Quem são meus amigos

Segunda-feira, 07 de março de 2011, 4:37, madrugada. Recebi a árdua tarefa de publicar algo na quarta-feira de cinzas, após o feriado nacional de carnaval, a festa da carne. Não sabia ao certo o que escrever, visto a dificuldade de tratar deste tema de maneira produtiva e sem ofender os colegas leitores. Pensando nos momentos que vivi, quis escrever sobre o que me edificou esta noite e que lhe fez valer todo o feriado que, em um primeiro momento, seria profano. Vou falar sobre meu conceito de profundidade na amizade.

Sou conhecido no meio em que vivo pela quantidade e qualidade das minhas amizades. A grande verdade é que nem todos os que andam comigo são meus amigos e tenho percebido cada vez mais isto. Amigo, segundo sempre pensei, são as pessoas com as quais me sinto à vontade para curtir uma boa noite e, principalmente, para quem posso ligar em uma difícil noite da minha vida. Refletindo um pouco mais, descobri que minhas amizades vão um pouco além e que meu amigo é aquela pessoa que partilha da minha vida e quer compartilhar a sua comigo. Não só isto. Acabo de avaliar que meu amigo de verdade não é aquele que simplesmente me conta da sua nova decisão, mas que quer saber minha opinião (e de outros amigos, claro) a respeito dela previamente. Meu amigo é aquela pessoa que não se importa de me dizer a verdade sem o medo de que eu me afaste dela. Muito mais, é quem quer me dizer a verdade sobre ela sem exigir que eu faça um sorriso amarelo e finja que o aprovo em tudo. Meu amigo não me evita a todo custo em relação a algo sobre o qual sabe claramente que penso que lhe faz mal. Meu amigo é a pessoa que me interpela e que se sente feliz quando exprimo minha verdadeira opinião a respeito daquilo que ela compartilha comigo.

Em toda amizade sincera há a divergência de ideias e o confrontamento advindo disso. Pode ser que a outra pessoa simplesmente va fazer algo diferente daquilo que o amigo pensa por não acreditar nas ideias idênticas á do outro. Nem precisa concordar com tudo, isto seria no mínimo estranho.

Foi assim na bíblia com aquele que foi conhecido como o amigo de Deus. Ele interpelou a Deus quando pensou que este estava agindo contra o combinado entre eles. Deus, por sua vez, o interpelou quando o patriarca duvidou da sua promessa. É nítido ver o quanto eram verdadeiros amigos e a liberdade que tinham de discordar e deixar claro suas convicções. Claro que Deus estava certo e demonstrou que sua discordância tinha maior respaldo do que a do desconfiado Abraão.

É triste ver muito perto de mim um corporativismo crescente em que uns passam as mãos na cabeça dos outros e compram brigas de maneira cega. Os fatos não são mais questionados, mas sim do lado de qual amigo você está. Evito problemas sendo superficial, afinal, quando questiono meu amigo sobre algo em sua vida automaticamente abro uma enorme brecha para que ele me fale algo sobre mim. Por medo de me expor, vivo fingindo que não vejo o que vai mal com o outro. Cumplicidade pura e simples nunca foi e jamais será sinônimo de amizade.

Penso a respeito disso pelos papos que tive neste carnaval e o quanto fiz questão de os ter tido. tanto nas vezes em que pude “desabafar”, quanto nas oportunidades em que minhas convicções foram solicitadas. Não acredito que deva ser amigo de todo mundo e que todos queiram me ouvir e falar comigo sobre as minhas e suas coisas íntimas. Ao mesmo tempo, é bom saber que não sou convidado a apenas balançar cabeça para cima e para baixo cada vez que a palavra é dirigida a mim. Dedico este post aos amigos que partilharam deste precioso e prazeroso momento e de suas vidas comigo.

Rafael Santtos

Sobre Rafael Santtos

Rafael Santos, Belo Horizonte, 18 de abril de 1984, cristão desde 2012, sonhador, aventureiro, sanguíneo, exortador. E deseja dividir um pouco do que pensa através do Outras Fronteiras.

6 comentários sobre “Quem são meus amigos

  1. 😀
    Gostei demais do post, amigo.
    Eu quero poder viver a divergência sem criar partidos e a amizade sem corporativismo.
    Muito obrigada pela sua amizade.

  2. Pensei em várias coisas pra escrever, mas vou ficar com essa: Sinto sua falta, de verdade. Era isso que tinhamos. Sem tirar nem por.

  3. Um tópico interessante meu caro amigo Toalha. Ja o ouvi falando bastante sobre isso, porém eu discordo de algumas coisas. Acho um erro algo como a amizade ser mensurada, definida, explicitada…

    A amizade, para mim, deve ser é vivida, e sem algumas doses de corporativismo e cumplicidade tende a se tornar mais um relacionamento no meio de entre tantos que temos por ai.

    Parando para analisar o que difere os meus melhores amigos, que considero irmãos mesmo, dos outros amigos de longa data e que mesmo assim não sao meus irmaos, percebi que a maior diferença foi a existencia de cumplicidade e corporativismo nessas amizades em algumas fases da nossa vida.

    Aquela velha frase de que “amigo que é amigo chega de voadora” (heheh) ,apesar de ser um pouco radical, jamais deve ser desprezada. Tenho um profundo carinho pelos amigos que chegaram de voadora por mim, e sei que eles tambem tem por mim.

    As vezes uma voadora bem dada fica marcada pelo resto da vida, enquanto conselhos e mais conselhos se perdem no meio dos outros.

    Sei que voce vai descordar disso, mas é a minha sincera opinião.

    Abraços do peixolino

  4. O final foi o melhor aohaoihaoiahoa. Ainda bem que sabe que vou discordar. Não confunda fidelidade com corporativismo. Considero ajudar amigos e se posicionar em relação a algumas situações um tanto quanto necessário. No entanto, transformar isso em um grande “banquete dos certos” não edifica ninguém em nada. Os amigos que só bajulam não nos levam a lugar algum, só nos transformam em pessoas mais medíocres. Vem falar que o Michael Jackson tinha algum amigo de verdade pra falar com ele que era absurdo fazer mais uma plástica ou tomar mais um remédio pra dormir…

    Ah, obrigado pelas vezes em que vc deu porrada e não passou a mão na minha cabeça!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *