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Você é o que você ama

Há um consenso contemporâneo de que somos aquilo que pensamos e a fundamentação dessa amarga repetição surgiu há alguns séculos com René Descartes, quando afirmou: “penso, logo existo”.

Em sua opinião, nossas disposições mentais seriam capazes de determinar aquilo que somos? Temos diferentes concepções acerca da realidade e muitas conclusões a respeito de quase tudo, o que faz de nós meros “pensadores-de-coisas”. Será?

Veja, por exemplo, o caso dos estudos sociológicos sérios sobre a cosmovisão (concepção de mundo) de um determinado povo. Os pesquisadores nunca chegam até um local e entrevistam os seus moradores nativos para saber como pensam e concebem o mundo a nossa volta, ao contrário, observam seu comportamento em determinado período e, por meio de sua conduta, chegam ao formato do que seria a cosmovisão regional.

Você provavelmente já saiu de uma palestra de domingo, de uma missa, ou de um culto muito impactado com as ideias que foram apresentadas e a partir delas traçou novas resoluções para a vida. Eu já o fiz. O mais frustrante é que não raro enfrentamos uma enorme dificuldade de implementá-las e elas acabam não saindo do papel.

Isso ocorre porque não entendemos o poder do hábito e isso se aplica para qualquer hábito que gostaríamos de destruir ou de adquirir. Falando especificamente de nossa vida devocional, muitas vezes não conseguimos aplicar as resoluções porque Jesus não é o organizador de sentido de nossa existência. Ora, se Cristo não ganhar as nossas entranhas, não nos afetar, não teremos recursos suficientes para experimentarmos mudança. Acontece que nós desejamos pouco demais porque desejamos carros, viagens, sucesso profissional, mas se desejarmos visceralmente, no mais profundo íntimo, o Filho, descobriremos a nova humanidade. Somos mais que pensantes, somos amantes. Abaixo um trecho do livro You Are What You Love do filósofo cristão James K. A. Smith:

Jesus é um professor que não apenas informa nosso intelecto, mas forma nossos amores. Ele não se contenta em simplesmente depositar novas ideias em sua mente; ele está atrás de nada menos do que seus desejos, seus amores, seus anseios. Seu “ensino” não apenas toca no calmo, fresco,dos coletados espaços de reflexão e contemplação; ele é um professor que invade as regiões aquecidas, apaixonados do coração. Ele é a Palavra que “penetra até a divisão da alma e do espírito”; ele “discernir os pensamentos e intenções do coração” (Hb. 4:12) 

Não é o que diz Paulo em sua oração pela igreja que se reunia em Filipos?

Esta é a minha oração: que o amor de vocês aumente cada vez mais em conhecimento e em toda a percepção,para discernirem o que é melhor, a fim de serem puros e irrepreensíveis até o dia de Cristo, cheios do fruto da justiça, fruto que vem por meio de Jesus Cristo, para glória e louvor de Deus. Filipenses 1:9-11
Perceba a sequência  da oração de Paulo. Ele ora para que o amor deles cresça mais e mais porque, em algum sentido, o amor é a condição do conhecimento. Não é que nós conhecemos, adquirimos conhecimento a fim de amar, mas nós amamos a fim de conhecermos.
Qual é o melhor caminho, qual tem a maior importância? Paulo nos responderia que certamente é o caminho do amor. O lugar para começar é organizando nossos amores a partir de Cristo.

Lembra-se daquela frase “o coração tem razões que a própria razão desconhece”? Pois bem, Blaise Pascal não a usou num contexto de amor romântico, mas para dizer que o coração (conceito bíblico para a sede das emoções e centro da existência) governa o homem. É ele quem dirige seus passos e sua razão. Amamos a ‘coisa’ com a qual gastamos mais tempo, amamos aquilo que investimos todas as forças, em que apostamos todas as fichas. Somos mais que conhecimento, e é urgente uma compreensão mais holística do Evangelho. Sem antintelectualidade, mas compreendendo que há em nós sonhos, desejos e vontades. Então, se Jesus não ganhar os seus afetos e se você não ordenar os seus desejos, sonhos, amores, em torno do Criador, nada muda e você continuará distante do Pai, porque somos o que amamos.

Essa tem sido a minha luta a partir de hoje: desejar Cristo visceralmente.

 

***Ideias extraídas do livro You are what you love (James K. A. Smith)