Sobre a igreja laica

O Direito sempre esteve um passo atrás da sociedade. Novas realidades surgem e leis precisam ser elaboradas para que se proteja uma situação que eventualmente se aflora. A sociedade é vanguardista, mas o direito não, sob pena de perder eficácia, por disciplinar situações “afáticas”.

Foi assim com a lei de divórcio. Na década de 70 surgiu como forma de regulamentar uma realidade já existente em várias famílias e que precisava de cuidados legais no intuito de incluir os que viviam tal situação no âmbito de proteção do Estado. A sociedade reagiu, afirmando que seria o fim dos bons costumes, da família e da moral cristã. As primeiras mulheres divorciadas sofreram um sério juízo de reprovação social, sendo estigmatizadas de forma cruel. Hoje, soaria anacrônico o discurso de alguém que defendesse o retorno à proibição do divórcio. É uma realidade que transborda em várias casas do país e o direito precisou tutelá-la para que pudesse ser um direito de todos e não apenas de um modelo tradicional de família. Em 2005 o adultério foi descriminalizado, não como meio de alteração no que tange à moralidade de tal conduta, mas porque, nos dias atuais, restou impensável a possibilidade de alguém vir a ser preso por esse comportamento.

Entre tantos outros exemplos, hoje em voga os direitos pleiteados em decorrência de relações homoafetivas. Uma discussão que toma contornos dantescos, como se o que estivesse em debate fosse a moralidade de tais relacionamentos, ou ainda, se vivê-los não seria contrário à natureza humana criada. Mas talvez não seja esta a questão. O fato é que o retrato da sociedade nos mostra que as relações homoafetivas sempre existiram. O que se discute não é se tais relações devem ser inibidas, mas se as pessoas que sob tal condição, merecem ou não a proteção do Estado. E a resposta parece ser simples. Para quem defende a ideia de que o Estado deve refletir as concepções de um modelo tradicional de família (afinal a própria Constituição prevê casamento como união de homem e mulher), a resposta seria negativa. Como consequência, terá de esforçar-se para que o seu modelo continue sendo aquele protegido, suportando as exclusões que daí decorrentes. Mas para quem advoga por um Estado realmente laico, o direito deverá buscar refletir a sociedade, em conceitos de amoralidade. Por que a moral precisa da pergunta de moralidade para quem.

Há, contudo, esta mesma pressão de movimento para dentro das igrejas. Sob a lógica de que os tempos mudam e a realidade social também. Assim, os discursos precisariam acompanhar o que se vê no mundo. Fala-se em papas mais ou menos tradicionais, em igrejas mais ou menos modernas. Como se a lógica do laicismo devesse sentar naqueles bancos. E se setores da igreja parecem pressionar o Estado com seus conceitos de moralidade, a sociedade parece pressionar a igreja com os seus ditos avanços, num objetivo de “estatizá-la” sob a égide do anúncio da modernidade e de que sem esta a igreja programaria sua obsolescência. E essa deveria ser a maior preocupação da igreja, com suas próprias bases e com sua própria saúde.

Fato é que se o Estado precisa andar ao encalço da sociedade, tal premissa não se aplica à igreja. Esta sim deve ser tradicional, retrógrada, radical. Faz parte de sua própria essência. Poderia ela mudar sua forma de agir frente a uma nova sociedade, mas não os seus alicerces. Porque é o papel da igreja ser moral e trazer os seus próprios conceitos ao mundo. Na certeza de que poderia oferecer uma nova opção ao homem pós-moderno. Esta exata opção de ser tradicional e retrógrado. De se firmar em conceitos trazidos a ele como imutáveis. De aderir a esta moralidade por livre escolha. Porque as leis neste aspecto, muito pouco contribuem.

3 comentários sobre “Sobre a igreja laica

  1. Um outro ponto de vista:

    “Um dos maiores mitos que a cultura moderna impôs ao cristianismo é a doutrina secular de que a esfera pública é religiosamente neutra. Isto significaria que o cristianismo não poderia participar, interferir e nem emitir qualquer tipo de opinião em questões de natureza política, econômica, social ou científica. Por esta razão, em nossa era, cristãos são desafiados a defenderem a natureza pública de sua fé, sua plausibilidade e relevância. Não existe dimensão neutra, nem mesmo as ideologias políticas e a modernidade são religiosamente neutras. Sendo assim, o cristianismo deveria se posicionar com coragem sem cair nas tentações da segregação e do domínio.”

    Fonte: http://pensarigor.blogspot.com.br/

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