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Má companhia

19 dias em Brasília. Acho que tenho perdido um pouco a noção do tempo. Outro dia me perguntaram como eu estava e a melhor analogia foi “anestesiado”. Estou consciente de tudo. Aonde estou, o que está acontecendo, o que vim fazer… A questão, porém, é que eu não estou sentindo nada ou muito pouco. A medida que o tempo passa, vou também me acostumando com a vida brasiliense. Talvez essa seja mesmo a cidade aonde moram os políticos corruptos; cidade onde os preços são mais caros; onde as pessoas não parecem tão solícitas no trânsito; aonde há uma frieza e solidão naturais provenientes da maneira como Brasília fora projetada… Enfim!

Pra vocês entenderem aonde quero chegar, preciso partilhar algo importante. Tem exatamente 10 dias que, finalmente pude vir para minha casa. Eu só esperei o apartamento ficar minimamente habitável pra me mudar. Quando cheguei oficialmente em casa, entendi que o desafio havia realmente começado. Antes até tava legal, mas era tipo o “trailer” do filme que iria começar. Agora, vamos para a parte difícil do post! Seguem algumas (PS: você não achou que eu iria falar todas, né?) das primeiras conclusões sobre a vida em Brasília:

– Morar sozinho é difícil. Tenho descoberto que o custo/benefício da liberdade em detrimento da chatice de conviver, não vale a pena. Estar sozinho é um pouco pior do que os atritos das relações familiares, mas sei também que isso é um tanto quanto pessoal. Aproveito pra registrar a saudade, em especial, da minha amada mamãe.

– Ser um homem firme com Cristo é infinitamente mais fácil ao lado dos amigos verdadeiros. A caminhada com Deus tende a ser menos árdua nos lugares em que temos “raízes” e a ausência ou distância deles(amigos), revela bastante da mediocridade da nossa própria relação com Cristo. Vocês entendem?

– Apesar da certeza que tenho da presença ininterrupta de Cristo, os primeiros dias aqui em Brasília têm sido terríveis. Tenho passado bastante tempo sozinho. Eu sei que aqui existem pessoas bastante preocupadas e zelosas para comigo (tenho tentado ser grato, inclusive), mas não é isso que estou falando. A maior parte do meu tempo, fico sozinho. E tá tudo certo com isso! Não teria como ser diferente. A questão é que eu nunca havia passado tanto tempo comigo. Virei companhia pra mim mesmo, entende? Ficar sozinho revela muito sobre a própria identidade e isso explica a dificuldade que o ser humano tem de permanecer só. Aqui em Brasília, o Eduardo fica com o Eduardo praticamente o tempo todo e sabe o que eu descobri? 

Eu sou uma péssima companhia! Chato, medroso, tomado de angústias, mau humorado, mesquinho, egoísta, difícil de conviver, superficial, arrogante, inflexível. Eu não estou exagerando. Nunca tive tanta propriedade pra falar sobre mim. As pessoas geralmente conhecem muitas outras facetas do Eduardo. Talvez isso até tenha me feito um pouco benquisto.

Tenho visto coisas em minha alma que nunca havia notado. Não tenho gostado nada do que vejo. A vontade de desistir de mim mesmo nunca foi tão grande.

Só não fiz porque no meio desse tão conturbado relacionamento, ouço diariamente a voz sublime D’Aquele que diz: “Eu te amo e nunca vou desistir de você!”

‘Se Ele não desistiu até hoje’, pensei comigo… ‘Eu não vou desistir também!’

E eu achando que o problema em Brasília era a presença dos políticos.

Um grande abraço!!!

Brasília já começou

A novidade tem se tornado amiga. Antes eu apenas sabia que iria encontrá-la. Agora, caminhamos juntos e dividimos nossas emoções. Tenho a impressão de que ela é grande, profunda e vai muito além do que estes primeiros dias. Também sei que há de chegar um tempo em que nossa relação não permanecerá tão intensa. Hoje, porém, a configuração não poderia ser diferente.

As atividades parecem ininterruptas. Você não tem ideia de quantas coisas eu já fiz por aqui. Pensei em listá-las, mas fiquei com receio do post ficar cansativo. No meio de tudo isso, fome… Fome de Deus! Era preciso parar para estar com Ele. Abri as Escrituras e fiz minha primeira “refeição” em Brasília. Gastei um tempo orando. (O prazer da presença de Deus, ignora latitudes e longitudes). Eu estava forte novamente.

No meio de tudo isso, saudade. Tanto daqueles que ficaram em BH, quanto a que eu trouxe comigo. Às vezes, preciso parar para responder algumas mensagens e dar alguns telefonemas que, se não os fizer, sentirei mal. Falar é quase analgésico. Sei que vai chegar o tempo em que a vontade de voltar pra casa acontecerá. Tipo aquelas viagens quando chega o momento em que os dias longe de casa conseguem saturar o prazer da quebra da rotina e do cotidiano. Aí vou me lembrar do fato de que já estou em casa e suspeito que nessas horas, vou chorar…

Enfim!

O mais impressionante, porém, de todas estas coisas que dizem respeito aos primeiros dias, é o quanto me sinto perdido. Não apenas com coisas básicas a respeito da casa nova, por exemplo, mas com o que está por vir. É como se eu estivesse diante de algo escuro ou uma nuvem de fumaça. Não consigo enxergar o que está além. A visão parece limitada e tudo o que vejo é uma espécie de breu. Tenho medo. Confesso. O que não consigo negar é que no meio de tamanha incerteza, presença. Não sei o que vai acontecer na semana que vem, mas sei que Ele está aqui. Comigo. Em mim.

Nessa hora, o medo acaba. Sua presença ameniza minha cegueira e a certeza do seu cuidado me faz concluir que eu não troco essa experiência por nada. Desejo vivê-la enquanto gozo da melhor companhia. Já pensou se eu estivesse enxergando tudo claramente mas não conseguisse perceber a companhia DAquele que dá sentido e significado a todas as coisas, inclusive às nuvens de fumaça que insistem em surgir no caminho? Porque o medo de estar sozinho é maior do que o medo de não enxergar.

“Quando te desviares para a direita e quando te desviares para a esquerda, os teus ouvidos ouvirão atrás de ti uma palavra, dizendo: Este é o caminho, andai por ele.” (Is.30:21)

Aproveito para agradecer cada pessoa que fez questão de me enviar uma mensagem dizendo que estava orando por mim. Se tudo isso que tenho vivido aqui é fruto destas orações, vocês já sabem o meu pedido.

Brasília já começou e eu fico por aqui! Sexta feira que vem a gente volta a se falar.

Grande abraço!!!

Quem quer ser JK?

Estátua do Memorial dos Povos Indígenas
Estátua do Memorial dos Povos Indígenas
Estátua de JK - Memorial
Estátua de JK – Memorial

No domingo último, fiz uma visita ao Memorial JK em Brasília. Imponentes o prédio e suas instalações. É impressionante ver como a iniciativa desse cara de construir uma nova capital no meio do nada deu certo. Quero deixar isso bem claro, porque de forma alguma quero que pareça que não acho que o que ele fez tenha sido importante.

 

É que na frente do Memorial JK fica o Memorial dos Povos Indígenas. Muito arrumadinho e muito interessante. Mas não chega nem aos pés em estrutura ao do JK. Sem climatização pros materiais orgânicos, sem muitos funcionários… Enfim.

Aí eu fiquei pensando: “Poxa, um cara tem toda aquela estrutura em sua homenagem… E milhões de índios têm isso pra lembrar sua memória e contribuição?” Será que eles não mereciam mais? Afinal, o sangue desses milhões de anônimos corre nas nossas veias, influenciou a nossa vida, a nossa linguagem, cultura

Lembrei de um filme que vi faz muito tempo. Tróia. Posso estar muito errada, mas se não me engano, há uma cena em que Aquiles (Brad Pitt) diz que temos duas escolhas na vida: ou ser importante para nossa família e nossos pares, ser uma pessoa amada por eles, mas ser esquecida após um tempo por não ter sido uma pessoa famosa; ou ser uma pessoa pública, que dá a vida por algo maior e por isso será relembrada eternamente.

Não estou fazendo juízo de valor de JK ou dos índios, mas gostaria de deixar a pergunta: quão grande é a nossa ambição? Será que queremos ser “índios”, anônimos na multidão que influenciam e vivem silenciosamente, que não serão lembrados com pompa no futuro ou será que ambicionamos ser “JKs”, buscando glória e homenagem para nós mesmos?

A minha experiência diz que ninguém quer ser invisível.  E talvez seja sim que nós passemos pela terra de forma “invisível”, sem fazer grandes feitos, sem revolucionar nações ou descobrir a cura do câncer. Na verdade, os que se “destacam” mesmo são pouquíssimos. Nem todos terão um mausoléu gigantesco como o JK.

Nos esquecemos, porém, de que ninguém é invisível de fato, todos nós importamos pra Deus. Deixo então um poema, que já é bonito em português, mas tenho certeza que no original em hebraico deve ser mais bonito ainda:

“Tu criaste o íntimo do meu ser e me teceste no ventre de minha mãe
Eu te louvo porque me fizeste de modo especial e admirável.
Tuas obras são maravilhosas! Digo isso com convicção
Meus ossos não estavam escondidos de ti quando em secreto fui formado
e entretecido como nas profundezas da terra
Os teus olhos viram o meu embrião;
todos os dias determinados para mim foram escritos no teu livro
antes de qualquer deles existir”
(Salmo 139)