Rompendo com a superficialidade

Está escrito em Tiago para que não sejamos apenas ouvintes da Palavra, mas também praticantes (Tg 1:22). Já na época dos apóstolos havia surgido um pensamento religioso que viria a ser denominado gnosticismo pela Igreja Primitiva. Tal corrente de pensamento via no conhecimento a base para a salvação do homem (1Jo 2:4). Mas o que Deus fez não foi dar entendimento ao homem para que o conhecesse teoricamente. Verificamos justamente o contrário – ele agiu na prática vindo até nós por meio de Cristo. “Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores.” [Rm 5:8].

Poderia terminar por aqui com as idéias e fazer uma única pergunta para nos ajudar a pensar no assunto, mas não atingiria a profundidade que desejamos. Para conseguirmos pensar melhor em que implica viver a prática do evangelho de Cristo, gostaria de ilustrar:

Jesus estava em uma praia quando levaram a ele uma mulher pega em pecado de adultério (Jo 8). Pela lei judaica, merecia morrer (Lv 20:10). Mas Jesus a amou de maneira prática e fez com que ela não só não fosse morta, bem como recebesse seu perdão pessoal. É fácil perceber isso quando lemos sobre a crucificação e ela está entre os que o acompanhavam de perto (Jo 19:25)¹.

Seria o mesmo hoje se estivéssemos diante da obrigação de conviver com Suzana Richthofen na comunidade cristã de que participamos, quer seja um grupo de amigos, ou mesmo a igreja. Pense em como seria conviver com uma mulher que matou os próprios pais? E pior, imagine se você fosse o irmão dela, ou seja, passar a conviver com ela também na família cristã, ao lado de alguém que matou seus pais ( 😯 ). Não quero aqui ser hipócrita e dizer que é fácil ter profundidade espiritual, mas também não posso deixar de nos exortar a viver o cristianismo real na nossa vida diária. O que quero é compartilhar de uma preocupação crescente em que nos tornemos excelentes teóricos do cristianismo, mas péssimos práticos.

objeto rompendo com a tensão superficial da água em um copo

É natural ter o pensamento do senso comum, afinal, somos humanos. Mas não é o desejável, é necessário ir além, romper com uma tensão superficial que nos impele a vivermos como cristãos nominais. Romper, ouso dizer, com a barreira da mediocridade.

Tenho grande dificuldade em fazer isso dentro da minha própria casa, no escritório em que estagio, na faculdade… Saindo da reunião semanal que participo para buscar a Deus, já me peguei fugindo do cara que pede dinheiro na rua para vigiar o carro, resmungando em minha mente expressões nada educadas, sem me lembrar absolutamente de nada que li, ouvi e estudei nas horas anteriores.

Para nossa alegria, Deus reconhece nossa dificuldade e nos ajuda através do seu Santo Espírito que foi derramado em nós (Rm 5.5) a cumprir sua vontade (Fl 2:13). Poderíamos agir por conta própria, com nossos próprios esforços, mas conseguiríamos, no máximo, realizar nossos autoprojetos, não os do Pai. Além disso, mais cedo ou mais tarde essa nossa luta longe de Deus acabaria nos fazendo sentir exaustão e impotência, pois ainda que quiséssemos não conseguiríamos resolver todos os problemas do mundo.

E precisamos ir sempre além, rompendo com o senso comum (Hb 12:1-3), transformando nossa mente para realmente viver o que Deus espera de nós (Rm 12:1,2).

A pergunta que não quer calar: há algo que lhe impede de viver o cristianismo na prática?

Se sim, pense em como ultrapassar esse impedimento. Sente e defina um plano de ação. Planejando nos desenvolvemos muito mais do que apenas caminhando a ‘Deus dará’.

¹ A doutrina cristã tem interpretado ao longo dos séculos que a Mulher Adúltera e Maria Madalena são a mesma pessoa. [voltar]

Rafael Santtos

Sobre Rafael Santtos

Rafael Santos, Belo Horizonte, 18 de abril de 1984, cristão desde 2012, sonhador, aventureiro, sanguíneo, exortador. E deseja dividir um pouco do que pensa através do Outras Fronteiras.

10 comentários sobre “Rompendo com a superficialidade

  1. Acho que é uma importante reflexão para se fazer… Eu, pessoalmente, tenho tido a experiência de viver o cristianismo na prática em vários aspectos… Mas vira e mexe eu me pego com preocupações ordinárias. É bom lembrar que Tiiago (Tg 2:14-26) afirma a importância da vivência prática. Na verdade, a própria fé exige a ação. A fé sem ação é morta porque é incoerente.

  2. muito legal rafa… essa é uma questão mtu importante q precisa ser mais discutida, exatamente por falar da prática e não de teorias q não levam a lugar nenhum, é mtu dificil msm viver o cristianismo e mtu mais fácil falar dele, o problema é q as vezes falamos de um Deus q mal estamos conhecendo… vendemos uma vida de abundância q não é a nossa…
    adoro esse blog…
    bju

  3. Gente, que bom que não é só eu que acho que falamos de mais e fazemos de menos! É realmente uma dificuldade pra mim! Vi alguns amigos se mobilizando para fazer trabalho com doentes em hospitais, quis me envolver, mas, para variar, não tenho tempo para isso (tempo tenho, só não dedico a isto)!
    Muito bom o comentário de vocês, enriquece o post!

  4. Muito bom mesmo, bem legal o texto.. as idéias… Adorei a foto! hahaha! No início fiquei, o que isso tem a ver e tals? Aí eu li direito o título e achei mara! Hahahaha! Muito bom, devemos mesmo praticar e não só ouvir a palavra de Deus. Nem tenho mais o que comentar também, gostei muito! E cheio de passagem, mó enriquece o post, hihi =)

  5. Muito legal a reflexão. Acho que até sou pragmático demais, fazendo com que eu desvalorize várias questões que poderiam ser melhor valorizadas…

    Mas penso que há uma incoerência no final do seu post… não seria a pergunta final uma mera teorização? Isto é, o que adianta eu apenas pensar no que tem sido um obstáculo para mim colocar em prática, se não agir sobre esse obstáculo? Para ficar mais em conformidade com o texto, eu acrescentaria:

    “Se sim, pense em como ultrapassar esse impedimento. Sente e defina um plano de ação. Planejando nos desenvolvemos muito mais do que apenas caminhando a ‘Deus dará’.”

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