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Conforme

Estava em uma reunião esses dias e, como o clima de Brasília é bastante seco, estávamos todos querendo beber água. Eis que chega o senhor que serve água (=garçom). Um dos caras na reunião comenta: “Eba, a água chegou”. Aí eu pensei: “Não, moço. A água não chegou. Chegou o moço que serve a água.” E aí comecei a viajar nisso. Vc, caro leitor, deve estar pensando assim: “Ai, Ana, deixa de ser chata. Qual é o problema de falar isso?” Me explico.

Estamos em uma sociedade que se relaciona com as coisas e usa as pessoas. As coisas, as relações (pessoais, produtivas etc) estão tão fragmentadas que perdemos o sentido. A nossa relação com as pessoas ao redor é muito mais pelas coisas que elas fazem pra nós do que por elas mesmas. Um exemplo besta é a de você entrar numa lanchonete e pedir um pão-de-queijo. A relação é, na verdade, entre o dinheiro no seu bolso e o pão-de-queijo do que entre você e a pessoa que te atendeu. Se não tomarmos cuidado, essa inversão de foco e coisificação das pessoas pode invadir a esfera mais pessoal ainda, nos nossos relacionamentos com amigos e família – se é que já não ocorreu.

O sistema econômico em que vivemos estimula esse tipo de comportamento e nós o retroalimentamos com as nossas respostas a esses incentivos. E nós mesmos o criamos assim. E aí? Queremos tratar as pessoas como coisas e as coisas como pessoas? Será que nós realmente amamos as pessoas ao nosso redor? O que nos move a estar perto delas? 

Me lembro do versículo de Romanos 12:2, em que Paulo nos aconselha: “E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus.” Conformados não é só o “tomar forma”, imitar, propriamente dito, mas também, creio eu, quisesse ele se referir à atitude passiva de aceitar as coisas como são, o não mudar a nós mesmos e à realidade aí fora.

Essas coisas me fizeram pensar na minha própria vida. Ao ler Gálatas recentemente, um livro do novo testamento que fala sobre a lei para os judeus, me deparei com um versículo: em Gl 4:9 está escrito “mas agora, conhecendo a Deus, ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir?” Poxa, a vida com Deus pode (e tem que ser!!!) tão completa e gratificante, mas às vezes nos prendemos a certos elementos da vida antiga, do mundo antigo, da visão antiga e sofremos demais. Lembro da ilustração de Jesus dos vinhos e odres em Mc 2:22, em que diz que não devemos misturar as coisas novas com as antigas: é incompatível, já passou! Deus quer nos propor uma nova natureza, uma não contaminada. Pura.

Creio que, de certa forma, devemos romper com o estilo de vida que o mundo nos propõe. Nos tornamos (falo muito por mim) imbuídos de um ritmo que não é “natural”, não é normal, não é saudável. Tudo é pra ontem, tempo é dinheiro. Até ao fazer as coisas pela igreja cristã, muitas vezes, fazemos dessa maneira. O mundo vai cada vez mais rápido, as revoluções tecnológicas cada vez mais frequentes. Pode parar pra reparar: vc vai ter a sensação que esse ano vai passar mais rápido que o anterior, e o anterior mais que o outro anterior e por aí vai.

Será que esse ritmo frenético é auto-sustentável e é o que queremos pra nossa vida? Queremos dançar conforme essa música? Será que esses vinhos e odres são compatíveis? Ou essa vida é um peso? Até que ponto a sociedade nos tem influenciado negativamente, para que invertamos as bolas e vivamos em um ritmo alucinado?