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447

Muito tem sido falado do desastre aéreo do vôo 447 da Air France. A mídia fala das pessoas, das famílias, mostra as últimas novidades das buscas, enfim, trata de todos os aspectos, completamente movida por grande e pura bondade de coração, de forma alguma usando o acidente para fazer sensacionalismo ou explorar a dor das famílias. O pior é que a nossa curiosidade ou envolvimento acaba nos fazendo dar ibope a esses programas.

Foto: ALMO (Paris)

Nesses casos de acidentes, os repórteres sempre encontram pessoas que iam embarcar e misteriosamente ocorreu algo e a pessoa não fez o check-in ou escolheu uma data diferente etc. E foi em uma entrevista a um desses “sortudos” que ouvi algo que muito me incomodou: uma mulher que deveria ter embarcado começa a dizer que “foi muito a vontade de Deus que eu me salvasse, Deus me ama”. Então, peraí… Aqueles outros 228 que morreram no acidente não eram amados por Deus? Que Deus ame aquela pessoa que sobreviveu eu não duvido, mas será que Ele ama menos quem morreu? É isso que a fala dela diz e disso eu duvido.

Caso semelhante ouvi de uma amiga certa vez: ao comentar sobre uma outra pessoa, ela disse que “Deus deve amar muito o fulano, porque senão tal tal e tal coisas não teriam ocorrido”. Da mesma forma: o outro beltrano com o qual tal tal e tal sim coisa aconteceu não é amado por Deus, ou é amado de forma menor? Eu sei que essa pessoa não deve ter tido essa intenção, mas se pararmos pra pensar, com as nossas frases às vezes dizemos coisas que não queremos dizer.

Se vamos para a bíblia, vemos que ela diz que “para com Deus, não há acepção de pessoas” (Romanos 2:11). Ele não ama a uma pessoa mais que a outra, não nos trata de forma diferenciada, não brinca com o destino dos outros nem quer que soframos. Ele não nos tem como a marionetes, mas nos ama e interage conosco, nos dando a possibilidade das nossas próprias escolhas. Nele, todos têm a chance de viver o amor com o qual Ele quer nos encher. Agora, o porquê de tal ou tal coisa  acontecerem a uma pessoa e não a outra, isso eu não sei responder e nem ninguém, na verdade.

Foto: ALMO (Paris2)

O que acontece é que nós somos limitados – como não poderia deixar de ser -, e mal enxergamos o que está a um palmo do nariz, seja nesse caso do acidente, seja nas outras coisas inesperadas da vida. Não temos a visão do todo e mesmo assim queremos julgar os fatos e fazer como se entendêssemos tudo. Fazendo-me valer do clichê, se é bom ou ruim, só o tempo dirá.

Que Deus cuide dessas famílias, ajudando-as a lidar com o sentimento de perda e desconsolo.

(Fotos: Paris 2008)