ao marxismo. Entendo a confusão da maioria: esse termo marxismo vem carregado de significados que não lhe são intrínsecos, mas frutos de interpretações (certas ou não) que não são as que eu dei ao conceito. Explico. A gente escuta o termo marxismo e logo pensa no Stálin, na galere invadindo propriedade, matando patrão, até no MST. Mas calma aí, não é bem assim. A primeira vez em que eu vi um cara evangélico dizendo que era marxista eu pensei de cara que o homem era louco, mas depois entendi melhor.

Que fique bem claro que eu sou uma mera estudante de economia que estuda essas coisas e que pode estar (muito) errada, mas continuo lendo e estudando (até mesmo porque, para criticar a gente tem que ler. Não dá pra achar que sabe, achar que entendeu e fechar os olhos e ouvidos e deixar só a língua funcionar. Até pra criticar o Paulo Coelho eu me senti na obrigação de ler livro dele rs.) Não adianta, discutir baseado no achismo sem ter lido nada não dá. Pra criticar tem que conhecer, inclusive ter a mente aberta pro caso de estar errado. E ponto.

DSC01090Não é segredo pra ninguém que me conheça minimamente bem que eu tenho diversas “pendengas” com a economia e com os modelos que aprendemos em 90% das matérias obrigatórias do curso. São teorias que eu estudei, aprendi, fiz prova e passei… Passei na matéria mas não passou na garganta. Eu não engulo essa história de agente racional nem por decreto, essa de maximização, de abstração completa de quase tudo até não ter nada de real no modelo, muito menos essa de perenidade do capitalismo: escutar isso de que é uma tendência natural do homem acumular, ser capitalista e que lutar contra o capitalismo é lutar contra o homem me faz ferver o sangue. Vai estudar história econômica, antropologia econômica!! hehe E falar que na sociedade capitalista há simetria na relação patrão/empregado ou que o capitalismo é igualitário e dá chances a todos me irrita mais ainda: se em t=0 (momento inicial, para os não introduzidos no economês) todas as pessoas tivessem tido condições igualitárias de se desenvolver ainda vá lá, mas esse definitivamente não foi o caso do capitalismo (e nem de outro sistema qualquer, todos se basearam em algum tipo de poder ou desigualdade), tem MUITA gente que rala a vida inteira e continua na pindaíba… E tem gente que não faz nada a vida inteira e tem tudo o que quer (reizinhos, né Rafa?).

(Na foto, Kastanienallee em Prenzlauerberg – antiga Berlim oriental. A frase no prédio diz “O Capitalismo normatiza, mata e destrói”)

Nessas e outras, nas crises com a economia e as micros e macros, me deparei com o livro “O Capital” de um mocinho chamado Marx. Toda a frustração que eu tinha com a economia neoclássica/neokeynesiana/novokeynesiana etc foi de certa forma dirimida: havia alguém (ou “alguéns”) que tratava a economia como parte da sociedade, como uma economia política1. Não só o Marx, mas vários outros caras como Smith, Ricardo, Malthus etc. Caras que não se fecharam em um campo, mas foram interdisciplinares e escreveram sobre muitas coisas com muita propriedade (todos esses aí transitam até hoje em várias áreas do conhecimento). Mas o Marx especificamente faz uma análise do capitalismo que na minha humilde opinião é SENSACIONAL. Não conheço outro teórico que tenha entendido tão bem a dinâmica desse sistema como o Marx: as contradições, as bases fundamentais, as tendências… Além disso, o método do cara de dialética, contraste é uma coisa impressionante. É uma pena que ele seja tão mal-dado nas escolas, o que faz com que os que não o estudam profundamente depois tenham uma opinião viesada como eu tinha.

Resumidamente porque já escrevi muito, a análise do Marx é inovadora porque mostra que o sistema se baseia em contradições, as mesmas que um dia (sei lá quando) levarão à sua crise e derrocada. Por ele mesmo… Assim como o sistema antigo ou o feudal caíram, o capitalismo também cairá um dia, apesar de ele mesmo tentar atrasar essa tendência criando certos mecanismos, tendo ao seu lado muitas vezes o estado e as leis. Ainda estou estudando as análises dele (inclusive minha monografia de fim de curso é sobre as crises no capitalismo em uma abordagem marxista, pra quem quiser mais detalhes), lendo o que ele escreveu. No momento, Marx e alguns bons Marxistas que o precederam (como Ernest Mandel), não deixaram de me surpreender e maravilhar em suas análises sobre esse sistema. Eu sei que Marx tinha vários problemas com o passado religioso dele e de sua família judaica, tendo escrito muitas coisas sobre/contra religião também, isso eu não li ainda, mas lerei. 

Eu não consigo olhar pro mundo hoje e defender o capitalismo, defender esse sistema e as bases nas quais ele se pauta. Sinto muito. Agora, também não tô falando pra ninguém matar rei, roubar carro, invadir casa dos outros. Mas que o mocinho teve a manha, isso teve. É nesse sentido que eu digo que eu tendo ao marxismo. E isso inspirou tanta gente legal… A CEPAL de Celso Furtado e Raul Prebisch, o próprio Keynes (que era bastante vermelhinho), várias políticas bacanas da social-democracia… A lista vai…

E só pra provocar, uma fotinha minha com o Marx e o Engels em Alexanderplatz (Berlin) pra vocês verem como eles são dois barbudos simpáticos:

DSC01154 - eu, Marx e Engels

Chega de economês, né? Ficando dúvidas/questionamentos/dialéticas eu escrevo mais…

***

Conversando com um amigo cristão2 esses dias, o cara me contou a seguinte história: Estava ele mais 4 amigos cristãos andando na rua quando veio um mendigo pedir esmola. Todos eles deram, menos um, que não tinha dinheiro. Esse cara se desculpou por não poder dar uma moeda e disse “não tenho grana pra te dar, mas posso fazer mais que isso, posso orar pela sua vida”. O mendigo largou a sacolinha que carregava e disse que isso era a melhor coisa que poderiam fazer por ele.  O cara perguntou o nome dele, pôs a mão no seu ombro e orou. Diz que o mendigo quase chorou.

Cuidar do que está dentro das pessoas é infinitamente mais importante que qualquer coisa: a verdadeira revolução vem de dentro. Agora, se é contra o cristianismo tentar fazer a vida material das pessoas melhor (seja ensinar alguém a ler, diminuir a desigualdade de renda, a exploração dos trabalhadores, dar cultura ou um prato de comida, seja o que for), então eu não sou cristã. Não foi esse tal de Jesus mesmo que, além de falar diversas coisas sobre ele mesmo, sobre o céu e a terra, curou cegos e paralíticos, alimentou multidões e aconselhou pessoas a doarem até mesmo tudo o que possuíam aos pobres?

Falando claro então: Nenhum sistema político humano jamais será perfeito. Nós somos falhos, portanto nossos sistemas também serão e nunca ninguém se sentirá completo se se basear somente nisso. A maior prova disso são os índices de suicídio nos países nórdicos, os mais igualitários do mundo e considerados como exemplo de social-democracia: se ter uma boa condição é suficiente para ser feliz, essa galera não tava se suicidando por lá.

DSC01420

(Na foto ao lado, o Stasigefängnis, ou prisão do governo da antiga DDR, Alemanha Oriental, em Berlim, onde eles mantinham aqueles que eram contra o regime)

Lendo essa semana o evangelho de João, um versículo me prendeu a atenção. Jo 3:34: “Disse Jesus: ‘A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou e concluir a sua obra'”. Será que essa é a nossa verdadeira preocupação, diária, de em tudo fazer a vontade de Deus e cumprir o propósito dele? É o que de fato nos alimenta? Será que não temos muito a melhorar ainda para sermos sal e luz em todos os sentidos para o mundo aí fora?

Desculpem o tamanho do post, ficou de fato muito grande, mas não tinha como…

1 Como curiosidade: ao decorrer do tempo, com a vitória da primeira corrente que não me agrada, o termo economia passou em inglês passou de Economy (ligado a economia política, à sociedade) para Economics (qualquer semelhança com o sufixo de Physics não é mera coincidência: a galera começou a achar que a economia era mais parecida com a física, ciência exata, do que com as ciências sociais, com o homem. Começou a achar que todos somos robôs e que temos uma única racionalidade.

2 Agradecimentos ao Renatão pela paciência comigo em momentos de revolta e também agradeço a ilustração.