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Retrato da Alma

Entrou no ônibus que não frequentava mais há anos, deixara o carro na oficina para a revisão. Reviu todos os antigos frequentadores, alguns que ficaram até “colegas de linha”, amigos para discussões dos jogos do time e demais reclamações banais. Chamou a atenção um fato curioso. Como todos haviam envelhecido! Certamente apenas eles, falou de si para si, rindo-se.

Não era, infelizmente como Dorian Gray, o famoso personagem de Conan Doyle Orcar Wilde que possui um quadro místico capaz de absorver todas as marcas do tempo e das experiências degradantes de seu retratado. Certamente não temos também um quadro deste para nossa alma, feliz ou infelizmente.

Somos já alguns cristãos de longa data. Alguns contam anos e outros décadas. Estou no início da minha segunda, por exemplo. Mal vemos o tempo passar até sermos confrontados com algum sinal externo inegável, como no caso do homem do carro na oficina, os colegas há tempos não vistos.

Ao chegar a este momento de confrontação, desejamos que o quadro existisse ou não, isto é, tornei-me, com o tempo, mais piedoso ou mais legalista? Mais sábio ou mais orgulhoso? Mais erudito na Lei ou mais versado no amor?

Sigamos em direção a Jesus, não ao farisaísmo.

O retrato

Tive o privilégio de ler o livro “O retrato de Dorian Gray”, escrito por Oscar Wilde. Mostra um homem que, de certa forma, vende sua alma para que continuasse jovem, sem marcas de sua velhice e nem marcas de seus pecados. Essas marcas seriam demonstradas em um retrato recém pintado por um amigo. O retrato, inicialmente exposto na sala de sua casa, passou rapidamente para um sótão, trancado a sete chaves.  Isto porque transformações foram acontecendo no retrato: lágrima, sorriso sarcástico, olhar raivoso, mãos manchadas de sangue e velhice. Cada coisa que fazia na vida era marcada no quadro. Depois de muitos anos, em desespero, por ser jovem no meio de uma geração envelhecida e com uma montanha de atitudes, hábitos e vícios que deixaram de fazer sentido, ele tem um diálogo com um padre:

– Padre, essa não é minha face! Eu vi minha alma!

– Somente Deus vê a alma filho!

– Padre, eu vi minha alma; ela é podre, fede e é veneno!

Interessante como o autor critica sua sociedade contemporânea, onde vida de abusos e vícios eram escondidas atrás de títulos de nobreza, cavaleiros e damas! Mas, quando conhecemos a história do autor, vemos como a história pode ser vista como uma biografia não autorizada. Já que foi escrita por um homem que viveu uma vida dupla, escondendo seu quadro . Mas, mais interessante ainda, é que ela serve para nos questionar nos dias atuais. Se cada um de nós pudessemos ficar frente a frente com nossa alma- como em um quadro- o que veríamos?

O que você diria hoje sobre esse retrato?

Talvez “é podre, fede e é veneno”?

Você poderia colocá-lo na sala de visitas de sua vida, deixando todos se aproximar e avaliar?

É bom poder dialogar com um autor do século 19 e questionar minhas atitudes, meu coração, meu retrato!

E o seu retrato, como vai?

Abraço e até a próxima!

A quem sua alma dá ouvidos?

No momento que nos tornamos cristãos, passamos a ter no centro do nosso ser um santuário. Esse passa a ser o centro de nossas vidas, é nesse local onde habita o Espírito de Deus. E o Espírito de Deus vivifica o meu! O problema é que ao invés de me voltar para esse centro bem interior da minha vida, acabo ainda sendo dirigido pelo que é externo! Meus sentidos chamam minha alma para o externo, tirando meu foco do maravilhoso santuário! Ouço o mundo, vejo o mundo, apalpo o mundo, saboreio o mundo, cheiro o mundo! Isso faz de mim um homem superficial, em nenhum momento me adentro para o centro para ouvir, ver, apalpar, saborear  cheirar o Espírito! Mas como me adentrar? Para mim não há outro caminho senão o caminho de disciplinar sua alma (pelo menos em algum momento de seu dia) a se distanciar do externo e, através do silêncio, da oração e da palavra, se movimentar para o interno!

A quem sua alma dá ouvidos? Ela está voltada para o externo, deixando de ouvir o Espírito e se perdendo em um mundo sedutor? Ela oscila, de forma esquizofrênica, entre o externo e o interno? Ou ela acha consolo, força e amor no santuário?

Que possamos ter nossa alma morando no santuário!

Abraço e até a próxima!