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Voltei a caminhar

Há algum tempo torci o pé em um buraco na rua e quase caí. Não houve um tombo, um vexame público que desse causa à gargalhada alheia. Aliás, quase ninguém viu, só os que estavam mais próximos naquele momento. No impulso e por vergonha quis seguir adiante, como se nada tivesse acontecido. Não deu certo, a dor era grande. Abaixei, coloquei a mão no pé, suspenso no ar, e bem devagar tentei apoiá-lo novamente ao chão. Saí mancando, pois não poderia parar minha vida por conta de uma simples torção. O dia e os muitos compromissos seguiram normalmente, não pude, entretanto, deixar de sentir o pé latente todo o tempo, agravado pelo inchaço que advindo da torção. De vez em quando a dor cessava e me esquecia dela. Mas, ao tentar caminhar normalmente, o pé acusava a lesão que ali se instalara. A torção não foi suficiente para que restassem hematomas, muito menos feridas abertas na pele. Ainda assim, o simples fato de meu pé ter se retorcido já foi suficiente para tirar minha vida do eixo. Foi forte ao ponto de questionar a Deus se ele realmente guiava meus passos. Como foi que não consegui me livrar do buraco?

No outro dia fui lembrado do incidente logo ao me levantar e passar pela desagradável situação de tentar me apoiar no pé contundido. Resolvi ir ao médico. Uma radiografia foi tirada e houve a comprovação de que não havia fraturado nenhum osso. Sei que não, caso contrário não teria saído andando da cena do acontecido. Restava a dor, mesmo sem fratura. Tomei os analgésicos e antinflamatórios receitados. Manquei por um bom tempo, sempre reclamando com Deus. Passaram-se uma semana, duas, já não era tão forte assim, mas permanecia o incômodo. Procurei novamente um especialista, que apenas me receitou mais analgésicos e disse que só o amigo tempo ajudaria na cura. Fui em outros dois, três amigos que conheciam do assunto. Todos repetiram o que já havia ouvido. O incomodo permanecia. Já estava chato conviver com o andar manco. Já estava cansativo falar da dor para todos os meus amigos. Estava ruim não acreditar que Deus continuava ao meu redor, cuidando do meu caminhar.

Passado mais algum tempo pude perceber que o incomodo na verdade estava muito distante de uma dor e que representava apenas uma insegurança. O trauma me impedia de lembrar como era bom andar sem ter de me preocupar com o acontecido. Outro amigo próximo de mim também torceu o pé e pouco tempo depois voltara a caminhar com a mesma firmeza com que o fazia antes da quase-queda. Foi ele quem me alertou para meu medo. É… não teve jeito – percebi que não havia mais espaço para insegurança. O tempo (ou a falta dele) exigia que colocasse o pé no chão e andasse a passos largos, até mesmo que corresse. Quis esperar mais um pouco, testar a Deus para ver se realmente estava por perto. Descobri logo que ao esperar decidia por não voltar a caminhar. Vi que Deus se preocupava com meus passos, que não foi ele quem criou os buracos da vida e que ia cuidar de mim, quer confiasse ou não. E assim cheguei ao ponto de entrega dos pés ao Pai, assim que hoje tenho decidido: voltei a caminhar e seja o que Deus quiser, literalmente.