Prazer de necessidade

Nada melhor do que aquela sensação gostosa de desfrutar de um copo de água quando se está sedento, de uma refeição após prolongado jejum forçado e de tantas outras coisas. O que seria ela? Na verdade não é ela, mas sim ele, o prazer!

Imagino que Deus o tenha nos dado para que nos sintamos bem ao realizar algo que seja fundamental para a manutenção saudável de nossas vidas. Imagine se a atividade sexual não fosse prazerosa. Com certeza a reprodução da espécie estaria prejudicada.

Creio que aquele que não se permite regozijar com o prazer é indiferente às situações por que passa e corre o risco de fazer com que suas atividades corriqueiras se tornem enfadonhas e monótonas. Acredito também que Deus tenha feito do prazer um elemento da felicidade. Não a própria felicidade, mas um componente dela – algo que torna nossa vida mais agradável. O prazer, segundo penso, não tem valor em si mesmo, e se mal usufruído pode ser extremamente perigoso!

O prazer não controlado requer todo o tempo que seja feito um ídolo a quem nos curvamos em adoração. Juntamente com ele, Deus nos deu o livre arbítrio e a liberdade de escolher a quantidade de prazer que buscaremos no nosso dia-a-dia. Como lidar bem com o prazer, afinal?

O filósofo André Comte Sponville, embora ateu declarado, nos fornece uma boa sugestão. Em seu Tratado das Grandes Virtudes, ele apresenta o prazer aliado à virtude que chama de temperança. Para ele, a temperança é desfrutar do prazer com liberdade e moderação.

Liberdade porque o indivíduo não permite ser feito escravo por ele. E aqui lembramos o apóstolo Paulo (1 Coríntios 6:12), que nos diz que tudo lhe era permitido, mas nem tudo lhe convinha. Diz ainda que era livre para desfrutar de todas as coisas, mas que não se deixaria dominar por nenhuma delas.

Quanto à moderação, se não observada, há o perigo da insaciabilidade. Quanto mais temos, mais queremos. Porque o prazer, apesar de bom, não nos fornece a completude experimentada no Espírito. Assim, corremos o risco de entrar no ciclo vicioso de buscar prazer para sentir prazer. E neste ponto faço uma ressalva quanto à confusão com a felicidade – muitas vezes estamos ansiosos por algo que nos aflige e passamos a buscar no prazer uma maneira de lidar com a questão. Como exemplo, seria a serotonina do chocolate para as mulheres em fase de TPM elevada a uma alta potência.

Enfrento, como todo ser humano, muita dificuldade em ser temperante. Sinto muito prazer ao me relacionar, mas se descuido passo tempo de mais com os amigos na Internet, ou andando de um lado para outro com minha turma. Em nome do prazer, estou sujeito a negligenciar várias obrigações para regozijar de “só mais cinco minutos” da minha cama pela manhã. E você, o que tem a me dizer sobre sua relação com o prazer?

Com este post pretendo não encerrar o assunto, mas dar continuidade ao que já escrevi sobre felicidade e que pode ser lido nos links abaixo.

Felicidade versus prazer

O empecilho à felicidade

Água viva

links de referência:

http://estadonoetico.blogspot.com/2008/06/temperana-ontem-e-hoje.html

http://www.pensandoonline.com/2010/11/temperanca.html#comment-form

Rafael Santtos

Sobre Rafael Santtos

Rafael Santos, Belo Horizonte, 18 de abril de 1984, cristão desde 2012, sonhador, aventureiro, sanguíneo, exortador. E deseja dividir um pouco do que pensa através do Outras Fronteiras.

10 comentários sobre “Prazer de necessidade

  1. “Liberdade porque o indivíduo não permite ser feito escravo por ele. E aqui lembramos o apóstolo Paulo (1 Coríntios 6:12), que nos diz que tudo lhe era permitido, mas nem tudo lhe convinha. Diz ainda que era livre para desfrutar de todas as coisas, mas que não se deixaria dominar por nenhuma delas.”

    Muito bom post. Lembrei de um outro… http://www.outrasfronteiras.com.br/blog/sobre-os-vicios/

  2. A estrada é estreita e com abismos tanto de um lado, quanto de outro…

    O abismo da direita talvez seja o “Ascetismo”… Nada de prazer!!!

    O abismo da esquerda seria o “Hedonismo”… Prazer como filosofia de vida!!!

    Que Deus possa nos ajudar a andar na estrada do “Cristianismo”, onde o prazer acontece na presença Dele e, dessa forma, faz todo o sentido…
    Afinal, o nosso Deus nunca foi e nunca será um “estraga-prazeres”…

    Gostei do post, Rafa…

    Abração!

  3. Profundas as suas reflexões! Mas acho que a distinção que a sabedoria popular sempre fez entre prazer e alívio pode nos ajudar muito neste campo. Muito do que hoje chamamos de prazer não passa de alívio. Aliás, o verdadeiro prazer tem estado longe dos nossos atuais hábitos e costumes, que negam a dimensão da energia na matéria. Tenho um pequeno texto sobre essa questão no link do site da ong que presido.

    http://seremsi.org.br/arAtuac.php?img=areAtuacMasp&tipo=Masp&nome=Filosofia Popular 1#5

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